As colheres de pau

Passei boa parte da vida a fazer colheres de pau e a bordar-lhes o cabo. Porque as colheres que faço apenas são pretextos para lhes bordar o cabo. As colheres, de pau ou de metal, são utensílios, e os bordados não. Por isso mesmo é que os bordados são apreciáveis, porque não servem para nada, a não ser para nos alegrar os olhos.

Os homens pragmáticos desprezam os bordados. É a razão pela qual são tão tristes, e nos infernizam a vida. Eu, no entanto, vos digo que uma toalhinha de crochê vale mais do que um cofre recheado de moedas de ouro. Ela me encanta mais do que a mesa sobre a qual está.

As mulheres são muito mais inteligentes e sensíveis do que os homens. Elas usam vestidos não para se cobrirem, mas para se mostrarem. Pintam as pálpebras, pintam os lábios, pintam as unhas, usam berloques, brincos, pulseiras sem relógio, porque sabem que o relógio é uma máquina não de fabricar horas, mas de extingui-las. E usam também sapatinhos de salto alto, saltos muito finos, para desafiar o equilíbrio, porque não ignoram que o equilíbrio, a estabilidade, é a pasmaceira.

As mulheres não conversam: falam. Aprenderam que conversar é trocar ideias, e são as ideias que nos amargam e fizeram da vida e do mundo o malogro de todos. Falar, não. Falar é soltar as palavras, as lindas palavras, principalmente aquelas que não significam nada e, portanto, significam tudo.

É uma maravilha ouvi-las falar. Para também lhes ver os lábios, que têm um código secreto de amor.

Foi a Adão que Deus deu a faculdade de dar o nome a todas as coisas. A Eva, não. Porque Eva já era todas as coisas, os pássaros, as borboletas, as flores, a água, o céu, as nuvens, a lua e as estrelas, o vento e o rumor da noite.

Annibal Augusto Gama

9 thoughts on “As colheres de pau

  1. “É uma maravilha ouvi-las falar. Para também lhes ver os lábios, que têm um código secreto de amor.”

    Destaquei a doçura acima, mas podia ser o texto todo. Lindo!

  2. Annibal amado, convidar-te-ia para um chá ao cair da tarde, mesinha de toalha branca bordada, vasinho de alecrim ao centro e lavandas no jardim à nossa volta.
    Tema livre. Aceitarias?

    Selminha de Deus, é nisso q/ dá ler esse lord numa hora dessas……… Fefê fica erudita de um tudo!!!!!!

  3. – Bendigamos o Senhor quando, num momento de suprema inspiração e sabedoria, resolveu criar a mulher em lugar, talvez, de um híbrido masculino capaz de geração espontânea de filhos. Pode-se bem imaginar o que seria a vida terrena sem as nossas muito amadas companheiras de jornada. Certamente nem sobreviventes humanos restariam hoje no planeta, teríamos nos matado todos há muito. Por isso, rendamos graças a Jeová por nos haver dado esses admiráveis seres que apesar dos momentos de altos e baixos e de risos e lágrimas que a sua condição humana lhes conferem, eles não somente são indispensáveis na perpetuação da espécie, mas, sobretudo, dão sentido às nossas vidas, nos propelem para frente, encantam nossos olhos, alegram nossos dias e enternecem nossas almas.
    Excelente crônica de Annibal A. Gama que, como eu, é admirador incondicional das belas que enfeitam este nosso mundo nem sempre bonito.

  4. maravilha…mas aviso aos navegantes, apenas como curiosidade…”Hoje em Paris, as margens do Senna, a exposição do ano segundo os organizadores\\\;HISTOIRE(s) DE CUILLÈRES,..o cartaz avisa que a entrada é pela Rue du Figuier…
    beleza..mas faltou esse texto maravilha do Annibal…envio fotos ou foto…

  5. Sensibilidade e ternura. Esse é o seu nome, Aníbal! Amei tudo, mas destaco este trecho…Falar é soltar as palavras, as lindas palavras, principalmente aquelas que não significam nada e, portanto, significam tudo.
    É uma maravilha ouvi-las falar. Para também lhes ver os lábios, que têm um código secreto de amor…

    .

  6. Tudo já foi dito acima. Só tenho a agradecer por ter a oportunidade de ler essa maravilha, ainda que atrasada. Ganhei meu sábado! Fecha a conta e passa a régua!

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