Sonhos

Eles são independentes e poderosos, agem a seu bel-prazer, sem pedir licença. Nascem das profundezas da mente, realizam suas performances e se extinguem. Nada podemos contra os sonhos, a não ser vivê-los passivamente e sofrermos suas consequências.

Um abraço apertado, longo, delicioso. Nossos olhares, nossas palavras, mãos dadas. Um lugar impossível aquele, mas, para aos sonhos, tudo é possível.

Roberto Pellegrino

Psico

— Vou buscar um copo de água para o senhor beber. O senhor parece estar muito abalado.

De fato, estava. Não é todo dia que se mata a própria mulher. Com ele, era a primeira vez.

— Que aconteceu com o senhor?

Tinha-a deixado estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

— Quer dizer que o senhor tinha ou tem um punhal…

Era singular, nunca tivera punhal nenhum. Como é que o punhal fora aparecer na sua mão?

— Pelo que o senhor me diz, é casado, porque me disse que cravou o punhal em sua própria mulher. A menos que não seja a mulher com quem o senhor se casou, mas uma amante.

Ele admitiu que não era casado, mas viúvo. Quanto a amante, não, não tinha amante nenhuma.

— Se o senhor é viúvo e não tem amante, como é que cravou um punhal em sua própria mulher? O senhor terá de concordar comigo que se tratava da mulher de outro, ou de ninguém.

Havia entrado no consultório daquele psiquiatra para lhe pedir ajuda e desabafar.

— Foi na sua casa, ou em outra casa, que o senhor cravou o punhal na mulher?

Não tinha casa, naquela cidade, onde desembarcara de um ônibus. Depois de perambular por algum tempo, pegara a lista telefônica numa padaria, consultara-a, achara o nome e o endereço do psiquiatra e viera ali. E, na sua casa, na cidade onde residia, não havia mulher nenhuma.

— Isto significa que foi em outra casa. O senhor se lembra de quem é a casa?

Não se lembrava. Só podia dizer que era uma casa com três janelas, uma porta, um jardim na frente, uma grade de ferro e um portão.

— E como é que o senhor conseguiu entrar em tal casa? Tinha a chave, ou bateu na porta?

O que podia dizer é que se achara na sala, dentro da casa, a mulher estava ali, e ele com o punhal na mão.

— E por que o senhor apunhalou a mulher?

Não sabia por quê.

Depois deste diálogo, e de uma conversa que se prolongou ainda mais uns quarenta minutos, ele já estava calmoO psiquiatra disse-lhe:

— Ao que tudo indica, o senhor teve uma alucinação, ou sonhou. Não apunhalou ninguém. Ainda sob este estado alucinatório, embarcou num ônibus, desembarcou aqui e veio procurar-me. Na verdade, o senhor parece-me um homem bom e inofensivo. Recomendo, porém, que em sua própria cidade consulte um psiquiatra e faça um tratamento, se essas alucinações persistirem. Tome um desses comprimidos caso tenha dificuldade para dormir nos próximos dias, mas não abuse. Vá tranquilo.

Ele agradeceu, foi embora e, mais tarde, pegou outro ônibus de volta para a sua cidade.

O psiquiatra, ao final do dia, fechou o consultório e foi para casa. A casa, numa rua quieta, tinha em frente três janelas, uma porta, um jardim cercado por uma grade e um portão.

Ele abriu o portão, caminhou pelo jardim, abriu a porta e entrou.

Na sala, estava sua mulher, estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

Antonio Carlos Augusto Gama

Finalmente!

Surge a música, a melodia se impõe, emoções se transformam em turbilhão. “Nunca mais”, as palavras ressoam na mente, não sei o que fazer delas. Afasto-as, é inútil, retornam, tenho de aceitá-las. Distancio-me da música, não a ouço mais, volta a calma. Finalmente!

