Da arte da conversa fiada

Há a conversa fiada, a conversa afiada e a conversa desconfiada. Mais ainda: há também a conversa a crédito. Suponho que o leitor, como eu, prefira a conversa fiada, já que a conversa afiada é para os intelectuais, que nós não somos, e a conversa a crédito está cobrando juros muito altos.

A conversa fiada é também chamada de bate-papo. Papudos não somos (ou somos?), mas bater papo, seja numa esquina, seja num boteco, é muito deleitoso.

No entanto, há algumas regras a serem observadas para a arte da conversa fiada, e estou disposto a ensiná-las aos meus catecúmenos. De começo, digo que a conversa fiada não tem hora, pode ser de dia, ou de madrugada. Sentados ou de pé, ou encostados numa parede, eu digo uma coisa e você responde outra completamente diferente. Não devemos dizer coisa com coisa, na conversa fiada. Falo eu: “A Lua hoje é quarto-minguante”, e você responde “os girassóis são heliotrópicos”. De qualquer maneira, concordaremos sempre se passa na rua uma mulher boa. O pior é que ela é boa para o marido dela, ou amante, mas não é boa para nós. Você então pergunta à boa: “A senhora está perdida?”, ao que ela retruca, indignada: “Perdida é a sua mãe, indecente”. Não tem nada demais em ser perdida, ou perdido, afinal a gente acaba sempre se achando. Em seguida, você diz: “Perdido por perdido, truco”. E eu revido: “Não vem com conversa, que eu trago a travessa”.

Arte da conversa fiada é sempre boa, com dois, três ou quatro interlocutores. Mais de quatro, ela degenera. De quatro, todos ficam de quatro e pastam. Não há conversa fiada numa multidão ululante.

Um dos conversadores diz: “Amanhã será outro dia”. Outro descompleta: “Dia vai, dia vem, e eu sem vintém”. Passa então o guarda-noturno e apita. Você diz que ele apita em sol maior, e ouve de outro que não, que o guarda-noturno apita em fá-sustenido. O terceiro acrescenta: “Se eu tivesse aqui um cavaquinho, descavacava”. Há em seguida acordo e desacordo sobre qual o instrumento melhor, o cavaquinho ou o violão. Digo: “Eu, por mim, prefiro a sanfona”, e você se lembra das camisas sanfonadas. As camisas sanfonadas sanfonavam? Aí, um explica que as camisas sanfonadas tocavam as marchinhas de Carnaval. Mais um: “Você se lembra da Linda Batista?” “Ela já morreu”, fala outro. Contesta um terceiro: “Não, senhor, ela ainda está viva, li ontem num jornal”. Discutimos então se os jornais dizem a verdade, ou mentem sempre. Sustento que eles mentem sempre. “Foi Pôncio Pilatos que perguntou a Cristo o que era a verdade”, diz mais um. “E que mania tinha o Pôncio de lavar as mãos…”, observa outro conversador. Mais um: “Seria de louça ou de prata a bacia dele?” “Acho que ele lavava as mãos com sabonete Gessy”. Recordamos todos, aí, do sabonete “Vale quanto Pesa”.

A conversa prossegue, e um gato atravessa a rua. Um de nós pergunta: “Você sabe que os gatos brasileiros são muito apreciados nos Estados Unidos?” “O gato faz sapato?” Por falar em sapato, olho os saltos cambaios dos meus sapatos, e lembro que preciso comprar outro par de sapatos novos. Um borzeguim também servia.

Já são duas horas da madrugada, e um de nós pergunta: “Sabem de uma coisa?” Todos respondem: “Não, não sei”.

Afinal, tanto faz como tanto fez saber uma coisa. O saber não ocupa lugar. Se ocupasse, será que pagaria aluguel?

“Vamos embora”, convida um dos conversadores.

“Para onde, visconde?”

Ficamos, e o papo fiado continua.

 Annibal Augusto Gama

Heureca!

“Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e levantarei a Terra”, dizia Arquimedes, o sábio grego, o mesmo que foi tomar banho e exclamou: “Heureca!” Nós outros tomamos banho todos os dias e não achamos nada. Talvez seja porque tomamos banho de chuveiro, e não de banheira.

Os economistas, tecnocratas e planejadores é que estão sempre “alavancando”. Este detestável gerúndio não lhes sai da boca. Tanto alavancam, que as bolsas de valores estouram.

Heureca, aí vem a minha bisteca!

— O senhor achou? — pergunta a minha empregada, vendo-me procurar de um lugar para outro.

Vivo procurando, mas não acho nada. Recorro a Santo Antônio e a São Longuinho, e eles me recomendam: “Continue a procurar, um dia você achará”.

A vida é uma procura, e geralmente achamos o que não procuramos. Mas já que achamos isto, e não aquilo, é contentar-se.

— Afinal você achou ou não achou? — pergunta Dinorá a seu Amadeu.

Amadeu, que sabe como agradar a mulher, responde:

— Achei, Dinorá, achei você.

O homem que achou a sua mulher não precisa achar mais nada.

Perdi o meu bilboquê, desde os doze anos, e não o acho em lugar nenhum. Também se o achasse, já não saberia o que fazer com ele, pois desaprendi como enfiar o orifício da bola na haste.

