Gaivotas

Baía de Guanabara, sol de janeiro, reflexos de níquel arremetidos do azul.

Da minha sala de vidro, Esplanada do Castelo, trigésimo quarto andar: a entrada da baía, navios, o Pão de Açúcar, velas, Icaraí, vãos da ponte e, na perna do vento, aviões em manobra de pouso.

Logo ali, rentes à minha janela, gaivotas festivas rodopiam nas correntes ascendentes.

São muitas em revoada, mas, milagrosamente, não se tocam – há segredos recônditos nas rotas passaredas.

Uma delas parece interessar-se por mim. Não é a primeira vez que passa roçando minha vidraça.

Trocamos olhares – juro que trocamos. Gostaria de falar-lhe e sinto que ela talvez busque saber coisas em mim.

– Que perguntas me propõem dois olhinhos voadores?

Observo a revoada em bando, perscruto a lógica de sua coreografia. Nada definível onde reina divindade e poesia. Trajetórias de astros sob as leis da criação, desocupadas de trigonometria e esquadros.

As exatidões do mundo postaram-se, todas, do lado de cá desta parede de cristal, porque isto aqui é um Banco num arranha-céu de vidro e eu sou um bancário. Um Banco empanzinado de números ásperos sobre a superfície célica do mar da Guanabara.

Êxtase de um guarda-livros d’antanho, de máquina calculadora aos dedos e gaivotas nas retinas.

 Gaivota

**

Voa gaivota branca

Pra lá de mim, prisioneiro

Desta vida, dos costumes

Da rotina e do dinheiro.

*

Me leva pra ir contigo

Por teus caminhos de vento

Retomar a encruzilhada

Onde eu errei minha estrada.

*

Leva este artista, menina

Companheira e bailarina

Atrás da segunda chance

Tão fora do meu alcance.

*

Portadora das canções

E das notas sobre a pauta

Devolve com tuas asas

A liberdade que me falta.

Zé do Carmo

Publicado originalmente no Blog da Maria Helena, em 22-06-2011 

15 ideias sobre “Gaivotas

  1. Sensíbilidade e lirismo pontuando fases da vida…
    Um belo texto, José.

  2. Que possamos sempre trocar olhares com os pássaros, José do Carmo.
    Crônica e poema lindos!

  3. Aaaaaaai, Zé do Carmo, posso assinar s/ poema? Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós…………. Tb vivo empanturrada de números e obrigação de eficiência……… Um dia saio “avoano”………
    ADOREI vc hoje!!!!! Guardei.
    Bjkts da companheira de gaiola

  4. Zé do Carmo, já imaginou quando um pássaro pousa sobre a nossa janela, ainda mais vendo aquela paisagem lindíssima e arrebatadora do Rio de Janeiro, contemplando isso tudo, não tem preço.
    Grande abraço.

  5. Zé, querido Zé, por que será que gostei tanto de sua crônica? Leveza de voos, liberdade? O Zé memorialista? O poeta? (algo de Pessoa em “êxtase de um guarda-livros d’antanho, de máquina calculadora aos dedos e gaivotas nas retinas”…) A ‘minha’ ponte, a Icaraí da infância?
    Acho que foi a perna do vento e aquela curva mais bonita sobre a baía. Combinados assim.

    Beijocas!

  6. Prosa e versos belíssimos, levando-me a planar sobre essa maravilhosa paisagem do Rio, admirando o voo de sua gaivota, Zé do Carmo.

  7. Zé, meu querido José do Carmo Rodrigues: eu sou APAIXONADA por essas suas gaivotas e faz tempo que as guardei na minha pastinha de preciosidades. Como que pode um trem lindo desses, gente?

    Fé, eu sou um mosquito que vive avuano. Um mosquito que sonha em ser passarinho. Ou, quem sabe, uma gaivota…

    Um beso, Zé. Adorei ter-me com suas gaivotas…embora, vez ou outra, eu tenha-me com elas..rs…

  8. Obrigado, meus amigos. Mas assim não vale: qualquer coisa que a gente faz vocês gostam! Chris, Berenice, Fe, André, Selma, Harumi e Sophie. Assim vocês “estragam” o garoto!
    Selma essa “perna do vento” foi tomada de empréstimo aos aeronautas. Houve um tempo em que andei voando na poente aérea Rio/São Paulo e, quando o piloto era um amigo de vôlei, no Posto 4, Copacabana, ele costumava me chamar para a cabine do “aeroplano”. E vinha me passando dados técnicos.

    Um dos meus aprendizados foi que, quando o avião baixa fazendo aquela grande curva para ganhar a direção da cabeceira da pista de pouso, ELES dizem que a aeronave está “pegando a perna do vento” para descer.
    Achei bonito dizer que o vento tem pernas e guardei o dito para usos futuros.

  9. Ô, Zé, e eu não sei o que é perna do vento para pilotos? Com um dentro de casa, com brevê e tudo… Pássaros em bando também pegam perna de vento. Acho linda a expressão.

