De distâncias

Depois de passada a adaptação a um país novo, cultura, língua, comida, vida social e tudo mais que uma mudança transatlântica exige, penso que, aos poucos, aquela distância tão doída no início da minha jornada no exterior abrandou com o passar do tempo.

Em alguns muitos momentos, chego até a me dar a chance de agradecer por estar longe, fazendo um esforço para acreditar que a distância pode ter um lado bom. Muito bom. Posso tentar enxergar as coisas por uma nova perspectiva, a de fora.

Graças aos avanços da era digital em que vivemos, meus relacionamentos, ligações de família, problemas, acertos, estão a salvo e são todos devidamente acompanhados de longe-perto. A distância, muitas vezes, é prima-irmã da imparcialidade e nos aproxima, por incrível que possa parecer.

No entanto, ninguém disse que seria fácil, e, definitivamente, se há uma coisa que não ajuda a fazer as pazes com a distância são as festas, comemorações, celebrações da família e amigos no Brasil. É muita maldade! Quando recebo aqui um convite para chá de panela, chá de bebê e, o mais sofrido, convite de casamento, todo o trabalho psicológico de anos vai por água abaixo.

Nesse final de semana aconteceu o casamento de uma das minhas melhores amigas. Dessas de uma vida. Amiga-irmã. Resolveu todo o casório em tempo record, e eu não consegui me programar para ir. Durante a semana, já tinha preparado o champanhe para acompanhar tudo em tempo real, na madrugada. Eu, minha taça e a tela do computador. No dia “D” mandei flores com cartão, logo de manhã. Liguei para ela, imagine, enquanto estava no salão se arrumando (deveras inconveniente). Queria saber como andavam os preparativos. Marcação cerrada do coração.

Eis que minha imunidade, que já tinha baixado durante a semana, virou uma gripe que se anunciou na quinta e me pegou de vez no sábado, dia da festa. Não aguentei acompanhar em tempo real e, à meia-noite, me dei por vencida. Fui dormir com o coração na mão e me achando a pessoa mais miserável do mundo porque perdi, ainda que virtualmente, o casamento da minha melhor amiga.

No dia seguinte vi e revi, maravilhada, a chuva de fotos que os amigos mandaram da cerimônia e da festa. E como ela estava linda e feliz! Foi o suficiente para o meu coração se acalmar. Apesar da distância, me senti um pouco lá.

Mas, preciso confessar. Nenhuma foto, mensagem eletrônica, ligação telefônica que for, suprem o toque, o contato, a pele. Faltará sempre o abraço apertado.

Aguardo, ansiosamente, a invenção do teletransporte.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

N.R.: Acompanhando a foto, um comentário da fofa da Lilian:
— Selminha, olha a minha amiga linda…

15 pensou em “De distâncias

  1. Deve ser muito bom e fácil ser amiga de uma doçura feito a Lilian. É o que de melhor levamos da vida.

    Bjim pras duas!

  2. A realidade anda tão feia, tão pesada de suportar, que quando leio uma peça de delicadeza e afeto assim chego a suspirar. Obrigada, Lilian. Minha manhã ganhou cor e luz.

  3. Aaaaaaaaah, ng entende, principalmente os homens, o q/ é nosso grude c/ a melhor amiga…… aquela q/ adivinha a gente e sabe tudooooooo……. Imagino o peso da distância numa hora q/ a gente queria tá lá, chamegando….. A gripe foi providencial!!!!! A noite não ia passar nunquinha, principalmente vendo a turma junta, Lilian!!!!!!

    Bjkts da Fe e felicidades pra amiga!!!!!

  4. Minha querida!

    Nunca imaginei que me casaria e você não poderia estar presente… quantas vezes conversamos sobre nossos casamentos imaginários e eu, você e Raissa, com certeza, seríamos madrinhas, ou damas de honra, umas das outras. Qualquer ausência nunca foi sequer admitida… por nenhum motivo… Santa ingenuidade! Rs…

    A vida reserva surpresas!! Sua mudança para a Alemanha foi um susto mas hoje em dia é possível, mesmo à distância, perceber o quanto você é feliz! Precisamos ir para onde está nosso coração e o seu, com certeza, está com seu marido e sua filhinha… na Alemanha.