Vivemos aprendendo e desaprendendo. A certa altura da vida, talvez mais valha desaprender do que aprender. Despojar-se do excessivo. Acumulamos coisas que, ao fim, não servem para mais nada.

Leve, leve como uma pluma, o vento nos levará. A vida é vento, e sopra, sopra, sem parar.

Annibal Augusto Gama

Ao apagar das luzes

Ao apagar das luzes, quando o pano cai ou se cerra a cortina, a plateia vai saindo e ignora o que se passa atrás dos bastidores. Ou apenas imagina.

Os atores e as atrizes, nos bastidores e nos camarins, estão desfazendo a maquiagem, lavando a cara e despindo-se da indumentária para vestir a própria roupa.

Há sinais de cansaço geral. A peça chegou à décima quarta ou vigésima representação, e a frequência não foi tão boa como se esperava. Nas últimas noites, o teatro estava até quase vazio. E só um ou outro admirador incondicional levou rosas para a atriz principal.

Também, o canastrão, que é ou era o figurante maior, entremeou a sua fala de frases que não existiam no texto, e provocou gargalhadas, quando o caso era antes de choro. Um cretino, que quase todos reprovavam. Um palhaço, e mau palhaço.

O diretor pensa: com este sujeito, nunca mais. Mas sabe que o desgraçado é que atrai o público. Tem-no atravessado na garganta, e a vontade é lhe dar uns pontapés. O autor, que não foi chamado ao palco no último espetáculo, reflete que não adianta: o público é vulgar e gosta é de chanchadas e de rebolados.

Todos estão cansados e irritados. Que profissão mais infeliz! O comediante acha que se saiu bem, é ainda moço e tem futuro, ao contrário da atriz principal, que está decadente e amargurada, porque o seu amante a abandonou.

Alguns críticos é que meteram o pau em todo o mundo: no autor, no diretor, no elenco, no cenarista, no iluminador. Chegaram a dizer que havia pulgas no teatro.

Os cartazes estão sendo retirados. O porteiro boceja. Alguém pensa: aquilo afinal foi uma comédia, um drama ou uma tragédia? Talvez uma ópera-bufa.

A noite é fria, e começa a chover. Os carros já rareiam nas ruas. Um mendigo cata restos de comida numa lata de lixo. Está acompanhado por um cão amigo, que olha para ele, com ternura.

Afinal, todos saem. Alguns vão embriagar-se, para esquecer. Outros fazem planos para o futuro: “Vou arranjar um emprego público”. “Vou afastar-me para uma sitioca e criar galinhas”.

É uma peça de teatro, é uma disputa política em que a eleição foi fraudada, é a vida?

De repente, o estampido de um tiro. Quem matou, quem morreu, quem se suicidou?

Deixem pra lá! É um caso para a polícia, a polícia que resolva. Mas a polícia também não resolve. Vai permanecer a dúvida, para sempre.

É preciso reconstruir o Brasil, ou melhor, construí-lo, porque ele ainda não foi construído. Pontes, estradas de ferro, os portos reformados e ampliados, os aeroportos funcionando, o saneamento básico, a saúde, a segurança, e fora todos os privilégios!

O reconhecimento das pessoas honestas, que são a maioria, mas silenciosa, dos bons técnicos e não dos parlapatões, cada um em seu lugar, sem rivalidades, sem despeitos e sem-vergonhice.

Os Maranhões higienizados, a justiça sendo feita para cada um e sem demora, a educação com professores ensinando e não fazendo greves, os bancos e os banqueiros postos no seu devido lugar, as fábricas produzindo e exportando, os lavradores plantando, as medidas provisórias relegadas, os falsos projetos para enganar os trouxas expurgados, o Congresso sem o rebotalho que aí está, cada homem e cada mulher retornando para casa, à tarde, com a consciência limpa.

 Annibal Augusto Gama

A biblioteca de Camões

Camões na gruta de Macau, em gravura de Desenne, 1817

Já ninguém duvidará que foi pobre Camões, para não dizer indigente, que viveu sem ofício nem benefício e assim morreu, tão desconsoladamente, na sua casa da Mouraria, em asilo ou hospital, em miserável catre, sem ter um lençol que lhe servisse de mortalha, como informou o carmelita descalço Frei José Índio. Fora de Portugal, em Moçambique ou alhures, soldado raso, tão pobre continuou que “comia de amigos”. E confirma a sua pobreza D. Gonçalo Coutinho, que transferiu a sua sepultura para o interior da Igreja de Santa Ana, mandando gravar-lhe o epitáfio:

 

                                              “Aqui jaz Luis de Camoens

                                                               Príncipe

                                               Dos Poetas de seu Tempo,

                                               Viveu pobre e miseravelmente

                                                           E assim morreo”.

 

A mesa de seus pais, na Mouraria, devia condizer com essa escassez de mendigos, comendo todos o pão que o diabo amassou, e bebendo a água da bica, tanto que o poeta, a troco de umas moedas, ou em espécie, fazendo versos, de que se serviam terceiros como autores, reclamava de um deles as galinhas que lhe haviam sido prometidas:

 

Cinco galinhas e meia

                                               Deve o senhor de Cascais,

                                               E a meia vinha cheia

                                               De apetite para as mais.