    Uma da loira:

    Estávamos na ponte, tardinha quase noite, e escuto ele dizer calmamente:
    — Aaaah, tá baixo demais… Esse tá caindo…
    Olho para o céu, claro, vejo um ponto luminosíssimo, respondo: — Não, tá muuuuuito longe. (disfarça… psiu… era uma estrela)
    Zé, quando baixo os olhos e olho para frente – eu disse frente, Zé – , vejo aqueles superfaróis, e me vem aquele avião em sentido contrário, quase “à altura” do parabrisa. O piloto havia baixado demais sobre a ponte, exatamente no ponto de fazer a curva para pegar a cabeceira da pista.
    Eu berrava como num filme de ficção e só ouvia as gargalhadas… Pode isso, Zé?

  10. prezado Zé.
    nem pensou que eu não iria aparecer por aqui. Não li sua crônica em 2011. Uma lástima.
    Mas ela é muito atual.
    hoje, o desfile das garças , dos socós, das galinha d’água e das lavanderinhas na Lagoa é um momento de paz e de alegria.
    Onde faço minhas meditações. A única que me dá papo são as lavanderinhas. Deve ser por que são pretas e brancas suas penas..

    Uma pena que não sei postar uma foto que fiz de uma garça sozinha pousada entre os socós.
    Nunca sei direito a diferença entre garça e gaivotas.
    o que sei amigo é que gostaria de ter escrito sua poesia. Linda e sou rigoroso com poesias.
    Vou ter a alegria de na reunião,com amigos da terça, no Clube naval, a beira da lagoa, lê-la e voz alta e tem mais representando.

    “Portadora das canções

    E das notas sobre a pauta

    Devolve com tuas asas

    A liberdade que me falta.”

    Quase que falo um palavrão exclamativo.
    Em tempo: Onde anda o Sá, meu guru de aves?…Vai amar seu texto e poesia tenho certeza.

  11. Por oportuno, como diz um amigo querido, faço coro com Paulinho:

    — SáeBenevides do bivô José e da bisa Risoleta, em que passeata te escondes? Sai da rua e vem pro blog!

  12. Obrigado, amigão Paulinho. Sua chancela, para mim, vale um “By appointment to his majesty”.
    Se você recitar minha poesia no Clube Naval eu “rebolo”… (Minha mulher repete isto há anos. Certa vez fomos ver um jogo (importantíssimo!) do Flamengo. Maracanã não cabia nem mais um geraldino. Uma falta fora da área a favor do Flamengo. O jogador “Onça” tomou distância. Maracanã fervilhou. O torcedor flamenguista, na cadeira à nossa frente, jurou: – Se ele colocar na gaveta eu rebolo!…
    Não deu outra: bola foi lá onde a coruja dorme. O Maraca explodiu.
    O cara se equilibrou na quina da cadeira e rebolou como uma vedete!… Leila jamais esqueceu a cena.
    Pois é o que vou fazer se você recitar meu poema lá, viu companheiro.

    Obrigado a você, de novo, Selma. Juro que não sabia que o Luis tinha brevê de gaivota. Juro! Vai ver ele conhece meu amigo Jorge Roberto, que era da Varig, no fim do século passado. (Minhas melhores referências estão no “século passado”… Vexame!)

    Embora eu deteste estar sempre a “dizeire” que “o que aconteceu com você, aconteceu comigo”, um dia ainda conto que o susto experimentado por vocês (do avião sobre a ponte) aconteceu também comigo num retão de estrada goiana, entre as cidades de Mineiros e Jatai… No meu caso, o avião veio de frente, avaliei que não dava pra passar por baixo, joguei meu “veículo automotor” no serrado… Por sorte não tinha árvore ou buraco. (Eram ANOS 70, havia guerrilheiros escondidos na região, e o sacana deve ter baixado tanto o DC-3 para me fotografar…)

    Ixe, comento mais que escrevo. Perdãos…

  13. Desculpe-me o atraso, Zé do Carmo.
    Li as maravilhas de sua crônica e do seu poema logo de manhãzinha, voei com eles e deixei para comentar depois que voltasse ao chão.
    Meu voo demorou mais do que pensava e só retorno agora à base.
    Releio agora, levito e quase saio avoando de novo pela janela…

    O que haverá de melhor do que volitar com textos como os seus?

    Grande abraço, Comandante!

  14. Até tu, Brutus Antonius!
    Contribuis para que me torne um garoto mimado, mas só posso agradecer. Delicadas e levitantes são as gaivotas, ó bom amigo. Eu apenas as vi.
    Vi com estes olhos para os quais a terra há de ser leve.
    Grato!
    Suave abraço.

  15. Selminha e amigos do blog, meu silêncio foi motivado pela dor, viver sem o Zé do Carmo tem sido muito difícil, alguém me disse, que como o homem procura pedras preciosas, assim Deus também procura as suas. Sua missão (para Deus) já estava cumprida, por mim gostaria que ele ainda estivesse aqui. Agradeço as palavras de carinho de todos, um grande abraço Leila.

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