No meio do caminho tinha uma pedra

No caminho para jogar o lixo fora, ao contornar o meu prédio, passo por três pedras cor de ouro, encravadas no meio do asfalto, uma do lado da outra. Impossível passar batido. Largo o lixo no chão e me debruço para ler de mais perto. Depois que entendi o que tudo aquilo significava, meu dia mudou completamente.

As pedras contêm inscrições em memória de judeus que moraram no terreno onde hoje está erguido o meu edifício. Seus nomes, onde nasceram, a data da deportação, para qual campo de concentração foram enviados e, finalmente, onde morreram.

É, literalmente, uma pedrada na cabeça. Continuo ali parada no meio da rua imaginando que, exatamente nesse chão onde eu moro, uma família foi despedaçada, vítima do nacional-socialismo alemão. É a realidade histórica de Berlim me dando um alô.

A princípio imaginei que fosse uma homenagem dos familiares, mas, com o passar do tempo, caminhando no meu bairro, fui colecionando registros das mesmas pedras na frente de outras casas e prédios. Passei a andar olhando para baixo, pois realizei que o bairro onde moro era um reduto de judeus. Não há como não calcular mentalmente a idade das pessoas quando morreram e imaginar o que faziam quando foram presas, o que podiam ter feito diferente. Vidas interrompidas. Cada descoberta, uma tristeza.

Resolvi pesquisar mais a fundo e descobri que não são homenagens póstumas isoladas das famílias, e sim, um projeto do artista plástico alemão Günter Demnig, que procura relembrar todos os povos e minorias banidos pelo Holocausto: judeus, ciganos, homossexuais e Testemunhas de Jeová, entre outros.

As pedras se chamam, em alemão, “Stolpersteine”, ou seja,  “pedras-obstáculo”. A intenção do artista é que os transeuntes parem e se debrucem para ler o seu conteúdo, o que também acaba sendo um gesto involuntário de reflexão e respeito.

Vozes de judeus mais ortodoxos acharam o trabalho artístico desrespeitoso, pois as pedrinhas foram fixadas no chão, onde, segundo eles, os judeus seriam novamente pisoteados. Felizmente a intenção maior do projeto prevaleceu, difundiu-se e hoje as “Stolpersteine” também podem ser encontradas em outros países do continente europeu.

Desde então, os Kleinberger e o Sr. Hermann Buchholz, que moravam onde agora é o meu prédio, estão em minhas orações.

Lilian Correia Lima Rapp 

Lilian Rapp mora em Berlim.

11 ideias sobre “No meio do caminho tinha uma pedra

  1. Nada escapa aos olhos e ao coração sensível da Lilian. Muito forte isso nela.
    Bjim, querida.

  2. Lilian, não sei pq….. depois q/ acabei de te ler me deu vontade de cantar a “Imagine” do Lennon……. A história da humanidade podia ser tão outra…….
    Bjkts.

  3. Que imaginação fértil a do artista. É realmente uma ‘pedrada’ que nos fazer pensar. Coincidentemente neste fim de semana assisti o filme ‘A menina que roubava livros’. Já havia lido o livro mas o filme reafirmou que não se deve julgar todo um povo pelos crimes dos seus governantes da hora. A História da Humanidade é cheia de altos e baixos. Comovente seu texto Lilian. São experiências de vida que não têm preço. Bjs

  4. Lilyane, pensei o mesmo que você: a experiência de vida e as novas leituras de mundo da Lilian não têm preço. Ela mantém a essência e vai virando outra a cada dia.
    Beleza, Lilian!!

  5. Texto primoroso e tema cuidadoso. Por onde andamos as pedras de Berlim nos acompanham. Prenderam e mataram em tribunais os responsáveis…mas suas ideologias ainda se fazem presentes no nosso cotidiano….aprendi com Hannah Arendt…

    Recomendo…o filme da Hannah…

  6. Pessoal, estava com saudades! A semana sem o Bloguetto passa arraaaassstaaaadaaaa… Tema delicado mesmo, mas homenagem lindíssima. É impossível não se emocionar morando aqui. A cidade é uma explosão multicultural. Castigada, reerguida, verde, surpreendente, maldita… só vindo aqui para tirar as próprias conclusões. Eu ainda procuro as minhas.

  7. Lilian, não sei o que mais encantou: se sua crônica ou seu comentário.

    Mil beijinhos.

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