Rio de Sempre

Vimos lendo e ouvindo maravilhas sobre os 450 anos do Rio, mas faltavam as palavras apaixonadas do nosso carioca maior… A elas, pois.

RIO DE SEMPRE, RIO DE TODOS

Contar a história de uma cidade, tanto oficial como oficiosamente, é falar de seus habitantes, visitantes, governantes e amigos que por aqui andaram, com suas conquistas, suas obras, seus sonhos, sua  irreverência e que, com graça, ornaram seus espaços urbanos.

O Rio de Janeiro não é diferente de outras cidades.Todas têm a sua história, que é contada pelo falar e olhar dos que nela vivem. A nossa verdade é a verdade do nosso olhar e da história que criamos, contamos e conversamos. E assim vamos criando o espírito da nossa arte. A boa conversa tem humor, novidades, curiosidades, histórias passadas e vividas, as quais acabam se perpetuando no nosso imaginário e vão sendo transferidas como um saber que é de todos.

Definir o carioca como uma pessoa com certo viés cultural é minimizar a diversidade da cidade e de seus habitantes. Somos a síntese de várias culturas, receptáculos de verdades e mentiras, de jeitos, de paixões e saudades, de encontros e andares. Somos uma cidade que recebe pessoas de todas as origens e formações. O Rio cresce nas suas diferenças. Como nos fala Sílvio Romero, conhecedor profundo da sociologia e da etnologia brasileira: “Os artífices da nossa mestiçagem foram o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.”

A leitura que fazemos da cidade é a do olhar da sua gente. Não temos nunca a pretensão de nos vangloriar de uma coisa que sabemos ser de todos. Por isso somos maravilha, temos fama de desordeiros, gozadores, arruaceiros, anárquicos, trabalhadores, religiosos, místicos, esportivos, amantes de tudo, de todas e de todos, gente dos jeitinhos ou sem jeito, dos afinados e desafinados, porque nosso canto é único e nosso cantar é a harmonia das nossas inquietações: numa esquina criticamos, para esquecermos na outra. Enaltecemos nossas conquistas afetivas, nossas belezas naturais, nossos casos e até nosso caos.

Sem arrogância, mas com alegria, descobrimos num simples bate-papo de esquina ou de bar o que a ciência leva tempo pesquisando. Mas o que somos de fato é contadores das histórias que inventamos, fofocamos, ou que nos contaram, sempre à maneira de cada um.

A quem interessa saber que D.João VI, numa procissão de Corpus Christi, teve uma crise digestiva; que um prefeito mandou encher de pardais portugueses nossas praças e acabar com os tico-ticos brasileiríssimos; que D.Pedro II se correspondia com mulheres lindas, elegantes e cultas pelo mundo afora; que as Confeitarias Pascoal e Colombo eram os locais onde se encontravam jornalistas, artistas, poetas e boêmios que, com suas artes e blagues, animavam e abrilhantavam o cotidiano da cidade; que D. Marianinha, mulher do Marechal Deodoro, proibiu a entrada, em sua casa, do coronel que trazia o manifesto da República para ser assinado; que os Bota-Bicas alegravam as ruas sujas do largo do Paço e que a primeira revolta contra o governo da nossa cidade se chamou “Revolta da Cachaça”? E são tantas as histórias, algumas até contraditórias, pouco importa, que, com certeza, animam e fazem parte do nosso cotidiano cultural e social. Gostamos de cultuá-las através de mitos, ritos e verdades.

Todo o anedotário carioca já registrado, escrito em biografias, passado oralmente a amigos e preservado, ainda hoje, agrega valor à nossa história. Marca atitude, comportamento, ambiente, conceitos e preconceitos, contextualiza valores de uma época e de um tempo. Mudam os personagens, mas as histórias ficam, ganham novas roupagens, outros atores, outros cenários.

São 450 anos de histórias, história de nossa gente, seus casos, destemperos, graças, pileques, prisões, preocupações, inspirações e belezas que emolduram nosso cenário.

Cidade dos nossos Vice-Reis que chegaram, se aboletaram e nos embelezaram, do Príncipe João, dos Índios Tamoios, nossos primeiros habitantes, dos poetas e boêmios Emílio de Meneses, Olavo Bilac, Paula Ney, Bastos Tigre, e tantos outros… Do Marechal Deodoro, dos dois Pedros, o Primeiro e o Segundo, dos nossos imortais da Academia de Letras, políticos, jornalistas, sambistas e chorões, boêmios, pintores, chargistas, uns mais conhecidos que outros, uns até totalmente desconhecidos, mas que vivenciaram momentos marcantes da vida social da cidade e que servem de exemplo para as gerações atuais.

