Rio de Sempre

Feliz o blog que conta com um astral desses…

Viva o Limaaaaaa!!!

RIO DE SEMPRE E O 1915

1915 – a cidade vive um tempo confuso. Pinheiro Machado, político influente, escrevia em um dos nossos jornais: “É possível que durante a convulsão que nessa hora sacode a República em seus fundamentos, possamos submergir (…). É possível mesmo que o braço assassino, impelido pela eloquência delirante das ruas, nos possa atingir.” Pouco dias depois era assassinado. A 1ª Guerra Mundial se alastra. O governo brasileiro se mantém neutro. Vários movimentos a favor e contra nossa neutralidade se alastram pela cidade: passeatas, comícios relâmpagos, e até uma Revolta, a de Sargentos, criam um clima de agito.

A Belle Époque nos arruma. Vislumbra-se  um futuro de anos dourados. João do Rio nos convida para irmos para a rua. As ruas cariocas de João não eram as da política. O cronista João escrevia sobre os costumes da cidade. O citadino se divertia em circos, confeitarias, cafés, e começam a aparecer os primeiros cafés dançantes. Nos jornais, Olavo Bilac, Coelho Neto, Emílio de Meneses embelezam o país com seus textos. Teatros dão prova de vitalidade e o cinema começa a roteirizar produções de conteúdo literário.

1915 – um ano importante para a história do país. Um ano de nascimentos. Um ano de vida nova.

Hoje, num final de março de 2015, me assusto. De fato, um ano secular e com surpresas cotidianas.

Estamos comemorando um século do humor e canto.

Carequinha estaria fazendo 100 anos e com ele Grande Otelo e Zé Trindade. Carequinha desenhou minha infância. Era freguês assíduo do Circo do Carequinha na TV Tupi. Na rua em que morava, disputávamos quem melhor imitava suas cambalhotas.

Zé Trindade, um cômico diferenciado pelo seu estilo de fazer graça. Criou um jargão que ficou para a história do humor: “Mulheres cheguei!”. Era meu vizinho e frequentei algumas poucas vezes sua casa, por conta de suas filhas, que organizavam festas juvenis. Na sala, com um ar sério e controlador, Zé assumia a ordem. O Zé é sempre lembrado, aqui no bairro, pelo seu humor e pela educação que deu a seus filhos.

Grande Otelo, nunca vi pessoalmente, mas por ele tinha uma grande admiração. Com certeza, maior que seu tamanho físico. Grande Otelo, um dos nossos maiores artistas, um multimídia. Uma vez fui convidado para o lançamento, pós-morte, de seu livro de poesias, “Bom Dia, manhã”. Esse lado de Grande Otelo é pouco conhecido. Acho que foi a primeira vez que o lançamento de um livro foi na rua. Um barato de festa. A Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, ficou pequena.

”A letra deste fado

É feita com ternura

É uma letra que fala

De uma linda criatura

Saiu do coração

A letra deste fado

Pra que ninguém saiba

Não vou dizer seu nome”

Acordo com um telefonema de Soninha Terapeuta, minha grande amiga sumida.

– Paulinho, hoje acontece um evento com a nossa cara. Na Livraria Arlequim, no Paço Imperial, uns amigos vão cantar e tocar músicas da Billie. É o lançamento de um álbum com todas as suas músicas gravadas. Billie, se viva, estaria fazendo 100 anos.

– Soninha, estou sabendo. Li no jornal e não vou poder ir. Podemos nos encontrar à noite?

– Combinado.

Será que ela está sabendo que a Édith Piaf também estaria fazendo 100 anos? Ambas cantaram e ainda cantam para o mundo.

O nosso Orlando Silva, cantor das multidões, também estaria fazendo 100. Tive oportunidade de vê-lo cantando numa churrascaria na Tijuca. Casa cheia. Mesmo já caído, conseguia encantar seus fãs. Um artista vítima de suas paixões e vícios. Nos deixou saudade.

Carmen Miranda, tinha uma irmã que cantava com graça e talento, Aurora Miranda. Uma festa muito simples num bar da boemia da Lapa vai prestar uma homenagem aos seus 100 anos. Aurora foi quem lançou o hoje Hino da Cidade: “Cidade Maravilhosa”, de André Filho. Uma cantora como poucas. Lamentei não ter ido homenageá-la. Num pais em que a memória cultural se esvai pelo mundo do esquecimento ainda existem pessoas que se preocupam com nossa história. Aurora Miranda, uma lembrança merecida.

Vou ao encontro de Soninha e a encontro ainda emocionada com a festa de Billie.

– Paulinho, o Rio estava na Arlequim.

– Quanta gente interessante fazendo 100 anos: Aurora Miranda, Grande Otelo, Zé Trindade, Orlando, Billie, Carequinha, e a minha paixão, a francesa Édith. Você já se deu conta?

– Sempre pensei que sua paixão francesa fosse Juliette Gréco.

– Também, mas pode colocar na sua lista a Simone de Beauvoir.

– Paulinho, coloca na sua lista dos 100. O maior de todos.

– Quem você matou?

– Frank Sinatra.

Rio de Sempre toma dois uisquinhos com Soninha e aproveita, no caminho de volta  para casa, para pedir bênção aos seculares de 15.

Aqui da minha varanda, com uma inspiradora lua, véspera de cheia, ligo minha vitrola. Quem ouvir?

Fui de Frank e, o melhor, meu vizinho que sofre de insônia, agradeceu.

Não tenho dúvidas de que quando chegar o 16, outros seculares vão aparecer. “O mundo é assim”, como diz o nosso Alvaiade, compositor da Velha Guarda da Portela.

O dia se renova todo dia

Eu envelheço cada dia, cada mês

O mundo passa por mim todos os dias

Enquanto eu passo pelo mundo uma vez

A natureza é perfeita

Não há quem possa duvidar

A noite é o dia que dorme

O dia é a noite ao despertar.

Paulinho Lima

 httpv://youtu.be/a_Pg9iTFKQk

5 pensou em “Rio de Sempre

  1. Meu prezado,

    Pinheiro Machado tinha bela mansão no morro da Graça, esquina da rua das Laranjeiras. Os puxa-sacos subiam a ladeira e disputavam a honra de segurar a chaleira, para servir a água quente do chimarrão do poderoso político gaúcho.
    Daí saíram o “chaleirar” e a marchinha de carnaval:
    “Iaiá me deixe subir esta ladeira,
    Que eu sou do grupo do pega na chaleira.”

    Saudações alvinegras!
    do SáeBenevides

  2. Td mundo bem lembrado por vc, Paulinho!!!! Vc é nossa memória!!!!!
    E esse uisquinho na varanda….. hummmm….. deixa a vida nos levar…..

    Bjkts

  3. Lima querido, todos os citados por você não podem nem devem ser esquecidos pela memória frouxa nacional. Agora, o Carequinha… quem não viu, passou em branco. Quantas recordações do bom menino não faz pipi na cama…
    Ótima crônica.

  4. Paulinho, você é o nosso João do Rio (de Sempre)!
    Também cresci com o Carequinha, me esforçando pra não fazer pipi na cama, nem bater na irmãzinha. Ia sempre na escola, mas não sei se aprendi a lição.
    Saudações alvinegras para você, SáeBenevides e a nossa Lílian (pé quente) pela Taça Guanabara!
    E essa foto vale um uisquinho daqui…

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