A lição do Neves

Para ser sincero, nunca me convenci por inteiro da ingenuidade do Neves. Costumam vir nubladas as diferenças entre pessoas apenas simples e aquelas menos dotadas, simplórias, portadoras de efetivo déficit intelectual. Não raro tomamos uns pelos outros. Vai ver foi este o nosso equívoco com Neves. Os amigos o tomavam por idiota. Ou quase.

Claro que concorria para isto seu estilo “passadão” e uma certa impetuosidade existencial. Entre usar um pouco a cabeça e buscar conclusões, Neves tinha o hábito das perguntas precipitadas, o que fazia dele um cara meio maçante no diálogo. Se afrontado na tolice, ria amarelo como que dando recibo da própria patetice.

Aparentava, também, preocupação moderada com o desconfiômetro.  Convidado para festas em família – afinal era um cara boa praça e simpático – ignora-se se, algum dia, ao ir embora pôde despedir-se de algum outro convidado. Nunca. Último contumaz a sair, só lhe sobrava o casal anfitrião para as despedidas. Ainda assim, somente após os primeiros bocejos da dona da casa e de algumas sugestivas consultas ao relógio. Aparentava, sim, o acriançado de autocrítica precária.

Bom era evitar indiretas do tipo: – Fique com a gente hoje, bebemos um pouco além da conta e o sono está apertando!… Ah, nem pensar. O risco de o convite ser aceito era grande. Melhor ser direto: – Neves, você veio de carro? Se não veio vamos chamar-lhe um táxi porque o sono está batendo e a hora é boa…

Aí não tinha problema. Jogo limpo não o ofendia. Sinal claro, aliás, de patetice benigna.

Convenhamos que uma pessoa assim, já transitando pelos trinta anos, haveria de ser tida como “fora dos padrões”, ou um abobalhado mesmo. Outro não era o conceito do Neves.

Só que, um dia, pintou assombro geral. Correu notícia de que o Neves havia ingressado no Itamaraty, por concurso, e muitíssimo bem classificado! Assumiria um Consulado na Europa, o que nunca foi coisa pouca no início da carreira diplomática.

Foi quando, pela primeira vez, providencialmente despido de preconceitos, procurei-o para conhecer particularidade do feito e cumprimentá-lo. Constatei então, envergonhado, que as “deficiências” do nosso amigo não seriam apenas dele. Teriam muito a ver com o tabu depreciativo em algum momento a ele pespegado, como se a sociedade humana lhe negasse o direito de ser um pouco diferente.

Foi preciso dar-lhe atenção não usual para descobrir nele o sábio que sempre terá sido – um tanto baratinado, talvez, por carregar mais perguntas que respostas.

Com discrição cursara o preparatório para a carreira diplomática, em três anos de esforço solitário. Tornara-se fluente no inglês, no francês e, ultimamente, recebia aulas de alemão e grego. Nosso “bobo” vivia imerso em ciência política, história, literatura e poesia. E não cantava vitória.

É a tal coisa: atrás de uma aparência singela e despojada, pode estar no mundo um precioso talento ou, no mínimo, uma pessoa muito interessante.

Zé do Carmo

8 thoughts on “A lição do Neves

  1. José, um dos melhores momentos nas relações humanas é quando o outro nos surpreende positivamente e apaga o que havíamos concebido erroneamente sobre ele. Tão bom uma nova leitura do outro. Ganho em mão dupla.

  2. “Atrás de uma aparência singela e despojada, pode estar no mundo um precioso talento ou, no mínimo, uma pessoa muito interessante.”
    Tá resumida a questão, Zé do Carmo……. Quem aí já parou p/ ouvir o vendedor de flores do bairro, o dono da banca de jornais…… A gente não tem vontade de ir embora, experimentem.
    Abrace o Neves p/ mim, Zé!!!!!!!

  3. Zé do Carmo, às vezes ficamos tão impressionados com algumas atitudes sobre certas pessoas, que nos comovem e chegamos a esquecer aquela idéia errada que havíamos concebido sobre aquela pessoa, tendo assim uma visão mais ampla.
    Grande abraço.

  4. Grande Neves!
    Estava em outra sintonia e parecia que misturava estação.
    Trabalhava em silêncio, como os mineiros sóem fazer.
    Se não era mineiro de nascença, era por merecimento.

    Teria ido como diplomata para a Terrinha?
    Os adorados e adoráveis portugas às vezes nos parecem assim, como o Neves.
    Um deles, convidado aqui no Brasil para uma festa de aniversário de 15 anos, agradeceu comovido e eufórico: “Mas é claro que vou. Aviso, porém, que lamentavelmente só poderei permanecer 6 meses na comemoração natalícia da rapariga, pois regresso em seguida para Lisboa…”

    Grande Zé do Carmo!

