Os livros

Moisés, os escritores, com Deus, ou por ele, precisaram de cinco livros para dar início à Bíblia, o Pentateuco. Um deles, o primeiro, tem o título de Gênesis, quer dizer, a criação. Pode ser uma meditação de como se faz o mundo, ou de como se deve fazer um livro.

Cinco livros são um bom número para um escritor escrever, ou para um leitor começar a ler. Infância, adolescência, mocidade, maturidade, velhice. O caminho de uma vida.

Depois do fiat lux, o homem e a mulher são criados e postos no Paraíso, juntos dos pássaros, dos outros animais, da água, das árvores. Deverão se virar, e Deus passeia na brisa da tarde. Irão encontrar, o homem e a mulher, a inocência, a malícia, a alegria, a dor, a morte. E se, mais tarde, são expulsos do Éden, não os expulsam das bibliotecas. Apenas, fazem a lista, o Index Librorum Prohibitorum, que, por isso mesmo, é muito percorrido pelos leitores vorazes. A proibição, a censura, são um convite à leitura. E afinal, os leitores leem aqueles livros condenados, e dizem: “Nem tanto assim…”

Os cinco primeiros livros, com os anos, podem ser multiplicados por cem, trezentos, mil. Mas, no geral, eles se repetem, ou completam-se uns aos outros.

O problema é o espaço. Mil livros já demandam um bom espaço, e é preciso deslocar outros objetos. Que se dirá de dez mil, vinte mil, cem mil livros, de uma biblioteca? E é necessário ainda abrir lugares para os leitores. E os cuidados que os livros exigem, catalogação, fichários, limpeza, conservação, encadernação, restauração, dão ocupação para centenas de pessoas.

Bota-se fogo na Biblioteca de Alexandria, porque o único livro verdadeiro é o Corão e, se todos os demais o repetem, ou divergem dele, são inúteis ou deletérios.

Não seria preciso isso: os ratos, as baratas, o mofo, os insetos se encarregam de destruir os livros.

E eles se dispersam: vão para os alfarrabistas, para os sebos. Tristes mendigos que se juntam ao acaso.

O colecionador de livros, o bibliófilo, é um maníaco inofensivo. Está ali, com os óculos a escorrer pelo nariz, as falripas brancas dos cabelos espetadas para cima, a espirrar e a percorrer as prateleiras. O pó dos livros cobre-lhe os ombros do paletó. Fecha as portas, para não ser perturbado. E as suas saídas são para buscar outros livros, raros, primeiras edições.

É, porém, longevo. Vive até os oitenta, noventa anos, porque não se aventura para as ruas, onde seria esmagado pelos carros. É magro, curvado, só se alimenta para sobreviver. É sagaz, sardônico, e celibatário.

É capaz de falar sobre um livro horas e horas. Sabe da sua história, dos seus descaminhos, da sua impressão, das suas ilustrações, das ideias que agitou, das controvérsias que provocou.

O livro é matéria inflamável. Se não é, não vale a pena.

 Annibal Augusto Gama

Borboletas

Ultimamente, tenho visto muitas borboletas. Brancas, amarelas, pintalgadas, grandes e pequenas.

São elas os bichinhos mais encantadores de nosso planeta, e só se lhes equiparam os peixinhos ornamentais, que seriam borboletas que não voam. Tanto elas como eles são silenciosos, não emitem nenhum som. A elas aplica-se bem o verbo “adejar”. Borboletear é próprio delas. Adejam ou borboleteiam daqui para ali, sobre as flores.

Algumas, às vezes, entram na minha casa, mas aconselho-as a ir logo embora, porque a minha casa é a de um homem solitário e triste. As borboletas noturnas, chamadas indevidamente de “bruxas”, pousam de asas abertas, enquanto as diurnas pousam de asas fechadas, O seu ciclo vital, passando pela metamorfose completa, desde a lagarta no seu casulo, até a imago, é impressionante.

