Rio de Sempre

RIO DE SEMPRE, O ‘BAIXO BEBÊ’ E O TADEU

“tuas ondas estão presas em ti como folhas nos ramos. Podes estender os braços até muito longe, apalpar as areias e as pedras, bater nas montanhas, até agarrar e trazer habitantes da terra para os transparentes países que existem dentro de ti…” (Cecília Meireles)

 

– Hoje vai dar chuva!?

Foi assim que encontrei com Rodolfo caminhando em direção à praia. Não entendi nada, mas logo percebi que tinha razão. A  praia estava cheia.

Nesses tempos de falta d’água, a chuva acaba tendo seu lugar. Mais um passo e lá vai Tadeu, craque conhecido na década de 60 como nosso melhor jogador de futebol de areia. Deixou a bola e se tornou um caranguejo da praia. Assina o ponto diariamente. Feliz, só se veste de praia: nariz besuntado de pasta branca, segurando uma raquete de frescobol, short de pano e sandália de dedo.

­ – O tempo não cortou o seu barato?

– Paulinho, você mora longe. Quem corta minha ida à praia é gente. O Leblon anda cheio de amador. A água molha com sol ou sem sol, o frescobol acontece, a cerveja e o mate se escondem, mas os barraqueiros não, futevôlei está lá firme. O filho do Miquimbira arma a rede. Lembra do Miquimbira? O filho seguiu a profissão do pai. De manhã monta a rede e à tarde é nosso despachante, vive de expediente.

Começou a chover à pampa e não tinha escolha, correr em direção à barraca do Pedrinho. Como conversa puxa conversa, encontro novamente o Rodolfo contando lorotas e feliz da vida.

– Sou bi, cara. Meu “bi neto” faz aniversário hoje e tem festa no “Baixo Bebê”.

– Já tenho amigo bisavô!?

– Um monte. Vocês do Jardim Botânico casavam tarde. Aqui no Leblon a gente casava logo. É verdade que também separava logo. As famílias queriam segurança para as filhas. Nenhum bairro da cidade foi mais casamenteiro. Lembra da Dona Maria Tereza? Tinha 4 filhas, uma despesa enorme, a preocupação era tomar conta. Hoje é educar. Com namorado firme e casando, tudo resolvido.

– Verdade! No nosso tempo não tinha namorico. Conhecer os pais já era compromisso. Essa coisa de ficar, nunca ouvimos falar. O Tadeu casou?

– Só se for com areia, água salgada, com as ondas, raquete, bola. Esse se  enclausurou ao ar livre. Arrumou uma boca numa repartição e caiu na ‘letra O’, que nem a Maria Candelária. Assinava o ponto e praia. Agora tudo tem seu preço. Todo final de semana tinha de dar guarida ao chefe da repartição, mas o cara se mancou e sumiu.

Vou dar minha caminhada e pelo que vejo a chuva não cortou o barato de ninguém. A praia estava cheia.

Volto e encontro o Baixo animadíssimo. Pedrinho arrumou tudo. Com barracas de praia montou um estacionamento para os carrinhos de bebê. Numa barraca grande, tipo tenda árabe, estava a mesa com os docinhos e o bolo e, em outra, os convidados. A festa estava armada.

Tadeu chega. Era convidado de uma bi.

-Tadeu, você não dá chance. Está em todas.

– Paulinho, você passa por aqui vez por outra. Isso aqui é que nem Paris, uma festa.

– O Rodolfo está feliz.

– E enxuto.

– Não estou vendo a mulher dele.

– Qual?

– A bi. Quero dar parabéns e vê se lembra de mim.

– Alice não esquece de ninguém. Ela é encantadora e bonita. Nessa época do ano ela se revigora, o carnaval é sua vitamina. Se prepara o ano inteiro, faz ginástica diariamente no Caiçaras. E você vai estar aqui no carnaval?

– Vou, a Vaquinha vai sair. Andou perigando. Já tinha me programado para ir para Secretário, na casa do Kamaroff. Lembra dele?

