Os nomes

Amir al Amar Salak Daher trouxe-me, de uma das suas viagens, um pergaminho com um texto gravado em idioma que podia ser um dos muitos dialetos antigos do árabe, para que o decifrasse, pois sou um especialista não apenas em árabe, mas também hebraico e aramaico. Disse-me que, segundo algumas informações contraditórias, no texto estaria o verdadeiro nome de Deus, e quem o descobrisse seria para sempre iluminado. Mas não quis revelar-me em que remota nação obtivera o pergaminho, e exigiu-me, por ele, trinta moedas de ouro, além da promessa de que lhe transmitiria o nome verdadeiro de Deus, se o encontrasse.

Durante meses, usei de todos os meus recursos para traduzir o texto do pergaminho, e malogrei. Afinal, abandonei-o, lembrando-me de que em muitos livros havia lido que o nome de Deus é impronunciável e está em todas as coisas.

Foi quando, já no fim do outono e eu me agasalhando para o inverno que se antecipava, veio ver-me Aquela Que Tem O Nome De Uma Flor e não o diz senão a mim. Falei-lhe então do pergaminho de Amir al Amar Salak Daher, enquanto, das suas vestes desprendia-se, com os seus gestos, o perfume dos jasmins inebriantes.

E Aquela Que Tem O Nome De Uma Flor me disse que o trismegisto só deixa saber o seu sagrado nome a quem se esqueceu de tudo, mirando as águas de um regato que vão e não voltam mais. Todo conhecimento é loucura e embriaguez, acrescentou.

Logo depois, fui convidado a dar um curso de uma semana num mosteiro de monges mudos, e escolhi o tema: “Dos Nomes”.

Os monges escutaram-me em absoluto silêncio e não me fizeram nenhuma pergunta.

Ao retornar para minha casa, fui sentar-me no pátio interno, onde há um tanque dentro do qual nadam carpas vermelhas e, refletido na água, refleti que todos os acontecimentos se repetem. E tive saudade de mim mesmo, ao pensar que todos os nomes são o mesmo nome que não sei.

Não contava, porém, com Amir al Amar Salak Daher, que veio visitar-me na noite seguinte e trazia uma cimitarra. Com ela na mão, ele me disse: “É preciso degolar todos os princípios e ficar com um só”.

Não me indagou, porém, se achara o nome, o único e verdadeiro nome de Deus, no pergaminho. Mas insistiu para que lhe comprasse a cimitarra, também por trinta moedas de ouro. Recusei.

Ultimamente, sinto tédio de todos os nomes, menos d’Aquela Que Tem o Nome de uma Flor, e não o dizia senão a mim. Mas ela não vem mais, não vem, não vem mais…

Antonio Carlos Augusto Gama

7 ideias sobre “Os nomes

  1. Que maravilha, Gama!
    Os nomes de todos os deuses estão contidos no homem em que irá sempre dar o perfume do jasmim e dos lírios do campo. Desde que não fortaleça o sentido do nunca, pois tudo lhe será possível.
    Realmente, um belo texto.

  2. Tão envolvente……. Amei o “veio ver-me”, fica chique né??! “Veio ter comigo” tb acho o máaaaximo!!!!!
    Tomara q/ o perfumado ser volte e a pesquisa do nome dure a vida inteira, até porque a gente não encontra a resposta nunquinha…….
    Bjkts

  3. O povo aqui fala bonito demais. Vou no simples: putz, esse Gama escreve. Que toma para tanta viagem inspirada?he he

  4. beleza!!! o talento do gama é de dar inveja. Mas uma bela sacada..essa coisa de nome fascina…adorei o comentário de Berenice…

    Em tempo tive um grande amigo, sumido… mudou para são Jose dos campos e nunca mais vi, ou melhor nos vimos. mas não o esqueço.Médico recém formado salvou a vida de meu pai…será que esse seu Daher é parente???

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