 

Dirige-se ele também, em redondilhas, “A um fidalgo que lhe tardava com uma camisa que lhe prometera”:

 

Quem no mundo quiser ser

                                               Havido por singular,

                                               Para mais se engrandecer,

                                               Há-de trazer sempre o dar

                                               Nas ancas do prometer.

 

                                               E já que Vossa Mercê

                                               Largueza tem por divisa,

                                               Como todo o mundo vê,

                                               Há mister que tanto dê,

                                               Que venha a dar a camisa”.

 

Aquilino Ribeiro, em seu livro Luís de Camões”, vol. I, fazendo prova larga de que o épico vivia sem profissão, renda ou prebenda, anota que tirava ele ocasionalmente o sustento naquele versejar para outros, e parcamente remunerado: “Os proventos do autor e representante, embora exíguos, somados ao versejador de encomenda, um soneto a este galã, um vilancete àquele peralta, uma ode ao fidalgo velho e baboso, tais e tais redondilhas ao palaciano, versos religiosos aos frades e à beata, perfazem a fonte econômica a que Luís de Camões iria buscar seus meios de vida. Nada haveria, no entanto, mais eventual e precário, em despeito da boa fama que pudesse correr de sua arte”.

A tença que lhe chegou, quando da publicação dos Lusíadas, veio tarde, ao fim da vida. E ainda assim, demorou a ser paga, emperrada nos desvãos da burocracia reinol, o que explica  a pobreza que o continuou assolando na casinha da Mouraria.

Nem lhe valeu o precário cargo de Provedor de Defuntos, no exílio, e de que, por intrigas ou perseguição, foi logo alijado, acusado de desfalque, e levado preso para Moçambique. Prisão outra já sofrera, no Tronco, em Lisboa.

Outra lenda é da sua pretendida fidalguia, quando não passava de escudeiro, último degrau na escala social em que se marginava com os pobres diabos, os vilões e joãos ninguém.

É ainda Aquilino Ribeiro que impugna a história de que Camões teria escrito boa parte de Os Lusíadas na Gruta de Goa, que mediria 1,35m por 3,20m, e “serviria para um gorila não para um civilizado”.

E ainda observa.

 

Além da incomidade que revestiria permanecer lá mais tempo do que permite o desenfado, há absurdo em querer elevá-la à categoria de cela, casulo que seja, dum trabalhador intelectual das exigências de Luís de Camões. Os Lusíadas, com efeito, não são apenas obra de joalheiro, mas de erudito. Para compor aquelas estâncias, em que se encadeia, por via de regra com engenhosa arte, a mitologia com a ciência, toda a gama das ciências, era forçoso compulsar os textos. Supondo que o espaço do recinto era suficiente para este exercício, Camões teria que transportar para lá todos os dias a sua cabazada de livros”.

 

Aqui bate o ponto.

Fora de qualquer contestação, Os Lusíadas não são obra apenas de um grande poeta. São obra de um erudito, de um historiador, que tinha profundo conhecimento geográfico, estudara a cosmovisão ptolomaica, a astronomia, a medicina, a náutica, e outras ciências, vasculhara com mão noturna e diurna a mitologia, lera Virgílio, Ovídio, e os clássicos da literatura latina na própria língua, e Homero, Platão e Aristóteles em traduções, estudara os fenômenos atmosféricos, compulsara assiduamente Petrarca, impregnara-se do dolce stilo nuovo, abeberara-se em todos os escritores portugueses, enfim, que tinha um saber enciclopédico,  abrangendo tudo o que se sabia na época.

Para tanto, no mínimo, seria preciso que Camões possuísse uma preciosa livralhada, uma biblioteca.

Como ajustar-se, porém, esta livraria, de difícil transporte, com a sua pobreza franciscana, com os seus desterros e prisões, com as suas viagens, abrigando-se em miseráveis choupanas onde foi largado como soldado raso? Indo nas naus para terras de África e da Índia, sem ter de seu mais do que uma muda de roupa e a espada, espremido nas enxergas dos tripulantes, como levaria consigo tantos autores e livros?

Ninguém o explica, nada o explica.

Convém lembrar que Lisboa, na época, “excluindo servos e escravos, de pequeno âmbito”, tinha uma população de menos de cem mil habitantes. A classe mais baixa, certamente, era a maioria. Vivia de seus ofícios miúdos. Analfabetos havia-os por toda a parte, até mesmo entre nobres e fidalgos. Os conventos decerto tinham a sua livraria, de livros religiosos e para religiosos na maior parte. Imperavam a censura e a Santa Inquisição; ainda a mais grave obra podia ser tida como herética, e excluída das bibliotecas. Os Lusíadas, para serem publicados, tiveram de obter licença d’el Rei, e submeter-se ao imprimatur de Santa e Geral Inquisição, através de Frei Bartolomeu Ferreira, que ainda assim alertou os leitores de que o poeta se valera da “ficção dos Gentios”, isto é, dos deuses mitológicos, o que seria “fingimento”, do autor como poeta, e que esses deuses pagãos “sam Demonios”.

