A mesa da cozinha

Era uma mesa enorme (a cozinha também era enorme), de tábuas lavadas e não envernizadas, com gavetas e, ao redor dela as cadeiras. Mais adiante ficava o fogão de pedra, com o seu forno, as suas serpentinas e a trempe, sobre a qual achava-se sempre o bule de café, em banho-maria. A cozinha era a nossa lareira, principalmente nas noites de inverno. Em outras noites, eram os meninos que ali se sentavam no mosaico do chão, enquanto a negra Prisciliana, sentada no rabo do fogão, lhes contava estórias de assombração. Também o cachorro enrolado, deitado no piso. O papagaio ficava no poleiro, na penumbra da dispensa.

Chegava um, chegava outro, e se abancavam diante da mesa. Eram fritados os bolinhos de polvilho azedo e, fofos, ainda quentes, levados na travessa, para serem comidos, com goles de café.

Conversava-se, vinham as notícias da cidade, os boatos, os fuxicos, as intrigas políticas.

Parentes, amigos, hóspedes, ninguém deixava de frequentar a cozinha e sentar-se ao redor da mesa.

Nas noites de verão, a porta da cozinha permanecia aberta, bem como as janelas, olhando para o grande quintal.

Para acender o fogão, de manhã, era preciso ajeitar a lenha na sua boca, entre pedaços de jornal. Depois, riscar o fósforo e chegar a sua chama nas folhas de jornal. Quando as labaredas surgiam, convinha abaná-las com a tampa de uma panela, para avivá-las. O dia inteiro, e grande parte da noite, o fogão permanecia aceso, e a água, aquecida nas serpentinas, subia para a caixa e corria de todas as torneiras abertas.

A cozinha e a sua mesa foram boa parte da minha meninice.

Graças a Deus não havia televisão, e mesmo o rádio, dando notícias da guerra na Abissínia, era precário, com a sua estática. Sim, também chegavam os jornais, e alguns iam buscá-los no próprio Correio, situado na avenida.

A educação das crianças fazia-se assim, na cozinha.

Lá para dentro, permanecia a dona da casa, com as suas visitas, e o piano alemão, em cujas teclas tocavam-se as valsas. No centro da sala de visitas, debaixo da mesinha, achava-se o álbum de retratos.

Ocorriam igualmente os saraus, em que se cantava e se declamava. Alguém vinha com o seu violino, e outro com a sua flauta.

Infalivelmente, aparecia o Doutor Eduardo, com a sua bengala; também não deixava de vir o farmacólogo, seu Joaquim.

A convivência, na cidade pequena, era cordial e amena.

No quintal a pilha de lenha, com os troncos que eram rachados pelo lenhador, que aparecia com o seu machado e as suas cunhas.

De vez em quando, tarde da noite, alguém vinha furtar a lenha rachada e empilhada no quintal. Sabia-se quem era, mas não se dava muita importância.

Meu pai encontrava-se na rua com o ladrão, e este o cumprimentava: “Como vai, Coronel?” E ele respondia, sisudo: “Vou bem, às minhas custas”.

Os namorados beijavam-se furtivamente, no escurinho do cinema.

Annibal Augusto Gama

Mestre Annibal disse beijo no escurinho do cinema?

SEGUNDA SESSÃO

13 pensou em “A mesa da cozinha

  1. Meu Deus, agora é que a saudade bateu bonito. Sei bem o que era uma cozinha assim, Annibal. Na fazendola dos meus avós havia uma tal e qual. Grande parte da infância foi por lá. Chego a ficar com a boca cheia d’água só de pensar no tachão apurando a goiabada horas e horas a fio.

    Quanto beijo inequecível no vídeo! Adorei!

  2. Só me vi num cenário assim em novela ou pagando hotel fazenda….. Pobreza ancestral, de família…..
    Palmas pra Dr. Annibal (Selminha disse pra eu parar de escrever Annibal amado) e Elisabeth!!!!!
    Mas me ofereço pra fazer um bolinho de fubá com coco pra ele…. Arraso muito!!!!!!

    Bjkts

    ps. O vídeo me fez bem não….. Chamem o farmacólogo!!!!!!

