Veneno de cada dia

Li, ontem, um artigo sobre a toxidade de certos alimentos. Lembrou-me o caso dos navios de soja vendidos à China, há alguns anos, e devolvidos.

Bastou que uma pequena quantidade de grãos contaminados por agrotóxicos, misturados a toneladas contidas num navio, fossem detectados pela vigilância chinesa para que os barcos tivessem que voltar ao Brasil com suas cargas infectas.

O episódio nos deu a prova do quanto nós, brasileiros, somos diariamente envenenados às refeições. Não é de hoje que os megaprodutores de alimentos sabem que nos envenenam. Os pequenos produtores, também, mas a estes concedo a atenuante da ignorância com que o fazem.

Ou será que os produtos que nós ingerimos passam por fiscalização igual à chinesa? Claro que não. A gente engole o que esses irresponsáveis mandam para nossa mesa. Fubá de milho contaminado; óleo, leite, bifes etc., de soja contaminada; farinha de trigo contaminada por raticidas e pelos de ratos (exames do Instituto Adolfo Lutz sempre acusaram); morangos contaminados (a Globo mostrou que produtores de morango do sul do Brasil não arriscam comer o que colhem); batatas inglesas, campeãs dos defensivos sistêmicos, mandados pela raiz ao interior do produto para que as pragas o rejeitem; tomates superenvenenados (quanto mais bonitos mais temíveis); melancias nas quais turistas estrangeiros, avisados, nem tocam (um produtor de melancia, em Ceres, Goiás, me disse que a pulverização do agrotóxico é semanal, mas, se chover, passa e incidir no dia seguinte a cada chuva).

E a carne? Meu Deus! Nos velhos tempos já deu até marchinha de carnaval: “Comeu carne de boi, falou fino” … O Brasil não controla o hormônio atochado no gado de abate. Criadores, claro, gostam de lucro. Se podem tocar hormônio na orelha do boi pra ele dobrar de peso na metade do tempo, não contam até dois. O resultado? Bom, não provo a relação causa e efeito entre comer carne e falar fino. Só sei que é notável o naipe de sopranos no país, e que o Brasil é campeoníssimo em canto lírico nas cidades sopraninas de San Francisco, Amsterdam e Milão.

E nem adianta fugir da carne vermelha. A carne branca, do frango, também tem hormônio. Muito! E aqui entre nós: hormônio de galinha.

Zé do Carmo

15 pensou em “Veneno de cada dia

  1. Bem ponderado, José do Carmo. E ninguém por nós.
    Aliás, são tantos os venenos dessa vida… No momento me intoxica um Congresso execrável falando grosso, crescendo para cima do Judiciário. É inacreditável o nível de cretinice a que chegamos.

  2. Cacilda, Zé, estamos condenados! Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!

    O velho Machado dizia que não se morre de alface, morre-se de porco.
    Mas as alfaces também estão cheias de agrotóxicos, e as couves (mineiras), os tomates (grande vilão inflacionário), e as maçãs (que já nos roubou o Paraíso), e as peras, os pêssegos, as goiabas, as jabuticabas…

    Tenho uma daquelas máquinas de café que usam cápsulas, e ainda ontem recebi de um amigo um informe alarmante de que as tais cápsulas de alumínio, submetidas a alta pressão e temperatura, produziriam uma substância tóxica altamente cancerígena!

    Pô, assim não dá!

  3. Cantemos com Caymmi, meus amigos: “Não tem solução”…
    O que esperar de um país onde imperam desmandos e falcatruas de toda sorte?

  4. Selma, a vida está mesmo cheia de venenos, principalmente desses políticos corruptos que permanecem nos gabinetes e deveriam solucionar os percalços sérios e definitivos do país. Assim como mestre Tom Gama, também prefiro me limitar a rapadura e cerveja…
    Beijoca.