Nem se elevava Lisboa à categoria das nossas cidades médias que abundam por aí. Não se suponha também que as letras e as artes se refugiavam nos palácios, numa corte ilustrada que cultivava a leitura. Alguns raros fidalgos naturalmente eram amantes das belas artes. O mais que se cuidava era dos privilégios de sangue, entregue o resto à mercância, às conquistas ultramarinas, às guerras contra os hereges, ao comércio das especiarias, à aurea sacra fames. Só se distinguia a arquitetura, na construção dos palácios e das igrejas, e seu ornamento. Não ficaram grandes nomes de pintores, em Portugal. Sobreviveram a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerônimos, o Mosteiro da Batalha, fortins, e palácios. E floresceu a indústria náutica, com as suas caravelas e os seus instrumentos de navegar, cujo incentivo vinha de longe, com Sagres e o Príncipe D. Henrique. Portugal, que tanto se expandira em colônias além mar, decaía, com sua rivalidade da Espanha, as incursões dos piratas franceses e ingleses, e o domínio da França e da Inglaterra. Quase só lhe restou o Brasil, para onde, mais tarde, fugindo das tropas de Napoleão, D. João VI viria, trazendo a sua biblioteca e a parasitagem de sua corte, com Dona Maria, a Louca.

O próprio Camões, de volta a Portugal, na estância 145 do último Canto do seu poema, com clareza vê que já pouco representava para os nobres, e o povo em geral, a arte e o engenho: “Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida / E não do canto, mas de ver que venho / Cantar a gente surda e endurecida. / O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.”

Mas a indagação fica no ar: que livros tinha consigo Camões, para deles haurir a espantosa erudição, o diversificado conhecimento da máquina do mundo, que espalhou por toda a sua epopeia, e ainda pela sua obra lírica? Sem dúvida, para mostrar-se exato e veraz, teria de consultá-los a miúdo, lê-los e relê-los.

Cem livros (o que não é muito) já são um transtorno para quem, como ele, em sua extrema pobreza, haveria de se dispersar em aventuras, viagens marítimas que duravam mais de dez meses, exílios, combates, doenças, e tinha ainda de prover como podia a própria alimentação, procurar hospedagem em cantos imundos, e até dormir ao relento. E os livros pesam, sobrecarregam a bagagem, teriam de ser levados de um lugar para outro, são roídos pelas traças, destroem-se com a umidade, o mofo, encharcavam-se com as tempestades que acossavam as naus. Além disso, custavam caro para quem não tinha nem como se alimentar, eram raros e difíceis de se adquirir.

Pode-se pensar em apenas alguns livros fundamentais que ele mantinha consigo: a Bíblia, a Eneida de Virgílio, Petrarca, um ou outro Platão e Homero, estes traduzidos para o idioma português. Talvez alguns livros de história e de geografia. Quem sabe menos que os dez livros que levaríamos para uma ilha deserta, conforme esta questão repetida que nos propõem periodicamente as revistas e os jornais. Eram nada para quem tudo abordou em Os Lusíadas e na sua obra lírica; para quem foi mestre da língua, de correção impecável, sem estar grudado a gramáticas e gramaticadas. Dicionário? Teria ele em mãos, nas suas aventuras e desventuras, algum dicionário? Qual?

É válida a suposição de que, em África, na Índia e na China, se valesse da livraria de algum vizo-rei ou potentado, que complacentemente lhe abrissem a porta, ou dele se servissem como escriturário, ou lhe encomendassem odes e sonetos, cuja autoria fraudulentamente se outorgariam. Camões foi, neste sentido, um ghost-writer avant la lettre, profissão que hoje já se oficializou até entre nós, e rende dinheiro. Menos para o nosso poeta, que trocava os seus versos por galinhas e uma camisa, e não as recebia dos devedores.

Que livros possuía Camões, em que livros tanto aprendeu para tão fartamente carregar de ensinamentos a sua obra? Nem sequer se pode supor que escrevesse no silêncio das bibliotecas, compulsando-os. A sua vida aventureira, as arruaças em que se meteu, desterro e viagens, a companhia de soldados rudes e de prostitutas, era mais própria de quem escrevesse nas tascas, ou sobre os joelhos, tremendo de frio no inverno e abrasado pelo sol do verão, e não raro faminto. E ele não passou dos cinqüenta e seis anos, vivendo os últimos deles em Lisboa já avelhantado, doente, alquebrado, rondando as ruas como um pedinte. É verdadeiramente admirável que ainda assim deixasse a obra que compôs, à qual com fulguração dos versos se juntava a escrupulosa doutrina bebida em muitos autores, nos clássicos da antiguidade e nos contemporâneos.

Nem mesmo se admite que, na adolescência e na mocidade, tivesse estudado na Universidade de Coimbra, onde se debruçaria sobre os compêndios por longos anos. Não fez cursos regulares, não dispunha das rendas dos pais ou de parentes, não pode abrigar-se à proteção de ninguém. Em suma, “viveu pobre e miseravelmente, e assim morreu”.

