“Estrela Dalva”

Há algum tempo ando preocupada, pois a minha filha de quase três anos não fala português, em que pese eu só me dirigir a ela na língua de Camões. Ela entende absolutamente tudo, mas responde em alemão. Não me rendo e repito o que ela responde em português, como me ensinaram. Também me mandaram ter paciência, porque um dia o português vai explodir. Admito que estou esperando com muito pouca paciência nos últimos meses, pois me sinto numa Babel. É uma espécie de guerrinha íntima de idiomas.

Além disso, quando temos filhos, o sentimento de continuidade, hereditariedade, aflora muito forte, não é? Fico pensando que preciso preservar as minhas raízes aqui em terras estrangeiras e a melhor maneira é transmitindo a cultura brasileira para a geração seguinte. Especialmente a língua.

Confesso que também procuro alguém para quem contar, num futuro próximo, segredinhos, piadas infames em público, bobagens, sem que ninguém entenda. É muito bom a sensação de falar uma “língua secreta” quando se mora fora.

Vejo as outras mães e pais estrangeiros falando em seus idiomas e sendo prontamente correspondidos pelos filhos, na mesma língua, e me sinto frustrada. Muitas vezes as crianças são menores, bem menores que a minha. Por mais que eu repita para mim mesma que no meu caso é diferente, pois sou a única na família a imputar dados em português na cachola da Sienna, ainda assim, acho que tem alguma coisa errada.

Talvez as poucas vezes em que, por esquecimento e cansaço, acabei respondendo em alemão, fizeram com que ela percebesse que eu também a entendo e, por isso, não se esforce para falar português. As crianças são muito mais espertas do que podemos supor, também já me advertiram. Comecei a carregar mais essa culpa. A incapacidade de ensinar português para a minha própria filha. Mais uma para minha conta poupança de culpas.

Até que essa semana, com o pai viajando a trabalho, tivemos uma espécie de overdose de português em casa, com pausas apenas no horário do colégio. Com o frio mais intenso, saímos pouco de casa e não tivemos visitas de nenhum amiguinho nesses dias. Ficamos só nós, em curso intensivo.

Não sei se foi esse o motivo para o que se seguiu, mas agora de noite, quando fui colocá-la para dormir e comecei a cantar desafinadamente o meu repertório de músicas brasileiras, as mesmas com as quais a minha avó me embalava, e as mesmas que repito incansavelmente há quase três anos (não conheço outras!), fui interrompida por um pedido especial: “Mama, agooorrraaaaa querrrro Estrrrrela Dalva!” (leia-se: “As Pastorinhas”, de Noel Rosa).

Oi? Tentei me controlar para não travá-la e repeti: “Você quer agora que a mamãe cante “Estrela Dalva”? Ela confirmou, enfática: “Estrrrrela Dalva”. Ok, ok… engole a emoção e canta!

Comecei mais desafinada do que nunca e, para minha surpresa, fui acompanhada do início ao fim, a letra inteira, toda errada, naquela vozinha rouca e com sotaque. Linda. Ela aprendeu por repetição, e penso que agora se sentiu segura para soltar o verbo.

Minha coleção do Monteiro Lobato está salva!

Como todos também já tinham me avisado, em se tratando de filhos, a felicidade máxima se manifesta nas pequenas coisinhas do dia a dia. Combustível para seguirmos em frente.

Bloghetto, toca “Estrela Dalva” na Rádio TS hoje?

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

17 ideias sobre ““Estrela Dalva”

  1. Disse bem Selminha na rádio. Sua filha, Lilian, é nossa sobrinha, netinha, boneca. A gente se emociona acompanhando cada novidade dela. E sua alegria é a nossa!!
    Adorei!
    Beijo carinhoso

  2. “Minha coleção de Monteiro Lobato está salva!” é observação de uma felicidade… Maravilha, Lilian! Cheguei a imaginar sua expressão daqui! bj

  3. Ô Lilian… posso imaginar sua emoção, quase um prêmio pelo seu esforço em não deixar que as raízes brasileiras da filhota se percam. Amei o seu relato.

