Ilusões

Quem lhes denuncia virtudes na ilusão não é sábio nem poeta. Apenas o que amanheceu confuso e talvez reclame compreensão e piedade. Arranhei, sim, o tornozelo numa plantinha de espinhos contundentes, conhecida como “sensitiva”, a qual maldizem possuir virtudes alucinógenas, similares às de outra espécie, priminha dela, famosa por suas folhas psicodélico-infratoras.

Para ajudar ainda menos, Guimarães Rosa pelas encruzilhadas sinápticas do bestunto a recitar que “a vida não é entendível”. O resultado, cá eu, do meu canto, a despertar manhãs sem utopias. Daquelas em que o homem arrosta sua pequenez diante desse espasmo de onipresença a que chamamos “nós mesmos”, frágeis interrogadores das inconsistências do estar no mundo.

Meu alterego e guru, onipresente, pondera nossa finitude – dele e minha – e proclama provas irrefutáveis de que nesta vida tudo é ilusão. Difícil discordar, pelo menos no tocante à maior parte das coisas. Diria que tudo o que a vida nos oferece, nessa embalagem para presente que é o viver, seriam, sim, meras ilusões. Garranchos num quadro negro que o apagador da morte absorverá sob forma de pó.

Duro o enigma de estar no mundo por esta centelha a que chamamos vida, com seu sentido nebuloso e desfecho aterrador.

Pisamos um universo que se expande, os astros ganhando distância entre si qual manada de bodes que pondera o desembesto da volta, na hecatombe definitiva em que tudo se reverterá ao nihil.

Passageiros da ilusão do ser, seguimos irremediavelmente atrelados às galáxias no caminho do nãoser, quando nada escapará ao pó e ao espaço. Nem o granito, nem o diamante, nem os cometas com suas órbitas setuagenárias, nem os mais longínquos rochedos que os aprisionam.

Temos, todos, encontro marcado em novo estrondo epilogal que antecederá a quietude definitiva. Não soará um lamento pelo Everest ou pelo David de Michelangelo!

Há prudência, pois, no cativar ilusões. Elas nos servem à alma como o fígado ao corpo. Salvam-nos, a cada instante, atenuando as toxinas da realidade trágica de que nascemos protagonistas.

A quem me responde o espelho? Apalpo-me e não me acho. Constato-me e não me creio. Descaindo do azul, lá fora, um sol ingenuamente equívoco e sua luz provisória. Luz última a também nãoser quando todos os sóis se apagarem.

Zé do Carmo

 

10 thoughts on “Ilusões

  1. Zé..hoje cedinho li sua crônica. .que posso dizer senão tomar-lhe por empréstimo as palavras e o sentimento? Empréstimo sine die, Zé …eu vivo me perguntando o porquê desse sopro..e a resposta é uma só. .larga mão de pergunta besta muié! Aí eu largo mão e vou vivendo até o dia em que não mais honrarei a palavra dada por impossibilidade absoluta o que me deixará muito contrariada…rs..beijo Zé. .adorei essa sua crônica. .

  2. Grande Zé.
    Peço licença para reler seu texto, já li duas vezes. Mas na ânsia de uma resposta me antecipo a terceira leitura. Guimarães diz:”A vida não é entendível”. Concordo, mas tenho a minha leitura, Não sei o que motivou o nosso poeta/prosador “a escrever o que escreveu”. Na vida que vivemos “convivemos” com várias leituras dentro de nós: Nos entendemos ,novas descobertas surgem e por ai vai. .Aí, vejo a graça do viver. Conviver com a ilusão, chamo de sonho e gosto de sonhar. não, não sei!!. vamos caminhando e levando picadas de plantas sensitivas e ou aplausos insensitivos. Esse contraditório me motiva a estar levando picadas, aplausos e vaias. Essa confusão que desarruma, arruma.
    Quando me olho no espelho e não me vejo: mudo a posição do espelho e a minha.
    Vou reler seu texto, que amei e vou ler um texto do livro do leonardo Boff “saber cuidar”, pela milésima vez..
    Zé, a vida é linda mesmo não sendo entendível mas não podemos deleta-la…somos frutos de um ato de amor e temos de valorizar esse momento, com ilusões, sonhos, certezas, mentiras, alegrias,………,
    Sartre que me desculpe: A essência e a existência são primas irmãs.
    Você é craque (mesmo com esse joelho)…e não me iludo, pelo contrário, te curto.