Para os italianos, borboleta é “farfalla”, palavra ainda mais adequada para ela, pois tem alguma coisa daquele seu bater de asas tão gracioso. Mas o nosso verbo “borboletear” também se lhes aplica bem.

Para Renard, em sua “Histoire Naturelle”, a borboleta é “um billet d´amour plié en deux”, isto é, um bilhete de amor dobrado em dois.

Há moças e mulheres, e principalmente meninas, que parecem borboletas. Também elas piscam os olhos rápida e silenciosamente. Só que algumas, quando pousam, nos picam. E quão dolorosamente a sua picada nos faz sofrer pelo resto da vida!

As borboletas são motivos perfeitos para os selos coloridos. Muito mais do que a carantonha de qualquer herói da pátria. Os selos que as reproduzem, nos envelopes das cartas, trazem recados que podem ser recados de amor. Aliás, todas as cartas só deviam trazer recados de amor. As outras são dispensáveis.

Os entomologistas, que colecionam milhares e milhares de borboletas, de asas abertas, espetadas em pranchas, são ao mesmo tempo homens sábios e tolos. Porque não se coleciona o frêmito, o perpassar das borboletas, contra o verde do jardim e as rosas vermelhas.

Para alguns, a borboleta representa a alma. A alma que esteve no casulo do corpo, e afinal dele se libertou.

Vai, borboleta, vai, que a vida é breve, e é preciso beijar todas as bocas, quero dizer, todas as flores.

Annibal Augusto Gama

Conversação com uma senhora

Não seria adequado que ela viesse à minha casa, àquela hora, e desacompanhada. De qualquer maneira, eu sou velho, e embora me achasse só, não vi nenhuma inconveniência na sua visita. Pela janela, eu havia percebido quando ela desceu do coche. Segurava um dos lados da saia, que se arrastava no chão. Além do véu, as abas do grande chapéu cobriam-lhe parte do rosto. Trazia uma sombrinha na outra mão. Do corpete bem apertado desabrochava-lhe o busto, com os seios firmes.

Abri-lhe a porta.

Ela entrou, olhou-me por trás do véu, e antes de me estender a mão, descalçou a luva de cano alto. Com uma reverência, beijei-lhe os dedos. Ela sorriu, e tirou o chapéu. Desprendia-se do seu corpo um perfume suave. Peguei-lhe o chapéu, a sombrinha, as luvas, e fui pousar tudo no porta-chapéus. Em seguida, movi para perto dela a poltrona mais confortável, e ela sentou-se. Ainda de pé, perguntei-lhe se desejava que abrisse a janela, ou se preferia que continuasse velada pela cortina. Ela fez um gesto, soerguendo um pouco os ombros nus, que entendi ser uma concordância com o que eu achasse melhor.

Puxei uma cadeira de braços e sentei-me em frente dela. Fazia um pouco de frio, e perguntei-lhe se aceitava uma chávena de chá. Respondeu-me que sim. Ergui-me, pedi-lhe desculpas por me afastar, e fui preparar o chá. Alguns minutos depois, retornei com o chá, os biscoitos, as fatias de bolo, e servi-a. E eu também bebi uma chávena de chá junto com ela. A ponta dos seus sapatinhos aparecia na fímbria da saia. Ela circulou os olhos, olhos de longos cílios, pelas prateleiras dos meus livros.

─ Disseram-me que o senhor lê muito. Com tantos livros aqui, vejo que deve ser verdade.

─ Sim, minha senhora, leio de dia e de noite. Ainda agora, antes que a senhora viesse, estava relendo…

Ela ergueu a mão.

─ Sim, eu sei… Foi por isso que eu vim.

─ Venha quando quiser, madame. Será sempre bem recebida.

Ela pousou a chávena de chá sobre a mesinha, e enxugou delicadamente os lábios com o guardanapo

─ Além de leitor contumaz, o senhor á advogado. Muito conveniente. Ele também era advogado. Mas não vim pedir-lhe que seja meu advogado, nem propor-lhe uma causa.

