Rio de Sempre

(Casamento de Cartola e Dona Zica, Rio de Janeiro,1964, em foto preciosa de Rubens Barbosa)

RIO DE SEMPRE E OS 5 MINUTOS PARA O DIA TERMINAR

Faltavam 35 minutos para o dia terminar. Eu aqui no meu bar de plantão filosofando sobre tudo. Um exercício que vez por outra faço, mas a solidão em dia de festa é cruel. Na vida, além dos improváveis, existem os imponderáveis, e surge do nada a Martha, linda como sempre. Martha é uma pessoa que ainda me faz votar e abandonar minha alienação. Votamos na mesma seção eleitoral. É onde nos encontramos.

Já chega falando e cobrando: – Comemorou muito?

– Que nada, fiquei por aqui mesmo. Vão acontecer muitas festas durante o ano.

– Verdade, o carioca é festeiro. Agora, tem uma coisa, amigo. Nessa tristeza não se comemora nada.

– Engraçado, você nunca gostou do Bar Jóia.

– Tenho preferências melhores.

– Mesmo a essa hora da noite?

– Paulinho, se estou na rua é para curti-la com tudo que a noite possa me oferecer. Ainda mais num dia em que a cidade está em festa. Você viu o foguetório?

– Ver não vi, assisti na televisão.

– Que tristeza… Que tal sair por aí?

Não resisti ao convite, nem às minhas tentações, e não mais que de repente me vejo chegando no Lamas. Na porta, Mário de Andrade conversava com Emílio de Meneses e Olegário Mariano. Bastos Tigre gritava : “Se é Bayer é bom, é melhor ainda ser carioca no dia dos seus 450 anos.”

Martha vibrava com a nossa chegada e foi logo pedindo um chopp.

– Me dá a sua bolacha. Vou pedir autógrafos.

– Toma.

Martha volta com as duas bolachas cheias. Niemeyer, Getúlio, Portinari, Di, Monteiro Lobato…  E outras assinaturas que, por conta da pressa, não me recordo. A turma estranhava a ausência de Osvaldo Aranha, o inventor de um filé famoso, e das francesas inspiradoras do “Filé à francesa”.

– Vamos para o Bar Luiz. Está rolando uma tremenda festa e uma grande confusão. Os estudantes do Pedro II estão querendo quebrar o bar.

– Como você sabe?

– Sabendo. Meu dedinho é um tremendo telefone. Conta tudo.

Era verdade. O Bar Luiz, que anteriormente se chamava Berlim, e seu dono, o alemão Adolph, estavam assustadíssimos. Estudantes à porta queriam quebrar o bar por conta de imaginá-lo um nazista enrustido. Mas tudo foi resolvido. Ary Barroso se colocou na porta: ” – Aqui, enfurecidos, nem da torcida do Flamengo entram. A cidade comemora seu aniversário, é dia de festa e de muita alegria.”  Sacou sua gaitinha e tocou o hino do Flamengo. Os estudantes voltaram para o colégio cantando: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. Ary entrou para a história como o homem que salvou Seu Adolph e o seu bar. Acalmados os ânimos, os presentes cantavam “Isso aqui ô, ô, é um pouquinho de Brasil…”, animados pelos Novos Baianos, sob o olhar assustado de Carmen Miranda e Chico Alves. Tomamos mais um chopp e degustamos um salsichão com salada de batatas. Eis que chega o Albino Pinheiro com sua namorada, mulata linda em seus 1,80m. Foi o suficiente para a turma mudar a música e passar a cantar Faceira. Ary vibrava. No fundo ouvíamos a voz do Jaguar e da esquerda festiva. ” – Nem em Berlim se come tão bem.”

– Paulinho, essa turma do Pasquim vai toda para o Zicartola. Acho melhor a gente se mandar para pegar lugar.

Não deu outra, casa cheia: Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Dona Ivone, Roberto Ribeiro, Zé Kéti, Almir Guineto, Billy Blanco, Haroldo Lobo, Lamartine e João Nogueira já comemoravam os 450 anos da cidade. Martha tinha prestigio e uma mesa nos recebeu. Ganho logo umazinha de Parati e bebo de um gole só. A noite cresceu. Dona Zica e Cartola, proprietários do bar, homenageavam Zé Kéti  e a cidade, nada mais justo. Sua composição “Eu sou o samba”, uma ode à nossa música, era cantada como se fosse um hino. Martha não parava, com suas bolachas na mão. Só pegando autógrafos.

– Martha, estou chegando ao meu limite.

– Cara, a Colombo está bombando. E é para lá que vamos.

– Você enlouqueceu…

Chegamos e somos logo saudados por Bilac. Um cálice de Porto chega às minhas mãos – é a bebida favorita do poeta. Pela rua passa João, o do Rio, e não entra. Não gosta do seu Lebrão, proprietário da casa. Uma empadinha de camarão e um ovo recheado surgem como do nada. Degusto prazerosamente. Os vitrais da Colombo tremem. Paula Ney, cheio de graça, chega contando as últimas da cidade. Num canto, sem muito alarde, Chiquinha Gonzaga conversa com Machado. Lima Barreto se recusa a entrar. Já estava pronto para se mandar para o Engenho de Dentro. ” – Isso aí está cheio de burgueses!”, exclama. Uma expectativa: o imperador Pedro podia chegar a qualquer momento.

– Paulinho, vamos nos mandar. Essa turma não vai durar muito aqui. Vou até o bar Vermelhinho, na Araújo Porto Alegre. Eu vi o Di comentando que estava indo para lá. Essa turma não é de muita festa, mas deve pintar algum discurso.

