Heureca!

“Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e levantarei a Terra”, dizia Arquimedes, o sábio grego, o mesmo que foi tomar banho e exclamou: “Heureca!” Nós outros tomamos banho todos os dias e não achamos nada. Talvez seja porque tomamos banho de chuveiro, e não de banheira.

Os economistas, tecnocratas e planejadores é que estão sempre “alavancando”. Este detestável gerúndio não lhes sai da boca. Tanto alavancam, que as bolsas de valores estouram.

Heureca, aí vem a minha bisteca!

— O senhor achou? — pergunta a minha empregada, vendo-me procurar de um lugar para outro.

Vivo procurando, mas não acho nada. Recorro a Santo Antônio e a São Longuinho, e eles me recomendam: “Continue a procurar, um dia você achará”.

A vida é uma procura, e geralmente achamos o que não procuramos. Mas já que achamos isto, e não aquilo, é contentar-se.

— Afinal você achou ou não achou? — pergunta Dinorá a seu Amadeu.

Amadeu, que sabe como agradar a mulher, responde:

— Achei, Dinorá, achei você.

O homem que achou a sua mulher não precisa achar mais nada.

Perdi o meu bilboquê, desde os doze anos, e não o acho em lugar nenhum. Também se o achasse, já não saberia o que fazer com ele, pois desaprendi como enfiar o orifício da bola na haste.

Vivemos aprendendo e desaprendendo. A certa altura da vida, talvez mais valha desaprender do que aprender. Despojar-se do excessivo. Acumulamos coisas que, ao fim, não servem para mais nada.

Leve, leve como uma pluma, o vento nos levará. A vida é vento, e sopra, sopra, sem parar.

Annibal Augusto Gama

9 thoughts on “Heureca!

  1. Com graça e leveza, sempre um convite à reflexão.
    Cargas ao mar, Annibal. Despojemo-nos.

  2. Que coisa mais bonita, Annibal. Vou passar “prá frente”. como falou Berenice. leveza e reflexão. Gostei!!!!!!!!!!!!!!

  3. Me deixem só com minhas memórias na bagagem. O resto é resto.
    Que crônica gostosa de se ler numa 2f. Caramba… amei!

  4. “O homem que achou a sua mulher não precisa achar mais nada.”
    O q/ eu faço com um fofoleto q/ escreve uma coisa dessas???!? Morrer de paixão, só isso!!!!!
    Bjkts da Fe para ele

  5. – Concordo com o cronista quando, ao final da sua crônica, diz que, a certa altura da vida talvez valesse mais a pena despojar-se do excessivo, eis que “acumulamos coisas que, ao fim, não servem para mais nada”.
    Tomando por base, exclusivamente, a minha própria vivência, esse pensamento ronda a minha mente, hoje em dia, com certa regularidade. Aposentado, por livre e espontânea vontade, após uma carreira jurídica iniciada aos 24 anos e que se prolongou por outros trinta e seis de dedicação total, pendurei, definitivamente, com absoluta tranquilidade e sem remorsos, a veste talar, decidido, inclusive, a recusar qualquer atividade, mesmo eventual, que tivesse relação com a carreira encerrada (consultoria, assessoramento, pareceres, p.ex.), para buscar, apenas, as recompensas possíveis do muito do viver do qual fui privado pela dedicação integral exigida pela profissão.
    Então, hoje, contemplando as minhas estantes lotadas de livros técnicos e pastas pejadas com milhares de páginas produzidas ao longo dessas mais de três décadas e meia, é inevitável sobrevir-me o sentimento registrado pelo cronista com muita propriedade:
    “Acumulamos coisas que ao fim, não servem par mais nada”…
    Isso mesmo. Podem ter utilidade para filhos, amigos, jovens iniciantes, mas, no que me diz respeito diretamente, se antes me foram fundamentais, no sentido lato desse termo, hoje não servem para mais nada…

  6. Malato, serão necessárias três investidas:

    Na primeira você saberá exatamente o que deve ser jogado fora, volume morto. Não haverá nem hesitação de sua parte. Se houver, guarde, não é a hora.
    Na segunda, você irá naturalmente rever/ folhear/ recordar… Se houver lembranças boas de convívio, momentos profissionais marcantes, retenha (a razão e o coração lhe dirão). No bojo do que se vai, se for útil a terceiros, doe.
    Na terceira, meu caro, a essência estará diante de seus olhos (vai doer um tiquinho ver 34 anos de uma vida resumidos a algumas prateleiras, num canto de armário), mas valerá. Ela irá com você aonde for.

    Meus 27 anos de sala de aula estão aqui à minha direita. Volta e meia sento no chão, abro a pequena porta, revisito tuuuudo. Sensação de dever cumprido, dedicação… Não tem preço.

    Boa sorte! 🙂

  7. – Não, Selma, em momento algum tive intenção de desfazer-me e nem, muito menos, de jogar fora o acervo reunido ao longo da minha vida profissional. É claro que o material em questão, tem um considerável valor sentimental que não poderia ser ignorado e descartado sumariamente, vítima de uma insensibilidade que estou longe de possuir, felizmente. Não! Ele vai permanecer onde está, à disposição dos filhos, dos amigos, dos jovens iniciantes e de quem mais julgá-lo útil, como, aliás, referi-me no comentário, acima. Neste, observe-se, limitei-me a enfocar o assunto do ponto de vista estritamente prático – que isto fique claro –, uma vez que não pretendo voltar às lides forenses, ou a quaisquer atividades correlatas. Como se pode depreender, tal disposição termina por tornar a literatura e a documentação arquivada, do ponto de vista prático, repito, sem qualquer utilidade para mim, especificamente.

  8. Entendo agora, Malato. Não se deu como comigo. Fui guardando, guardando, com pena de me desfazer de um mínimo bilhete que fosse. E a montanha foi crescendo ao longo dos anos. Quando precisei fazer a “limpeza”, precisei passar pelas etapas que citei e pela complicada “escolha de Sofia”.
    Ficou tudo mais claro no seu comentário acima. Você se refere à utilidade de tal acervo, que imagino precioso, para você, pessoalmente. Perfeito.

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