Minha cura

Com o seu sinistro olhar o feiticeiro mede-o.

– Olha, Roque, você me vai dar um remédio.

Eu quero me curar do mal que me atormenta.

– Tenho ramos de arruda, urtigas, água benta,

uma infusão que cura a espinhela e a maleita,

figas para evitar tudo que é coisa feita…

(Menotti Del Picchia – Juca Mulato)

 

Aos vinte e três anos, já residindo no Rio de Janeiro, apareceu-me uma ziquizira dos diabos na cabeça. Mais exatamente no cabelo, a preciosa matéria-prima engomada do meu topete elvispresleyano! Apavorado, procurei médico e o diagnóstico declinado foi uma “possível psoríase”. Conceito hermético que só fez aumentar meu desespero.

Tratando-se de uma doença autoimune – lecionou-me o esculápio – vá usando este sabonete antisséptico até melhor avaliação.

Meus cabelos se soltavam aos tufos. Marineide, nossa cozinheira na pensão da Glória, prolatou sentença terrível: – Ele tá com pelada! Doença horrorosa. Faz a cabeça ficar desértica e repulsiva como os costados de um cão sarnento.

Credo em cruz! Fiquei triste com a Marineide, mesmo sendo a danada capaz de fritar batata doce como só Da. Lira, minha avozinha querida, costumava fazer.

Dona Ruth, a octogenária dona da casa, aconselhou-me um homeopata famoso, Dr. Molica, com consultório em Copacabana. Procurei saber: consultas a partir das sete da manhã, ordem de chegada. Fui lá. “Senhas” esgotadas!

–Isto não é assim não, explicou-me a secretária. Antes das seis já tem gente na fila pra pegar vaga. Volte amanhã.

Voltei. Cinco da madrugada. Consultório lá em cima, mas a fila se formava na portaria do prédio, esticando-se pela calçada do Cinema Metro, na Av. Copacabana. Andou às sete, com a chegada do médico.

Mas valeu. Às nove eu já era um paciente esperançoso aviando a latinidade da minha receita na farmácia homeopática da Rua São José, no Centro. Já saí dali com cinco vidrinhos contendo bolinhas de açúcar encantado. Ou bento, se preferem.

Tomava as bolotinhas com neurótica pontualidade. O cabelo, entretanto, continuava a descer-me pelos ombros. Angustiado, apelei para outro dermatologista. A receita foi nova marca de sabonete antisséptico.

Pintou feriadão, me mandei para Minas. Na fazenda, Neneco Passarim, o carreiro de boi, aconselhou-me procurar o Preto Velho, Horácio, mandingueiro entendido em ervas e benzedor emérito. Corri nele.

O velho assuntou sem emoção minhas brechas cimeiras, pigarreou arrastado e declarou:

– É cobreiro! Vamo benzê isso. Vá pra trás daquela porta, ali –  apontou-me a porta que dava, da sala onde estávamos, para o quarto dele. Perfilei-me lá como uma vassoura.

– Agora vou fazê a reza – declarou. Quando eu pruguntá, “O quê que eu te benzo”, cê responde: “Cobreiro”.  Entendeu?

– Entendi, Horácio.

Dito isto ele se ajoelhou com uma das pernas, apoiou os cotovelos na outra e passou a orar guturalmente:

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

–  Cobreiro – eu respondi.

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

– Cobreiro – respondi novamente.

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

– Cobreiro – segui replicando.

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

– Cobreiro….. Cobreiro…..Cobreiro….. Cobreiro….

Não sei quantas vezes pronunciei a palavra Cobreiro. Foram muitas. Tantas que, dias depois, meu cabelo parou de cair. E não caiu mais. A não ser modicamente, anos afora, como convinha a meu legado genético.

Sei lá o que me curou. A homeopatia do Dr. Molica? Os sabonetes dos alopatas? Ou foi a benzeção do Horácio?

Consta que uma fase de grande estresse pode explicar a queda súbita de cabelos. De fato, ali pelos vinte e poucos anos eu sonhava ser dono do mundo. Só depois, com as topadas da vida,  “os sonhos, um por um, céleres,” voaram.