Não dá outra. Jorge Amado, Prestes e o pintor Santa Rosa tentam convencer Drummond a entrar. O poeta passa batido. Já era tarde da noite. Não ficamos muito tempo. O papo ideológico era maior que a comemoração.

Chegamos no Amarelinho, na Cinelândia, onde uma festa estava acontecendo: Mário Lago, Ataulfo, Wilson Batista, Lupicínio, Lúcio Alves, Miltinho, um monte de gente. Parecia até o tempo do Café Nice. Chegamos junto com Nélson Gonçalves trazendo Aracy e Elizeth a tiracolo.  Ao longe, as irmãs do Convento da Ajuda preparavam seus doces para servir no café da manhã daquela turma. Não esperamos. O Villarino me esperava.

– Martha, estou indo para o Villa.

– Excelente ideia!

Na porta, dou de cara com Paulinho Mendes Campos esperando Vinicius e Tom, que não chegaram. Stanislaw, lá dentro, escrevia mais uma crônica. Antônio Maria e Fernando Lobo discutiam a autoria de “Ninguém me ama”. Bandeira achava a maior graça e perguntava pelo lança-perfume, aquele da sua poesia, e ainda dizia que o dia tinha a cara de Pasárgada. As irmãs Batista, Linda e Dircinha, cantavam “Se todos fossem iguais a você”.

Martha , incansável, entra no táxi e avisa ao Motorista Tião, taxista de plantão do Villa:

– Vamos para o Degrau.

Uma loucura! A turma do cinema em peso: Carvana, Paulinho Saraceni, Antônio Pedro, Marília Pêra, Peréio, Sílvia Bandeira, a turma que do ‘Bar Esperança’. Uma gritaria geral, tinha muita gente. Paulinho avisava à turma para não levantar poeira, podia dar bode. Entramos na onda. Martha conhecia todo mundo na maior intimidade. Tinha sido continuísta de vários filmes nacionais. Não fiquei por fora, meu amigo David Pinheiro comandava uma mesa, e me aboletei. Tinha cineasta de pé em cima das mesas. Uma zorra. Carvana gritava: ” – A cidade merece!”. Saraceni reclamava que ninguém tinha uma câmera na mão e um ideia na cabeça.

A madrugada já sinalizava seu final. O sol estava pintando, colorindo a festa do dia anterior.

– Martha, vou me mandar. Luís Reis está tocando no Baco’s, não vou dar mole. Já que entrei no seu périplo festivo, agora vou até o final. Nessa caminhada esquecemos de passar em Copa e Ipanema. Dolores, Helena de Lima e Maysa deviam estar fazendo a maior festa no Cangaceiro, e Tom, Vinicius e João cantando no Le Rond Point. Perdemos. Só daqui a outros 450.

– Paulinho, você sempre reclamão. Nem passamos na porta da Lapa. Você imagina como estão o Capela, o Bar Brasil , o Enchendo a Linguiça e o Semente, da Tereza Cristina?

– Nem quero imaginar. Pior é saber que Augusto Frederico, Neruda, Cecília, Braga, Clarice, Lygia, estão versejando no Alcazar e a gente perdendo!

O Baco’s estava com as mesas e cadeiras recolhidas, mas o piano de Luís Reis abertíssimo! Martha, já totalmente de pileque, convida Luís para um café da manhã no Jobi.

” – Jobi, não”, alertou Luís. Vamos para a Padaria Rio-Lisboa. A galera da bossa nova está toda lá a essa hora. Carlinhos, Menescal, Ronaldo, Wandinha Vagamente, Narinha e Joyce sempre terminam a noite lá. Ainda mais hoje, que devem ter andado pela cidade, de bar em bar, atrás de festas.

Chegamos à padaria. Uma multidão. Era a única aberta na Zona Sul. Luís, Martha e eu nos incorporamos ao grupo.

Larguei todo mundo e peguei o primeiro táxi que passou.

– Motorista, me acorde no Bar Jóia.

O motorista passa o dedinho numa telinha e descobre o melhor caminho.

Martha tinha razão. Dedinho que sabe das coisas…

Paulinho Lima

httpv://youtu.be/RVNg5Ea6QwY

7 thoughts on “Rio de Sempre

  1. Woody Lima, que 5 minutos bem curtidos! Palmas para todos os personagens, principais e coadjuvantes, e prêmio de melhor roteiro… de bares e restôs! Foi boa a festa. Tim-tim!

  2. Berê, fiz a mesma associação e acho que Paulinho Allen….rs… também.
    Bacana a homenagem a tanta gente e a tantos locais que nunca deixarão de ser o melhor que o Rio tem para contar.

  3. Que crônica prodigiosa, Paulinho!!!
    Como Berê e Matilde também me senti numa Meia-Noite no Rio de Sempre.
    Você, como sempre, nos conduzindo magicamente.
    Que venham outros 450.
    Outro Paulinho não vai ter.

  4. Agradeço aos amigos.

    foi uma noite agradável. Evidentemente que não tão intensa. O adiantado da hora.. é sempre inibidora para os nascido na década de 40. Foi bastante reduzida, mas inspiradora.

    Sei que nossa cidade quando está acessa o carioca curte.

    Acender uma cidade é iluminar sua história.

    bjs a todos

  5. Parabéns Paulinho…….Acho que não foltou ninguém nesta festa…….
    Abração
    Jotajo

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