Rio de Sempre

RIO DE SEMPRE E O LUIZ DA PENHA                 

O samba corre
nas veias dessa pátria-mãe gentil
É preciso atitude
De assumir a negritude
Pra ser muito mais Brasil.

(Luiz Carlos da Vila)

 

– Olha a Beija-Flor ai, gente!!!

Não olhei. Acho que foi a primeira vez na vida que não obedeci a ordem de um  mestre de bateria ou de um puxador de samba. Já desfilei bastante, estou no lucro. Assistir em camarote ou nas arquibancadas, pouco, mas dei sorte: vi a Vila entrar com seu ‘Kizomba’ em tom de palha, um visual que não me sai da cabeça. A minha estreia  foi na Presidente Vargas, em 1963, com o Salgueiro cantando uma tal de Xica da Silva. Em 1984, na inauguração do sambódromo, lá estava eu na Mangueira quando ela chegou ao final do desfile e voltou ao ponto de partida com as arquibancadas cantado nosso Braguinha. Em 1986, voltei ao Sambódromo, aprendendo que tem ‘Xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé’. Minha Mangueira pedia à lua cheia para levar a jangada pro mar e fantasiava a alvorada para exaltar Caymmi e sua velha Bahia. Deixava claro para todos que o mundo se encanta com cantigas que fazem sonhar.

Andei desfilando em outras escolas, como a São Clemente e a Em Cima da Hora, mas desisti. Meu tempo passou.

Mas, neste ano da graça de 201, me enchi de vontade ao saber que a Viradouro resgatava um samba de um amigo e parceiro, o Luiz Carlos da Vila. Ameacei ligar para Jane, sua mulher, e pedir uma fantasia e um espaço em uma das alas. Não fui em frente. Resolvi torcer de longe. A Viradouro recebeu muita chuva do céu. Não se inibiu, a arquibancada cantou “nas veias do Brasil…”. Tenho certeza, a chuva eram lágrimas do poeta Luiz Carlos da Vila da Penha.

Luiz Carlos era um poeta. De pouca instrução, um autodidata. Conhecia todos os nossos poetas e recitava todos. “- Minha escola é a poesia. Lendo Bandeira, Murilo Mendes, Lêdo Ivo, Castro Alves, encontrei meu saber poético.”

Era com os compositores de samba que mais se identificava. Seus grandes mestres foram Candeia, Cartola, Nei Lopes, Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Ataulfo Alves, Jorge Aragão… Os ensaios do Bloco Cacique de Ramos foi seu primeiro palco. Daí em diante, brilhou em outros ambientes do samba. O mundo do samba era seu mundo. Suas poesias abrilhantavam encontros de poetas.

Discordou de seu amigo Nelson Sargento quando este compôs  o samba: “O samba agoniza mas não morre”.

– O samba nunca agonizou, pelo contrário, renasce diariamente.

Recentemente, fui convidado por uma amiga para conhecer a Igreja da Penha. Só conhecia o bairro e seu parque de diversão, Shangri-la. Nunca tinha subido suas escadarias. Conhecia algumas das histórias de suas festas. Encontrei o parque abandonado. Um elevador leva turista até a Igreja. Fiquei maravilhado com o que vi. Limpa, preservada, em seu interior a imagem da velha Penha de França, um conforto para nossos sentimentos. Rezei uma Ave Maria e fui para o pátio olhar a cidade. Me convenci que é da Penha que se tem a vista mais bonita do Rio de Janeiro.

Não concordo com alguns historiadores da cidade que dizem: “Se a Penha fosse na Zona Sul da cidade seria uma das maravilhas do mundo”. Já é, só que esquecida pelas autoridades e cariocas. Uma dívida.

Certa vez, Luiz Carlos comentou que quando criança era lá que brincava: soltava pipa, jogava bolinha de gude e ouvia dos mais velhos as histórias das famosas festas que lá aconteceram. Não tive dúvida, foi aqui que encontrou inspiração para sua poesia. Luiz Carlos morou, quando criança, na Travessa da Amizade, próxima às escadarias.

Não conheço nada da Guiné Equatorial nem de seu modelo político, particularidades de seus governantes…  E vou continuar não me interessando. Vou continuar conhecendo gente da minha terra que tão bem representa nossa cultura. Prefiro meus poetas com suas poesias e canções.