Roberto Pellegrino

Rio de Sempre

Rio de Sempre e o Ferreirinha

Quando ainda criança, começando nas letras, sentado na varanda com meu avô, ouvia atentamente histórias que selecionava de uma Revista muito conhecida na época, Seleções Reader’s Digest, e uma das suas seções, a preferida de meu avô, era o “Meu tipo inesquecível”. Vovô gostava muito e eu também. E ontem, quando conversava com um velho amigo, vejo o Ferreirinha. Uma pessoa inesquecível.

– Serginho, sabe de uma coisa? Toda vez que vejo o Ferreirinha acho que viver vale a pena.

– Paulinho, semana passada fez noventinha, 9 ponto 0. Aconteceu uma festa surpresa.

– Como você soube? Teve uma festa surpresa para quem lembrou? Não entendi! Só convidaram  quem telefonou ou mandou e-mail?

– Nada disso. Você conhece o Ferreirinha. Deixou um aviso lá no Bar dos Amigos, no Horto.

“Amigos, ao lerem este aviso, lembrem: no dia 8 de abril faço 90 anos e vou comemorar aqui. Ferreirinha ”

O bar encheu. Até quem não conhecia apareceu. Duas moças levaram bolo. Uma outra, um tremendo prato de brigadeiro, e ainda pintou uma bandeja de casadinho. Foi o maior sucesso. O legal é que dos doces, ele só comeu o bolo, assim mesmo um deles. Do outro pulou fora. Fiquei sabendo que a moça é meio ligada a essas cartomantes de poste e poderia estar fazendo algum trabalho. “O casadinho, então, nem pensar, podiam entender errado”, comentou comigo no dia seguinte. Um detalhe, bebeu muito.

Ferreirinha sempre bebeu. Com moderação, mas constante. Faz tempo, bebemos junto aqui no Jóia. Estava com problemas existenciais. Enquanto eu tomava meu traçado, ele foi de batida de limão com gotas de Steinhager. O pior é que fiquei freguês dessa mistura.

– É uma peça. Só o chamo de Orfeu. Um cara que veio ao mundo para nos dar luz e cura.

– Luz e cura?

– É a etimologia de Orfeu. Aquele que veio curar pela luz. E só olhar e ver seu brilho e disponibilidade para com o outro.

– Por isso chega assim aos 90. A única coisa que o diferencia de Orfeu é que nunca encontrou sua Eurídice.

– Pode não ter encontrado, mas está sempre acompanhado e bem. Tem um tremendo borogodó.

– Engraçado, não tem o perfil de boêmio. É verdade que nunca gostou de trabalhar. Foi engenheiro da prefeitura e descobriu que contestando o chefe ia ser colocado de lado. E assim fez. Os chefes não gostam de contestadores. Assinava o ponto e se mandava para casa. Entrou para a Prefeitura por concurso. Nunca ia ser demitido. Uma vez, pintou um chefe que conhecia suas histórias, e logo o foi promovendo. Não queria confusão. É meu eleitor no Clube de Engenharia e me garante meia dúzia de votos.

– Escrever, ler,  ouvir suas músicas e conversar é seu barato. Tem uma coleção de jazz de fazer inveja, reconhecida até no exterior, o que  já lhe rendeu comentário em uma revista novaiorquina especializada.

Não me diga. Nunca comentou isso com ninguém. Seu  grande barato é ser do tipo moita. Quando alguém descobre algo dele, se abre, explica tudo. Mas falar de si espontaneamente, nem pensar. É um colecionador: selos, cachaças e uísque.

– Estou aqui pensando: esse perfil ‘moita’ não é muito comum entre os cariocas e ele é um carioca. Ele convive com tudo que a cidade oferece: chorinho, samba, praia, cerveja, mulher, esquina, sandália de dedo, jogar conversa fora. É eclético, nunca vi o Ferreirinha de meia. Cara, me lembro dele no Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura. Fui assistir a uma peça chamada “A mais-valia vai acabar, seu Edgar”, do Vianinha. Era o bilheteiro e, no meio da peça, ele me aparece vestido de mosqueteiro, falando aos berros: “Sou o Mosqueteiro do Rei!” E nada mais.

