O aranhol

“Vós sois a Penélope da nossa república — disse ao terminar —; tendes a mesma castidade, paciência e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a Sapiência.” (Machado de Assis, A Sereníssima República)

Num dos seus tantos contos antológicos, em que a sua ironia se apresenta mais afiada do que nunca, Machado de Assis narra uma conferência proferida pelo cônego Vargas dando notícia do grande feito por ele alcançado, de organizar socialmente um grupo de aranhas.

Neste início de ano, ao assistir às tantas cerimônias de posse dos novos governantes pelo país afora, seguidos de seus tantos ministros, secretários e sectários, relembrei-me do mestre e ocorreu-me que o Brasil é um imenso aranhol com as suas aranhas, aranhonas e aranhinhas.

De qualquer maneira, todas as aranhas picam, com mais ou menos veneno. O aranhol-mor é o Governo Federal. Este espera que as aranhas e as aranhinhas agarrem e degustem as presas miúdas, embora, frequentemente, com uma laçada, que se denomina tributação, lhes arrebate as moscas mais saborosas.

Na escala dos aranhóis, há outros, intermediários, sempre de olho no aranhol-mor, onde tecem e destecem as aranhas-mestras. E qualquer um desses aranhóis, desde o mais ínfimo, agarra a sua mosca, lambe-a, chupa-a, durante anos. Depois de muito chupadas pelas aranhas de vários tipos, as moscas são cuspidas para fora.

As aranhas-mestras preferem as moscas gordas, as moscas azuis. Mas não desprezam os mosquitinhos.

O singular é que são as próprias moscas que pagam, para sustentar e engordar todas as aranhas. São elas que constroem os palácios de pé alto, para que, entre as paredes, as aranhas teçam os aranhóis.

Nem há vassoura que acabe com os aranhóis e com as aranhas. Elas são vitalícias. E todas espreitam as moscas. Pretas e pernudas, peludas e barbudas, botam ovos para o nascimento de novas aranhas, que logo aprenderão a tecer outros aranhóis nesta Pátria Educadora.

A “Sereníssima República” aracnídea do conto machadiano se viu em palpos de aranha à falta de acordo sobre a forma e o tamanho do saco eleitoral.

Ao nosso aranhol republicano, de petroleiros e petelhos, falta muito mais. E o saco é sem fundo.

 Antonio Carlos Augusto Gama

10 ideias sobre “O aranhol

  1. O saco deles é sem fundo, indestrutível, e o desse nosso povo inerte também. Ninguém aqui fica de saco cheio de nada. Em qualquer país do mundo a situação das aranhas vitalícias já seria outra. Mas é carnaval, Gama.

  2. – Oportuna e interessante a fábula na qual Antonio Gama substitui por aracnídeos, os rattus norvegicus (no popular, ratazanas mesmo, mas de gravata), que há 12 anos se cevam nas verbas da administração pública brasileira de todos os níveis. E que ninguém se iluda: há 40 milhões de “bolsistas” (para quem tudo será sempre perdoado, desde que não se mexa na espórtula) a garantir que a farra dos roedores encasacados continue em 2018. Aí estrelada pelo rato-mor, o barbudo, naturalmente.

  3. É isso Gama !!! as aranhas andam soltas. Cada uma na sua teia. Me assusta quando só mostram uma, nem sei, se é a maior ou menor. O que nos oferecem são delações, interesses mediáticos, mentiras de aproveitadores de plantão ou de ocasião. Chegar a verdade, resgata-la não acredito. A nossa Petrobrás tem mais de 50 anos, atingiu patamares tecnológicos que nos orgulha como brasileiro, mas achar que nesses anos todos só anjinho passou por lá….é acreditar em Papai Noel.

    Trabalhei 4 anos no seu Centro de Pesquisa. Referencia mundial..O pré sal é nosso – lamento que a nossa industria não tenha acompanhado…

    Seus pesquisadores dão palestras no mundo. Estive em Aveiro Portugal e assisti uma palestra da galera do CENPES. Em tempo: a Universidade de Química de Aveiro é considerada uma das melhores do mundo, se não a melhor. Me senti bem e orgulhoso. Fui de turista e já não trabalhava no CENPES fazia tempo…

    Conhecemos e vivemos histórias semelhantes e nada…veja a história do metro paulista e do Rio…nada se justifica ver esse bando de aranhas soltas…

    Acho que a culpa não está só nas aranhas da vida…me assusta a “mosca azul”,,,Chegou no poder ela morde…O poder corrompe…E nós NOSFU…como diria a Galera do Pasquim

    muito legal usar um texto de Machado para desenvolver sua bela crônica. Tento usar essa sua “sacada” e nunca consegui. Chego lá!

    Em tempo: tem uma crônica do Machado que fala de um deputado que não se define..”aguardava o melhor momento”.Na época eram dois partidos….vou correr atrás e te envio, se não conhecer..

  4. Comparações perfeitas, Antonio Carlos.

    Selminha, internet indo e vindo. Vou chegando qdo der, ok? (não deu para ouvir a música)
    🙁

  5. “Diante dos detalhes que diariamente vêm sendo divulgados do que se passou nos bastidores da Petrobras nos anos petistas, especialmente nas gestões de José Eduardo Dutra e Sérgio Gabrilelli, de espantar é que ainda permaneçam soltos alguns dos principais responsáveis pelos desvios, e em seus postos os atuais diretores da estatal, que não dão conta de superar os menores obstáculos, como publicar o balanço da companhia minimamente confiável.” (MP)

    O resto é papo furado dos soldistas de plantão e dos “lavados cerebrais”. Ou de quem, de alguma forma, se locupleta da situação.

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