Vinte e cinco anos depois

Assim como todo mundo sabe o que estava fazendo no dia 11 de setembro, quando o fatídico avião sequestrado pelos fantoches de Bin Laden abateu o primeiro prédio das Torres Gêmeas, em Nova Iorque, todo alemão também sabe exatamente onde estava e o que fazia quando as notícias de depredação do muro de Berlim, símbolo maior da Guerra Fria, começaram a pipocar há 25 anos, no dia 09 de novembro de 1989.

Não sou alemã, mas também sei o que fazia na data histórica. Assistia boquiaberta e com a máxima atenção ao Jornal Nacional do dia, pois, em dois meses, faria discursiva de História no Vestibular e o tema era barbada, como, de fato, foi.

Vinte e cinco anos depois fiz questão de me fazer presente na festa de comemoração da Reunificação Alemã. Afinal de contas, não se pode ignorar o presente dos Deuses de estar na capital da Alemanha numa data marcante dessas. Tudo andava contra: o frio descomunal, a multidão que lá estaria, além da dificuldade de enfrentar uma festa popular de dimensão nacional, com um carrinho de criança a tiracolo, transportando, claro, uma menininha espevitada.

Entretanto, nada disso poderia ser desculpa para perder a festa anunciada aos quatro cantos da cidade há semanas. Os alemães sabem organizar uma festa (neste quesito competem de igual para igual com os americanos) e a ideia do jubileu foi linda, singela e lúdica. A Prefeitura enfileirou enormes balões brancos de gás hélio em toda a extensão do extinto muro, símbolo da dureza, do cinza, da tristeza e da separação.

Durante todo o final de semana foram rendidas homenagens àqueles que ali se sacrificaram tentando fugir do comunismo do lado oeste. Foram incontáveis shows de música popular, clássica, declamação de poesias, pequenas peças de teatro, tudo isso ao longo do muro. Às oito horas do domingo, o Grand Finale. Os balões foram soltos no ar ao mesmo tempo, ao som de Beethoven. Na festa, Peter Gabriel, a atração maior, deu show no palco principal localizado em frente ao Portão de Brandenburgo.

Vinte e cinco anos depois, a Alemanha unificada é uma das principais potências do mundo, a maior da Europa. Seu PIB e Índice de Desenvolvimento Humano apresentam números invejáveis. Não há miséria, a educação é de ponta. Os serviços estruturais são excelentes. A saúde é para todos. Apesar da história inegável de sucesso, os alemães são extremamente críticos do seu governo e conquistas em todas as áreas.

Mas ontem estive lá e digo que foi emocionante ver os balões subindo para um céu iluminado por canhões de laser. Prendi a respiração e… engasguei. Era toda uma multidão tedesca, fria por natureza, rendendo-se, finalmente, ao sucesso de sua união. Estranhos se abraçavam calorosamente. Um Réveillon antecipado.

Cena para se guardar na memória e no coração.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

8 pensou em “Vinte e cinco anos depois

  1. Nada como uma repórter no local…rs…

    A primeira foto vale por mil palavras, a segunda é um primor de simbolismo (vimos na TV o momento das bolas da paz e da união subindo em toda a extensão do muro), e a carinha feliz da repórter na festa é nota 10.

    Quanto à Alemanha de hoje… tire-se o chapéu e aprenda-se o que é fazer bem feito o dever de casa, o compromisso com a austeridade fiscal… Viva a Merkel.

    Bjs.

  2. Impossível não sair pra comemorar, Lilian. Imagino sua filhinha vendo a festa!
    Bjim

  3. Lilinha, o primeiro Muro a gente não esquece… Era uma vez uma blogueira, aos 18, absolutamente boquiaberta diante daquele cinza sem fim, arames farpados por cima…
    E a demora na revista meticulosa de todos nós e de nossos passaportes, dentro do ônibus turístico, ao passarmos para o outro lado? Aquele imenso ACHTUNG nunca mais me saiu das retinas…

    Ontem, no GNT, um programa especial sobre o Muro, a Alemanha, suas conquistas, vitórias, e, claro, alguns problemas. Pensei muito em você.

    Beijocas!

  4. Hoje uma Alemanha unida e próspera ajuda a conduzir a Europa. Assim vamos.

    Vi alguns flashes aqui, Lilian Foi bonita a festa.

  5. Achei um alumbramento a fileira de brancos e lépidos balões onde outrora houvera tijolos, cimento, arame farpadado, sangue, suor e lágrimas…
    Privilégio estar lá, Lilian.
    E privilégio nosso você dividir conosco.

  6. muito bonito mesmo…um alerta para o mundo. A Alemanha, de hoje, começa a ser exemplo para o mundo. Viva a matéria e alegria da presença.

    Me pergunto e triste será que o mundo aprendeu a lição???

    Lilian felicito e compartilho a beleza da festa vivida…

Deixe um comentário