O Rio recebe parabéns e agradece, com carinho especial, aos cronistas e suas crônicas, estilo literário aqui criado, e que nos encanta. Obrigado, Rubem Braga, Antônio Maria, Álvaro Moreyra, Cecília, João do Rio, Elsie, Carlinhos de Oliveira, Fernando Sabino, Novaes, José de Alencar, Clarice, Stanislaw Ponte Preta, e todos os que esqueci.

Obrigado, Elizeth, Marlene, Emilinha, Maysa, Elis, Dolores, Sílvio, Roberto, Nelson, Orlando, Lúcio, Miltinho, artistas que, com seus cantos e encantos, compuseram o fundo musical do Rio. Cantai parabéns para os nossos 450! A cidade merece.

Paulinho da Viola, Jorge Aragão, a turma do Casuarina, Carlos Cachaça, Ney Lopes, Mussum, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Dona Ivone, Beth Carvalho, Cartola, Zé Keti João Nogueira, Elton Medeiros, Blocos de todos os Bairros e Escolas de Samba, obrigado! Afinai vossos pandeiros, tamborins, surdos, cuícas, cavaquinhos e violões. O Rio pede passagem. É tempo de festa, de samba e chorinho.

Machado, Lima Barreto, Noel, Tom, Bandeira, Drummond, Caymmi, Vinicius, Pixinguinha, Paulinho Mendes Campos, Mário Lago, Chico, Ary Barroso, Billy Blanco, muito obrigado! Somos mais belos e definitivos com sua prosa, sons e versos.

“Poetas, seresteiros, cantai! É chegada a hora.” Este dia é de todos. E sempre.

Paulinho Lima

NR: Na foto do filho da blogueira, vista de um restaurante de Santa Teresa, em tarde memorável.

9 ideias sobre “Rio de Sempre

  1. Li muita coisa boa sobre o Rio e seus 450 anos.
    Mas faltava o nosso cronista e o seu Rio de Sempre.
    Sem eles, a festa não estaria completa.
    Paulinho se inclui no mesmo rol daqueles todos por ele citados na sua crônica.
    Fosse eu Caetano, diria que ele é a mais completa tradução do Rio.
    O Rio de sempre, o Rio de todos, o Rio que é seu, Paulinho!

    A foto do filho (qual deles? é um deslumbre, Selminha!
    Cartão postal!

  2. Paulinho, nosso barco navega tão feliz com você a bordo… Obrigada, amigo.
    Quem o acompanha agora, e antes, na Maria Helena, sabe da legitimidade de sua carioquice e, portanto, da verdade com que assina cada parágrafo da crônica de hoje.

    Aplausos do Bloghetto! Do Leme ao Pontal, passando por Madureira, Vaz Lobo e Irajá, não tem pra ninguém!

    Beijocas!

  3. Meu prezado,

    salve a Muy Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro ”

    Saudações Alvinegras!

    P.S. meu tio Estácio era botafoguense.

  4. Lima, gosto de quem gosta deste céu, deste mar, desta gente feliz, então gosto de você, cronista carioca sangue bom.

    Foto de arrepiar, Selminha!!! Vídeo idem.

    E que Deus abençoe os próximos 450. Brincadeira não vai ser.

  5. Cada nobreza citada foi uma viagem, Paulinho. Homenagem merecida a todos esses monstros. Palmas que eles merecem!

  6. O Lima cantando parabéns pro Rio e suas personalidades geniais é luxo só……
    Salve o Blogheto, salve o Rio e salve-se quem puder!!!!!!

    Bjkts da Fe no menino do Rio

  7. O Rio já está mais velho. As festas aconteceram, Vão parar? Acredito que não . A cidade é, como muitas, uma festa. A cidade vai mudar e mudar sempre. Uma coisa não pode e não deve mudar, o espirito do carioca. Será que está mudando? tenho dúvidas. Pode estar mudando e isso assusta.

    Mas a cidade responde e isso nos enche de esperança. Essa esperança é o maior legado que os 450 podem nos deixar. Acredito!

    aos amigos que enviaram seus comentários, agradeço

    Comemorei e com alguns excessos…Valeu a pena.

    Ao Duda agradeço a bela foto. Foi tirada do Aprazível?

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