Com efeito, eu observei-lhe, a justiça é muito errática. E muito subjetiva. E a mim parecia que as sentenças nunca deviam transitar em julgado. Ao contrário, os processos deviam estar sempre sendo renovados, acrescidos, com novos argumentos, a eliminação de outros, as provas se sobrepondo e as sentenças se desdizendo. Até acreditava que, no outro mundo, devia ser assim. Lá, devíamos ser permanentemente inocentes e culpados.

─ O senhor diz isto com muita graça ─ ela pareceu concordar. ─ Na eternidade, nada acaba. Tudo está começando, e continuando.

Não lhe perguntei se ela era feliz. Parecia-me bem, muito bem, no esplendor dos seus trinta e poucos anos, e supus que fosse feliz.

O que eu quis saber foi como deveria chamá-la: Senhora Capitu, ou Senhora Capitolina?

─ Pode chamar-me de Capitu. Assim sempre fui chamada, e não gosto de Capitolina.

─ Senhora Capitu, e ele, ele é feliz?

─ Não sei. Vejo-o muito pouco, e de longe. É uma pena. Já o José Dias… O José Dias vem falar comigo de vez em quando. É um homem curioso, mas evitamos falar dele.

Anoitecia rapidamente. Fui aceder as lâmpadas dos dois abajures, nos cantos da sala.

─ A senhora sente-se injustiçada?

Moveu devagar a cabeça, duvidosa.

─ O senhor mesmo disse-me há pouco que a justiça é muito errática. Além disso, não fui julgada, nem condenada regularmente.

Era verdade. Todavia, de um modo ou de outro, ele a condenara.

Ela pareceu adivinhar o que eu pensava, e retorquiu:

─ Sim, é o que está no livro. Mas não foi ele que escreveu o livro.

Eu podia admitir que sim. Ainda que escrito na primeira pessoa do singular, como se fosse uma autobiografia, não fora ele que o escrevera.

─ O senhor sabe que foi o Senhor Machado de Assis quem o escreveu. O Senhor Machado de Assis era um homem surpreendente e suspicaz. Gostava de pôr as pessoas em confronto e dar-lhes interpretações controvertidas que confundiam os seus próprios leitores. Enquanto isso, ele ria à socapa.

Era um modo de ver as coisas. No entanto, como é que Machado de Assis soubera de toda a estória, com tantas minúcias, desde a adolescência de Bentinho e de Capitu?

─ O senhor não ignora que o Senhor Machado de Assis tinha muito ciúme de sua mulher, Dona Carolina. A fidelíssima, a irreprochável Carolina. Imagine se ele tivesse tido um filho com Carolina, e o filho parecesse com qualquer das pessoas das relações de ambos?

─ Então a senhora acha que ele transferiu uma hipótese intimamente formulada para uma criação literária?

─ Não, não digo que ele transferiu tudo. Ele devia conhecer-nos, ou informar-se de nós através de outros. Havia, na época, muitos mexericos, tantos como ainda há hoje, e o Rio, a Corte, era uma cidade muito pequena. Daí a imaginar ou criar o restante foi um passo. Mas não nego que tudo está muito bem entrelaçado.

Por que então ela não perguntava diretamente a Machado de Assis?

─ A senhora o vê por lá o Senhor Machado de Assis?

─ Não. Ele se encontra noutro setor, com as pessoas da sua profissão e talento. O lugar é muito vasto.

─ Mas a senhora deve estar com Dona Carolina. Por que não lhe pede para falar com o marido a fim de que se resolva a sua situação?

─ Porque agora é tarde, muito tarde, e já não adianta nada.

Sim, ela tinha razão. Quantos milhares de leitores já não tinham lido Dom Casmurro e firmado posição a favor de Capitu, ou contra?

─ Sabe o que mais? ─ ela prosseguiu. ─ Bentinho nunca deixou de ser um adolescente. Um adolescente incurável. Eu amadureci, ele não.