Leiam-se Os Lusíadas. Em cada estrofe, em cada verso, debruçar-se-iam mais tarde os comentadores para explicar a exatidão dos termos geográficos, das referências históricas, das tramas mitológicas, das anotações dos fenômenos meteorológicos, das indicações da cosmologia, da medicina, da náutica. Já no quarto verso da primeira estância do Canto Primeiro, “Passaram muito além da Taprobana”, vem Augusto Epifânio da Silva Dias, e explica: é a parte “do Oceano Atlântico e do Mar das Índias, que banha a África pelo lado Meridional”, e aponta em seguida Heródoto, os fenícios, Ovídio que, “querendo citar um ponto da terra muito remoto, nomeia a ilha de Taprobana”, socorre-se ainda de Plínio, e completa que, para Camões, a Taprobana era a ilha de Ceilão. E logo depois, ao verso sexto da segunda estância (“Se vão da lei da morte libertando”), vale-se outra vez de Plínio e da Epístola de São Paulo aos Romanos, de que talvez seja ele uma reminiscência: “Nunc autem soluti sumus a lege mortis”. E assim por diante, interminavelmente, em cada verso. Se vamos a outro comentador, Francisco da Silveira Bueno, imediatamente após o primeiro verso da primeira estância do Canto Primeiro, “As armas e os barões assinalados” (e nem seria preciso dizê-lo), lembra ele o Virgílio da Eneida: “arma virumque cano…

Desta maneira seguem todos os comentadores, repetindo-se uns aos outros, mas de tal sorte que não há verso de Os Lusíadas, ou da obra lírica de Camões, que não se reporta a exemplos de muitos outros poetas e autores, para confirmar a sua exatidão e os vastíssimos conhecimentos dele.

Certamente, para escrever o seu poema épico e a sua lírica, Camões tudo leu, ilustrou-se em milhares de livros e autores.

Mas onde estaria esta vastíssima biblioteca, como poderia tê-la consigo, na sua vida miserável, sem ócio e com muitos maus negócios?

Mistério, mistério indevassável.

Convém ainda lembrar, que já no Século XVIII, aqui no Brasil e também em Portugal, eram raríssimos os que estivessem na posse de uma biblioteca particular de pouco mais de cem livros. Em Vila Rica, à época da Conjuração Mineira, as pessoas abastadas e ilustradas tinham poucos livros, como Cláudio Manuel da Costa com os seus trezentos e oitenta e três volumes, quase todos de Direito e uns poucos volumes de Camões, Quevedo e Calderón de la Barca; Tomás Antônio Gonzaga possuía oitenta e três, Alvarenga Peixoto dezessete e o Coronel Francisco de Paula oitenta e quatro. Somente o cônego Luís Vieira da Silva tinha uma rica biblioteca de cerca de oitocentos volumes, segundo Rubens Borba de Moraes (Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial) e Eduardo Frieiro (O Diabo na Livraria do Cônego). E eram excepcionais os donos dessas livrarias, gente bem posta na vida, alguns em cargos públicos, ao contrário de Camões, sem eira nem beira. Gente estável, assentada, sem aventuras nem desventuras, que só a Conjuração veio a desgraçar, mandando alguns para o desterro.

Aquilino Ribeiro é pela hipótese de que Camões tenha estudado em Lisboa, e não em Coimbra. E lembra o que diz o Visconde de Juromenha: “As relações que Simão Vaz de Camões tinha com os padres de S. Domingos, que naquele tempo gozavam de bastante reputação literária; a proximidade da casa com o convento; a docilidade com que o poeta a seu rogo emendou e riscou alguns lugares do poema; e o recreio que mostrava e a consolação que sentia com a companhia destes religiosos nos últimos e desgraçados tempos da sua vida, arrastando-se, encostado a umas muletas, para ouvir as lições de teologia que se davam neste convento, me faz acreditar que fossem estes religiosos os primeiros preceptores do nosso Poeta, frequentando ele as suas aulas, que naquele tempo eram concorridas pelas principais pessoas da Corte”.

Conjeturas… Porque é certo que Camões não chegou a completar nenhum curso regular. E se tão achegado estivesse ele aos padres de S. Domingos, por que ao fim de sua vida verdadeiramente os sacerdotes não o agasalharam e ampararam, deixando-o a vagar pelas ruas, doente e sem uma moeda na algibeira?

Mais difícil será admitir que tivesse estudado na Universidade de Coimbra.

De qualquer maneira, os anos escolares foram breves e poucos. Logo estava Camões a compor as suas redondilhas, as suas odes, elegias e sonetos, a vender alguns poemas por pouco ou nenhum dinheiro aos fidalgos que os encomendavam, a frequentar a súcia de malandros dos bairros de má fama, a acutilar pagem da Corte, a sofrer prisão no Tronco, a ser desterrado e despachado para Ceuta, a navegar como soldado para a Índia e para a China.

As suas leituras devem ser do tempo da adolescência e do começo da mocidade, quer se fizessem na livraria do Convento de S. Domingos, ou alhures, nas bibliotecas de fidalgos que lhe dessem acesso. Naturalmente, continuou lendo a vida toda, nas mesmas circunstâncias, porquanto dificilmente teria consigo mais de vinte volumes, apenas seus.

Voltando a Aquilino Ribeiro, para quem Os Lusíadas não são apenas obras de joalheiro, mas de erudito, e para compor as suas estâncias, em que se encadeiam a mitologia com a ciência, toda gama de ciências, “era forçoso compulsar os textos”.