  4. Desculpem, enviei um comentário que começava a escrever!
    Apague, por favor, Selminha.

    O Bloghetto, dizia eu, se ilumina ainda mais com essa nossa Estrrrrela Dalvinha que desponta, linda, loura e prosa, agora também em português!
    O sotaque deve ser uma delícia!!!
    Imagino a cena, a Sienna e sua emoção, Lilian.
    E a nossa pimpolha tem bom gosto!!!
    Já é uma das programadoras oficiais da Rádio Todo Sentimento.
    Beijos para as duas.

  5. Mãe é bicho bobo, né? Cheguei mesmo a duvidar que eu nao conseguiia ensonar o português em casa. Já vi casos aqui. Mas agora descambou e o repertório só aumenta! Estamos em família nesse maravilhoso blog! Sempre grata à Selma que me deixa contar essas coisinhas aqui.

  6. Xiiiii… Não tô pura não… o meu comentário também foi com erros de digitação. Relevem essa mãe emocionada!

  7. Lilian, como disse Tita, também curto sua preocupação com a brasilidade da Sienna. Você poderia não dar importância ou deixar para despertar tudo isso nela mais tarde… Bacana.
    Adoreeeei você já pensar na cumplicidade de mãe e filha trocando figurinhas sem que o entorno as entenda.

    Você é uma querida da família Bloghetto. Sinta-se sempre abraçada.

    Beijocas da Selminha

  8. Isso aí! eles, simplesmente, são adoráveis, em qualquer idioma. Parabéns, pra vcs duas! Bjs

  9. ler as histórias de Lilian é um canto de encanto.
    Não se preocupe com a fala de Sienna, em qualquer idioma vai nos fazer feliz. Os pais vão sempre entendê-la.

    Lilian deve ser uma graça essa sua filha. Só como informação: Arthur, meu neto, de 7 anos já está na aula de alemão. Vai que dia de carnaval, ao som das Pastorinhas, aqui no nosso Rio, ….. ou no carnaval de Berlim se conheçam. Faço gosto.

  10. e eu acabo lendo o texto chorando de emoção… e por aqui, guerrilhando com o Antonio para aprender a comer direito… hoje ficou sem comer, foi dormir pau da vida comigo… me lembro do nojo de feijão com bis lacta!!! affff…. best, aqui vamos nós… e hoje vc me entende, neh???
    love U e morrendo de saudades!
    Já parei de chorar!!!
    risos!

  11. Tudo que eu queria dizer já foi dito. Então vou repetir: você nos emociona, Lilian!

  12. Lilian, que emoção! Vou contar (recontar, pois acho alguns aqui já saibam), tenho 5 netos. Três de mãe brasileira e pai catalão. 2 nasceram na Inglaterra e um em Madri. Como o pai não fala português, as crianças falam espanhol e inglês, embora entendam tudo o que a mãe fala em português. O maior já se arranja muito bem no português, embora com sotaque. A menina agora deslanchou, mas tem um sotaque fortíssimo e o menor, fala e olha para a mãe, como quem diz: estou certo?
    Já os outros dois que nasceram nos EU mas têm mãe e pai brasileiros, falam um português certinho. Como você vê, uma hora sua linda filha deslanchará no idioma. Questão de paciência. Uma boa receita é passar algumas férias no Brasil. Aí tudo flui super bem. Gosto muito da sua ‘prosa’. Me faz viver junto..
    Bjs

  13. Concordo com o comentário acima. Quando lemos a Lilian, a gente vive/revive preocupações e ansiedades na criação dos filhos agora grandes, ao menos as minhas.
    Texto doce como a carinha das estrelas da foto.
    Deus te abençoe, Lilian!

  14. Matilde, Berenice, Raquelzinha, Lyliane, Paulinho, Gama e todos os outros. Um beijo no coração de vocês, minha família virtual!

  15. Lilian, adoooro acompanhar suas experiências com seus textos lindos!! Demais e viva para aqueles que como vc, preservam a sua cultura e raíz!! Hora cantar estrela Daaaalva! hehe
    bjoooos poliglotas 🙂

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