  3. Cena familiar para mim a da cozinha. Só que o fogão era a carvão e meu pai, decididamente, não era Coronel. Saudades daquela família enorme em volta da mesa. Tens toda a razão em recuperar essas memórias Annibal. Quanto ao vídeo, vem cá: Richard Gere, Paul Newman e Colin Firth de uma só vez Selminha? Não dá para aguentar! Os filmes, tirando a saga dos meninos vampiros, vi praticamente todos. Podem pensar que tenho quase 100 anos, mas ainda falta um pouquinho. Só sou uma cinéfila. Ótimos posts. Bjs a todos.

  4. Lily, é até uma brincadeira interessante tentar lembrar os nomes dos filmes.
    Gere é um desaforo beijando, tem razão. Mas aquele beijo de Peppard em Audrey, em “Bonequinha de Luxo”, debaixo de chuva…

    Você é uma querida, Lily.

    Gama, não libera Fe, não! Ela tem paixão pelo papi, hein!

    Beijocas, amigos! Volto mais tarde para comentar este primor de crônica do mestre.

  5. – Quando menino sentia inveja dos coleguinhas que tinham oportunidade de privar e usufruir desse ambiente rural amigável que Annibal A. Gama narra de forma vívida na sua ótima crônica. Como animal eminentemente urbano, produto de família igualmente urbana por gerações, quedava-me fascinado, porém, a ouvir os amiguinhos e colegas contando suas peripécias nas fazendas de seus parentes. Em minha imaginação de garoto que conhecia apenas sítios e chácaras em montanhas, eu intuía que fazenda era sinônimo de vastos espaços; de liberdade ampla e irrestrita de movimentos; de vento fresco soprando forte no rosto; de chuva passageira escorrendo pelas biqueiras do telhado; de cheiro de terra e de capim molhados; de acordar com os primeiros raios do sol rasgando o céu no horizonte e dando início à matinal sinfonia de chilreios, mugidos, cacarejos, balidos, grasnados, relinchos e, enfim, de todos os muitos sons que eu adivinhava a natureza reservar aos que tinham o privilégio de viver em seu regaço.
    O fascínio perdura até hoje. Gosto do despojamento e da afabilidade do ambiente rural, mas nunca me passou pela cabeça nele fincar raízes, além do que uma propriedade do gênero, requer engenho e arte e, principalmente, dedicação permanente e exclusiva para administrá-la, condição que eu estaria longe de preencher. Assim, contento-me com os convites (jamais recusados) de amigos fazendeiros que me brindam, de vez em quando, com o desfrute da benfazeja e revigorante magia campestre.

  6. A crônica de hoje vem com aromas, sabores – sai fumacinha da tela – e pitadas de nostalgia. Que maravilha!
    A cena do cachorro enrolado perto das crianças que ouviam (e viam!) assombrações até fazer pipi na cama é perfeita. Aliás, cada parágrafo é uma cena gravada.
    Sempre um prazer ler o Annibal.

  7. – Ufa!!! Esse vídeo é mesmo de tirar o fôlego do vivente. De fato, o beijo molhado de “Bonequinha de Luxo” (3,27 min.) é de arrancar suspiros por transmitir, com exatidão, a enorme emoção que os personagens pareciam estar tomados. Mas há também beijos tipo “arrasa quarteirão” que a gente não tem chance de identificar os felizes participantes.

  8. Guardadas as devidas proporções, tive uma infância inesquecível na cozinha da casa dos meus avós, lá no alto de Nova Friburgo. Voltei no tempo! Mais uma tacada de mestre!

  9. Maravilha!! uma lembrança. Sou filho de engenheiro agrônomo e nas férias desfrutava de algumas belas fazendas…campos (RJ), Itú (SP), Ponte Nova (MG) que saudade…
    mas ainda existem. Recente estive numa fazenda em Pedro do Rio e aconteceu tudo e chegamos de surpresa. Um amigo queria rever uma fazenda que tinha sido de sua família. Os atuais donos, sem saber de nossa chegada tinha uma mesa pronta,,,com tudo que temos direito. E uma promessa de volta..e que ainda não aconteceu.

    me lembro que no JEEP do velho, cantávamos..minha mãe, minha irmã e eu..Serenô e Mariana eram os carros chefes.

    Annibal, valeu!!!!!!!!!!!!

    “Sereno eu caio eu caio,,,sereno deixai cair sereno da madrugada…”
    “Adeus mariana que já vou embora….”

  10. Esse tipo de cozinha que Annibal lindamente descreve é meu sonho de consumo. Aconchega e aquece a família, o papo…
    Ao menos a mesa de madeirão eu tenho…..rsrs…

    Crônica adorável. Leva a gente para um tempo bom, com cheirinho de café.

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