O vendedor de mentiras

Abriu a loja numa rua discreta, como convinha para o negócio. E fez apenas um anúncio também discreto nos jornais. Esperava que os clientes divulgassem eles mesmos a inauguração do seu comércio e a excelência do material vendido. E o primeiro a aparecer, olhando desconfiado para todos os cantos, foi o marido de uma mulher vigilante e brava. O cliente encontrou o dono da loja atrás de um pequeno balcão. Na salinha um armário fechado. Viu também, por uma porta entreaberta, que havia nos fundos outra sala, com um cofre. Uma cadeira diante do balcão, uma mesa redonda e outras cadeiras. E era fraca a iluminação da loja.

O homem atrás do balcão tinha uma idade indefinida, cabelos que pareciam pintados. E lhe perguntou, quase sussurrado:

— Que é que posso fazer pelo senhor?

Hesitou em responder e, quando respondeu, sua voz também saiu em tom baixo.

— Preciso de uma mentira para um caso grave…

O outro não sorriu, como costumam fazer os vendedores. Apenas lhe afirmou que viera ao lugar certo. E continuaram dialogando em voz baixa.

— É preciso que o senhor me informe do que se trata, Para que eu possa indicar-lhe a mercadoria conveniente.

Explicou-lhe que, naquele dia, uma amiga de sua mulher o vira saindo de um motel.

— E imagine o senhor que eu fui lá apenas pegar uma encomenda que me fizeram. Sou vendedor de produtos de higiene e limpeza.

Era um caso muito simples, muito comum, adiantou-lhe o dono da loja. E, ainda cochichando, ofereceu-lhe duas mentiras. Uma delas era afirmar, de pés juntos, que ele é que vira a amiga de sua mulher sair acompanhada de um motel. A segunda, mais complexa, implicava uma carta anônima. Na carta, revelava-se que a amiga de sua mulher estava procurando roubar-lhe o marido, que ele resistia, mas que ela tanto insistia que provavelmente iria fazer uma intriga, para provocar uma briga entre o casal e ver-se assim com o campo livre.

O dono da loja adiantou-lhe que escreveria a carta, com letra feminina, sendo suficiente que ele mesmo deixasse a carta em sua casa, para que sua mulher a lesse.

— E tem uma vantagem: quando a tal senhora for denunciá-lo à sua mulher, ela não só não acreditará, mas ainda vai indispor-se com ela. Desta maneira, o senhor não só livra a cara, mas também não terá mais esta mexeriqueira em sua casa.

Gostou desta última mercadoria oferecida, e comprou-a. O homem da loja imediatamente escreveu a carta anônima, com letra feminina, e terminada como sempre: “Uma amiga.”

O dono da loja não cobrou caro pela mercadoria vendida.

— Como o senhor foi o meu primeiro cliente, vou fazer uma redução no preço.

Deu tudo certo. Sua mulher, ao ler a carta anônima, não lhe disse nada. Mas logo que apareceu a outra, a que vinha contar que o vira saindo de um motel, teve uma discussão violenta com ela, e expulsou-a da casa.

Ou porque tivessem visto pelo jornal o anúncio da inauguração da loja, ou porque o seu primeiro cliente comunicou a outro, e esse outro a outros, a excelência da mercadoria ali vendida, o certo é que o lugar passou a ser muito procurado. Satisfazia também a todos o comportamento do dono da loja: não reprovava nem aprovava aqueles que ali iam ter, limitando-se, depois de ouvi-los e informar-se, a indicar-lhes a mercadoria que lhes convinha. Além disso, ele mostrava ser homem morigerado. Não era visto em lugar nenhum, parece que fazia as suas refeições nos fundos da loja, não tinha mulher nem empregado, e atendia a telefonemas tarde da noite, em casos urgentes.

Mas não eram apenas homens que iam à loja; também mulheres a buscavam para comprar alguma das suas mercadorias. Não muitas mulheres, porque parece que elas também as fabricam, e muito melhor do que alguns fabricantes masculinos. De qualquer maneira, nem elas, nem eles, podiam concorrer com o engenho e a qualidade dos produtos oferecidos pelo vendedor de mentiras. Eram coisas finas e, muitas, finíssimas.