  5. António, e o nórdico Svenson ao ser indagado se a loja dele fechava no sábado?
    — Não fecha porque não abre, ó pá!

    E vamos parando de gracinha com os portuguinhas? Baby Barcellos será um deles. Hehe.

    Zé, bom quando nos surpreendemos positivamente. Pior é a decepção…

    Neves já atende por Mr. Snow. Um senhor embaixador.

  6. Os que não sabem a hora de ir embora……….. dose pra leão. Dos males o menor, Neves era gente boa.
    Tá valendo, Zé do Carmo!!!!
    Abs.

  7. Maravilha Zé!!1 Como existem Neves por esse mundo a fora. Tenho um monte de exemplos. Amigos que não se dava nada por eles e hoje são craques na vida. Zé, o inverso também existe.Conheço uma família assim. Se consideravam os donos da cocada. E hoje, são pessoas lamentavelmente insignificantes.
    Zé, você sabia que eu sou Neves? minha mãe é Dalva Neves Lima e minha irmã Regina idem.
    Engraçado nunca conheci um Embaixador, cônsul, de verdade.Devem ser pessoas interessantes.
    Dizem que aqui na minha rua morou um e contam que ele casou virgem e quando os amigos perguntaram como tinha sido a noite de nupcias, respondeu: the sensation is very good, but the movimentation is very ridicle….o inglés é como ele falava….literalmente.Dizem…..

  8. Tem razão, Clara. Para mim sempre foi um sentimento de grande felicidade a constatação de que um velho companheiro de mocidade surpreendeu, positivamente. Mesmo sem surpreender, a vitória de um colega dos “bons tempos” é vitória que a gente compartilha. É muito bom.

    Alguma coisa a nos dizer, todo mundo tem, não é Fe. É só saber ouvir. Pessoas da roça, então, verdadeira maravilha conversar com elas. É cada lição de vida! Sabedoria tem muito pouco a ver com educação formal. Nunca me iludi com isto, Fe.

    Há um anúncio rolando na TV no qual o Gilberto Gil diz: “Ser diferente é normal…” Os publicitários entendem da vida. Gosto muito da frase, André.

    Grande Antonio Carlos! Muito obrigado, amigo. Um tio meu, A. Carlos – também filósofo amador – me disse, certa vez, que “devemos respeitar quem marcha com o passo trocado. Ele pode estar ouvindo UM OUTRO tambor…”
    Só não te conto o que o “Neves” aprontou em aniversário comemorado em minha casa porque poderá levar a interpretações capciosas… Como sou doido, vou contar: Minha mulher já tinha jogado a toalha e foi dormir; segurei a barra mais um pouco e, como ele não ia embora, peguei uma cadeira na sala, levei para o quarto e disse:
    -Vem cá, Neves. Senta aí. Estou cansado e vou deitar. Pode continuar o papo.
    Acredite, ele se sentou. Mas, felizmente a “ficha dele caiu” quando viu que eu ia dormir mesmo…
    – Estou indo, Zé.
    – Bata a porta da sala, quando sair, Neves.
    Quando ele bateu, corri lá, passei a tranca e fui escovar os dentes.

    Que bom Selma, netinha portuguesa! Já tem nome?
    Você irá, apenas (eu disse apenas, hem!) empatar comigo. Tenho um casal de netinhos gajos – Mariana, 6 anos e José Eduardo, 4.
    A diferença é que são filhos de uma sobrinha, de Goiás, que veio estudar no Rio, morando em minha casa. Virou “filha”, casou além mar e me deu “netos”…

    O Neves era, e é, uma pessoa e tanto, Cupim. Meu conterrâneo, conheço-o desde a chamada “tenra idade”. Juro que a vitória dele foi minha também. E, apesar de eu falsificar alguns dados para poder contar a história dele sem invasão e alarde de privacidade, gosto dele e “se damos” muito bem.

    Oi, Paulinho. Sim, cara, tem muito “Neves” no mundo. Certamente, você não é um “Neves” com aspas. Você é Neves sem aspas, da estirpe de um Tancredo Neves, meu conterrâneo ilustre, da estirpe do gaúcho João Neves da Fontoura, figura maiúscula da república e imortal da ABL. Deste último, que chefiou o Jurídico do Banco do Brasil, ainda poderemos falar um dia.
    Quem conhece algumas pessoas na carreira diplomática é nossa amiga Maria Helena. Eu, quando jovem, me matriculei num curso preparatório para o Rio Branco, ministrado pelo Deputado e Embaixador Álvaro Vale, numa casa em Botafogo. Mas era muito fraco no inglês, desisti prometendo voltar, peguei outro rumo e não voltei mais. Foi pena. Talvez viesse a dar sorte de ser aprovado e ser colega do Vininha… Se não, na poesia, pelo menos no copo.

    Obrigado a todos, meu amigos queridos.

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