Os brinquedos

A mãe comprou para o filho um brinquedo, que era um saco de risos. O menino, durante uma semana, manipulou pela casa o saco de risos, atormentando todos, até o cachorro e o papagaio. Eram risos, gargalhadas, guinchos, de todos os tipos, pelos quartos, pelas salas, pela cozinha, pelo banheiro. Até que o menino enjoou do brinquedo, e atirou-o para um canto.

O pai, então, deu de presente ao menino um saco de choro. E novamente, o menino, dia e noite, andava de um lugar para outro, com o saco de choro, e ouviam-se por toda parte choros de cortar o coração, soluços, gemidos e lamentos. Até que, outra vez, o menino aborreceu-se com o brinquedo, e abandonou-o debaixo da escada.

Aí, a madrinha trouxe para o afilhado um saco de espirros. E ele, com o saco de espirros, ia e vinha, espirrando em todos os tons. Eram espirros sufocados no lenço, outros altos, espalhafatosos, estrondejantes, desde o atchim! até o at… at… at… CHIM!

Mais uma vez o menino cansou daquele brinquedo, e largou-o não se sabe onde.

O menino cresceu silencioso, tornou-se moço, adulto, maduro e velho, calado.

Um dia, afinal, ele disse: Estou com o saco cheio. A minha vida não passou de uma sucessão de risos, choros e espirros.

Antonio Carlos Augusto Gama

6 ideias sobre “Os brinquedos

  1. Gama, meu querido, de risos, choros, espirros e engasgadas, como a que me deu agora lendo sua crônica. Beleza!

  2. Os baús vão enchendo, o tempo vai passando……. Vida minha vida……
    Bjkts, Gama!!!!

  3. Tem uma música do Chico que pergunta o q o velho leva da vida vivida, do tempo, o q há pra lembrar na bagagem… Muito linda, lembrei dela lendo a crônica.

  4. Fefê, Lilinha cá está em terras d’Arariboia, matando a saudade do colo de mãe, do cheirinho do cangote de vó, dos amigos, do feijão… Feliiiiz com a barriguinha, com a filha convivendo com os primos, a quem ensina alemão, hehe, e logo que retorne a Tübingen, na medida do possível, voltará a nos deliciar com suas crônicas, doçura e simpatia.

    Beijocas, Fê e amigas queridas!

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