Psico

— Vou buscar um copo de água para o senhor beber. O senhor parece estar muito abalado.

De fato, estava. Não é todo dia que se mata a própria mulher. Com ele, era a primeira vez.

— Que aconteceu com o senhor?

Tinha-a deixado estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

— Quer dizer que o senhor tinha ou tem um punhal…

Era singular, nunca tivera punhal nenhum. Como é que o punhal fora aparecer na sua mão?

— Pelo que o senhor me diz, é casado, porque me disse que cravou o punhal em sua própria mulher. A menos que não seja a mulher com quem o senhor se casou, mas uma amante.

Ele admitiu que não era casado, mas viúvo. Quanto a amante, não, não tinha amante nenhuma.

— Se o senhor é viúvo e não tem amante, como é que cravou um punhal em sua própria mulher? O senhor terá de concordar comigo que se tratava da mulher de outro, ou de ninguém.

Havia entrado no consultório daquele psiquiatra para lhe pedir ajuda e desabafar.

— Foi na sua casa, ou em outra casa, que o senhor cravou o punhal na mulher?

Não tinha casa, naquela cidade, onde desembarcara de um ônibus. Depois de perambular por algum tempo, pegara a lista telefônica numa padaria, consultara-a, achara o nome e o endereço do psiquiatra e viera ali. E, na sua casa, na cidade onde residia, não havia mulher nenhuma.

— Isto significa que foi em outra casa. O senhor se lembra de quem é a casa?

Não se lembrava. Só podia dizer que era uma casa com três janelas, uma porta, um jardim na frente, uma grade de ferro e um portão.

— E como é que o senhor conseguiu entrar em tal casa? Tinha a chave, ou bateu na porta?

O que podia dizer é que se achara na sala, dentro da casa, a mulher estava ali, e ele com o punhal na mão.

— E por que o senhor apunhalou a mulher?

Não sabia por quê.

Depois deste diálogo, e de uma conversa que se prolongou ainda mais uns quarenta minutos, ele já estava calmoO psiquiatra disse-lhe:

— Ao que tudo indica, o senhor teve uma alucinação, ou sonhou. Não apunhalou ninguém. Ainda sob este estado alucinatório, embarcou num ônibus, desembarcou aqui e veio procurar-me. Na verdade, o senhor parece-me um homem bom e inofensivo. Recomendo, porém, que em sua própria cidade consulte um psiquiatra e faça um tratamento, se essas alucinações persistirem. Tome um desses comprimidos caso tenha dificuldade para dormir nos próximos dias, mas não abuse. Vá tranquilo.

Ele agradeceu, foi embora e, mais tarde, pegou outro ônibus de volta para a sua cidade.

O psiquiatra, ao final do dia, fechou o consultório e foi para casa. A casa, numa rua quieta, tinha em frente três janelas, uma porta, um jardim cercado por uma grade e um portão.

Ele abriu o portão, caminhou pelo jardim, abriu a porta e entrou.

Na sala, estava sua mulher, estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

Antonio Carlos Augusto Gama

6 ideias sobre “Psico

  1. Fui num fôlego só! Maravilha, Gama! Que desfecho!
    O velho Hitch tinha muito que aprender com você…rs..

  2. – Antônio Gama tem inegável talento de contista. Os enredos de suas pequenas histórias aqui mostradas, são sempre muito imaginosos e bem arquitetados, e, quando envolve mistério, como neste miniconto de hoje, preserva com habilidade o desfecho até às últimas linhas como manda o figurino.
    Muito bom.

  3. Parabéns, Antonio Carlos. É um conto muito bem resolvido, tanto no fundo, quanto na forma. Lembra o “teatro do absurdo” de Ionesco, o teatro do ilógico de Pirandello, ou, na literatura brasileira recente, certos contos de Dalton Trevisan. Um abraço,

    Sergio Couri

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