Da arte da conversa fiada

Há a conversa fiada, a conversa afiada e a conversa desconfiada. Mais ainda: há também a conversa a crédito. Suponho que o leitor, como eu, prefira a conversa fiada, já que a conversa afiada é para os intelectuais, que nós não somos, e a conversa a crédito está cobrando juros muito altos.

A conversa fiada é também chamada de bate-papo. Papudos não somos (ou somos?), mas bater papo, seja numa esquina, seja num boteco, é muito deleitoso.

No entanto, há algumas regras a serem observadas para a arte da conversa fiada, e estou disposto a ensiná-las aos meus catecúmenos. De começo, digo que a conversa fiada não tem hora, pode ser de dia, ou de madrugada. Sentados ou de pé, ou encostados numa parede, eu digo uma coisa e você responde outra completamente diferente. Não devemos dizer coisa com coisa, na conversa fiada. Falo eu: “A Lua hoje é quarto-minguante”, e você responde “os girassóis são heliotrópicos”. De qualquer maneira, concordaremos sempre se passa na rua uma mulher boa. O pior é que ela é boa para o marido dela, ou amante, mas não é boa para nós. Você então pergunta à boa: “A senhora está perdida?”, ao que ela retruca, indignada: “Perdida é a sua mãe, indecente”. Não tem nada demais em ser perdida, ou perdido, afinal a gente acaba sempre se achando. Em seguida, você diz: “Perdido por perdido, truco”. E eu revido: “Não vem com conversa, que eu trago a travessa”.

Arte da conversa fiada é sempre boa, com dois, três ou quatro interlocutores. Mais de quatro, ela degenera. De quatro, todos ficam de quatro e pastam. Não há conversa fiada numa multidão ululante.

Um dos conversadores diz: “Amanhã será outro dia”. Outro descompleta: “Dia vai, dia vem, e eu sem vintém”. Passa então o guarda-noturno e apita. Você diz que ele apita em sol maior, e ouve de outro que não, que o guarda-noturno apita em fá-sustenido. O terceiro acrescenta: “Se eu tivesse aqui um cavaquinho, descavacava”. Há em seguida acordo e desacordo sobre qual o instrumento melhor, o cavaquinho ou o violão. Digo: “Eu, por mim, prefiro a sanfona”, e você se lembra das camisas sanfonadas. As camisas sanfonadas sanfonavam? Aí, um explica que as camisas sanfonadas tocavam as marchinhas de Carnaval. Mais um: “Você se lembra da Linda Batista?” “Ela já morreu”, fala outro. Contesta um terceiro: “Não, senhor, ela ainda está viva, li ontem num jornal”. Discutimos então se os jornais dizem a verdade, ou mentem sempre. Sustento que eles mentem sempre. “Foi Pôncio Pilatos que perguntou a Cristo o que era a verdade”, diz mais um. “E que mania tinha o Pôncio de lavar as mãos…”, observa outro conversador. Mais um: “Seria de louça ou de prata a bacia dele?” “Acho que ele lavava as mãos com sabonete Gessy”. Recordamos todos, aí, do sabonete “Vale quanto Pesa”.

A conversa prossegue, e um gato atravessa a rua. Um de nós pergunta: “Você sabe que os gatos brasileiros são muito apreciados nos Estados Unidos?” “O gato faz sapato?” Por falar em sapato, olho os saltos cambaios dos meus sapatos, e lembro que preciso comprar outro par de sapatos novos. Um borzeguim também servia.

Já são duas horas da madrugada, e um de nós pergunta: “Sabem de uma coisa?” Todos respondem: “Não, não sei”.

Afinal, tanto faz como tanto fez saber uma coisa. O saber não ocupa lugar. Se ocupasse, será que pagaria aluguel?

“Vamos embora”, convida um dos conversadores.

“Para onde, visconde?”

Ficamos, e o papo fiado continua.

 Annibal Augusto Gama

5 ideias sobre “Da arte da conversa fiada

  1. Maravilha em véspera de feriado, o que sempre privilegia uma boa conversa fiada.
    Só não pode ser desafinada!kk

  2. Annibal e s/ delícias……
    Esse papo furado q/ às vezes fica atropelado e meio sem nexo da crônica lembrou a cantada furadésima do atrevido: “Belos sapatos. Quer ir pra cama comigo?” Ahahaháaa…….

    Bjkts feriadíssimas, Anibal!!!!!!!

  3. Rindo muito com a Fe!!!
    Véspera de feriado, lendo alto o papo afiado do cronista e embaixo da barraca!! Se melhorar estraga!!

  4. tema genial. meu assunto preferido. Conversar. mas tenho roteiro para tipos de conversa: “conversa ao pé do ouvido”,muito comum em Brasilia e relegada nos tempos atuais pelos casais namorados; “conversa de mudos”, ninguém entende nada, muito usada por economistas e advogados;”conversa mole para boi dormir”, véspera de eleição. “conversa cerca lourenço”. papo de enamorados com outras intenções, às vezes até boas; “conversa velha”, repetida , sem imaginação, mas que pode surpreender incautos e incautas, geralmente sexualizadas, sedutoras..Agora tem uma que me fascina, as gestuais, sedutoras…no olhar acontecem discursos.

    Afiada,fiada, desafinada, essas o mestre as qualificou com competência e charme. mas como “conversa puxa conversa” recomendo: ;”Bilac vê as estrelas”. Musical da maior competência. vale a pena assistir e sair do teatro e trocar uma “conversa…fim de noite”…essa é a que mais estimula e empolga…às vezes não deixam a noite terminar e recomeça na manhã seguinte. Nunca infinita.enquanto dure…..

    não sei o que seria sem uma conversa..todas…sem a preocupação de qualifica-las; prefiro substantivá-las

    meste annibal, como teria a alegria trocar uma prosa com o amigo…

  5. Digo o mesmo, Lima. Deve ser um prazer bater papo, que nunca será furado, com o cronista. Benza Deus.

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