Com toda aquela sutileza, com toda aquela malícia, com todas aquelas reflexões do romance?  Ah, sim, ela sustentava que não fora ele que escrevera o livro, mas Machado de Assis. A culpa era de Machado de Assis.

Levantou-se da poltrona. Estendeu a mão para se despedir. Fui buscar-lhe o chapéu, a sombrinha, as luvas.

Graciosa como sempre, passou pela porta. Vi quando subiu ao coche. E partiu.

Annibal Augusto Gama

 

  SONETO CAPITOLINO

 

                                                           Teus olhos oblíquos e ubíquos

                                                           obnubilam a todos que ousam lê-los

                                                           e nunca mais deixarão de vê-los

                                                           sem obliteração aonde vão.

 

                                                           Olhos dissimulados, de ressaca,

                                                           sortilégios de um velho bruxo casmurro

                                                           que se esquiva, desguia, vira a página

                                                           e nos conduz para a armadilha

 

                                                           dos teus olhos capciosos

                                                           que como arautos mudos

                                                           capturam os bentos e os malditos

 

                                                           os precatados e os incautos

                                                           a lhes prenunciar o mundo

                                                           que se descortina além-retina.

Antonio Carlos Augusto Gama

A busca do tempo perdido

A busca do tempo perdido é também a busca do tempo achado. Porque o recriamos, imaginamos, fantasiamos, e acrescentamos o que ele não tinha. As memórias escritas, por mais fiéis que o seu autor queira que sejam, com documentos, retratos, testemunhos, nunca aboliram a imaginação criadora, que as aumenta ou preenche as lacunas. Quando o vazio é muito grande, salta-se sobre ele, e mistura-se a cronologia. Não vimos, mas cremos que vimos. E apela-se também para a memória dos outros, que é tão falha ou imaginosa como a nossa.

A busca é um reencontro e um desencontro. Os perfumes substituem-se, ou equivalem-se. Quando os ruídos já cessaram, e sobreveio o silêncio, renovam-se em outros, com a água que torna a cair, a manhã que renasce, a tarde que chega, e a noite que tudo encobre. A rosa de ontem permanece na rosa de hoje.

O buscador do tempo perdido é um colecionador e um antiquário. Prega nos álbuns os selos carimbados das cartas recebidas, e cola em outros álbuns as fotografias amarelecidas. Recusa as novas edições dos livros, e só quer as primeiras edições. Por isso, frequenta os alfarrabistas, e veste o paletó que saiu da moda, tirado de um guarda-roupa com espelhos em bisotê. E quer que as horas batam nos velhos relógios do avô.

Vai visitar as cidades que já não são mais, e quer ouvir o galo cantando num quintal que desapareceu.

Perdidos e achados eram uma seção dos jornais, que registrava os objetos encontrados nas ruas, nas praças, nos carros, numa estação, e convidava o leitor a vir reconhecê-los e recolhê-los. Perde-se tudo: guarda-chuvas, óculos, carteira com dinheiro, pastas, livros. Sei de um sujeito que perdeu a própria mulher num supermercado e até hoje não a reencontrou.

Os achados juntam-se aos perdidos, e uns completam outros. O tempo é apenas uma dimensão abstrata, que se confunde com o espaço, e todos os objetos, inclusive nós, ocupamos um lugar no espaço. Logo, ocupamos também um lugar no tempo. Podemos ser removidos, mas de qualquer forma estaremos aí. Ou alhures.

Sim, há os que perdem até a identidade. Mas arrumam outra, e sobrevivem.

Não há, pois, que se desesperar, que sempre nos achamos.

Os espelhos não guardam imagens daqueles que se miraram neles, e se foram. Mas, se olharmos bem na sua superfície, tornamos a encontrá-las. Elas estão atrás de nossa própria cara.

Não necessitamos de respostas: necessitamos de perguntas.