Zé do Carmo

10 ideias sobre “Minha cura

  1. Ora, José do Carmo, claro que foi o Horácio, aquele do “trago seus cabelos de volta em 3 dias.” Boas risadas com o som da benzeção..rsrs…
    Pela foto, caíram poucos fios, o escriba está bem na fita.
    Quanto às topadas e aos sonhos… bora mudar o rumo da prosa?
    Crônica excelente, José!

  2. hahahahahahaha….”lecionou-me o esculápio”….Zé, AMO as suas crônicas!

    Cobreiro mineiro é diferente de cobreiro goiano. Lá, minha avó benzia perguntando assim trezentas mil vezes: “que corte?” E a gente respondia trezentas mil vezes: “cobreiro brabo”! hahahaha…

    Tu tava era estressado mesmo, Zé, que pelada que nada. Isso dá é em gato…rs….e quando a gente se estressa demais, tudo cai: cai o rei de paus, cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai não fica nada…rs…

    Um abração, Zé. ADOREI a sua crônica! Só um reparo: se os sonhos voarem, nóis tem a obrigação de avuá junto com eles. Não importa se nóis tem 9 ou 90 anos. Nóis num pode é disgarrá deles. Si não nóis vai vivê de quê?

    E tamos conversado! rs…

  3. José, onde o Horácio dá plantão, meu filho?

    Queria ele me perguntando:

    – Bzzzreessss… O quê que te falta?

    – Dinheiro…dinheiro…dinheiro…

    Será q/ meus caraminguás paravam de sumir que nem s/ topete de “Elvis não morreu”?

    ADOREI! SENSACIONAL!

  4. José do Carmo, posso apostar no Dr. Molica? Também estive nele, era competentíssimo!
    “Orar guturalmente” quase me matou de rir…rs…
    Delícia de causo verídico!

  5. Não conheci o Dr. Molica, que a Elizabeth testifica, mas boto fé na benzeção gutural do Preto Velho Horácio.

    Quando minhas duas primeiras filhas eram pequeninas, ainda vivia uma velhinha benzedeira conhecida nossa. De vez em quando levávamos elas para benzer, tirar “quebranto”, e as meninas ficavam ótimas.
    Eu, então, que sempre tive dificuldade de dormir, dormia como um justo por semanas…

    Fe Alvarez, “cobreiro” rima com “dinheiro”.
    Se o Horácio ainda der plantão, tô nessa!

    Uma delícia, como sempre, José do Carmo.
    O Horácio deve ter te benzido também para, além dos cabelos, nunca perder o jeito de escrever tão bem assim.

  6. Zé, também conheci Dr. Molica. A mãe tinha asma desde novinha e queria se ver livre da cortisona (tão eficaz quanto destruidora). Pergunte quem a acompanhava, de madrugada (saíamos de Niterói, certo?), atrás da bendita senha…
    Mas ele era feríssima! Longevo, inteiraço… Um dia a mãe perguntou qual era o segredo e ele disse que se alimentava, quase que exclusivamente, do mais poderoso e completo dos alimentos: a banana.
    Se ela ficou boa? Demorou, mas ficou. As crises ficaram brandas, mais espaçadas, até sumirem. Homeopatia é paciência.

    Agora vamos ao que interessa: a ‘benzeção gutural’ do misifio também foi auxílio luxuoso… E nóis é besta di duvidá?

    Querido, seu cabelo está 10 assim pro côté de chez Swann. Uma quedinha ou outra em nada abalou a beleza do filho de Dona Pequetita.

    Beijocas!

  7. Belíssima e divertidíssima crônica deste seu “causo”, Zé do Carmo. Amei!

  8. Esse bloghetto tem coisas que até Deus duvida. Toda fez que se falava da careca do meu pai, se justificava: “Cobreiro!!! coisa da revolução paulista de 32”. Dr. Molica era figurinha fácil na minha casa.Benzedeira sugeri , hoje, á um amigo, antes de começar a sua bela palestra no Instituto Geográfico Nacional (O canalha do Padre Amaro à luz da filosofia Aristotélica) foi o que recomendei para acalmar sua ansiedade.Homeopatia do Dr. Molica era a salvação de d.Dalva,minha mãe,também para se livrar da cortisona, asmática das bravas. Para mim não deu resultado. melhorei com banho frio e basket.
    Zé, seu texto é rico demais, sua simplicidade nos deixa feliz. Me faz bem.

