Megacena

O que faria se ganhasse na Mega-Sena, pensava enquanto caminhava na rua. Sozinho caminhava e sozinho se ganhasse, sem dividir o prêmio com ninguém, imaginava, já que, se era para fantasiar, por que não fantasiar o máximo? Em sua fantasia criava situações excitantes, e foi se envolvendo emocionalmente nelas até um ponto que considerou exagerado, inconveniente até. Então voltou a si e à realidade, esta prosaica, insossa como insosso era seu dia a dia, e o da esmagadora maioria das pessoas que via na rua, com certeza, concluiu. Dirigiu-se à loteca mais próxima, levado por suas pernas, não pela mente, onde fez uma aposta com números escolhidos aleatoriamente. A partir daí poderia sonhar com uma base concreta, embora soubesse que suas chances de ganhar fossem mais que diminutas, infinitesimais, porém não eram nulas, zero, como seriam se não tivesse jogado. E, de novo na rua, pôs-se a fantasiar, outra vez, agora com mais afinco e uma pitada de esperança.

***

Ganhei na Mega-Sena, sozinho, choveu tanto na minha horta que ficou toda alagada, uma lagoa, uma dinheirama, enriqueci de repente, milionário mesmo, inacreditável, mas é verdade. Ou não? E se for mentira, um sonho que estou tendo? Pronto, acordei, era sonho e acabou, estou em minha cama, cadê aquela bufunfa toda? Escafedeu-se, evaporou. Tudo voltou ao normal, à rotina de todos os dias, menos à de sábado, domingo e feriado, que é diferente.

Roberto Pellegrino

8 thoughts on “Megacena

  1. Também sonhei muito com esse 1/3 de propina de aspone petroleiro, Pelleberto.
    Mas já caí na real. Vida que segue. Ainda bem que tem sábado, domingo e feriado, “que é diferente”.

  2. Eu sonhei, e sonhei ai de mim mto mais do q/ devia sonhar, e chorei…………
    Um dia a coisa vai, a bufunfa vem…..
    Bjkts

  3. – Lendo o texto de Pellegrino, ocorreram-me os versos de um grande imortal – apesar da ABL haver-lhe negado, por três vezes, a imortalidade – chamado Mario Quintana:

    “Se as coisas são inatingíveis… ora!
    Não é motivo para não querê-las…
    Que tristes os caminhos, se não fora
    A presença distante das estrelas!”

    O tema, também, remete-me irresistivelmente ao primoroso e inesquecível samba-enredo de 1992, da Mocidade Ind. de Padre Miguel:

    “Sonhar não custa nada
    o meu sonho é tão real
    Mergulhei nessa magia
    era tudo que eu queria
    Para esse carnaval
    Deixe a sua mente vagar
    Não custa nada sonhar
    Viajar nos braços do infinito
    Onde tudo é mais bonito
    Nesse mundo de ilusão
    Transformar o sonho em realidade
    E sonhar com a Mocidade
    E sonhar com o pé no chão…”

    Para encerrar estas reminiscências, um conselho do Barão de Itararé:

    “Nunca desista de seu sonho. Se ele acabou numa padaria, procure em outra.”

  4. Ótimas lembranças do Malato.
    Peleberto, como não joguei, ganhei!…rs…..

  5. Muito me identifiquei com o texto. Já tive lancha, mansão em Angra, apartamento em Paris e Nova Iorque.
    Eu sou botafoguense, gente! Não desisto nunca!

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