  5. Meus bons amigos, muito agradecido pela acolhida leitora. Mas devo tranquilizá-los. A toxidez dos alimentos é uma realidade. Mas, porém, todavia, contudo, entretanto, senão, temos que conviver com o problema.
    A monocultura, aqui entendida como o plantio de uma só espécie em grandes áreas, gera um “desequilíbrio ecológico”. Ou seja, favorece a proliferação dos predadores… Lagartas, percevejos, gafanhotos, fungos e centenas de outros seres tinhosos. Contra eles, só o agrotóxico resolve. Mesmo assim, até que alguma resistência orgânica ao veneno seja desenvolvida pela praga. Quando ocorre, muda-se para outro “defensivo”. É usar o inseticida, o pesticida, ou não colher nadinha.
    O mesmo ocorre com frangos aos milhares, bois aos milhares, porcos aos milhares, perus aos milhares… Tome química na bicharada porque o mundo precisa de alimento. E lembremos que são milhões de irmãos nossos, pelo mundo, que ainda não incorporaram “o hábito” de “uma refeição” por dia…
    – “De maneiras que é conforme o seguinte”, já dizia, lá na roça, o meu amigo Neneco Passarim.
    É lavar bem o que puder ser lavado e “comer mais pouco” quando a sujeira for muita.
    E vida que segue com “Deus adiente e páiz na guia”.

  6. Se ainda se puder comer pão e água, já é uma opção para não morrer envenenado
    O problema é que cansa.e a água já não é mais a mesma e o pão cheio de bromato de potássio. Estamos mal Socooooooorro..
    Abraçãooooooo
    Jotajo

  7. Tudo por culpa do aleijume das percepções, pois se:

    Para enxergar, ouvir, perceber: com o tato, com o paladar e com o olfato, bastam os sentidos, para compreendermos: o que enxergamos, o que ouvimos, o que tocamos, o que comemos e o que cheiramos é necessário muito mais… Pois saibam esses “opróbrios eões” que:

    Se com a visão
    Não vêem a névoa pestilenta
    No caminho que trilham;

    Se com a audição
    Não ouvem o farfalhar das notas
    Que poluem suas éticas;

    Se com o tato não sentem
    As mãos “sujas”, com as quais,
    Selam seus atos de imoralidade;

    Se com o paladar
    Saciam-se nos banquetes abastados
    Sem lembrarem dos famintos;

    Se com o olfato não sentem
    O mofo nauseabundo do dinheiro
    Que financia seus “delírios de poder”;

    Se o aleijume de suas percepções
    Não permite que honrem
    Aqueles de boa fé
    Que acreditam em suas mentiras,

    Oh! Míseros covardes
    È porque sobrevivem, somente,
    Dessas reles e infames deformações!…

    Delmar Fontoura.

  8. Quando clama (e declama) o Delmar… impõe-se a reflexão.

    Poeta, ó Poeta, por onde andas? Em que estrela te escondes?

    Beijocas!

  9. Amiga Selma!

    Mas o que é a palavra senão reflexão? Por isso é que afirmo que não sou poeta, só recolho pensamentos, que o tempo ao passar deixou.
    Me encontrava e me encontro bem abaixo das estrelas e de um nimbo muito feio e escuro, que pairou sobre mim por um tempo, mas a brisa e as tardes de outono o dissipam lentamente… …No texto abaixo, que se encontra no O Portal, dou uma pequena ideia do que ocorreu!

    Estou Voltando

    O Contraponto de Minha Existência.
    De muitas outras, desse novo tempo e espaço, escrevo apenas as primeiras linhas ainda no leito de um hospital, com as cárdias forradas pelo acúmulo de sentimentos vãos, que não ecoaram enfartados em si mesmos.

    Em minha concepção de vida e morte eu morri… …Morri uma morte, que, inexorável, transcende ou o pouco ou o muito de minha espiritualidade… …para minha compreensão de naturealista ela sempre está ao meu lado… …como contraponto de vida. Enfim morri mais um pouco… …em meu tempo e espaço.

