O destinatário

Ao chegar em casa, encontrou o papel dobrado enfiado debaixo da porta. Pegou-o. Era um bilhete: “Espero-o às cinco horas da tarde, no lugar de sempre. Não falte.” Não estava assinado, a letra era feminina, mas ele não a reconheceu.

Qual seria o lugar de sempre?

Lembrou-se daquele lugar em que, há muitos anos, ia encontrar-se com ela. Do lado esquerdo da igreja, na esquina da rua onde a loja mantinha acesas as luzes das suas três vitrinas. Ela pedia-lhe que chegasse antes, porque tinha receio de estar ali, sozinha. A cidade, porém, era outra, os tempos eram outros, e ninguém iria importuná-la, ainda que estivesse sozinha. De qualquer maneira, chegava sempre uns cinco ou dez minutos antes dela.

Provavelmente, quem pusera o bilhete debaixo da sua porta enganara-se de endereço. E, neste caso, não seria a própria autora dele que fora ali. Ficou, porém, com pena da moça, ou da mulher, que esperaria em vão o destinatário do bilhete, que não iria encontrar-se com ela.

Durante o resto do dia, embora se entregasse aos seus afazeres habituais, continuou preocupado com a pobre moça, ou mulher, sozinha no lugar de sempre. E leu duas ou três vezes o bilhete. Depois, botou-o de lado, em cima da mesa.

Ao aproximarem-se as cinco horas da tarde, a sua inquietação aumentou.

Que poderia fazer? Nada

Não obstante, com uma vaga dor no peito, foi ao banheiro, lavou o rosto, enxugou-o e passou o pente pelos cabelos, já ralos. Vestiu o paletó, e saiu.

Aonde iria? Não sabia.

Iria ao bar, passearia pelas ruas, entraria numa livraria?

Aquele dor no peito, a princípio vaga, aumentava.

Caminhou até a esquina, onde agora havia uma banca de jornais e revistas. Parou ali. Respirava com dificuldade, com aquela dor no peito. Olhou para o relógio de pulso: faltavam quatro minutos para as cinco horas.

Então ele viu que ela vinha vindo, toda de branco, num vestido esvoaçante.

O jornaleiro contou aos policiais, que chegaram logo depois da ambulância:

— Eu estava aqui, quando vi que ele caía na calçada.

Um dos socorristas, abaixado sobre ele, apalpou-lhe a jugular, tomou-lhe o pulso e viu que ele já não respirava. Tentou inultimente reanimá-lo. Enfim, enquanto lhe cerrava os olhos baços, notou que os lábios pálidos entreabriam um sorriso.

 Antonio Carlos Augusto Gama

8 ideias sobre “O destinatário

  1. Teve uma visão daquela que antigamente o esperava, antes dos cabelos ficarem ralos? Se sim, foi-se feliz, como sugere a magistral crônica do Antonio Carlos.

  2. Me deu uma peninha… A mulher do sonho, do bilhete ou de uma vida… ai, ai, ai…

  3. nascer e renascer. Mesmo depois de morto. A vida continua. Um encontro procurado, levamos até para o além. Gama show…

  4. – Ir a encontro marcado com a Parca? E, depois, ainda sorrir? Bato na madeira, pé de pato, mangalô três vezes!!!

  5. De todas as geniais crônicas escritas pelo mestre Tom Gama, esta é mais uma.

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