Tempo

Não sei se ando administrando bem o meu tempo. Hoje mesmo por pouco esta crônica não sai da toca. Pressionado por um punhado de urgências cheguei a procurar assunto rápido no noticiário, mas a ênfase na violência e na crise econômica mundial me dissuadiu das atualidades. Vamos inventar tempo de pensar noutras coisas.

Minha vida é de correria. Faltando-me hora pra tudo. São histórias e mais histórias que improviso para escapar a eventos sociais, para não aderir a projetos alheios… Mesmo sob o constrangimento da desculpa esfarrapada no lugar da verdade verdadeira que poderia pegar mal.

Natural a pessoa que gentilmente nos convida para alguma coisa, que para ela é importante, achar um tremendo pouco caso trocarmos sua conspícua companhia, ou proposta, por “algo tão frívolo”… Só que, para nós, não é frívolo, ora bolas! Quando alguém opta por dar as costas a badalações já o faz no pressuposto de que seu tempo de boiar nas espirais do cigarro será sagrado. Quem quiser que vá amanhã receber e homenagear Sua Excelência, que vá ao bingo beneficente, à debutância da filha do Aristeu, ao jogo de pôquer no caxixó da Lívia. Tem dó! Já fui semana passada.

Cada um resolva a seu modo o enigma do tempo. Até porque ninguém sabe direito o que é tempo. Cientistas levados a defini-lo saíram pela tangente com brincadeiras. Einstein disse que o tempo é “uma ilusão”. Para ele, “a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão”. John Wheeler, outro notável físico americano, foi ainda mais pilhérico: disse que tempo é “o jeito que a natureza encontrou para não deixar que tudo acontecesse de uma vez só”.

Podem conferir no Google. Dois gênios da humanidade não entenderam o mecanismo da própria decrepitude. Ora, a prova de que o tempo existe é que só não o vemos passar quando estamos ocupados ou distraídos. Tão distraídos que não percebemos as erosões da decrepitude.

Social e popularmente diz-se que “tempo se inventa” e que tudo se resume a saber programá-lo. O problema é impor socialmente nossa programação. Principalmente nas cidades menores, as pessoas se conhecem, são amigas, simpáticas, e querem sempre distinguir seus semelhantes com uma demonstração de carinho e apreço. Impossível não tratá-las com compreensão. Pero hay que endurecerse para que o controle da pauta continue em nossas mãos.

Consta que nos últimos 100 anos a vida média do ser humano dobrou. Contribuíram para isto a medicina, a alimentação mais adequada, a química farmacológica, os hábitos de higiene, o conforto. Paralelamente, novas técnicas e novas tecnologias, vieram otimizar o uso que fazemos do tempo − meios de comunicação dispensando presença pessoal; meios de locomoção mais rápidos etc. − e nem assim passou a sobrar tempo.

Ao contrário, a demanda de afazeres na sociedade moderna insiste em nos passar a impressão de que o tempo anda cada vez mais curto. Não apenas impressão. Anda curto, sim. Principalmente aquele tempo sagrado, para nós mesmos e para a família.

Zé do Carmo

Publicado originalmente no Blog da Maria Helena, em novembro de 2010

15 pensou em “Tempo

  1. Zé, eu não sei do qual gosto mais, se sus crônicas, seus comentários ou se de tu solamente…rs…

    Igual agora que tô aqui na maior correria em razão de viagem, fico pensando: melhor viver assim, eternamente na correria, do que na eternidade sem fazer nada…hehehe…

    Dica: sem a menor criatividade, sempre digo que “oh que pena…justo nesse dia a gente tem um compromisso!”

    A sorte, Zé, é que no meu “rol de amigos” há apenas um casal..rs…mas, não pense que vivo na solitária. Eu tenho um milhão de amigos, mas, não frequento eles nem eles me frequenta…hehehe…

    E agora fui que o tempo urge implacável. Eu AMO os seus textos, un beso!

  2. José do Carmo, nenhum de nós está administrando bem o tempo. Tudo foi agilizado em nossas vidas para que ele sobrasse e no entanto…
    Uma coisa é certa: não negocio meu tempo com ninguém, ou seja, não faço nem vou aonde não quero. Endireci faz tempo.
    Você, como sempre, dá um passeio por todo tipo de texto. Beleza!

