As bananas do Magela

Filho de ruralistas, meu amigo Magela esteve perto de realizar um sonho. Deixar a vida de serventuário da justiça carioca, comprar um sítio e cuidar de uma plantação de bananas, na Serra do Mar.

Necas de levantar todas as manhãs, pegar ônibus, enfrentar engarrafamento e costurar processos. Às favas com advogados reclamando do andamento dos feitos, da lerdeza na expedição de ofícios, delongas na conclusão dos autos ao juiz…  Ora, ora – pensou – são mais de doze milhões de habitantes, no Rio, ávidos de encontrar bananas, madurinhas, nas feiras e nas mercearias. O negócio é plantar banana.

O sitiozinho recentemente recebido por herança do sogro vinha a calhar. Magela leu e absorveu que bananeiral plantado com técnica é altamente produtivo e rentável, já a partir do segundo ano. Aprendeu também que a Serra do Mar, onde entrou a ser feliz proprietário do “Sítio Madre Ceres”, possui clima apropriadíssimo ao cultivo de bananas.

Portanto, adeus prateleiras empoeiradas, dossiês mal enjambrados soltando as folhas e as capas, adeus papelada, adeus carimbos, adeus tramitações melífluas! Vou nessa! Ar puro, paisagem, canto de pássaros, arrulho de cachoeira e trabalho compensador nas faldas serranas.

Demitiu-se em favor do sonho. Só que a realidade escapou um pouco aos cálculos do Magela. Faltou programar adequadamente a “colocação” do produto.  Quando veio a primeira produção de bananas nosso novel agricultor alugou um caminhão, encheu-o até onde pôde, e desceu a serra na direção do Rio de Janeiro. Parou no Mercado São Sebastião onde pensava vender toda a carga de uma só vez… Deu zebra!

– Não negociamos de improviso, amigo, temos nossos fornecedores – disseram-lhe.

– Ih, por esta eu não esperava. Terei que vender estas bananas, direto, nos supermercados – pensou o Magela.

Mas o obstáculo continuou:

– Temos nossos fornecedores, meu senhor. As compras são programadas.

Putz! – lamentou. Vender pequenas quantidades, em quitandas, não dá. Não vai compensar o diesel do caminhão.

Já sei – decidiu. Vou com este caminhão para a Central do Brasil e vendo bananas a granel para o público.

Em frente ao Duque de Caxias subiu na carroceria e começou a apregoar bananas “a preço de banana”. Juntou gente. Foi virando oba-oba! Em poucos minutos encostou a primeira viatura policial de pisca-alerta ligado… A segunda viatura… A terceira…

– Documentos da viatura e a “autorização” para venda de produtos alimentícios diretamente ao público.

– Não tenho autorização alguma – confessou o transgressor.

– Pois então puxe esse caminhão daqui senão o senhor será preso, agora, por comércio ilegal em via pública – bradou a autoridade.

Enfezado, cuspindo fogo, o Magela se desesperou:

– Não posso vender, mas posso dar as bananas! Alô, minha gente! – passou a berrar:

– Bananas de graça! Bananas de graça! Bananas de graça!

E, de cima do caminhão, atirava bananas às pencas na cabeça dos atarantados populares da Central.

Encurtando conversa. O Inquérito Policial por “perturbação da paz pública” deu uma dor de cabeça danada ao agricultor/réu, mas veio a ser arquivado sem maiores consequências. Talvez a Promotoria tenha se sensibilizado com o drama do ex-serventuário.

Zé do Carmo

11 ideias sobre “As bananas do Magela

  1. Quando a vida dá uma banana para nossos planos…
    Magela não merecia isso dela.
    Adorei, Zé!

    Um dia azul para você e Leila!

  2. Zé do Carmo, as agruras do Magela são a cara do Brasil, infelizmente ainda uma República de Bananas.

    Ainda agora a grande safra colhida neste ano está encalhada na “burrocracia” e ineficiência dos nossos portos. Soube que o porto de Santos não funcionava à noite… É mais ou menos como restaurante fechar para o jantar.

    Não, não vou dizer imagina na Copa…

    Abração.

