O poder do sacrifício

Sempre há os presentes que vêm com a culpa.

Um sacrifício para consertar as falhas.

Pela renúncia, reconhecemos se o outro está pesaroso ou não, se as desculpas são realmente sinceras.

Quem não oferece nada em troca não está disposto a se retratar e cometerá a reincidência.

Não é apenas lamentar o que aconteceu, mas corrigir com uma ação. Doar o mais nobre de si para reequilibrar a perda.

O aprendizado veio da infância.

Movido pela curiosidade insaciável, meu irmão Rodrigo desejou inspecionar o funcionamento do cuco. Aguardou o passarinho sair de sua casinha ao meio-dia para ver como ele estava colado.

Só que puxou forte a ave de madeira, a ponto de ficar com ela em sua mão e o trampolim retornou vazio para dentro do relógio.

Bateu uma mímica, desespero mudo, pura sucção das palavras. Ele me encarou com medo, perguntando em silêncio: — E agora?

Eu estiquei os olhos como se fosse uma boca gritando. Tampouco reconhecia uma saída. A peça era herança de nosso avô, já falecido, e desfrutava honras de altar.

Para agravar a situação, ele esfacelou o cuco. Quebrou a figura frágil das nossas badaladas. Não havia como simplesmente pôr de volta.

Precisávamos descobrir uma saída em doze horas, quando o cuco cumpriria seu expediente de canto.

Almoçamos constrangidos e nos reunimos no porão para definir o conserto.

Eu distrairia a mãe enquanto o Rodrigo carregaria a escada e acharia um modo de arrumar o estrago.

Como? Ele teve uma ideia, seria surpresa, me disse, estava disposto a me poupar do sofrimento, veria à meia-noite.

Na hora do cuco abrir a porta, veio um playmobil em seu lugar. O boneco bombeiro, de máscara e mangueira. O som dublado tornava sua posição ainda mais engraçada e patética.

Eu quase morri rindo. Não represei as cócegas e os coices do pulmão. Minha gargalhada despertou a mãe, que terminou descobrindo a malandragem.

Pegou o Rodrigo pelas orelhas e perdemos o contato com irmão durante semanas. Preso na solitária do beliche, sem mesada, proibido de conversar, comprar selos no mercado, passear e jogar futebol.

A mãe não aprofundou o entendimento. Não foi justa. Não estudou a natureza do erro.

Rodrigo escolheu seu melhor brinquedo, seu bonequinho favorito para substituir o cuco. Poderia pegar qualquer um menos importante. Mostrou-se desolado com a desobediência e buscou o que mais gostava no quarto.

É uma sutileza que faz a maior diferença. Dependendo do que se é alcançado e feito, prova-se a pureza do arrependimento.

Rodrigo merecia o perdão. Jamais contei com uma chance para interceder a seu favor.

Fabrício Carpinejar

7 pensou em “O poder do sacrifício

  1. Me amarreeeeei!!! Eu e minha irmã éramos exatamente assim, a gente se entendia e uma escondia as presepadas da outra!!!! Até a mãe encarcerar nós duas, mas aí játínhamos mijado de rir!!!!

  2. Cumplicidade que a gente carrega pela vida, essa de irmãos. E como sempre a mãe não teve razão de punir…rs….

  3. Quem aprontou qdo moleque sabe do q ele está falando; e falou de forma tocante. Bacana.

  4. Sou fascinado por relógio cuco. Na casa dos meus país, tem um exatamente da minha idade, cucando regularmente, muito melhor do que eu. É até um pouco rouco, como eu. Louco? Só eu.

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