Mas respostas e perguntas estão nas revistas velhas, nos livros lidos, nas cartas guardadas, no dia e na noite que se repetem.

O galo continua a cantar num quintal que existe porque já não existe.

Annibal Augusto Gama

 

Pílulas de vida

De vez em quando o meu telefone toca e dizem-me que desejam falar com a Dra. Mônica. Não conheço a Dra. Mônica, mas presumo que ela seja clínica geral. E recorro aqui à Dra. Mônica para vir me tratar de dor do cotovelo e de uma coceira nas costas, em lugar que os meus dedos não podem alcançar. Ela me encontrará encostado do umbral da porta, esfregando-me. E prometo-lhe que mandarei aviar a sua receita e tomarei escrupulosamente as pílulas que me recomendar. Prefiro, porém, que me receite placebos.

A vida é feita de falsos remédios, que são tão eficazes como os verdadeiros. E já se dizia que o que não mata cura.

De enganos e verdades vamos vivendo. A soma dos enganos e das verdades equivale-se.

Nestes meados de setembro, o calorão já chegou. As árvores ainda não se despiram das folhas, mas alguns ipês já estão florindo. O meu filho Antonio Carlos trouxe-me a fotografia que tirou de um ipê amarelo, à porta da sua casa, todo garrido.

Se a Dra. Mônica me curar, prometo-lhe uma gorda recompensa. Mas acho que sou incurável.

Diz Pascal que é preciso fazer bom uso das doenças. E que se permanecemos reclusos em nossas casas, nada nos acontecerá. Quanto a isso, contesto-o. Dentro das casas tudo pode acontecer.

Sucede-me que abro uma porta e olho para fora. Lá vem aquela loiraça rebolante. Digo-lhe: “Fique aí, parada, para que eu te contemple, ipê florido”.

Mas ela vai embora, e suas flores despetalam, caindo na calçada.

Aguardo a noite, que é outra mulher, com os seus cabelos negros.

No escuro do quarto, acendo uma velinha para os meus santos de barro. Eles cochilam, e perturbo-os com os meus pedidos.

O que me falta é você, você, você, minha amada…

E outra vez que me telefonarem chamando a Dra. Mônica, direi que ela não atende mais.

Ah, as mulheres não atendem nunca!

Se me atendessem, eu não estaria tão sozinho.

Dra. Mônica, por favor, receite-me um placebo que substitua a vida!

Mas a Dra. Mônica faz ouvidos moucos. O bom é que ainda me restam as pílulas de vida do Dr. Ross, que fazem bem ao fígado de todos nós.

 Annibal Augusto Gama

A retreta

Que diabo de língua é esta, em que “retreta” significa “formatura de soldados ao fim do dia para se verificar se todos estão presentes”, “criada de serviço particular da rainha”, “concerto popular de uma banda de música em praça pública” e “latrina”?

Dirão que em todos os idiomas é a mesma coisa, que um vocábulo pode significar muitas coisas, diversas umas das outras, e até contraditórias. E é verdade.

No entanto, os dicionários têm duzentas, trezentas mil palavras. Certo é, porém, que não usamos senão umas seiscentas palavras para nossa comunicação cotidiana, e olhe lá. Há variações, como quando dizemos para uma mulher: “Eu te amo”, “eu te adoro”, “eu te quero”, “sou capaz da matar por você”, conforme o grau da paixão ou da mentira. À minha amada eu vou buscar a Lua, e ponho as estrelas no seu colo.

E ainda há aqueles que inventam palavras, os neologismos, e outros que vão buscar as mais arcaicas palavras, ou usam da gíria, como se usava “o tufo do mufurufo”.

Não bastasse isso, enxertamos palavras e expressões francesas, inglesas, italianas, espanholas, em nossos textos e em nossos diálogos. E nem me refiro ao latim, com os seus conceitos lapidares.

No entanto, no entanto, estamos, de uns setenta anos para cá, diante das gerações sem palavras, em que um cara diz para outro: “Ô bicho, me dá essa coisa aí para fazer uma coisa”.