  3. Selma, o que dizer do Magela? Também acho que ele não merecia uma banana da vida.
    Beijoca

  4. Vem cá, Magela morava no Brasil…… Brasil? Essa prontidão toda dos homi da lei tá mais pra Escandinávia……..
    Fiquei com dó, taí. Tão bem intencionado……
    Eu já pensei em abandonar tudo e plantar hortaliça na serra,mas meus planos vieram por enchente abaixo……….. Então deixa eu aqui olhando pra cara desse chefe chato de dar nó nas tripas!!!!!!!!. A síndrome do Magela me apavorou……..
    Zé do Carmo, adorei a escritura.

  5. Antonio Carlos disse tudo. A logística tupiniquim é de boquiabrir…
    Boa sorte ao Magela na próxima empreitada.
    Crônica excelente!

  6. Pior, como diz o Gama, pouco mudou. Nos idos de 60 trabalhei como estagiário no INDA, reforma agrária. Me lembro de uma colonia agrícola, o responsável plantou tomate, com o nosso dinheiro. Resultado, apodreceu no pé. Esqueceu de providenciar estrada para escoar sua produção.
    Zé, quando começou a falar do Magela, Senti a maior saudade. Tive, em Itabira, um grande amigo, Magela, era advogado.Por onde andará o meu Magela?
    Seu Magela, como tantos outros são nossos heróis….

  7. Esse Zé…nunca sei o que é fato ou ficção, embora a ficção seja um fato, um fato fictício, ou seja, uma modalidade de fato…rs…

    Igual que o Magela, resolvi plantar bananas por conta própria faz tempo. Mas, aí, o povo corre atrás de mim e eu me deixo pegar…rs…mas, vez em quando eu fujo…rs…

    Adorei, Zé, un beso!

  8. Zé do Carmo, belíssima crônica, retrato fiel de um brasileiro padecendo toda sorte de obstáculos para fazer valer seu espírito empreendedor. Quiçá o Magela não desista do sonho de “plantar bananeiras” e obtenha sucesso…

  9. Obrigado pela leitura, gente querida.
    Pode parecer coincidência demais, mas eu conheci “dois Magelas” plantadores de bananas com histórias bem parecidas. Do jeito que aí está, com polícia e tudo, realmente aconteceu no Rio de Janeiro.
    Em minha família, porém, um outro “Magela” também entrou pelo cano com bananeiras que plantou em seu sítio no município de Ibirité, colado a Belo Horizonte. A diferença é que este não colocou as bananas no caminhão. Simplesmente não encontrando mercado para sua enorme produção, deixou-a apodrecer nos pés. Felizmente, tinha emprego e não dependia daquilo.
    O “Magela” do Rio, não, ficou muito mal no lance…
    Portanto, por mais que o “homo” esteja em moda, defiro a meus amigos abraços e beijos heterodoxalmente distribuídos.

    -Paulinho, falam muito dos Ribamares do Maranhão, dos Severinos do Nordeste, dos Jerônimos e Gerônimos de Goiás, mas quase não falam dos Geraldo Magelas de Minas Gerais. São muitos. Não posso dizer por onde anda seu amigo, Magela, de Itabira. Arrisco dizer, entretanto, que ele mora próximo a algum xará, seu vizinho.
    -Assim não vale, Sophie, eles levam, de graça, suas bananas!
    -Literalmente, Selminha. A vida deu uma banana para os planos do moço.
    -Vi na TV, A. Carlos, é um absurdo o que os caminhoneiros passam nas filas dos nossos portos. Dá raiva só de ver.
    -Da vez seguinte ele deve ter planejado melhor, não acha André.
    -Leva pepino de presente para o chefe, ô Fe. Ele deve merecer.
    -Brigadim, Berê.
    -Ele desistiu, Harumi. Partiu para uma loja de produtos agrícolas em sua cidade natal, no Sul de Minas.
    Soube que deu certo.
    Eu tinha rezado pra ele…

  10. Como é complicado ganhar algum, nem que seja vendendo bananas……. e tem tanto político pilhando fortunas e nada lhe acontece,!!!!!!!
    Infelizmente isto é o Brasil em que para uns tudo é difícil e parta os do PeiTo tudo é PermiTido…….
    Abraçãooooooo
    Jotajo

  11. De graça nada, Zé…rs…minhas bananas são pesadas conforme valem e elas são de ouro, então……hehe…e haja banana viu? rs…

    Beijo, boa semana, querido amigo.

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