    Foi a natureza, determinante desse surrealismo, que, onipotente, punhal entre os dentes, sangrou-me esse pouco, até essa morte!

    Apesar de meu naturealismo, confesso que, como contraditório sonhador, fui vencido! Submeto-me, então, a realidade do mais forte… …Enganei-me ao pensar que poderia ludibriar a natureza, que, sorrate, me quebrou como à casca de um “ovo de Colibri que cai do ninho”…

    Mas a vida que me sobrou está em primeiro lugar… …não vou mais permitir que “espinhos” me machuquem tanto. Doravante cuidarei, somente, das flores do meu jardim… …dentre elas, das rosas, perceberei, somente, a exuberância de seus perfumes e formas…

    Delmar Fontoura

    Beijos!

  10. Zé, tô atrasada, mas, vim…rs…

    Quando eu lavo tomate, folhas e tudo o mais com sabão aqui em casa e ainda uso vinagre etc e depois enxaguo mil vezes, meu marido diz que sou maluca…rs…vai ver e ele tem razão, senão vejamos tudo: arroz, feijão, eventuais enlatados, banana…tudo, tudinho tem “substâncias estranhas”. E não tem essa de alimento “natural e sem conservantes”. Alguma coisa tem. O errado, Zé, é nóis. A gente devia ser programada para suportar tudo o que ingerimos sem que nos causasse mal. E depois dizem que nóis é uma máquina prefeita…rs…

    Beijão, Zé!

  11. ÀS ROSAS, POIS!

    Delmar, você me iluminou ainda mais este sábado de quase maio… Que depoimento, meu amigo.

    Beijocas!

  12. Amigo Zé.
    Confesso que essas coisas de agrotóxicos e seus familiares não me emocionam.Ficaria “louco são” se fosse seguir o que os naturalistas pregam. Como de tudo, bebo de tudo, e fumo,,esse não de tudo…e sei que um dia vou morrer.
    Lembro a campanha contra o ovo, hoje para muitos salvador da pátria e no meu caso, nunca o abandonei por uma única razão: Sem ovo, não sou ninguém. Acordo bebo minha linhaça com um suco embalado, enquanto isso o ovo esta esquentando e coloco um dente de alho amassado . E vamos nós.
    Zé , minha esperança seria que se sumindo com os fertilizantes e agrotóxicos inibisse a procriação, assim a população seria menor e os orgânicos seriam suficientes. Com a população do tamanho que existe se não colocarmos adubos e defensivos, meu amigo, a fome iria matar nos.
    Fui na feira de orgânicos aqui perto.Com o preço de um quilo de cenoura pequeninha, faço minha feira toda (alface, tomate, repolho,etc.
    Recebi ontem um email com a foto de duas senhoras, da mesma idade. Uma se alimenta organicamente e outra que deixa rolar. Zé é triste ver a orgânica..
    Tenho aqui em casa uma cachaça orgânica….envelheceu
    mas nada disso inibe a sua preocupação e o seu texto cuidadoso e sua preocupação com os exageros.principalmente, das multinacionais dos alimentos, para esses não existe limite, intoxicam tudo..
    O jiló que adoro,e assusto alguns, que não querem nem ver O preço disparou. Saiu um nota no Globo (diário oficial) que o jiló virou moda. Zé o preço triplicou…e com muito agrotóxico …uma das leguminosas que recebe mais defensivos……dizem até para não dar mais para passarinhos….

  13. Adicionalmente, obrigado Jotajo, obrigado Sophie, obrigado Delmar, obrigado Selma. Agradecimentos e uma constatação: esta minha tão pouco cuidada crônica, de ontem, não merecia – de jeito nenhum – o comentário do poeta, do “Senhor Poeta”, Delmar.
    Para usar uma palavra nova da publicidade, é o “upgrade” do Bloghetto: um articulista de currutela ganhando presente a que não fez jus…
    – Peguei!

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