A perversão da língua e da linguagem, nos canais de televisão, no comércio, na publicidade, é também uma realidade. Ou o estropiamento da pronúncia das palavras e os pontapés na gramática.

Vai ainda que, cada profissão tem o seu vocabulário próprio. Escutem uma conversa entre dois médicos, ou entre dois advogados.

O idioma universal, artificialmente criado, como o esperanto, ou o volapute, foi um ideal que malogrou.

Achamo-nos no pleno reinado da Torre de Babel.

Não é difícil, com isto tudo, verificar que estamos constantemente enganados, fraudados, furtados, principalmente pelos políticos e pelos economistas.

Há ainda uma linguagem supostamente técnica, para nos confundir.

O meio não é a mensagem, é a massagem e o ruído.

E que se falar da linguagem dos gestos, da chamada linguagem corporal, dos sinais, dos símbolos?

Que é que eu hei de te dizer, minha amada? Deito a cabeça no teu colo e te contemplo em silêncio.

 Annibal Augusto Gama

O tédio e o remédio

 

Se Brás Cubas pretendeu inventar e fabricar um emplasto contra a hipocondria e a melancolia, creio que uma droga mais benfazeja, em pílulas, em xarope, ou em pó, deveria ser fabricada contra o tédio. Acho que esta flor amarela do tédio, com o seu odor putrecente, é que está definhando a humanidade e acabará por nos sepultar a todos.

Vamos para um lugar e para outro, e é sempre a mesma coisa, sempre o mesmo aborrecido contorno, que faz muitos de nós nos afogarmos no álcool, ou nos afogarmos propriamente dito. Vai ano, entra ano, são as mesmas comemorações de nada. Já não nos surpreendemos com as matanças, a ladroeira, a corrupção, a miséria, a fome, e as mesmas doenças.

Tão aborrecida se tornou a existência, que aquele Major inglês, referido por Monteiro Lobato, suicidou-se, cansado de desabotoar e abotoar a farda todos os dias.

Não há publicidade (e ela se produz às toneladas) que nos convença de que esta ou aquela cidade é a melhor que existe, e de que vivemos no melhor dos mundos. Você viaja para Londres, para Paris, para Viena, para Nova Iorque, para Amsterdã, ou para São Bento do Sapucaí, e tudo é a mesmíssima coisa.

Os jornais publicam semanalmente um suplemento de turismo, há uma agência de viagens em cada esquina, mas você vai ou fica, para continuar enfadado. Aqui, no Brasil, então, tudo é repetitivo: os mesmos canalhas, os mesmos bandidos repetem-se nas instituições, e suas caras estão nos canais de televisão e nas revistas, todas as horas. Já não há nem mesmo anedotas novas. Padronizou-se a burrice, nesta aldeia global, e não há como escapar. Homens e mulheres vestem a mesma roupa. Já não há nenhuma idéia nova.

                        “Sobre a minh´alma, como sobre um trono,

                        Senhor brutal, pesa o aborrecimento.

                        Como tardas em vir, último outono,

                        Lançar-me as folhas ao vento!”

É o que diz Olavo Bilac, no soneto “Tédio”. E é o mesmo “spleen” de Baudelaire, em quatro poemas:

                        “Quand le ciel bas et lourde pèse comme un couvercle

                        Sur l´esprit gémissant en proie aux longs ennuis,

                        Et que de l´horizon embrassant tout le cercle

                        Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits.”

Urge um remédio contra o tédio. Será a obra de caridade maior que se pode fazer a todos nós.

Enquanto ele não aparece, vamos desvivendo.

 Annibal Augusto Gama

O silêncio caiu

Num conto de Vladimir Nabokov, leio a frase: “O silêncio caiu”. Suponho que a tradução do seu texto, do inglês para o português, seja correta. E, sabidamente, Nabokov era um estilista. Mas pergunto a mim mesmo: o silêncio cai?