– Estamos aqui falando do Ferreirinha e fico lembrando das poucas vezes que estive com ele. Um síndico aqui perto resolveu fazer um churrasco para ver se ganhava votos no condomínio. Tomou conta da festa. Levou uma garrafa de Havana, a cachaça mais cara que conhecemos, e não ficou por aí, contou uma história da cachaça. “Nos anos da ditadura, um major foi no alambique e mandou o dono mudar o nome da cachaça. Não deu certo, o cara preferiu parar com a fabricação a mudar o nome. Um dia, o general mandou o seu ordenança comprar uma Havana no alambique e soube da notícia. Estava fechado. O general ficou bravo. Mudou o major de região militar e a cachaça voltou a circular”. Essas e outras histórias fazem parte de seu arsenal de causos. É um contador de história. Alguém tinha de recolher essas histórias do Ferreirinha e colocar num livro…

– Você já viu o Ferreirinha na feira? Fica atrás da barraca de vender frango com sua galera. Fazem um churrasquinho de asa de frango e rola a maior cervejada. De vez em quando dou uma passada lá. Minha mulher não gosta muito. Acabo comprando de mais ou de menos.

–  Você acha que se uma Eurídice pintasse na sua vida, seria o mesmo?

– Cara, quando a Belquize morreu, percebi uma certa tristeza no seu semblante. Você sabe como foi o luto?

– Não faço a menor ideia.

– Colocou um mastro na sua janela e pendurou sua cueca a “meio mastro”.

– Desse jeito passa dos 100.

Rio de Sempre presta carinhosa homenagem a um morador do nosso Jardim Botânico. Um Orfeu que viaja dentro da sua solidão. Uma pessoa inesquecível. Colecionador de amigos.

Paulinho Lima

Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro

Argumentar com quem não quer argumentar é uma experiência desgastante e infrutífera. A única estratégia eficaz em um caso desses é calar a boca e deixar o outro pensar que estamos lhe dando razão. Que mais pode-se fazer quando nosso interlocutor deixa evidente que o negócio dele é negar o inegável e fazer afirmações estapafúrdias com raciocínios dignos de um muar? Ao silenciarmos, resolvemos o problema sem abalarmos nosso sistema nervoso, e o outro que vá caçar batráquios em um brejo de sua preferência.

Roberto Pellegrino

Da arte da conversa fiada

Há a conversa fiada, a conversa afiada e a conversa desconfiada. Mais ainda: há também a conversa a crédito. Suponho que o leitor, como eu, prefira a conversa fiada, já que a conversa afiada é para os intelectuais, que nós não somos, e a conversa a crédito está cobrando juros muito altos.

A conversa fiada é também chamada de bate-papo. Papudos não somos (ou somos?), mas bater papo, seja numa esquina, seja num boteco, é muito deleitoso.

No entanto, há algumas regras a serem observadas para a arte da conversa fiada, e estou disposto a ensiná-las aos meus catecúmenos. De começo, digo que a conversa fiada não tem hora, pode ser de dia, ou de madrugada. Sentados ou de pé, ou encostados numa parede, eu digo uma coisa e você responde outra completamente diferente. Não devemos dizer coisa com coisa, na conversa fiada. Falo eu: “A Lua hoje é quarto-minguante”, e você responde “os girassóis são heliotrópicos”. De qualquer maneira, concordaremos sempre se passa na rua uma mulher boa. O pior é que ela é boa para o marido dela, ou amante, mas não é boa para nós. Você então pergunta à boa: “A senhora está perdida?”, ao que ela retruca, indignada: “Perdida é a sua mãe, indecente”. Não tem nada demais em ser perdida, ou perdido, afinal a gente acaba sempre se achando. Em seguida, você diz: “Perdido por perdido, truco”. E eu revido: “Não vem com conversa, que eu trago a travessa”.