  3. Já desisti de guerrear com o tempo. Ele vence sempre, José do Carmo. Vamos nos levando mutuamente. Estou certa ou errada/

  4. Essa crônica do Zé que já aplaudi e me coloquei dentro. Essa coisa de tempo é complicado e o Zé da um charme especial..
    Mas estou zangado. Zé, seu grilo está a falar: escreva da falta de tempo e você no seu sub responde não tenho tempo, me falta tempo…e com isso vai empurrando o joelho prá frente…Vamos a campanha “OPERA ZÈ” Zé nada justifica a dor física, A do coração, às vezes, até agradecemos..ou sofremos sem dor. ou com dor. Agora entrar na “ERA DO CON(DOR)”
    Com seu joelho novo seu tempo vai dobrar…

  5. Zé, percebeu que Paulinho cunhou o slogan dos sonhos dos ortopedistas? “Com seu joelho novo, seu tempo vai dobrar.” Grande Paulinho…
    Falando sério, livre-se disso… Já pensou o Bloghetto inteiro indo visitar você? (se Leila autorizar, claro)

    Indomável, esse tal de tempo. A gente só corre, meu Jesusinho… E ainda chegamos atrasados na ‘debutância da filha do Aristeu’.

    Beijocas, mestre.

  6. Selma, acho que todos nós devemos saber como administrar nosso tempo, eu inclusive. Na maioria das vezes, a gente faz as coisas tão correndo, apressadamente, e poucas sobra pra fazê-las com calma, sem preocupação com as horas. Mas onde quer que eu esteja, tenho o dom de fazê-lo precioso.
    Ótima crônica.
    Beijoca!

  7. Zé do Carmo, essa é uma crônica atemporal, que nos delicia a qualquer tempo, todo o tempo.

    Essa ilusão do tempo, seu transcurso, passado, presente, futuro, o continuum, o eterno retorno, é uma das minhas obsessões, sem solução (o que não deixa de ser uma).

    “O tempo é um ladrão gentil
    como os velhos batedores de carteira,
    com seus dedos de veludo
    nos despoja pouco a pouco de tudo.”

    Melhor então ficar com a sabedoria de mestre Caymmi e nos dar o direito de dizer aos compromissos que nos são impostos:

    “Uma chuvinha, redinha
    Cotinha
    Aí, piorou!
    Nem tô!
    Nem vou!
    Nem tô!
    Nem vou!”

  8. Voltei pra entrar na campanha do Paulinho, “OPERA, ZÉ!”, cujo slogan (genial, Paulinho!) nossa publicitária Selminha Olivetto sacou logo: “Com seu joelho novo, seu tempo vai dobrar”.

    E aqui não vale dizer “não tô, não vou”.

    Abração.

  9. “OPERA, ZÉ!”

    Selminha Olivetto
    (Boa, Antonio! Meu sistema ficou nervoso de tanta emoção…)

    Beijocas, meninos!

  10. Zé, a falta de tempo só me permitiu chegar agora, 23:00, diante do computador, iniciando a abertura com o site da Selminha. E sei que hoje não terei tempo de abrir mais nada, excetuando este nosso blog e o da Maria Helena, antes de cair na cama. Só para lhe dizer que gosto muito de seus textos e o de hoje, como disse o Gama, é atemporal. Maravilha!

  11. Por obra do feriadão, tivemos, ontem, um “evento” em meu (e de meus irmãos) sítio: comemoração de três aniversários. Claro, faltou tempo para passar aqui no Bloghetto. Ficamos (patroa e eu) por lá mesmo, pois há um posto de Polícia Rodoviária entre o sítio e a cidade, sendo arriscado passar por ali com hálito prejudicado.
    Não poderia deixar de agradecer, a cada um, a leitura paciente e o comentário condescendente.
    Gratíssimo! Gosto doceis, tá.

  12. Meu querido Zé
    Se eu chamar minha mulher de” patroa”…nem sei o que vai acontecer comigo…rsrsrsr ou melhor, até sei,, operar o joelho de novo…
    Você é o cara!!!!!!!!!!!….

  13. Paulinho, tente apresentá-la a estranhos dizendo:
    – Esta é a “minha senhora”…
    (Mas se ela estiver com uma bolsa na mão, proteja o nariz…)
    rsrsrs

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