Instantes

Sempre acreditei no locutor de voz grave que dizia: “Cada minuto é um milagre que não se repete.” Ou não seria esta foto o registro de um desses instantes raros de prazer, envolvimento e sintonia, da planta do pés à do chá?

(Martine Franck, fotógrafa inspiradíssima, paixão de Cartier-Bresson, e o amigo Richard Kalvar, outro mago das lentes.)

Sonhos

Eles são independentes e poderosos, agem a seu bel-prazer, sem pedir licença. Nascem das profundezas da mente, realizam suas performances e se extinguem. Nada podemos contra os sonhos, a não ser vivê-los passivamente e sofrermos suas consequências.

Um abraço apertado, longo, delicioso. Nossos olhares, nossas palavras, mãos dadas. Um lugar impossível aquele, mas, para aos sonhos, tudo é possível.

Roberto Pellegrino

Segue o garimpo

Neuvième extrait de son album, Mademoizelle Fizz, chanteuse de Jazz de Québec/Canada, chante ‘Tu sais je vais t’aimer’,  écrit et composé par Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim et Georges Moustaki (version française).

J’ai bien aimé. Et vous, mes enfants?

Psico

— Vou buscar um copo de água para o senhor beber. O senhor parece estar muito abalado.

De fato, estava. Não é todo dia que se mata a própria mulher. Com ele, era a primeira vez.

— Que aconteceu com o senhor?

Tinha-a deixado estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

— Quer dizer que o senhor tinha ou tem um punhal…

Era singular, nunca tivera punhal nenhum. Como é que o punhal fora aparecer na sua mão?

— Pelo que o senhor me diz, é casado, porque me disse que cravou o punhal em sua própria mulher. A menos que não seja a mulher com quem o senhor se casou, mas uma amante.

Ele admitiu que não era casado, mas viúvo. Quanto a amante, não, não tinha amante nenhuma.

— Se o senhor é viúvo e não tem amante, como é que cravou um punhal em sua própria mulher? O senhor terá de concordar comigo que se tratava da mulher de outro, ou de ninguém.

Havia entrado no consultório daquele psiquiatra para lhe pedir ajuda e desabafar.

— Foi na sua casa, ou em outra casa, que o senhor cravou o punhal na mulher?

Não tinha casa, naquela cidade, onde desembarcara de um ônibus. Depois de perambular por algum tempo, pegara a lista telefônica numa padaria, consultara-a, achara o nome e o endereço do psiquiatra e viera ali. E, na sua casa, na cidade onde residia, não havia mulher nenhuma.

— Isto significa que foi em outra casa. O senhor se lembra de quem é a casa?

Não se lembrava. Só podia dizer que era uma casa com três janelas, uma porta, um jardim na frente, uma grade de ferro e um portão.

— E como é que o senhor conseguiu entrar em tal casa? Tinha a chave, ou bateu na porta?

O que podia dizer é que se achara na sala, dentro da casa, a mulher estava ali, e ele com o punhal na mão.

— E por que o senhor apunhalou a mulher?

Não sabia por quê.

Depois deste diálogo, e de uma conversa que se prolongou ainda mais uns quarenta minutos, ele já estava calmoO psiquiatra disse-lhe:

— Ao que tudo indica, o senhor teve uma alucinação, ou sonhou. Não apunhalou ninguém. Ainda sob este estado alucinatório, embarcou num ônibus, desembarcou aqui e veio procurar-me. Na verdade, o senhor parece-me um homem bom e inofensivo. Recomendo, porém, que em sua própria cidade consulte um psiquiatra e faça um tratamento, se essas alucinações persistirem. Tome um desses comprimidos caso tenha dificuldade para dormir nos próximos dias, mas não abuse. Vá tranquilo.

Ele agradeceu, foi embora e, mais tarde, pegou outro ônibus de volta para a sua cidade.

O psiquiatra, ao final do dia, fechou o consultório e foi para casa. A casa, numa rua quieta, tinha em frente três janelas, uma porta, um jardim cercado por uma grade e um portão.

Ele abriu o portão, caminhou pelo jardim, abriu a porta e entrou.

Na sala, estava sua mulher, estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

Antonio Carlos Augusto Gama

Finalmente!

Surge a música, a melodia se impõe, emoções se transformam em turbilhão. “Nunca mais”, as palavras ressoam na mente, não sei o que fazer delas. Afasto-as, é inútil, retornam, tenho de aceitá-las. Distancio-me da música, não a ouço mais, volta a calma. Finalmente!

Roberto Pellegrino