Arte da conversa fiada é sempre boa, com dois, três ou quatro interlocutores. Mais de quatro, ela degenera. De quatro, todos ficam de quatro e pastam. Não há conversa fiada numa multidão ululante.

Um dos conversadores diz: “Amanhã será outro dia”. Outro descompleta: “Dia vai, dia vem, e eu sem vintém”. Passa então o guarda-noturno e apita. Você diz que ele apita em sol maior, e ouve de outro que não, que o guarda-noturno apita em fá-sustenido. O terceiro acrescenta: “Se eu tivesse aqui um cavaquinho, descavacava”. Há em seguida acordo e desacordo sobre qual o instrumento melhor, o cavaquinho ou o violão. Digo: “Eu, por mim, prefiro a sanfona”, e você se lembra das camisas sanfonadas. As camisas sanfonadas sanfonavam? Aí, um explica que as camisas sanfonadas tocavam as marchinhas de Carnaval. Mais um: “Você se lembra da Linda Batista?” “Ela já morreu”, fala outro. Contesta um terceiro: “Não, senhor, ela ainda está viva, li ontem num jornal”. Discutimos então se os jornais dizem a verdade, ou mentem sempre. Sustento que eles mentem sempre. “Foi Pôncio Pilatos que perguntou a Cristo o que era a verdade”, diz mais um. “E que mania tinha o Pôncio de lavar as mãos…”, observa outro conversador. Mais um: “Seria de louça ou de prata a bacia dele?” “Acho que ele lavava as mãos com sabonete Gessy”. Recordamos todos, aí, do sabonete “Vale quanto Pesa”.

A conversa prossegue, e um gato atravessa a rua. Um de nós pergunta: “Você sabe que os gatos brasileiros são muito apreciados nos Estados Unidos?” “O gato faz sapato?” Por falar em sapato, olho os saltos cambaios dos meus sapatos, e lembro que preciso comprar outro par de sapatos novos. Um borzeguim também servia.

Já são duas horas da madrugada, e um de nós pergunta: “Sabem de uma coisa?” Todos respondem: “Não, não sei”.

Afinal, tanto faz como tanto fez saber uma coisa. O saber não ocupa lugar. Se ocupasse, será que pagaria aluguel?

“Vamos embora”, convida um dos conversadores.

“Para onde, visconde?”

Ficamos, e o papo fiado continua.

 Annibal Augusto Gama

O Senhor Quase

Tenho conhecido muitos Senhores Quase.

O Senhor Quase está em todas as profissões e em todos os lugares. Ou quase.

São essas pessoas que quase escalaram o Everest, quase ganharam o campeonato mundial de bocha, quase atravessaram a nado o Canal da Mancha, quase pescaram um peixe de duzentos quilos, quase se formaram em Medicina, quase se tornaram sacerdotes, quase casaram com a Miss Brasil, quase aprenderam alemão ou grego, quase receberam o prêmio maior da loteria, quase foram eleitos senador.

Afinal, o Senhor Quase, quase somos todos nós.

O Senhor Quase bebe moderadamente, mas às vezes se embriaga, lembrando que quase foi tudo. Quase também deixou de fumar.

O Senhor Quase escreve, e tem um romance na gaveta, quase terminado. Uma obra que se chegar a concluir, será uma obra-prima que revolucionará a literatura universal. Ou quase.

É quase católico, porque ainda tem as suas dúvidas.

E de quase em quase, o Senhor Quase vai vivendo, num país que é quase.

 Antonio Carlos Augusto Gama (Quase)

Rio de Sempre

Em plena Copa do Mundo de 2010, no blog Sobre Isso e Aquilo, da querida Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, nosso Paulinho batia bola com Galeano e outros craques. Olho no lance, amigos.

