Oportunas mineirices

( Rogério Reis para a “Veja” , 1983)

 

ESPLENDOR E DECLÍNIO DA RAPADURA

Os meninos cariocas e paulistas
de alta prosopopeia
nunca tinham comido rapadura.
Provam com repugnância
o naco oferecido pelo mineiro.
Pedem mais.
Mais.
Ao acabar, há um pequeno tumulto.

Daí por diante todos encomendam
rapadura.
Fazem-se negócios em torno de rapadura.
Há furtos de rapadura.
Conflitos por causa de rapadura.
Até que o garoto de Botafogo parte um dente
da cristalina coleção que Deus lhe deu
e a rapadura é proscrita
como abominável invenção de mineiros.

DISCURSOS

Chegam os padres de Paris.
São festejados com discursos.
Fazem anos os padres importantes.
Envolve-os o aroma de discursos.
Convalescem os padres de sombrias
pneumonias duplas.
Em discursos a alta se proclama.

Que fizeram de imenso?
Chegaram,
aniversariaram,
enfermaram,
escaparam.

A oratória celebra estes prodígios
em tropos sublimes. Como falam
bonito meus colegas.
Que anástrofes, metáforas, perífrases,
que Cíceros, Demóstenes e Ruis.
Na aula de Português eles nem tanto.
Mas é soltar o verbo, e jorram
estrelas em forma de vocábulos
para saudar nossos amados guias.
O espírito da eloquência
baixa de não sei onde e lhes inspira
rasgos terreais de Mont’Alverne.
É pena: ainda não vi
ninguém fazer um discursinho mesmo chocho
ao Irmão Falcão, enaltecendo
a grata, oportuna cervejinha
por ele fabricada.

8 pensou em “Oportunas mineirices

  1. Ah, meu gauche
    Que gastura que me dá
    Essa tal de rapadura
    Já a santa cervejinha
    Merece todas as loas
    Desce alegrinha, na boa.

    E viva Irmão Falcão!

  2. A foto, antológica, é que a serviu de modelo para a confecção da estátua do poeta sentado no banco lá em Copacabana. Impressionante e vívida semelhança!

    Os versos de Carlos, como de hábito (e de batina) são um primor, mas os da Selminha acima são acompanhantes perfeitos.

    Aliás, pode parecer estranho, mas experimentem pedacinhos de rapadura com cerveja. A doçura de uma e o amargor de outra ganham toques especialíssimos e se harmonizam surpreendentemente (cuidado, porém, com os dentes…). Aprendi isso com o pai do meu amigo Brenno, que também se chamava Brenno, Dr. Brenno, um expert no assunto. Saudade dele!

  3. Que delícia… Drummond é ímpar. “Discursinho meio chocho” é ótimo!

    O título do primeiro poema me lembrou os desfiles de Clovis Bornay no carnaval. Ele nomeava as fantasias de forma tão pomposa e quilométrica que com certeza algum dia ele desfilou de “Esplendor e Declínio da Rapadura”…rsrs…

  4. Gama, o título do post seria ‘Rapadura com cerveja’ – parece nome de baião – , mas me soou tão inviável… Troquei. (além do que hoje é dia de mineirices)
    Qual não foi minha surpresa ao ler seu comentário! Se eu gostasse de rapadura, de doces em geral, experimentaria. Não pode ser com chocolate? Brigadeiro, vá lá.
    Beijocas!

    Tilde, faz-me rir. Estou até vendo o Clóvis com aquela linguinha presa dele dizendo o nome da fantasia… Grande figura.
    Beijocas!

  5. Selma, essa estátua de mármore está presente em Copacabana e é um lugar pra tirar fotos.
    “No meio do caminho tinha uma pedra…”
    Gostei dessa novidade de misturar rapadura com cerveja, o doce com o amargo contrastando entre si. Qualquer dia eu vou experimentar.
    Beijoca

  6. Gostosos poemas.
    Já rapadura com cerveja… tende a levar-me ao cabide, em busca do meu boné.
    Comer rapadura com cerveja vai ser “andaço” na certa.
    Meu pai tinha um engenho de cana e fazia rapaduras. Também a pucha-pucha e o açúcar preto (a que chamam mascavo). Eu adorava rapadura!
    Ali pelos 14, 15 e 16 anos, comi tanta rapadura que começou a me brotar furúnculos. Inclusive alguns, enormes, que me deixaram algumas cicatrizes no bum-bum… Por conta delas, aliás, um médico gozador me perguntou, certa vez, a razão de eu ter levado tantos “tiros da polícia”…
    Expliquei que não se tratava de bala pelas costas, mas sim de furunculose dos meus tempos de roça, de tanto comer rapadura.
    Ele disse que “discordava do diagnóstico do colega” dele que me havia dito que rapadura causava furúnculo…
    Fiquei na minha. Quem me disse isto não usava jaleco. Foi Tio Candim, um benzedor lá das minhas grotas.
    E Tio Candim estava certo. Foi eu parar de comer rapadura e os furúnculos desapareceram.

  7. Zé…rapadura causa furúnculo, sim!!!! Tive milhares e para todos os gostos de tanto comer rapadura…rs…e há séculos não como. Agora tudo é proibido…

    Lindos poemas, Selminha, muy lindos.

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