A siciliana

Francesca era beddra assai, que no dialeto siciliano quer dizer muito bonita. Tinha, porém, um defeito: não me dava bola. Por quê? Sabe-se lá, são os insondáveis mistérios da vida.  Eu tinha tudo para atraí-la, tudo e mais um pouco, mas Francesca não me notava, ou melhor, me notava demonstrando enfado. Aquela atitude dela a meu respeito foi transformando minha admiração em raiva e, com o passar do tempo, em ódio. E foi esse ódio que me levou a cometer um desatino: matei Francesca com um tiro de revólver no meio da testa. O estampido do tiro me despertou e eu acordei no meio da noite sobressaltado, o coração em disparada.

Quando, na manhã seguinte, a encontrei no saguão do prédio onde morávamos, dirigi-lhe um olhar e um sorriso ambos de deboche. E pensei: Francesca, você é beddra assai, mas eu decido se merece ou não viver. E seu enfado a meu respeito não me incomodou mais.

 Roberto Pellegrino

6 ideias sobre “A siciliana

  1. – A dor-de-cotovelo é universal e democrática. Não discrimina raça, sexo, religião ou classe social. Varia apenas de intensidade em razão do grau do enfeitiçamento que uma francesca beddra assai, ou um maschile e virile francesco, podem provocar. Mas a doença é insidiosa, continua latente mesmo quando a vítima pensa que se curou, como na historinha do cronista. O pretenso deboche no olhar e no sorriso do mancebo nada mais é do que a manifestação de que o mal continua instalado. E costuma recidivar…

  2. Gentem, J. Malato aprofundou-se!!!!!! É uma tese!!!!! “Sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar”, tá lá na música!!!!!

    Quem perde é a tal Chiquinha siciliana pq Pelleberto tem borogodó!!!!!

    Bjkts pra ele

  3. Fefê, rindo alto com você! Também achei a Francesca uma infeliz esnobe. Pelleberto tá de corpo fechado!

  4. Saudade do estilo “pellebertiano” também. Concordo com as observações de Fe Alvarez.

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