Alguém, há muito, muito tempo, escreveu: “O silêncio caiu”. Depois disso, centenas, milhares de outros escritores, repetiram: “O silêncio caiu”. A frase tornou-se um clichê.

Ora, o silêncio não cai. Não é um saco de chumbo, para cair do teto. Depois, ao invés de cair, pode também levantar-se do chão. Expandir-se, envolver uma sala e as pessoas que se acham nela.

Também habitualmente se diz ou se escreve: “A noite caiu”. Pois bem: a mim me parece que a noite não cai. Ao contrário. ela parece brotar do chão. O que cai é o sol, no horizonte.

Admite-se que a chuva caia, ou que o vento uive na folhagem das árvores. Mas essas frases, de tão repetidas, viraram lugares comuns, que já não nos dizem nada.

Elas compõem o que se denomina “fraseologia” de um idioma. E quase ninguém escapa disso, que já nada significa.

Homero escreveu, na sua épica: “os dedos róseos da aurora”. Era poético, numa época em que os deuses e as deusas habitavam a Terra. O mundo estava cheio de ninfas.

Muitos, muitos séculos depois, aqui no Brasil, no parnasianismo, Raimundo Correia faria aquele verso: “Raia, sanguínea e fresca, a madrugada”.

E as pombas vão e vêm…

Para um verdadeiro escritor, ou poeta, escrever é de novo descobrir o mundo. Vê-lo com os olhos que nunca outro o viu.

Todavia, a maior parte deles, repete os clichês.

Por isso mesmo, Valéry dizia que não seria capaz de escrever um romance. Porque, em alguma parte dele, teria de escrever: “Madame, comment allez-vous?”.

Annibal Augusto Gama

As bruxas

O filme em que Kim Novak está mais bela, belíssima, é “Sortilégio do Amor”. Nele, há bruxas, bruxedos e bruxarias. E ela é uma bruxa muito poderosa, que faz os seus bruxedos com um gato. E ficamos sabendo que as bruxas não coram, nem choram. Quando amam, perdem as suas bruxarias. Porque o amor é a maior bruxaria, e a definitiva.

Nos meus anos de adolescente, conheci uma mocinha, que era uma bruxa, e ligeiramente estrábica, o que a tornava mais encantadora e perigosa. Uns dez ou doze anos depois, ela apaixonou-se, casou, engordou e virou uma matrona. Então, quando entrava numa casa, as tábuas do soalho rangiam. Ela que havia sido alípede e não andava, mas esvoaçava.

A vida desfaz as bruxarias. Ou por outra, faz bruxarias desastradas.

Aqui, na minha casa, costumam entrar aquelas borboletas noturnas, chamadas bruxas. Diferentemente das borboletas diurnas, as noturnas pousam de asas abertas. Pego-as delicadamente e vou colocá-las em lugares altos, para que alguém não pise nelas.

Machado de Assis tem aquelas páginas extraordinárias da borboleta preta, em Brás Cubas. Este, para espantá-la, com uma toalha, acaba matando-a, e depois pergunta, com remorso: “Mas também, por que não era azul?”

Geralmente, os homens são tolos. As bruxas têm as cores que quiserem, nós é que não as vemos.

Só quando realmente amamos é que vemos todas as cores. E tudo pode ser azul.

Há aquela estória do tintureiro japonês, para quem um freguês foi levar um terno branco, para lavar. Naquele tempo, a expressão “tudo azul”, significava “tudo bem”. O sujeito deixou o terno com o japonês e perguntou-lhe: “Tudo azul?” E o tintureiro japonês respondeu-lhe: “Tudo azul”. No dia seguinte, foi ele buscar o terno, e o japonês havia-o tingido de azul.

Tinja também a sua vida de azul, leitor.

Annibal Augusto Gama

Cena antológica de “Sortilégio do Amor”?

httpv://www.youtube.com/watch?v=9TesRoMisEw