Os ovos de ouro

(Tela de Diego Velázquez)

De repente, quando as festas de fim de ano se aproximavam, todas as galinhas, todas as patas, todas as peruas, começaram a botar ovos de ouro. Só ovos de ouro.

Se não estou enganado, foi no quintal da viúva Dona Gertrudes que a sua galinha carijó botou o primeiro ovo de ouro. Depois, as outras galinhas de Dona Gertrudes também passaram a botar ovos de ouro.

Quando, pelas duas horas da tarde, Dona Gertrudes foi aos ninhos para recolher alguns ovos, não achou nenhum. Quer dizer, só achou os duros ovos de ouro.

Convém esclarecer que Dona Gertrudes era doceira e quituteira. Sobrevivia com a minguada pensão do finado marido e as achegas dos doces, bolos e quitutes, que fazia por encomenda e as freguesas mandavam buscar em sua casa. E já se vê que não podia fazer bolos e doces com os ovos de ouro.

Até aí, não era uma desgraça. Com um ou dois cestos de ovos de ouro vendidos na praça, a viúva estaria rica, riquíssima, e podia até dar-se ao gosto de viajar para Miami. Mas acontece que todas as galinhas, todas as patas, todas as peruas, em todos os quintais, em todas as chácaras do mundo, só estavam botando ovos de ouro. E quando Dona Gertrudes foi vender os seus a bom preço, riram-lhe na cara, porque os ovos de ouro haviam inundado a cidade, o estado, o país, a Europa, a Ásia, a África. Não valiam nada. E é claro que houve uma tremenda revolução econômica interna e internacional. Bancos faliram, banqueiros suicidaram-se, o lastro ouro deixou de dar segurança à moeda. Aconteceu o diabo.

Alguns sujeitos eruditos andaram dizendo que aquilo não era novidade: o caso dos ovos de ouro era semelhante ao que sucedera nos tempos de Joana D’Arc, quando as galinhas simplesmente deixaram de botar. Pelo menos era o que contava um barbudo teatrólogo chamado Bernard Shaw, numa de suas peças. Deixaram de botar como advertência para que se dessem recursos à donzela, a fim de que ela, como guerreira, salvasse a França e acabasse sendo queimada.

Bem, a explicação não era consoladora, pelo menos para Dona Gertrudes.

O pior é que, sem ovos de verdade, as galinhas, as patas, as peruas, já não procriavam. Nunca se viu ovo de ouro gerar pinto, pato ou peru. E, não havendo mais procriação, as galinhas, as patas, as peruas existentes, envelheciam e morriam. Dentro de alguns anos já não havia mais nem galinha, nem pata, nem peru, e outros bichos de pena.

Tais fatos provocaram mais desgostos. Já não se podia comer um bom frango ensopado, uma empadinha recheada, uma omelete, um bife a cavalo, um frango assado. Aliás, o restaurante “Frango Assado” fechou. O cardápio empobreceu.

Nas reuniões, sujeitos saudosos suspiravam com as suas reminiscências. Ah, aqueles tempos de antes, em que se comia um frango à caçadora, um quindim, um bolo cujos ingredientes eram a gema e a clara batida! Uma torta de galinha e palmito! Os doces portugueses!

Não havendo mais nenhuma galinha, o último galo, desesperado, subiu num muro, lançou para a noite o seu derradeiro canto, bateu as asas e bateu as botas. Já não se ouvia, em nenhum lugar, o canto dos galos nas noites enluaradas, nem as galinhas anunciando o ovo no ninho. A vida, o mundo, ficaram mais tristes. E perdeu sentido, por obsoleta, aquela indagação metafísica: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Não sei o que aconteceu depois. Porque neste mundo enriquecido, ou melhor, empobrecido, de ovos de ouro, já não há depois. E o antes começa a esvaecer-se na memória dos homens.

 Antonio Carlos Augusto Gama

11 ideias sobre “Os ovos de ouro

  1. Ótima reflexão para que cultivemos a nossa essência e os valores do espírito, estes, sim, nada voláteis.
    Quanto mais nos apegamos a ovos de ouro, empobrecemos. E nos frustramos.

    Dona Gertrudes, leve em conta os azares da sorte e que não há nada do que esteja ruim que não possa piorar.

    Maravilha, Gama!

  2. Realmente fantástico, Gama.

    Meu Deus, os contrastes de luz em Velazquez são de arrepiar…

    Um presente de post.

  3. Nem tudo que reluz é ouro nessa vida e o que pensamos ser a solução pode se transformar no próprio problema, na nossa tormenta e degradação.

    Adorei, Antonio.

  4. .- Muito bom este conto de Antonio Gama. Um enredo muito interessante e adequado a esta época em que ocorre um verdadeiro holocausto de seres da nobre estirpe dos galináceos em razão das festas de fim de ano. Sim, festas, mas somente para nós humanos, porque, para os pobres emplumados representam, como já ficou dito, uma hecatombe que se repete a cada ano, ocasião em que milhões de indivíduos da espécie são enviados para os campos de extermínio dos frigoríficos onde são sacrificados para saciar a volúpia gastronômica do predador-mor chamado homem. Lamentável, mas dá para livrar a cara do peru, no Natal?

  5. Gama, sua crônica é primorosa e de uma reflexão fecunda, um verdadeiro presente de Natal para mim.
    Abraçaço.

  6. Gama, excelente sua metáfora. Uma prosa quase que freudiana, digna de se colocar em paredes, postes e anunciar o perigo que é acabar com o ovo dos comuns e se distribuir ovos de ouro. A gente se sente ludibriado, só que inocentemente ou não, a sociedade está atrás de ovos de “ouro”.

    queremos o ouro das medalhas campeãs e não em ovos de galinhas até mesmo da pobre Gertrudes.

    Amigo, só como lembrança, A gema é ouro e fortifica e está no interior dos ovos…

    Belo texto, um dia chego lá…..

    Enquanto escrevo esse comentário na Radio Tom da NET tocava Janela Abertas..muito legal,,,essa radio está bombando na cidade é só o que se fala…bela idéia da NET, pelo menos isso……

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