O Dia da Saudade

No último dia 30 de janeiro, minha caixa de entrada de e-mail ficou abarrotada com malas-diretas de todas as empresas possíveis, oferecendo vantagens imperdíveis de compra para o Dia da Saudade. Já tinha percebido o desespero do comércio ao anunciar novas “datas importantes”, como o dia do amigo e até mesmo o dia da sogra, fora a “Black Friday”, que até muito pouco tempo sequer existia no Brasil. Halloween, nem se fala.

Mas que dia é esse? Alguém já tinha ouvido falar no Dia da Saudade? Pergunto, pois, como estou fora do Brasil, pode ser que tenha perdido esse bonde. Porém, até onde acompanhei, é algo bem novo mesmo.

Depois de achar uma baita sacanagem alguém me lembrar por e-mail que agora existe um dia oficial para se ter saudade, analisei friamente e me senti até mesmo aliviada! É simpática a ideia… De certa forma significa menos que o Dia de Finados, já que também se tem saudade (e muita) dos vivos, e ultrapassa o sentido do Dia do Amigo, já que a saudade pega de jeito qualquer coisa material ou imaterial. Boa tacada de marketing, bacana a intenção por trás da capa do lucro.

É lógico que a saudade não tem dia certo para bater, mas criar um dia especial para homenageá-la foi, sem dúvida, genial, especialmente para quem está longe e pode, assim, comprimir o sentimento num dia só! Pode parecer bobagem, mas é que acho muito  perigoso esse negócio de sentir saudade o tempo todo. É um convite para a deprê. Mas agora não! Quando ela começar a bater, sem aviso, como sempre, posso mandar a mensagem para o cérebro de que hoje não é o dia. Agora existe o 30 de janeiro, o Dia da Saudade! Se já era difícil sentir saudade, normalmente, imaginem agora grávida? Ando chorando com a neve que cai! Não dá, minha gente!

Assim, nesse meu primeiro Dia da Saudade, liberei toda a saudade contida há anos. Me veio logo à cabeça toda a bossa que envolve esse sentimento tão nobre, traduzido por uma palavra, que, dizem por aí, só existe em português, e pensei: ‘Quer saber? É hoje!”.

Deixei todos os pensamentos saudosos reprimidos há anos tomarem conta, embalados por todas as músicas e versos sofridos dos saudosos poetas de que consegui me lembrar. Deixei todas as lembranças inundarem o meu coração. Todas as roupas, os momentos especiais, todas as vezes em que minhas amigas me confidenciaram que eu estava fazendo falta e abafei o sentimento. As travessias de catamarã para o trabalho. O cheiro dos processos da Justiça Federal. Todas as idas ao extinto Le Village.  O visual do costão de Itacoatiara, o pôr do sol atrás da pedra do Pampo. O cheiro de maresia no final dos dias de verão em Icaraí, o perfume do cangote da minha avozinha, quase centenária. Meu pai. As idas para o Campo de São Bento com o meu avô. As músicas da adolescência em Arraial do Cabo. Os primeiros namoros. A casa de verão em Friburgo. O cheiro de eucalipto da sauna do Country Club. O cheirinho de leite das bochechinhas da minha filha quando bebê. Ufa.

Desidratei de chorar e me fez um bem danado. Lavei a alma.

E viva para sempre o 30 de janeiro. Já estou com saudade dele.

 Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Tübingen, na Alemanha.

N.R.: Ilustração de Julie Buckley Pimentel

12 pensou em “O Dia da Saudade

  1. Interessantíssima a coisa, Lilian! Deixa para sofrer num dia só, põe a conta no calendário e vamos que vamos… rs…

    Incrível como nossa memória olfativa é presente. Sinto o cheiro do sorvete de maracujá nas carrocinhas da praia de Icaraí, acredita?

    Beijinho e felicidades na casa nova.

  2. Ah, Lilian… Como não se emocionar com o auê você escreve! Estou aqui, mais uma vez, para um encontro terapêutico e dou de cara com o seu artigo. Certamente, que lê-lo antes de entrar, fará diferença, em tudo que irá acontecer lá dentro. Obrigada , sua linda!
    Bjs no seu coração!

  3. Lilinha, muito feliz quando suas amigas comentam por cá. Os navegantes do barquinho conseguem avaliar melhor o quanto você é querida.

    Prestenção: quando chegar, passeio de catamarã e ida ao Campo de São Bento eu garanto. Hehe. O perfume do cangote de Didi vamos sentir juntas, ok?

    Beijocas!

  4. “mais triste do que ter saudade é não ter do que ter saudade” Alvaro Morreyra em “As amargas , não”. e na pagina seguinte: “Esquecer não sendo possível só resta o consolo de lembrar”..
    lilian, suas saudades são as nossas…e gostaria de ter um dia da saudade, mas dedicaria a alguém…uma só…guardaria as outras, “para outras ocasiões”..adorei esse dia…

  5. Querida Liliannnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn, é bom mesmo sentir saudades!!!!!!
    É a conexão mágica com o que exerce fascínio em nosso íntimo…é poder fazer essa ponte sentindo todas as vibrações…livre, sem limites.
    É se sentir intenso…completo de lembranças só nossas.
    Bjs
    LÚCIA

  6. Ai, que delícia de crônica… Gosto da sua leveza, Lílian. Peso pluma nas teclas. Saudade é um troço bom, pra rir ou pra chorar. É humano…. bj.

  7. Gente, quanta alegria! Raissa, prefiro nem comentar… só te abraçar apertado quando te encontrar em breve. Me aguarde! Norminha, que pessoa querida você é! Obviamente está escalada na minha lista de abraços!
    Selma, mais uma vez agradeço pelo carinho e espaço sempre escancarado do Barquinho para as minhas confidências. Te amo e vou cobrar o passeio! Amo esse Bloguetto!

  8. Lilian, texto mais lindo, cheio de emoção e dolorido gostoso de saudades. Mexeu comigo! Bj

  9. Tá aí, “Dia da Saudade”, adorei!
    Mas, se só é possível filosofar em alemão, só é possível sentir “saudade” em português.
    Você pode, pois, filosofar e sentir saudade, Lilian.
    Acho que foi Coelho Neto quem disse que a saudade é a memória do coração. Meu coração é um memorioso…

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