    Vivemos o suficiente para entendermos que, quase sempre, as coisas não saem como o planejado 25 anos atrás… e eu estou achando isso maravilhoso!!! Quando, 25 anos atrás, eu imaginaria que aquele menino que vinha estudar matemática aqui em casa comigo seria meu grande amor?

    Nosso casamento foi maravilhoso, Li… exatamente como queríamos: parecia uma reunião do recreio do Abel com o São Vicente com o pessoal do Ingá misturado com a galera do Verdão… e nossas famílias no meio. Só amor… O buffet estava uma delícia e teve até cama elástica como cobertura da piscina (kkk, depois te explico!!) bem informal mas com fartura de comida, bebida e alegria…

    Teve show e Gustavo faz a mais linda declaração que uma pessoa poderia receber… ainda nem acredito…

    Para ficar completo, só faltaram mesmo as minhas duas madrinhas presentes… mas a vida reserva surpresas…

    Quando nos encontrarmos vamos abrir um belo Champagne e assistir ao “DVD digital Double Surround” (rs) entrar em uma máquina e voltar no tempo… será muito bom! Aqui em Niterói ou na Alemanha…

    Beijos, obrigada pela LINDA HOMENAGEM no seu blog… te amo do fundo do coração de Niterói até a Alemanha 20 vezes!!!

  5. Lilian, como não se emocionar com sua amizade e saudade da amiga? E com essa declaração dela aí em cima? Coisa mais linda!
    Obrigada por dividir conosco cada momento aí em Berlim. Vamos ficando amigos seus de infância também, vivendo suas festas, anseios, medos e enfrentamentos.

    Declarar afetos é tão bom… Alma leve, passarinho…
    Bjs

    Parabéns para Fabiana!

  6. Gente, eu havia editado o post da Lilian com uma das fotos que mais amo do Robert Doisneau: uma noiva, na recepção do casório, no alto de uma gangorra, feliz, feliz…
    Pela manhã, antes de publicar, passo na caixa postal e lá está a foto da Fabiane, a amiga querida, em estado de graça. Claro que troquei.
    Por que conto o fato? Fabiane escreveu acima que havia uma cama elástica na festa. Penso que a foto do Doisneau não estaria tão fora do clima…

    Beijoca, Fabiane!

  7. Ah!, ia esquecendo. Esse lance de morar fora e não poder estar nos eventos dos amigos que ama, me trouxe à lembrança o único dia em que deu nó na garganta por estar longe de Itacoatiara. Era dia do Maria Farinha, nosso bloco de carnaval. 🙂

  8. Gente! Haja coração! Selminha, obrigada por acolher minhas escritas pessoais, quase um diário de bordo, com tanto amor! O Bloguetto virou o quintal de casa! Esse foi o melhor presente do ano! Obrigada, de coração!
    PS: Selma, o dia que o Maria Farinha sai, prefiro fingir que viajei prá Marte! Ahhh saudade porreta!
    PS2: Meninas do Bloguetto, vocês são demais!

  9. Atrasada no comentário, mas raramente deixo de ler nossa amiga Lilian. Amizades verdadeiras são eternas. A vida afasta mas o elo não se desfaz. Parabéns às duas pelo carinho mútuo!

  10. LIliian tem esse dom: Transformar a coisa virtual bem real, Sera isso possível? È ,e não é. Virtual e a sua contemporaneidade, um alivio, O real é a aproximação, o toque. Mas o texto de Lilian abre o meu pensar.

    Gostei e a minha vivência na relação real e o virtual se aproximam. Se é o melhor não sei, mas o hoje,o aqui agora, é que tem vida,

    Os dois acabam se complementando.

    No encontro das duas em Berlim ou em Niteroi, não vou estar presente, é espaço das duas e de seus próximos, mas as duas vão estar mais próximas.

    Coisa do real e do virtual, Será? A Champagne e ou o chopp serão reais e a relação de afeto e carinho das duas é real e também virtual. O amor é tudo e ocupa todos os espaços…..

    Saudaremos o encontro em breve. Fabiane e Lilian merecem…e suas famílias também.

    Amei o texto…um cotidiano reflexi (vivo).

    Coisa da poesia (da boa)

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