  3. Quando a gente se depara c/ tantas perplexidades, aí é que entra a arte, seja: de escrever, compor, pintar…………. Olha só que crônica bonita as indagações/ constatações do José geraram!!!!!!!!!! Aliás, não lembro quem disse que a arte existe porque a vida não basta……..
    Vou assinar o comentário do Paulinho Carioca e quando o meu sol se apagar, arranjo outro em esfera outra. E começa tudo de novo.

  4. A consciência de nosssa finitude não pode anular a “virtude das ilusões”, ainda que tente diuturnamente. Elas são atenuantes “das toxinas da realidade”, como afirma no final de seu belo texto o Josédo Carmo. O mais é mistério mesmo.

  5. Selma, eu também gostei muito do texto do José do Carmo.
    Bom final de semana.
    Beijoca.

  6. Ouro em pó das Minas Gerais extraído do veio e das veias profusas de um garimpeiro mago de palavras.
    Poema em prosa, na boa e melhor prosa mineira.
    Que maravilha, Zé do Carmo!

    Talvez a vida seja mesmo apenas um relâmpago na escuridão do ilusório céu.
    Mas enquanto o nosso breve brilho dura, façamos como cantou aquele outro poeta mineiro:

    “O presente é tão grande, não nos afastemos.
    Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

    Abraço agradecido.

  7. Zé, quando surgem sombras no meu discurso de primavera, penduro-me nas asas dos poetas, esses ‘albatrozes desajeitados e magníficos’, como quis Baudelaire, e alço voo. A cada sol ‘equívoco’, eles me alumiam candeias e me tecem novas manhãs.

    Crônica magnífica.

    Beijoca!

  8. Devo agradecer e agradeço a todos, presentes e futuros, a leitura e os comentários. Faço-o hoje, porque amanhã vou “dar um pulinho” (ali, ó!) no ES.
    Pertim, sô: quatro horas de estrada, mais um tiro de espingarda e dois cabos de machado…

    Sobre a crônica acima, vocês elogiaram, eu, delicadamente, agradeço. Faz parte da convivência civilizada.
    Mas, mas, mas, esse “Zé” é um chato (usuário contumaz de galocha).
    Se não está satisfeito com a vida, pede pra apear do planeta, ora bolas!
    Fica aí com essas frescuras, dizendo que não entende o “quem somos”, “pra onde vamos”… Canário belga também não sabe ao que veio e canta o dia inteiro, o mês inteiro, a vida inteira. Vá cantar e dançar na chuva, cara! Jósti singuingue in the rain…
    Fora com esta de que tudo é ilusão! Conversa mole.
    Dizem que foi o cara que mais se divertiu, que mais namorou no mundo. Coisa que ele mais gostava de fazer. Gozou a vida como um nababo. Quaaaase um irresponsável!
    -Aquilo foi ilusão? Foi nada.
    Pregunta pra ele se Dinah foi ilusão! Marly? Tininha? Nancy? Cat`rina… que tinha até nome de furacão? Ilusão… Vai nessa. Quem é bobo que te compre.
    O sujeito amanhece sem assunto, quer impressionar – impressionas a quem, Cara Pálida? – e vem com essa teoria pessimista de que tudo é ilusão, o tudo leva ao nada, que o universo está em expansão, mas que após atingir o ponto crítico, fará seu sinistro caminho de volta, ao ponto inaugural do big bang, para nova e descomunal desintegração…
    -Ainda que tudo vire pó, não será uma ilusão: será o pó. Pó é real. Ilusão? Né nada.
    -Só porque não sobrará ente ou entidade para ver, ouvir e contar a história?
    -Quer dizer que, pra ele, a diferença entre o real e o ilusório está na existência de pelo menos um espectador?
    Zé, sua tese é furada, não se sustenta. Se você está selecionando escritos para um novo livrinho, larga de mão desse, ô meu. Nem tenta retocar, melhorar, porque cê sabe que aquele troço quanto mais mexe…
    Toma tenência, sujeito.

  9. Zé vim cá ler os comentários porque adoro ler os comentários. ..e me deparei com essa maravilha q vc escreveu…vc vai pro ES e eu to aqui de vizinha do Carlinhos..rs..justo eu que detesto cachoeiras..hehe…boa viagem meu amigo que Deus lhe acompanhe…

  10. Vixe, Zé do Carmo, li 2 vezes sua crônica e preciso relê-la, tal a profundidade do(s) tema(s) abordados. Filosófico, metafísico, e por aí vai. Gostei muito do texto e dos comentários pertinentes.

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