  9. Agradeço, Berenice, a leitura e a boa nota para meu cabelo atual. De fato, não fiquei “sequelado”, não. O telhado rarefeito foi obra posterior, do tempo, mesmo. Do episódio relatado minha cabeleira saiu íntegra.

    Obrigado, Sophie. De fato não é mole manter de pé todos os reis do baralho, minha amiga. A benzeção – eu entendo de benzação, tá: foi Ti Candim que me ensinou – a benzeção, repito, só funciona bem em doenças específicas, como ocorre nos chamados Sete Males da Humanidade, que são: Vento Virado, Espinhela Caída, Nó nas Tripa, Gastura, Quebranto, Mau Oiádo e Dor na Encavadura do Rabo. Já dei essa dica pra Selminha e ela adorou.

    O Horácio morreu, Fe. Infelizmente. Na região da Água Espaiada, lugar onde ele morava e trabalhava queimando tijolos numa olaria, os que o conheceram só se referem a ele com precedência do “saudoso”… “saudoso Horácio”. Detalhe: morreu nas imediações da miséria. Acho que ele não iria arrumar dinheiro procê, não.

    Um abraço, Elisabeth. Se você e Selma conheceram o Dr. Molica, são a prova de que eu não prego mentira. Só conto causo “sucidido”… Grato.

    Antonio Carlos, ó bom amigo. Gostei de ver que você também “quirdita” em reza braba. Benzeção, de fato, cura o Quebranto e o Difruço. Ra-ra-ra… É muito bom rir, não é, amigo. Abraço agradecido pelo elogio.

    Fe Alvarez, dinheiro, não. Os santos que, lá em cima, atendiam rezas com solicitação de dinheiro estão, todos, respondendo por corrupção canônica. Obrigado, sim.

    Ih, Selma! Então você era aquela menininha de tranças, “Maria Chiquinha”, que eu vi na fila, e a senhora que estava com ela disse: – Toma bença do Tio, minha filha? Só pode ser… rsrss
    Comigo ele não falou de bananas. Nem precisava. Sou maluco por bananas. Com uma particularidade: adoro banana maçã. É, para mim, muito mais saborosa que a prata. Gosto demais, também, da banana ouro. Mas esta, danadinha, me dá dor de cabeça. Sempre me foi assim.
    Quanto ao meu cabelo, ele fica lá em cima onde a atmosfera é meio rarefeita, por isto ele também veio ficando, através dos tempos. O que nada tem a ver com a história, onde, aliás, ele entrou como Pilatos figurou no Credo.
    Obrigado, editora zelosa e querida! Obrigado pelo 10. É seguir à procura do tempo perdido.

    Agradecido, Harumi. Que bom que você curtiu meu causo.

    Paulinho, minha Vovó Lira, minha adorável avozinha, hoje acumulando o Ministério da Bondade e da Claridade lá no céu, dizia que homeopatia era tiro e queda para “athsmma” (não era assim que se escrevia Asma antes de 1945?) e bronquite. Eu disse pra Selma que alguns dos nossos leitores deveriam “acusar” conhecimento do bom Dr. Molica. Não deu outra.
    E a Farmácia Homeopática da Rua São José, 70? Difícil algum carioca não conhecer, né.
    É uma alegria receber elogios de um mestre. Um abraço bom. Abraço amigo.

  10. Zé, eu já disse aqui que pouco rio. E é verdade. Eu somente rio em silêncio, aqui, quando escrevo. Difícil alguém arrancar de mim um riso. Mas, tu é capaz de arrancar de mim um riso, ainda que não muito sonoro.

    Simplesmente ADOREI o seu comentário-agradecimento, que trouxe-me um riso timidamente sonoro neste sábado um tantinho frio e já bastante seco.

    Sem você não vivo, Zé. Beijo. Gracias por me fazer rir.

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