– Claro, não o vejo faz tempo. Só gostava de trabalhar e velejar.

– Verdade,  só que ainda não aposentou. Quando estava pronto, foi assaltado, coisa violenta. Levaram tudo inclusive a grana que juntou para a aposentadoria. Guardava no escritório.

– Ele mexia com lapidação, craque e honesto. Me quebrou o maior galho. Um cara apareceu aqui  na praia vendendo uma pedra preciosa, acho , não me lembro bem, um diamante. Convenci o cara a ir comigo no Kamaroff.  O diamante tinha carvãozinho. Era fajuto.

– E o pior, quem está deixando ele uma mula é o filho. Nunca quis mexer com a profissão do pai. Estudou economia, foi para uma estatal e já vai se aposentar numa boa. E ele no batente. A segunda mulher é diferente da primeira, uma gastadeira. Sua máxima é o máximo: “Só não sou sócio remido no INPS.  Em lugar nenhum pago mais  mensalidades por tempo de casa: no conselho da minha profissão, no Clube Naval, no Iate. Na Previdência ainda desconto pelo máximo e vou receber pelo mínimo.” Você casou?

– Várias vezes, mas sempre eu para lá e ela para cá. No caso de morar junto só levo o travesseiro. Meu apartamento é intocável.

– O Rodolfo está convidando para cantar Parabéns. Está feliz. Vamos chegando.

– Tem convidado paca. A turma prestigia mesmo com chuva. A maioria é aposentado. Nunca tinha participado de um aniversário no Baixo Bebê. Isso é coisa do Leblon, nem de carioca. Não demora muito vira moda.

– Você vai gostar é do coro.

– Coro?

– Paulinho, presta atenção no som das ondas abraçando a areia. O borbulhar é em tom maior. Motiva, inspira e energiza os bebês. Agora me dá licença que vou comer um pedaço do bolo. Você se deu conta que não tem nenhum animador de festa aqui? O clima do Baixo é tudo.

De longe vejo o Tadeu com sua raquete indo para a beira da praia. Já o esperavam para jogar frescobol. E o Baixo vai esvaziando. Para encher amanhã.

Paulinho Lima

6 thoughts on “Rio de Sempre

  1. O Leblon é uma festa, o Lima é uma festa (e cheio de sorte de não encarar um arrastão pela frente). Aura boa afasta.

  2. Avisa lá, avisa lá q/ eu vou!!!!!! Joguei mto frescobol c/ Millor!!!!!!
    Belezura, Paulinho!!!!!!

  3. Paulinho e seus personagens, nunca se sabe se são reais ou fruto da sua imaginação, juntando os tantos tipos que conhece. Ele mesmo é um personagem, ora Paulo, ora Paulinho, ora Paulão. Só não muda a sua paixão pelo seu “Rio de Sempre”, que permanece, e renasce, em cada uma da sua crônicas.
    O “Baixo Bebê” já é uma instituição, e agora definitivamente placável pelo Paulinho.

  4. O Rio, que já é lindo, fica mais lindo pelo seu olhar. Paulinho.

    Aplausos da “chefa”, como você gosta de dizer.

    Beijocas cariocas.

  5. Lima, meu meio de campo enrolou ontem, mas li suas alegrias leblonianas. Assino todos os comentários acima.

  6. Gam, sempre são reais ficcionados e é quando a crônica acontece…Gosto de encontrar pessoas e vive-las…e saber ainda vivas. Eu e Rodolfo vivemos uma época muito legal e criativa. Crescemos e destinos diferentes pintaram…fui para o samba e ele para a música clássica…
    o Baixo é um alto astral. uma metáfora da vida que existe..estão lá; Bis, avós, mães, pais netos, amigos…uma irmandade literal…e espontânea …
    Fe a Vaquinha Totó está pronta no Tio Sam…terça de carnaval…de tarde pós praia…rsrsrs

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