Rio de Sempre

RIO DE SEMPRE E AS JANELAS DO BAIRRO

Toda vez que passa pela porta onde viveu Camille Claudel, Chico lê com atenção o que diz a placa fixada na portaria: “Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”: “Há sempre algo ausente que me atormenta”.

Quando em Paris, fui ao Quai de Bourbon,19, na Île Saint-Louis, para conferir. Por várias vezes passei pela porta. Parava, caminhava em direção à Brasserie Île S.Louis para tomar um café ou uma taça de Chardonnay, em outros momentos dava meia dúzia de passos e me deliciava na sorveteria Berthillon para um sorvete de menta, e introspectava a frase de Camile. Cada dia uma leitura diferente.

Paris, entre tantas maravilhas, tem uma que me fascina: suas janelas. Aliás, não são só as de Paris: Madri, Lisboa, Córdoba, Veneza…
Como são lindas as janelas venezianas. Lara, velho amigo, me deu uma dica: sente no Harris Bar e fique olhando para as janelas que dão para o Grand Canale. Imagine as histórias daqueles moradores.
Em Barcelona e Berna, as janelas são tão floridas quanto as de Amsterdã. Não conheço Londres. Falam maravilhas de suas janelas. Até no inverno as pessoas, por trás das suas vidraças, ficam aguçando o imaginário.
Elsie Lessa, quando lá morava, se inspirava olhando a rua de sua janela: “A cada segundo uma novidade.” E mais uma bela crônica nascia. Mas a de Camille é especial, de frente para o Sena, por vezes nostálgico, outras alegre, mas sempre caminhando e com destino: sua foz. Camille sabia que o Sena morria em algum lugar e que levava junto sua vida de amor, arte, sensualidade, admiração, presença, ausência, tormentos.

Quando não tenho nada para fazer vou para minha janela. Sempre pinta alguma coisa. Por isso me defino com uma pessoa urbana. Quero ver gente passando, ouvir buzina de carros, crianças chutando bola ou chorando, barulhos dos vizinhos, do vendedor de vassouras ou do amolador de facas, e alguns outros sons pouco identificados mas sempre prazerosos. Não me vejo morando num lugar onde meu horizonte seja um vazio.

O calor anda insuportável. Me recolho ao meu quarto em busca do ar-condicionado. Seu barulho me irrita mais que o calor. Abro a janela e um ar diferente entra. Olho para as janelas de meus vizinhos do outro lado da rua. Ali morava fulano, sicrano, o juiz do trabalho, o almirante, e, naquela de luz apagada, a Telma. Por onda andará Telma, a nossa Florinda Bolkan? Impressionante como eram parecidas. A família mudou e com a mudança lá se foi a nossa Florinda. Sua janela e suas histórias permanecem.

Converso com Chris, fotógrafa profissional e moradora antiga do bairro.

– Chris, vamos fazer um ensaio fotográfico das nossas janelas e identificar seus “usuários”? Uma forma diferente de contar um pouco da história do bairro.

– Uma bela ideia. Diferente. Precisamos de um roteirista.

– Roteirista não é difícil. O problema são as janelas. Muitas não existem mais. O progresso e o tempo levaram.

– Verdade, mas ainda temos janelas importantes. Imagino.

– Daqui vislumbro uma meia dúzia que fez história.

– Você vai fazer o roteiro?

– Acho que vou passar a bola e a ideia.

– Essa não, Paulinho. Já estou viajando. Logo ali, o Vinicius ficava na janela sem camisa, pensando com um cigarro na boca. O Chico morava em frente, mas não usava sua janela, preferia a varanda da cobertura. Na rua do lado, o prefeito Negrão de Lima fumava seu charuto enquanto sua mulher fazia “ovos nevados”.

– Como você sabe disso?

– Sua filha um dia nos confidenciou. Não se faz mais prefeito que fuma charuto na janela nem mulher que faz “ovos nevados”.

– Tá vendo aquele prédio? Eram as janelas mais frequentadas. Uma fofoca só. Um disse-me-disse. Umas irmãs gêmeas, solteironas, disputavam espaço na janela. O vigário da Igreja morava no prédio. Era chegado a uma janela, uma fofoca, e, pior, sabia das coisas. Sofria de insônia.

– Paulinho, você está falando e minha memória vai acontecendo. Lembra do Sergio Bafo? O cara mais mentiroso do bairro. Vivia na janela paquerando o pensionato das bancárias. Até que um dia as irmãs Ursulinas, que administravam o pensionato, chamaram sua atenção. Veio com papo furado, dizendo que estava na janela contando estrelas e procurando disco-voador. Se entregou. Ele tinha uma luneta escondida. Essa quem me contou foi minha mãe, que também era chegada a uma janela e ficava horas conversando com D. Maria da Penha, mulher do ministro, que morava na casa ao lado. Quando o Getúlio se suicidou, as duas fofocaram tanto que se esqueceram da panela de pressão. Explodiu. Meu pai achou que tinham jogado uma bomba por conta da fofocalhada.