Neste ano,em outubro, a Igreja de Nossa Senhora da Penha de França faz 380 anos. De repente, nos seus jardins, os beija-flores estarão acarinhando nossos poetas. Todos os que cantam e cantaram nossa gente. Como o Luiz.

8 pensou em “Rio de Sempre

  1. Meu prezado,

    escola de samba ? Já era… O Carnaval carioca, o verdadeiro e maravilhoso está nos blocos, livres, alegres e democráticos.

    Você perdeu a beleza que foi, é, o Último Gole.

    Saudações alvinegras!

  2. Eu daria uma passagem só de ida para a Guiné Equatorial a todos os sambistas que “enredassem” países outros, bacilos, queijos e que tais.
    Fico com o beija-flor poético do Lima e nossa cultura tão vasta.
    Lima, se te ocorrer compor um samba-enredo conte com minha parceria.

  3. Paulinho, abaixo todas as ditaduras no samba!!!!!! Deixa fluir como antes!!!!! Liberdade, liberdade, abre as asas……..
    Adorei subir a Penha c/ vc!!!!!!

    Bjkts da Fê

  4. Meu caro Paulinho Lima,

    escrevo-lhe aqui de Itacoatiara para lhe dar uma notícia grave: o carnaval das escolas de samba acabou.
    O mar andou virado e uma lestada forte trouxe-nos o ditador truculento de um país com fome e analfabetismo para dar o tom e ousar dizer “caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”.
    Mas, daqui de minha casa – ó suprema ventura! – vi um bloco renascer e galgar o Costão azul com senhorinhas da fuzarca e moças em flor. Pensei em você.
    Caminhemos nós. Nem tudo está perdido.

    Abraço de sua irmãzinha.

    Itacoatiara, 24 de fevereiro de 2015

  5. Qdo esse pessoal resgatar a emoção e deixar de lado a pompa e o exagero, pode ser; por enqto, como disseram, só nos resta um ou outro bloco;
    e viva a poesia e o bom samba, meu caro Lima.

  6. A Beija-Flor, apesar de alguns desfiles memoráveis, sempre afagou (e afanou) ditadores e ditaduras. Antes de Joãozinho Trinta, era a escola oficial da ditadura brasileira, cantando as maravilhas da “redentora”, nos tempos do “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
    E a “contravenção”, como dito pelo filósofo contemporâneio Neguinho da Beija-Flor, sempre comandou o carnaval das escolas de samba.
    Também acho que o carnaval das escolas de samba agoniza e, provavelmente, morra. Ou fique nessa modorra pra turista bater palma.
    Que vivam os blocos e nossos grandes sambistas, como o Luiz Carlos da Vila, resgatado pelo Paulinho.
    Sempre vivas para o Paulinho e seu “Rio de Sempre”.
    E que nos proteja e abençoe Nossa Senhora da Penha.

  7. Agradeço a todos.Beleza

    Sá, lamento não estar no “Último,,,” no mesmo dia e horário a Vaquinha desfila no seu curral. São 8 anos. Os blocos não são novidades. O Suvaco fez 30 anos, estive presente em todos ,No Simpatia sai no primeiro…mas “abandonei” no meio. 5 anos que não dou o ar da graça…ficou feio e chato.
    Estive esse ano no Escangalha, Areia, Corre Atrás (o melhor da cidade) e na vaquinha. E, claro, no Suvaco, esse é Hour …)

    mas como diz um velho amigo e historiador da nossa música: “as Escolas de samba acabaram há 50 anos”, exagero. Ou Mano Decio da Viola: “expulsaram os fundadores das escolas e a burguesia assumiu..”.mais ou menos isso.

    mas somos guerreiros e vamos continuar, filhos principalmente, colocando o bloco na rua. Bloco tem de andar,,,a rua é seu limite. Infelizmente a Vaquinha não anda. Esse ano andou, mas obrigada pela Ordem Pública que mandou fechar o som e sair do bar. Não tínhamos licença…não é uma coisa tão democrática…mas ordem é para ser obedecida..Ano que vem vamos sair de novo sem licença e a vaquinha vai vestida de pirata…

    no mais é renovar agradecimento e uma bela dica: Conheçam a Igreja da Penha. Um monumento orgulho da cidade

    E ano que vem o Costão de Itacoatiara que me espere…se assim ELE permitir.

    aos meus todos irmãos um beijo

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