Que textos e que autores, se o poema todo, ou em grande parte, foi composto na Índia e na China, e o poeta, desprovido de biblioteca, vivendo do ínfimo soldo de soldado, e logo demitido do efêmero cargo de provedor, e preso, não podia ter consigo, de seu, mais que a roupa do corpo e uma vintena de livros?

É realmente um mistério. A vastíssima erudição refletida no poema épico e em toda a sua obra exigiria que ele tivesse à mão uma rica biblioteca. A biblioteca que nunca teve. E só a genialidade de Luís Vaz de Camões, servida por uma memória espantosa das leituras que fez e registrou com absoluta exatidão, para se servir dos autores quando lhe aprouvesse, sem compulsar-lhes o texto, pode explicar este mistério.

 Annibal Augusto Gama

Extraído do livro “Os Diamantes de Ophir”, Funpec Editora

“Como se naus inda partissem

Do velho cais, d’algum ponto”

o (des)fado da alma portuguesa,

com uma letra/poema que Pessoa assinaria.

 

 “Desfado” (Pedro da Silva Martins), com Ana Moura

A intemperança verbal

“Creio que o nosso maior pecado é a intemperança verbal, desmentida pelo silêncio do Eterno.” (Augusto Meyer, A Forma Secreta).

 

A intemperança ou o destempero verbal, no falar ou no escrever, predomina nestes tempos da comunicabilidade que não comunica nada, no vanilóquio de dizer sem ter o que dizer. Por isso se diz de certas pessoas que “falam pelos cotovelos”. Supõe-se que falar implica uma operação cerebral, um raciocínio em que se manifestam as ideias bem concatenadas, ou os sentimentos. Mas não: fala-se e escreve-se por falar e escrever, sem ponderação, sem sobriedade. É o ruído sem a mensagem. O destampatório com o excesso e o furor das palavras. E se esquece que o silêncio, não raro, é muito mais expressivo,

Quem usa trinta palavras quando podia usar apenas quatro, embrulha-se e embrulha o seu interlocutor. São as orações principais seguidas do penduricalho de uma dúzia das subordinadas. E o emprego do anacoluto (não o da linguagem poética, impregnada de sensibilidade), mas de quem não sabe o que dizer. A adjetivação abundante, na qual os qualificativos sufocam o substantivo como parasitas.

O falar é prata, o silêncio é ouro, propõe o adágio. Mas nem prata é, antes o pechisbeque de latão.

Vale a anedota: dois sujeitos estavam à mesa e a comida mal dava para um só deles. Vai, o mais esperto perguntou ao que sabia falador: “Do quê e como morreu seu pai?” E o interrogado discorreu durante meia hora sobre a doença, os cuidados, os remédios, a agonia do pai, enquanto o outro comia vorazmente. Terminada a narrativa, quis ele saber também do quê e como morrera o pai do outro. E ele, não restando mais nada para comer sobre a mesa, respondeu: “Meu pai morreu de repente”.

Cão que muito late não morde. Às vezes, morde. Mas no geral contenta-se com o ladrar que lhe esgota a energia.

Os jornais e as revistas impõem um espaço breve para quem neles vai escrever: uma coluna, meia coluna. E o escriba transborda e não aborda. É preciso cortar e cortar. Às vezes, num romance, numa novela, podem eliminar-se trinta páginas, sem dano. Por isso mesmo, o leitor prefere os contos e os minicontos. Nem já há lugar para a epopeia em dez ou vinte cantos. A aceleração do tempo aprisiona os viventes num calabouço de um metro quadrado. Mas insiste-se no discorrer vazio, na discurseira parlamentar, nas sessões judiciais em que para decidir se a libélula tem asas debate-se durante cinco horas, fora as questões de ordem, como se vê no Supremo Tribunal Federal. Eu, por mim, contento-me com as manchetes.

Diz para tua mulher: “Eu te amo”. Não, não digas: beija-a.

O gesto pode perfeitamente substituir a palavra.

Annibal Augusto Gama

A mesa da cozinha

Era uma mesa enorme (a cozinha também era enorme), de tábuas lavadas e não envernizadas, com gavetas e, ao redor dela as cadeiras. Mais adiante ficava o fogão de pedra, com o seu forno, as suas serpentinas e a trempe, sobre a qual achava-se sempre o bule de café, em banho-maria. A cozinha era a nossa lareira, principalmente nas noites de inverno. Em outras noites, eram os meninos que ali se sentavam no mosaico do chão, enquanto a negra Prisciliana, sentada no rabo do fogão, lhes contava estórias de assombração. Também o cachorro enrolado, deitado no piso. O papagaio ficava no poleiro, na penumbra da dispensa.

Chegava um, chegava outro, e se abancavam diante da mesa. Eram fritados os bolinhos de polvilho azedo e, fofos, ainda quentes, levados na travessa, para serem comidos, com goles de café.

Conversava-se, vinham as notícias da cidade, os boatos, os fuxicos, as intrigas políticas.

Parentes, amigos, hóspedes, ninguém deixava de frequentar a cozinha e sentar-se ao redor da mesa.

Nas noites de verão, a porta da cozinha permanecia aberta, bem como as janelas, olhando para o grande quintal.