Rio de Sempre entra em clima de Copa e conversa com um hermano

Esse hermano se chama Eduardo Galeano, uruguaio, chegando aos 70’s. Conhece a América Latina como ninguém. Ouviu histórias da nossa gente e recontou em seus livros. Não guardou para si.

Quando se separou de sua primeira mulher, disse: “Só quero levar meus quadros, livros e discos…”. Descobriu que era só o que tinha.

Nasceu em 3 de setembro de 1940, em Montevidéu, no seio de uma família católica e de classe média. Na infância, Galeano tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol. Tal desejo é retratado em algumas de suas obras, como ‘O Futebol ao Sol e à Sombra’. Na adolescência, Galeano trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco.

Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960, como editor do ‘Marcha’, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti, este um dos maiores poetas da América Latina. Em 1971 escreveu sua obra-prima ‘As veias abertas da América Latina’. Em princípios de 2007, Galeano caiu seriamente doente, mas recuperou-se, após uma bem-sucedida cirurgia em Montevidéu.

Entre suas principais obras, destaco (para meu gosto):

Crónicas Latinoamericanas; Vagamundo; La Canción de Nosotros; Días y Noches de Amor y de Guerra; Voces de Nuestro Tiempo; O Livro dos Abraços; Nós Dizemos Não; Amares; Las Palabras Andantes; O Futebol ao Sol e à Sombra; Mulheres; Bocas del Tiempo. Espelhos, uma quase história universal, o único que ainda não li.

Galeano é um amante do futebol e neste período de Copa do Mundo peço licença para contar algumas de suas histórias sobre futebol.

Foi em 1958, na Itália. A seleção do Brasil jogava contra o Fiorentina, a caminho do Mundial da Suécia.

Garrincha invadiu a área, deixou um beque sentado e se livrou de outro. Quando já tinha enganado até o goleiro, descobriu que havia um jogador na linha do gol. Garrincha fez que sim, fez que não, fez de conta que chutava no ângulo e o pobre coitado bateu com o nariz no trave. Então, o arqueiro tornou a incomodar. Garrincha meteu-lhe a bola entre as pernas e entrou no arco.

Depois, com a bola debaixo do braço, voltou lentamente ao campo. Caminhava olhando para o chão, um Chaplin em câmera lenta, como que pedindo desculpas por aquele gol que levantara a cidade de Florença inteira.

No final dos anos sessenta, o poeta Jorge Enrique Adoum voltou ao Equador, depois de longa ausência. Nem bem chegou, cumpriu o ritual obrigatório da cidade de Quito: foi ao estádio ver jogar o time do Aucas. Era uma partida importante, e o estádio estava repleto.

Antes do início, fez-se um minuto de silêncio pela mãe do juiz, morta na véspera. Todos se levantaram, todos calaram. Em seguida, um dirigente pronunciou um discurso destacando a atitude do esportista exemplar que ia apitar a partida, cumprindo com seu dever em tão tristes circunstâncias. No meio do campo, cabisbaixo, o homem de preto recebeu o denso aplauso do público. Adoum piscou, beliscou um braço: não podia acreditar. Em que país estava? As coisas tinham mudado muito. Antes, as pessoas só se ocupavam do árbitro para gritar ‘filho da puta’.

E começou a partida. Aos quinze minutos, explodiu o estádio: gol do Aucas. Mas o árbitro anulou o gol por impedimento. Imediatamente a multidão recordou a finada autora de seus dias:

‘Órfão da puta!’ – rugiram as arquibancadas.

Em 1916, no primeiro campeonato sul-americano, o Uruguai goleou o Chile por 4X0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação da partida “porque o Uruguai escalou dois africanos”. Eram os jogadores Isabelino Gradin e Juan Delgado.

Bisneto de escravos, Gradin tinha nascido em Montevidéu. As pessoas se levantavam quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e, sem se deter, evitava os adversários e arrematava na corrida. Tinha cara de santo e quando fazia cara de mau, ninguém acreditava.