Feita a clientela e logo ampliada, ele não mudou de hábitos. Continuou com a modesta casa, sem luxo e muito menos ostentação. Enriquecia, mas alguma vez chegou a dizer a algum cliente mais assíduo que não era a riqueza que ambicionava, mas servir à humanidade. A mentira, sustentava, era própria das relações sociais, ou estava na raiz dos homens. Se não fosse ela, que agia como um óleo lubrificante para o bom funcionamento das engrenagens da máquina, tudo se quebraria. Ou tal barulho sairia das rodas, dos mancais, com o seu atrito, que ninguém suportaria. E a verdade era uma trava intrusa que, embora raramente, se metia entre os pistões ou nas válvulas, rebentando tudo. A mentira pacificava as relações internacionais e dos Estados, e muitas instituições seculares, indispensáveis, se valiam dela permanentemente, disfarçadas com variados nomes: governo, diplomacia, senado, câmara, comércio, indústria, justiça, educação, religião. A moral mesma era um subproduto da mentira. O direito e a lei, os seus lacaios hipócritas que nunca coibiam o estelionato, a fraude, e até a morte, fingindo detestá-los. Até a língua e a linguagem, com todas as suas regras, serviam para dizer o que não é, com as suas metáforas, a sua retórica. E os gestos. Veja-se, lembrava, um orador em sua tribuna: ele braceja, modula a voz, simula uma emoção que não tem, para fazer aqueles que o ouvem convencer-se de uma mentira oculta mas cheia de lantejoulas.

Essa discrição, essa conduta cautelosa do vendedor, além de apoiadas e respeitadas por todos, faziam que uns e outros o cercassem de proteção, e davam prosperidade ao seu negócio.

— E o senhor, o senhor também mente? — ousou perguntar-lhe um dia um dos seus clientes.

— Meu senhor — ele respondeu —, um bom fabricante ou vendedor não deve viciar-se com os seus produtos. Prová-los, às vezes deve, para avaliar a sua eficácia. Mas usar deles permanentemente o arruinaria. Veja os bons traficantes de drogas: eles nunca são drogados. Os vendedores de bebidas alcoólicas são abstêmios. O médico ingere os remédios que receita a seus clientes?

Na cidade, serviam-se do vendedor de mentiras os seus homens de prol. Procuravam-no, ainda que escondidos ou através de seus assessores, o prefeito, os vereadores, o delegado de Polícia, o promotor de justiça, o juiz, advogados, empresários e comerciantes, funcionários públicos e até o pároco.

Com esta vasta clientela, e com interesses colidentes, era necessário distinguir e estar atento às mentiras de que uns se serviam contra outros, para que não se instaurassem conflitos. No entanto, o vendedor de mentiras era hábil e sempre evitou que a mentira vendida a um não destruísse a mentira vendida a outro. Quando muito, permitia que uma empatassse com a outra, o que contentava a todos. Não é isto que acontece, não raro, na distribuição da justiça? Ele tinha também à sua disposição um plantel de testemunhas falsas, devidamente instruídas.

Começou a vir, então, gente de toda parte do país, das capitais dos Estados e do Distrito Federal, gente que ocupava os mais altos escalões, para encomendar-lhe mentiras sofisticadas, nunca saindo ninguém de mãos abanando. Principalmente, era ele consultor constante dos publicitários, jornalistas, governantes, senadores e deputados, artistas e chefes de seitas religiosas.

Tão vasta rede de distribuição e venda de mentiras tornou-se, é claro, impossível de ser gerida e administrada por um só homem, recluso em sua pequena loja. Ele, a princípio, resistiu o quanto pôde. Mas teve afinal de abrir sucursais em todo o território nacional. E, para garantir a qualidade dos seus produtos, foi obrigado a abrir uma escola para instruir os seus prepostos e discípulos, tarefa a que se dedicou nos últimos anos que passou entre nós. E era de se ver o rigor, o brilho que dava a cada um dos seus alunos, antes selecionados cuidadosamente, e só afinal aprovados e mandados para as sucursais quando dominavam a matéria.

Pouco antes de morrer, ele reconheceu modestamente: o país todo tinha extraordinária e até inata vocação para a mentira. Senadores, deputados, ministros, governadores, o presidente República, tinham particular talento para ela, e serviam-se ainda de uma linguagem apropriada que lhe dava adequada veiculação. O resultado é que, com a sua contribuição, o país estava próspero e feliz, era já o principal rincão da América Latina, na liderança de outras nações.

 Antonio Carlos Augusto Gama

7 ideias sobre “O vendedor de mentiras

  1. O q/ vou dizer é verdade, Gama: q/ espetáculo de história bem bolada é essaaaaa!!!!! Não livrou nem a cara dos calhordas oficiais!!!!!
    Amei!!!!!!!!!

  2. Tudo muito bom, mas o ultimo parágrafo é precioso, é o resumo da opereta chamada Brasil, sil, sil.

  3. Gostei do conto e do seu desenvolvimento. mas uma coisa também é certa: a loja com certeza fica numa calçada e existe a outra calçada e é nessa que passam os que não mentem, a galera do bem.

    mas uma pergunta de quem não quer se calar: quem nunca falou uma mentirinha???

    o triste é que só valorizam as mentiras e os mentirosos…essa turma, como bem escreve o Gama, e os identifica, é que nos incomodam.

    A sorte é que a mentira tem perna curta.

  4. Adorei a genial crônica do mestre Tom Gama. Parabéns por seus textos, perfeitos e inteligentes. Abraçaço.

  5. Parabéns Gama…….. E assim caminha nosso Brasil!!!!!!!
    Abraçãooooooo
    Jotajo

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