Para acender o fogão, de manhã, era preciso ajeitar a lenha na sua boca, entre pedaços de jornal. Depois, riscar o fósforo e chegar a sua chama nas folhas de jornal. Quando as labaredas surgiam, convinha abaná-las com a tampa de uma panela, para avivá-las. O dia inteiro, e grande parte da noite, o fogão permanecia aceso, e a água, aquecida nas serpentinas, subia para a caixa e corria de todas as torneiras abertas.

A cozinha e a sua mesa foram boa parte da minha meninice.

Graças a Deus não havia televisão, e mesmo o rádio, dando notícias da guerra na Abissínia, era precário, com a sua estática. Sim, também chegavam os jornais, e alguns iam buscá-los no próprio Correio, situado na avenida.

A educação das crianças fazia-se assim, na cozinha.

Lá para dentro, permanecia a dona da casa, com as suas visitas, e o piano alemão, em cujas teclas tocavam-se as valsas. No centro da sala de visitas, debaixo da mesinha, achava-se o álbum de retratos.

Ocorriam igualmente os saraus, em que se cantava e se declamava. Alguém vinha com o seu violino, e outro com a sua flauta.

Infalivelmente, aparecia o Doutor Eduardo, com a sua bengala; também não deixava de vir o farmacólogo, seu Joaquim.

A convivência, na cidade pequena, era cordial e amena.

No quintal a pilha de lenha, com os troncos que eram rachados pelo lenhador, que aparecia com o seu machado e as suas cunhas.

De vez em quando, tarde da noite, alguém vinha furtar a lenha rachada e empilhada no quintal. Sabia-se quem era, mas não se dava muita importância.

Meu pai encontrava-se na rua com o ladrão, e este o cumprimentava: “Como vai, Coronel?” E ele respondia, sisudo: “Vou bem, às minhas custas”.

Os namorados beijavam-se furtivamente, no escurinho do cinema.

Annibal Augusto Gama

Mestre Annibal disse beijo no escurinho do cinema?

SEGUNDA SESSÃO

Fragmentos

Assim como há homens gordos ou mulheres magras, cavalheiros de conspícuas calvas, viúvas de olheiras e verrugas na asa do nariz, há almas rotundas ou magérrimas, almas que perderam os cabelos, e outras de nariz torto.

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Três ovos no ninho do pássaro, mas um deles ia gorar: o silêncio, o nada, mais enigmáticos que o projeto da cor, do voo, do canto.

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O muro era tão solitário que nunca se viu sobre ele passar um gato.

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As flores imarcescíveis da retórica: não murcham porque são de papel.

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Romeu e Julieta: vejo-os casados, com filhos que também já se casaram e lhes deram netos. Aos domingos, a mamma faz uma bela macarronada, Romeu bebe vinho demais, embriaga-se e xinga Frei Lourenço. A tragicomédia que Shakespeare não escreveu.

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Lentamente, a mocinha passou de modelo a dançarina, de dançarina a call girl, de call girl a prostituta, de prostituta a marafona e cafetina, Mas sempre que se registra nos hotéis se qualifica com a profissão de sua primeira carteira de identidade: modelo. Modelo de virtudes.

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Todas as vezes que lhe batiam na porta abria apenas uma fresta e dizia que não queria absolutamente nada, e que não tinha mais nada para dar, livrando-se assim dos vendedores e dos pedintes. Morto, à porta do céu, ficou com receio de que São Pedro lhe respondesse do mesmo modo. Não bateu na porta. Sentou-se ali, e ali ficou durante séculos. E as outras almas batiam, abriam-se-lhes a porta, ou eram enxotadas. E ele ali. Até que São Pedro perdeu a paciência. “Que é que o senhor quer?” “Não quero nada”. Com um pontapé, São Pedro botou-o para dentro. Mas havia muitas outras portas fechadas, infinitas portas de infinitas moradas. Diante de cada uma delas, ele sentava-se e continuava esperando. Mais outros séculos, e era posto para dentro a pontapés. Jamais saberá quantas portas lhe restam e quantos pontapés.

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Projeto de suicídio: Raspou todos os rótulos das garrafas de bebida e numa delas, vazia, despejou cianureto. Misturou-as. Noites e noites, bebia de uma das garrafas, e apenas se embriagava ligeiramente. Uma a uma, as garrafas foram consumidas, sem que se envenenasse. Restou a última, certamente a de cianureto. Olhou-a longamente. Chegou a hora. Mas ao invés de lhe beber um trago, comprou mais duzentas garrafas de bebida, retirou-lhes os rótulos e misturou-as com a de cianureto. Continua bebendo.

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Para meu gosto, o poeta Laforgue (L´Imitation de Notre-Dame la Lune, Les Complaintes et les premier poémes), que conseguiu aquele belo verso, “oh, que la vie est cotidienne!”, tem “oh, ah, ô” demais em seus poemas, helas! “Ô vision du temps ou l´être trop puni…” , “Oh! monter, perdu, m´étancher à même. “Ô pilule des léthargies finales”, “Ô Diane à la chlamyde trés-doriques”, “Ah! d´um trait inoculant l´être optere,” “Des nuits, ô Lune d´Immaculée-Conception”, “Ô Radeau du Nihil aux quais seuls de nos nuits”, etc…. As exclamações estouram como bolhas de sabão.

