A festa turca

Uma família turca mudou-se para o meu prédio há cerca de seis meses. A moça, Gülhan (o “ü” se pronuncia fazendo um “u” com biquinho bem forçado!), Bora, o marido, e as crianças, Umut e Onur (que significam “esperança” e “honra” em turco, respectivamente). Gülhan é amiga de infância de uma outra vizinha, que a indicou para morar no prédio (aqui aluguel é coisa séria).

De início já senti que íamos nos dar bem. Logo que a conheci me confidenciou, empolgadíssima, que fazia uma dieta severa (é bem gorduchinha!), e dois dias depois a vi se atracando com um pacote de biscoitos recheados no metrô. Gente como a gente.

Os turcos aqui de Berlim pouco se misturam, estão sempre em família e só falam turco, o que é um convite para o isolamento. Mas a Gülhan é diferente. Fala pelos cotovelos, é engraçadíssima e conversa comigo sobre os temas mais pessoais e profundos, o que nem de longe os alemães fazem, especialmente quando não te conhecem bem, quem dirá com os turcos. Cá entre nós, conversar sobre assuntos pessoais logo de cara é coisa típica de brasileiro! Minha irmã, por exemplo, é campeã em fazer amizades. Daquelas de contar segredo de vida em apenas 10 minutos na fila do banheiro feminino. Mas aqui não é assim e acabei me aproximando da Gülhan.

Na semana passada, ela bateu aqui em casa para me entregar um convite formal. Festa tradicional turca, super família e fechada. Motivo da comemoração: a circuncisão dos dois filhos. Sim, os turcos fazem uma grande festa para comemorar esse tipo de evento. Nunca, em tempo algum, me imaginei indo a uma festa comemorativa de circuncisão, mas, enfim, quem mandou se meter numa cidade cosmopolita?

Fiquei realmente surpresa e agradecida pelo convite, mas confesso que hesitei. Achei que poderia ser um daqueles programas ‘patrocinados pela FUNAI’, mais ainda porque o local da festa era afastado, e meu marido está viajando a trabalho.

Antes de aderir à festa-aventura, já sabendo que os pais da Gülhan são muçulmanos tradicionais, me certifiquei do básico para não correr o risco de chegar lá de minissaia e todas as mulheres estarem trajando uma burca. Imaginaram? Melhor não. Perguntei, então, como deveria me comportar na festa (conversar com homens? Dançar?), se deveria levar algo além de presentes para os meninos; se havia algum tipo de roupa ou cor que não poderia usar, e, importantíssimo aqui, se deveria cobrir a cabeça com um lenço. Tudo liberado, lá fomos nós, eu e Sienna, emburradíssima, porque não gosta de usar vestido.

A festa começou branda, com música ambiente e correria de crianças. Clima normal de qualquer outra festa se iniciando. Quanto aos convidados, tinha de tudo, e o mais curioso eram as roupas! As senhoras mais velhas, em sua maioria, deixavam apenas o rosto aparecer e usavam túnicas de cor escura, quase sempre bordadas com brilhos e pérolas. Muitas moças jovens aboliram as túnicas, mas usavam lenços na cabeça. Todas maquiadíssimas. As meninas pequenas com vestido de tule e laçarotes, como antigamente. Os homens e meninos de terno, o que acho uma maldade para os bem pequenos.

Mas o mais interessante foi assistir ao show de joias no banheiro feminino. Por debaixo dos panos há uma fartura inimaginável de ouro e pedras. E me pareceu que a festa, pelo menos para as mulheres, acontecia ali. Desfilavam como meninas as suas joias e se orgulhavam mostrando as novas aquisições umas para as outras. Até minha filha ficou quietinha, observando maravilhada… (tô perdida!)

Depois dos discursos em turco, que para mim duraram uma eternidade, especialmente quando se tem que controlar uma criança levada, veio a música típica (rock e pop da Turquia, nada para mim) e a dança, digamos, generalizada. Nesse momento, o banheiro feminino, lotado durante toda a festa, com certeza ficou às moscas. A festa havia, de fato, começado.

Tudo ao mesmo tempo, ao estilo brasileiro: música, dança e o serviço do buffet. E que comidaria! Muita carne de carneiro, legumes temperados, esfihas de todos os tipos. E os doces turcos? Massa de mil-folhas, salpicada com gergelim e banhada no mel, recheios dos mais variados. Uma delícia! Eles sabem fazer festa e se divertiam loucamente.

