A retreta

Que diabo de língua é esta, em que “retreta” significa “formatura de soldados ao fim do dia para se verificar se todos estão presentes”, “criada de serviço particular da rainha”, “concerto popular de uma banda de música em praça pública” e “latrina”?

Dirão que em todos os idiomas é a mesma coisa, que um vocábulo pode significar muitas coisas, diversas umas das outras, e até contraditórias. E é verdade.

No entanto, os dicionários têm duzentas, trezentas mil palavras. Certo é, porém, que não usamos senão umas seiscentas palavras para nossa comunicação cotidiana, e olhe lá. Há variações, como quando dizemos para uma mulher: “Eu te amo”, “eu te adoro”, “eu te quero”, “sou capaz da matar por você”, conforme o grau da paixão ou da mentira. À minha amada eu vou buscar a Lua, e ponho as estrelas no seu colo.

E ainda há aqueles que inventam palavras, os neologismos, e outros que vão buscar as mais arcaicas palavras, ou usam da gíria, como se usava “o tufo do mufurufo”.

Não bastasse isso, enxertamos palavras e expressões francesas, inglesas, italianas, espanholas, em nossos textos e em nossos diálogos. E nem me refiro ao latim, com os seus conceitos lapidares.

No entanto, no entanto, estamos, de uns setenta anos para cá, diante das gerações sem palavras, em que um cara diz para outro: “Ô bicho, me dá essa coisa aí para fazer uma coisa”.

A perversão da língua e da linguagem, nos canais de televisão, no comércio, na publicidade, é também uma realidade. Ou o estropiamento da pronúncia das palavras e os pontapés na gramática.

Vai ainda que, cada profissão tem o seu vocabulário próprio. Escutem uma conversa entre dois médicos, ou entre dois advogados.

O idioma universal, artificialmente criado, como o esperanto, ou o volapute, foi um ideal que malogrou.

Achamo-nos no pleno reinado da Torre de Babel.

Não é difícil, com isto tudo, verificar que estamos constantemente enganados, fraudados, furtados, principalmente pelos políticos e pelos economistas.

Há ainda uma linguagem supostamente técnica, para nos confundir.

O meio não é a mensagem, é a massagem e o ruído.

E que se falar da linguagem dos gestos, da chamada linguagem corporal, dos sinais, dos símbolos?

Que é que eu hei de te dizer, minha amada? Deito a cabeça no teu colo e te contemplo em silêncio.

 Annibal Augusto Gama

15 pensou em “A retreta

  1. Vou buscar uma palavra arcaica para a crônica do Annibal: supimpa.
    Meu estado furibundo com tudo isso que aí está, se foi ao lê-la.
    Não é toda hora que se lê algo do teor de beleza do último parágrafo.

  2. Berê, será que andamos sentindo falta de mais romantismo? Não fosse a crônica toda ótima, que tal ” à minha amada eu vou buscar a Lua, e ponho as estrelas no seu colo”? E a frase que você mencionou?
    Ai, ai…
    A pobreza de expressão e a briga com Dona Gramática estão em níveis aterradores mesmo.

  3. Tem um exagero de termos de fora no nosso papo escrito e falado, mas sabe que me amarro nas expressões em latim? Se tivesse feito Direito ia me divertir..

  4. – Concordo integralmente com os conceitos e opiniões que o ilustre cronista expressa judiciosamente em sua coluna, e aproveito para acrescentar mais lenha. Há textos em que o autor, na ânsia de se mostrar “moderno”, além de empregar um vocabulário de uma indigência que dá pena, suprime arbitrariamente artigos, pronomes, preposições, conjunções, e o que mais aconselhar a sua concepção equivocada do que seja uma nova estética da linguagem escrita, transformando, em decorrência, a leitura do seu trabalho em um sacrifício e, não raro, num autêntico exercício de adivinhação do que, afinal, o autor verdadeiramente pretendia transmitir ao leitor.

  5. – Historinha envolvendo a contradição de palavras com a mesma grafia:

    Certa feita, na fazenda de um amigo, andando pelo pasto usufruindo da agradável brisa vespertina, parei no galpão onde alguns peões cuidavam da sua lide de fim do dia. Do que tinha o bigode maior, indaguei do paradeiro do patrão:

    – “Che”, ele foi agorinha “pra” retreta.

    – Retreta??? Poxa, que pena, gostaria imenso de ter ido com ele – lamentei –, gosto demais de assistir essas coisas que a gente só vê no interior…

    Os peões me olharam primeiramente enviesado, depois, claramente desconfiados, mas, finalmente, concluindo que eu era apenas um ignorante dos usos e costumes deste Brasil brasileiro, explodiram numa gargalhada que reboou pela verdejante campina sem fim que avermelhava à luz do sol poente…

  6. Já dizia Drummond, “escrever é cortar palavras”. É preciso domínio, certamente, mas um texto enxuto, sem muitas firulas e volteios, também tem seu valor.
    Um ótimo exemplo é o cronista Anibal. Não dorme no ponto, nem deixa o leitor fazê-lo.

  7. Roberto Vinhas, onde assino? Direto ao ponto.
    Ponderacões mais que perfeitas do cronista, sempre aplaudido.

  8. A palavra é uma das melhores maneiras de nos expressarmos, pois através dela articulamos palavras, ampliamos o nosso vocabulário, descobrimos novos sentidos por trás delas, somos capazes de escrever poesia, além de modificarmos nossa visão de mundo.
    “Tantas palavras que eu conhecia só por ouvir falar (…) Palavra feita de luz mais que de vento (…) Palavra boa não de fazer literatura, mas de habitar fundo o coração do pensamento”.
    Só existe uma palavra para definir a crônica que acabo de ler: genial.

  9. Nada é perfeito, mas o texto do Annibal chega bem perto. Beleza de crítica. Meu olhar vai um pouquinho mais a frente. Não li o texto preocupado com a nossa gramática e sim com o retrato da nossa sociedade.

    Falamos e escrevemos mal. Um povo que não sabe falar e escrever …me assusta.

    Na minha profissão é assustador…me incluo..

    Em pesquisa, no final do sec.XX, com 2500 engenheiros:. 75% nunca tinha ouvido falar em Bandeira, Cecília nem se fala. O mais conhecido era Monteiro, por conta do Sitio do Pica Pau. Passa na televisão.

    Com o Vinhas: Drummond , certa vez, perguntado se era fácil escrever poesia, respondeu: É, as palavras estão todas no dicionário é só escolher.

    Annibal! . O que é volapute? Vou no dicionário…..

  10. Paulinho Lima,

    valapuke é uma linguagem muito interessante. Aqui no Brasil era usada assim: seu nome, por exemplo, seria linhopau; o meu nitale; nosso país, silbra; nossa blogueira: massel.

    Palavras de uma sílaba ganhavam apenas um e na frente.

    Se quiséssemos falar em voz alta, sem sermos compreendidas, dizíamos:

    eo linhopau mali eé eum mechar!

    jobei sapa cêvo!

    Nitale

  11. Lepenipitapa

    Vopocêpe umpu baparapatopo.

    TEPE AMOpo!!!!! AMO!!!!!!!!!!!essa é sem a língua volupeke e nem a do P…é amo! de amor sempre.

    Paupalipinhopo

  12. Paulinho querido, leu a VEJA deste fim de semana? Viu como tratam os maiores de 65 anos anos por lá? Deu uma inveja… Não resmungue antes de ler a reportagem: é simplesmente maravilhoso.
    bepeipijopo,
    Lepinipitapa

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