– Chris, acho que vou procurar um cara que escreva. Cada janela tem uma história.

– Paulinho, você tem notícia de alguma serenata acontecida no bairro?

– Só ao contrário.

– Ao contrário?!

– Ali na esquina ficava o Turf Club, casa de jogatina. O Sílvio Caldas era assíduo. Um dia foi à janela tomar um ar e ver se a sorte pintava. Nisso passa a Sonia, filha de um importante treinador de cavalo de corrida. Não se fez de rogado: mandou a capella uma de suas canções. Acho que foi a única serenata em que a música veio da janela. Voltou para a mesa de jogo, recolheu o que restava de ficha e mandou aquela máxima: “Infeliz no jogo, feliz no amor.”

– Cara, já estou me vendo nesse ensaio fotográfico.

– Cuidado. Atrás das janelas não tem só cortinas… Parafraseando Miró, “Primeiro uma palavra, depois um pensamento”… “primeiro uma janela, depois um sonho”.

Paulinho Lima

Por trás daquela janela

Cuja cortina não muda

Que a alma em si mesma estuda

No desejo que a revela.

 

Não tenho falta de amor.

Quem me queira não me falta.

Mas teria outro sabor

Se isso fosse interior

Àquela janela alta.

 

Por quê? Se eu soubesse, tinha

Tudo o que desejo ter.

Amei outrora a Rainha,

E há sempre na alma minha

Um trono por preencher.

 

Sempre que posso sonhar,

Sempre que não vejo, ponho

O trono nesse lugar;

Além da cortina é o lar,

Além da janela o sonho.

 

Assim, passando, entreteço

O artifício do caminho

E um pouco de mim me esqueço.

Pois mais nada à vida peço

Do que ser o seu vizinho.

                                                           Fernando Pessoa (1930)

 

13 thoughts on “Rio de Sempre

  1. Espetacular. Como é gostoso ler suas crônicas , Paulão. Quando nos encontrarmos, por favor, não esqueça de levar o caderno, para que eu possa colocar a estrelinha na sua nota 10. 10*

  2. Salve, Lima, o cronista que descortina o Rio e a vida para os leitores!
    Como uma apaixonada pelas janelas do mundo (trocentas fotos!), só posso dizer que me deliciei hoje. Show!

  3. Janela é voyeurismo puro. E como rende bons filmes, peças e crônicas.
    Concordo que uma janela dando para o nada ou para a parede do vizinho é dureza. Minha melhor paisagem é a do sítio, a paz entra por ela.
    Crônica ótima.

  4. Presente de férias ler o Lima com calma, dar uma risada com a historinha da serenata às avessas e espiar pelas janelas de sua memória.
    Valeu, valeu.

  5. Chico deve gostar mesmo de janelas.
    Toda gente homenageia sua Januária na janela.
    Sua moça feia debruçou na janela, pensando que banda tocava pra ela.
    Ele bem que mostrou a ela, o tempo passou na janela, só Carolina não viu.
    E na sua vila do meio dia, a gente faz fila pra ver Maria, cuja janela é sem gelosia…

    Nosso Bloghetto reabre suas portas e o Paulinho abre as janelas de sua poesia, para que o sol possa vir, iluminar nosso dia.
    Que modo melhor haveria de recomeçar? E, ainda da janela, de noite contemplar a lua cheia?
    Você já escreveu o roteiro, Paulinho!
    Agora é só fotografar, ou filmar, as janelas.

  6. Paulinho, a rota Paris-JB, apreciada da janela, e com olhos de quem sabe ver, arrepia.
    Babei no teclado pensando no Berthillon…

    Beijocas!

  7. olá amigos
    De volta, maravilha. estou chegando do hospital.Vítima de uma bactéria que estragou muinha garganta. mas já medicado e com ares de uma boa noite. Agradeço a todos. Ler comentários e ver o bloghetto de volta… a bactéria foi…, bem esse vai para cartas ao bloghetto.
    não mando beijos..a bactéria , segundo os médicos: é contagiosa…
    Até sempre aqui e na vida…um aviso: viver vale a pena….

  8. Se vale, por isso é melhor viver com um pouco mais de juízo, Paulinho querido! Você não se cuida! Faça-me o favor de se cuidar!!!!! Lenita

  9. Tb queria ser sua vizinha, como disse Pessoa!!!!!!
    Lima, gente como vc faz falta na alegriazinha do outro!!!!!
    Bjkts

  10. Paulinho, retardatária, mas sempre atenta! Estava com muitas saudades dessas suas crônicas maravilhosas, que me despregam do chão e me levam de volta ao Rio. Dessa vez, pelas janelas da cidade. Adoro! Hoje mesmo larguei tudo e passei alguns minutos vendo a neve cair boquiaberta. Espetáculo! Bom retorno, viva a volta do Bloguetto e se cuida!

  11. Paulinho parabéns pela crónica. Gostei……. Quando puder vá ver as janelas de La Curunha. São uma beleza
    Abraçãooooooo
    Jotajo

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