Rio de Sempre

BUTTER

RIO DE SEMPRE… CAMINHA

O dia é hoje, março de um ano que batizamos de 2015. Duas passeatas aconteceram: sexta e domingo. Rio de Sempre se fez presente em ambas. Duas festas com coloridos diferentes. Lados bonitos e feios se misturavam. A de sexta, num cair de tarde escuro e sem brilho. Pessoas cantavam, não cantei. Não tinha emoção. A outra, um domingo de sol pouco brilhante, cenário fantasiado pela esperança. Muita emoção.

Entramos no caminho e seguimos. Um chamamento de quem acreditava no clamor de uma gente que pedia respeito e ordem. Lembrei do canto de Nicolas Guillén, poeta cubano, e do seu poema ‘Sigue’…

“camina, caminante,

sigue;

camina y no te pare,

sigue (…)”

Solitário caminhava no meio da multidão. Crianças,  jovens adultos, todos os gêneros. Todas as falas. Acenava para algumas e virava a cara para outras. Mas em todas uma coisa em comum: acreditavam nas suas faixas. Uma ode à espontaneidade. Democracia.

“Cuando pase por tu casa

no le diga que me viste:

camina, caminante,

sigue.”

Continuei caminhando convencido que meu canto coral expressava sentimento.

Acenava para alguns poucos conhecidos, outros abraçava com alegria. Feliz.

“camina y no te pare,

sigue;

acuérdate de que e mala,

sigue! ”

Procuro pessoas, não as encontro, ou melhor, estava diante de um grande encontro de almas. Um grito forte embalava a todos. Podemos.

Cansei e parei, os caminhantes continuavam e seguiam. Uma certeza: um caminho sem volta.

Paro de frente para o mar e o vejo sendo abraçado pelo céu. Era o horizonte. Um destino.

Quero cantar sozinho e vejo pescadores chegando carregando seus arrastões. Lembro de Edu e Vinicius. Vou mais longe e chego a abril de 1965. Já se passam 50 anos e lá estava cantando a canção que eternizou Elis e uma geração. Canto.

Em 1965 vivíamos o início de anos duros. Nossa cultura reage. ‘Arrastão’ ensina o caminho. Poetas embarcam nessa canção. Cantamos mais forte e nosso som não se apagou.

Elis continuava balançando seus braços num gestual que convidava a não nos intimidar. Uma questão de tempo.

“Eh! tem jangada no mar
Hei! hei! hei!
Hoje tem arrastão
Eh! todo mundo pescar
Chega de sombra João…”

Valha-me Deus
Nosso Senhor do Bonfim
Nunca jamais se viu
Tanto peixe assim..”

Olhei para trás, minha rede cheia. Minha gente na rua cantando “que era brasileiro com muito orgulho e amor”.

Volto para minha casa, depois de parar  num boteco desconhecido e brindar à multidão.

Tomo outra e volto aos 65, o primeiro festival, e me lembro da canção que ganhou o segundo lugar: “Valsa de um amor que não veio”. Seus autores, Vinicius e Baden.

“(…) E eu tenho um templo no coração
Mas as palavras não têm som nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos
E te amando em prantos
Cantar novos cantos
Proclamando o amor.”

Brindo ‘Arrastão’. A canção que nos encheu de esperança e canto, novos cantos proclamando o amor. Não esqueço o segundo lugar.

Parabéns, cinquentão. Siga e não pare. Sigamos. Vamos continuar jogando arrastão. Elis ainda vive com seu gestual de chamamento.

Rio de Sempre nesse domingo de março nunca foi tão Rio Brasileiro.

Paulinho Lima

5 ideias sobre “Rio de Sempre

  1. Vamos juntos, caminhando e cantando!!
    Crônica muito bonita, emocionante, Lima.

    Salve Elis, a maior!!

  2. “Caminante, son tus huellas
    el camino, y nada más;
    caminante, no hay camino,
    se hace camino al andar.
    Al andar se hace camino,
    y al volver la vista atrás
    se ve la senda que nunca
    se ha de volver a pisar.
    Caminante, no hay camino,
    sino estelas en la mar.”
    (Antonio Machado)

    Paulinho, além desses versos de Antonio Machado, fui arrastado pela sua crônica, caminhando e cantando e seguindo a canção.
    Vida comprinda, estrada alongada. Vamos indo.
    Caminhemos.
    “O presente é tão grande, não nos afastemos
    Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

    Obrigado, amigo!

  3. Paulinho, na passeata de Copacabana, também caminhei, cantei e me emocionei com o Hino à Bandeira, que amo. Soltei a voz. E como foi linda a festa, ó pá…

    Beijocas! Ótima crônica-registro!

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