Juan Delgado, também bisneto de escravo, havia nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava nos carnavais fazendo a bola dançar nos gramados. Enquanto jogava, conversava e gozava os adversários:

‘Larga esse cacho!’ – dizia, levantando a bola. E lançando-a, dizia:
‘Sai fora, que lá vai areia!’

O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na seleção nacional.

Em 1993, a maré do racismo subia. Já dava para sentir na Europa inteira o cheiro da peste, como um pesadelo que volta, enquanto aconteciam alguns crimes e eram promulgadas algumas leis contra os imigrantes dos países que tinham sido colônias. Muitos jovens brancos não conseguiram trabalho e as pessoas de pele escura pagavam o pato.

Naquele ano, uma equipe da França ganhou, pela primeira vez, a Copa Europeia. O gol da vitória foi obra de Basile Boli, um africano da Costa do Marfim, que cabeceou um escanteio cobrado por outro africano, Abedi Pelé, nascido em Gana. Ao mesmo tempo, nem os mais cegos militantes da supremacia branca podiam negar que os melhores jogadores da Holanda continuavam sendo os veteranos Ruud Gullit e Frank Rijkaard, filhos de homens de pele escura vindos do Suriname, e que o africano Eusébio tinha sido o melhor de Portugal.

Ruud Gullit, chamado de Tulipa Negra, foi sempre um atuante inimigo do racismo. Entre uma partida e outra cantou, de guitarra na mão, em vários concertos organizados contra o apartheid na África do Sul, e, em 1987, quando foi eleito o jogador que mais se destacou na Europa, dedicou sua bola de ouro a Nelson Mandela, que há muitos anos estava encerrado numa prisão pelo crime de acreditar que os negros são pessoas.

Gullit teve o joelho operado três vezes. Nas três vezes, os jornalistas o consideravam liquidado. Mas ressuscitou, de pura vontade.

‘Eu, sem jogar, sou como um recém-nascido sem chupeta.’

Suas pernas velozes, goleadoras, e seu físico imponente coroado por uma melena de tranças rastafári, conquistaram o fervor popular nas equipes mais poderosas da Holanda e da Itália. Por sua vez, Gullit nunca se dera bem com técnicos nem com dirigentes, por seu costume de desobedecer, e também por sua obstinada mania de denunciar a cultura do dinheiro, que está transformando o futebol em assunto de Bolsa de Valores.

Em 1919, o Brasil venceu o Uruguai por 1X0 e se sagrou campeão sul-americano. O povo se lançou às ruas do Rio de Janeiro. Presidia os festejos, levantada como um estandarte, uma barrenta chuteira, com um cartazinho que proclamava “O glorioso pé de Friedenreich”. No dia seguinte, aquela chuteira que tinha feito o gol da vitória foi parar na vitrine de uma joalheria, no centro da cidade.

Arthur Friedenreich, filho de um alemão e de uma lavadeira negra, jogou na primeira divisão durante vinte e seis anos, e nunca recebeu um centavo. Ninguém fez mais gols do que ele na história do futebol. Fez mais gol que o outro artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador profissional. Friedenreich somou 1329 gols. Pelé, 1279.

Esse mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses (ele ou o diabo que se metia pela planta de seu pé). Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto à fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro, o que é brasileiro de verdade, não tem ângulos retos. São como as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.

Rio de Sempre, aproveitando a onda da Copa Africana, fala de uma série de jogadores negros que transformaram o futebol em arte.

O escritor Galeano, um apaixonado por futebol, soube como ninguém fazer desse esporte um momento de prazer e graça.

Encerro deixando com meus amigos três pensamentos do nosso cronista e poeta Galeano, um belo hermano:

“Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: ‘Proibido cantar’. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: ‘É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem’. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.”

“Quando as palavras não são tão dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar.”

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Paulinho Lima

Referências: ‘Futebol ao Sol e à Sombra’, Editora L@PM, 1995.

Notas de sites diversos sobre Eduardo Galeano.