Quando já estava quase indo embora, começou a tocar “Garota de Ipanema” e a querida Gülhan me tirou para dançar. Fui meio sem graça e fiquei ainda mais inibida quando percebi que muitos faziam uma roda à nossa volta, apontando para mim, sorrindo muito e batendo palmas. Percebi que, na verdade, era eu a convidada exótica da festa e eles haviam se preparado para me acarinhar. Me emocionei.

Quando realizei tudo aquilo, deixei o banzo tomar conta e soltei o freio de mão. Em plena festa turca, num subúrbio de Berlim, eu estava em casa ouvindo Tom Jobim.

Aaaah, Dindi…

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

13 thoughts on “A festa turca

  1. Ai, que delícia! Da descrição dos componentes da família, passando pela comida, pela dança, por sua natural “estranheza”, até a roda em volta da exótica representante tropical, a leitura foi uma festa!
    Adorei!
    Bjim da Tilde

  2. Lila, você é tudo de bom! Beijos parabenizantes e saudosos.

  3. A vida imita a arte, hem Lilian! Quando se pensa que é cena de novela, de filme, acontece no nosso prédio!
    Adorei e imagino que não seja difícil fazer festa em torno de você…
    Beijinho carinhoso.

  4. Ah, Lilinha… No capítulo doce & dança deu um apertinho aqui no coração da blogueira… Said veio ter comigo. Ele sozinho era a festa.

    Gente, a irmã da Lilian tem um brilho, uma sagacidade, um humor… No meio da tarde, do nada, surge assim na tela:
    “Tô pensando aqui que não seria nada mal lançar um biquíni agora, ir até a praia, sair correndo gritando bem alto em direção ao mar, pular dando uma grande barrigada, tomar uns 3 caldos, chegar na areia que nem uma baleia encalhada e ficar com areia nos cabelos até a próxima encarnação. Eu bem que merecia isso!”

    Ou:
    “Marido viajando. O controle remoto é MEU. Só MEU!”

    E comenta firme sobre política, dá parabéns a Malala, curte a dieta do champagne “sem glúten, sem lactose, sem gordura”, acarinha os filhos…

    Que família adorável, Dona Rose!

    Beijocas para as três!

  5. “De início já senti que íamos nos dar bem. Logo que a conheci me confidenciou, empolgadíssima, que fazia uma dieta severa (é bem gorduchinha!), e dois dias depois a vi se atracando com um pacote de biscoitos recheados no metrô. Gente como a gente.”

    Minha amiga tb!!!!! Desde o berçário!!!!!!
    Vou puxar o corinho:

    GULHAN!!! GULHAN!!! GULHAN!!! (deu preguiça de botar trema)

    Bjkts, Lílian!!!!!!!

  6. As mulheres de burca além das joias usam as lingeries mais caras e sensuais do planeta. Estarreci (licença, d.Dilma) quando vi….. num especial de tv.
    Lilian manda bem, a gente vai q vai com ela.

  7. Fugindo à rotina de comentarista madrugadora deste auspicioso sítio, deixo um 10, com louvor, para essa menina que também é um doce com mel e amêndoas.
    Juro que me senti dançando na circuncisão…rsrsss…

  8. misturem os comentários e vira o “meu”. Cronica e comentários 10. no mais é deixar o louvor do 10 para a Lilian quanta inspiração dentro dos fatos…uma cronista contadora de “causos”..lilian é mineira????

  9. Amigos do Bloguetto, obrigada pelo carinho de sempre! Fico feliz que tenham curtido o meu programa especial desse final de semana. Eu tô curtindo até agora, pois acabo de receber um pratinho com o “enterro dos ossos” dos quitutes!

    Selminha, hoje o Bloguetto tá recheado de boas lembranças!
    Que bom que são eternas, como disse Pelleberto…

    Vivian leu o seu comentário para D. Rose, que é excluída digital, e ela se desmanchou toda! Mandou dizer que você mora no coração. E eu emendo, que no da família toda! Beijos mil!

  10. Paulinho, eu sou niteroiense! Papa goiaba!
    Berenice, um beijo doce para você tb!

  11. Lilian, ainda que niteroiense, você é lídima representante da Garota de Ipanema e do Bloghetto. Com licença do seu marido! Tom e Vinicius aprovariam, com certeza.
    Paulinho deve ter perguntado se você é mineira por causa da delícia do seu proseio, que me encanta a segunda-feira, de resto um dia feio.

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