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No silêncio da madrugada, o médico de branco e mascarado desliza pelo corredor do hospital como um ladrão asséptico.

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As borboletas quando pousam fecham as asas; as borboletas noturnas, mais conhecidas como bruxas, pousam de asas abertas. Como as mulheres que sentam de pernas fechadas ou abertas, umas são pudicas e outras não.

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Os anjos não sentam, estão sempre de pé, porque suas asas são impraticáveis no encosto das poltronas e das cadeiras.

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 Annibal Augusto Gama

As colheres de pau

Passei boa parte da vida a fazer colheres de pau e a bordar-lhes o cabo. Porque as colheres que faço apenas são pretextos para lhes bordar o cabo. As colheres, de pau ou de metal, são utensílios, e os bordados não. Por isso mesmo é que os bordados são apreciáveis, porque não servem para nada, a não ser para nos alegrar os olhos.

Os homens pragmáticos desprezam os bordados. É a razão pela qual são tão tristes, e nos infernizam a vida. Eu, no entanto, vos digo que uma toalhinha de crochê vale mais do que um cofre recheado de moedas de ouro. Ela me encanta mais do que a mesa sobre a qual está.

As mulheres são muito mais inteligentes e sensíveis do que os homens. Elas usam vestidos não para se cobrirem, mas para se mostrarem. Pintam as pálpebras, pintam os lábios, pintam as unhas, usam berloques, brincos, pulseiras sem relógio, porque sabem que o relógio é uma máquina não de fabricar horas, mas de extingui-las. E usam também sapatinhos de salto alto, saltos muito finos, para desafiar o equilíbrio, porque não ignoram que o equilíbrio, a estabilidade, é a pasmaceira.

As mulheres não conversam: falam. Aprenderam que conversar é trocar ideias, e são as ideias que nos amargam e fizeram da vida e do mundo o malogro de todos. Falar, não. Falar é soltar as palavras, as lindas palavras, principalmente aquelas que não significam nada e, portanto, significam tudo.

É uma maravilha ouvi-las falar. Para também lhes ver os lábios, que têm um código secreto de amor.

Foi a Adão que Deus deu a faculdade de dar o nome a todas as coisas. A Eva, não. Porque Eva já era todas as coisas, os pássaros, as borboletas, as flores, a água, o céu, as nuvens, a lua e as estrelas, o vento e o rumor da noite.

Annibal Augusto Gama

Da arte de cobiçar a mulher do próximo

O Decálogo determina que não devemos cobiçar a mulher do próximo. Mas não estabelece qual é, em metros, ou quilômetros, a distância do próximo e da sua mulher. Suponho que, até uns trinta ou quarenta metros, estejam o próximo e sua mulher. A partir daí, a mulher não será mais do próximo, e você pode cobiçá-la.

E se o próximo mudar de casa? Se mudar de vizinhança? Então, você poderá não só cobiçá-la, mas também cortejá-la. Da mulher do distante, você poderá cobiçar à vontade.

Digamos que você é que muda para outro quarteirão. Neste caso, não há impedimento em cobiçar a mulher, seja de quem for.

Talvez seja porque, achando-se distante a mulher, você não pode vê-la, nem amá-la. Ora, você tem pernas, pode andar e aproximar-se da mulher que se acha a quinhentos metros de distância. Esta você pode cobiçar à vontade, que não há mal.

O único mal é que o marido da mulher distante seja feroz e esteja armado.

São questões muito complexas, essas de cobiçar ou não cobiçar a mulher do próximo. Além disso, o mundo se tornou muito pequeno, com os muitos meios de comunicação e tecnologia. Você pode cobiçar a mulher do próximo ou do distante através da internet, do telefone e dos e-mails. Ou através do sedex dos Correios.

Por que não haveria pecado em cobiçar a mulher do distante?

De outra parte, “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho”, que são deliciosos.

E se for o próximo que cobice a sua mulher?

Comigo não, violão! Saia para a rua, pegue o próximo pelo colarinho, e lhe dê uns sopapos.

A arte de cobiçar a mulher do próximo tem muitas implicações.

Caso ela adira, vá em frente, mas com muito resguardo.

Como é que você poderia cobiçar uma mulher que more na Inglaterra, achando-se você no Brasil?

Só se for através de fotografias publicadas nas revistas e nos jornais. Ou se ela aparecer na televisão.

Eu, por exemplo, sempre amei Marilyn Monroe, apesar de que ela se manteve muito longe de mim. Assim também amei muitas outras mulheres.

Você até pode amar uma mulher que nunca viu, mas imagina, com as suas fantasias.

Sem dúvida, o próximo é um sujeito muito incômodo. O próximo faz barulho na sua casa, tarde da noite, e me perturba. Briga com a mulher e a espanca. E você, não irá acudi-la e consolá-la? Seria falta de caridade da sua parte.

O Decálogo também dispõe que você deve amar a Deus sobre todas as coisas, e a próximo como a ti mesmo. Não seria então inadequado não amar a mulher do próximo como a ti mesmo?

Você me responderá: amar pode, mas não cobiçar.

Ora, ora, ora…

Ame, meu amigo. Ame tudo, todas e todos, que tudo se resolve.

 Annibal Augusto Gama