Alento

Acovardada e aprisionada pela violência que grassa, como nunca, no Rio e em Niterói, desisto do prazer de assistir ao Minczuk regendo a OSB em Miguez, Wagner e Mahler, na Cidade das Artes. Sem falar no trânsito daqui até a Barra. Só indo de helicóptero. Ou de véspera.
Concedo-me, então, a livraria aqui pertinho e uma coletânea do Ivan Junqueira, que folheio aleatoriamente, saboreando uma xícara de chocolate mexicano.
O livro é “Essa Música”, o poema, “Cidade”. E meus olhos voltam a brilhar.


“Cidade dos crimes e traições, da violência, do aço das navalhas,

mas também da primeira e ofegante namorada
que escorregava sinuosa entre os meus braços,
como um peixe insubmisso no cárcere do aquário.
Helena chamava-se, e o sol lhe incendiava as tranças douradas,
que escorriam pela nuca e desaguavam nas espáduas,
águas convulsas de uma catarata, espuma irisada
na qual, náufrago, eu subia e descia e me afogava.”

11 pensou em “Alento

  1. André, que grata surpresa o livro do meu poeta querido… Estava aqui chateada por não poder ir (sem stress) a um concerto sequer. Quando ainda morava em LA, uma simples consulta me dizia em quanto tempo a freeway cortaria o trânsito e me levaria a qualquer lugar. Como eu curtia os eventos culturais da cidade…
    Eis que sentada na Kopenhagen aqui do shopping vizinho, assim, do nada, a poesia do Ivan me alegra a alminha…

  2. de fato,a cidade está nos afastando. sair virou “tormenta”. Não desanimemos.
    “Vamos descobrir vizinhos”…essa é a mensagem.

    Amanha tenho de ir a cidade. Sofro de véspera. Falar sobre transporte. já estive, como convidado no MP para falar dessa questão. Amanhã é o mesmo tema. Só que com um grupo de empresários , sérios , que querem sugerir algo para o Estado (cidade).

    Falam em “mobilidade urbana” , na verdade vivemos uma “imobilidade humana”. Falei isso para Rosiska. Anotou.

    A primeira página do nosso Jornal O Dia, de hoje, é a síntese do pavor que vivemos. Ainda bem que existe um Rio de Sempre e um bloghetto que nos dá guarida.

    não é a máxima do Recordar é viver, longe disso. O “ruim” é que vivemos recordando.

    Não fui a Cidade da Música, recentemente, por falta de coragem…não fui o único.
    não é consolo, é verdade.

  3. em tempo: a poesia de Ivan me emocionou. Não conhecia. Uma boa noticia é que a poesia ganha força. pelo menos em minha “vizinhança”.

  4. E assim sobrevivemos, Selminha. Ilhados e acuados. Quantos pequenos e grandes prazeres não me permito mais.
    Adorei a sugestão do livro e os versos escolhidos. Vou atrás.

  5. – De Ivan Junqueira eu conhecia quase nada, além de sabê-lo intelectual e membro da ABL. Mas, atraído pela beleza do trecho selecionado pela expertise da Selma, resolvi dar uma olhada, a voo de pássaro, na obra do poeta na internet e, meus caros, o que a gente encontra de preciosidades que até um semianalfabeto na matéria, como eu, identifica de pronto, é extraordinário! Em outras palavras: o cara é fera mesmo! Irresistível não roubar-lhe um pedacinho do poema “Tristeza”:
    ,,,
    O que há em mim é só tristeza,
    uma tristeza úmida, que se infiltra
    pelas paredes de meu corpo
    e depois fica pingando devagar
    como lágrima de olho escondido.

  6. Gama, conhecia “Essa Música”? Poemas do Ivan, de 2009 a 2013. Como ele se foi em 2014… E tem as palavras do Lucchesi sobre a obra…
    Meu Deus, se ao concerto não fui, o mundo parou ali naquela cafeteria.

  7. Malato, o poeta Ivan entrou na minha vida de uma forma assim…
    Continue a vasculhar sua obra. Ele é raro, como raras são suas rimas, sua expressão poética, enfim.

    “Et quod temptabam dicere, versus erat.” (Ovídio)

  8. Sua sensação é a de todos nós, amiga. Prefiro ficar em casa lendo, ouvindo música, do que sair neurótica por aí.
    Bj.

  9. Não conhecia “Essa Música”, do Ivan, Selma. E ainda com Luchesi comentando!
    Tenho outros livros dele, de poesia e ensaios, ótimos, como tudo o que ele produziu.
    Compartilho sua afeição por ele.
    Beijocas.

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