Psico

— Vou buscar um copo de água para o senhor beber. O senhor parece estar muito abalado.

De fato, estava. Não é todo dia que se mata a própria mulher. Com ele, era a primeira vez.

— Que aconteceu com o senhor?

Tinha-a deixado estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

— Quer dizer que o senhor tinha ou tem um punhal…

Era singular, nunca tivera punhal nenhum. Como é que o punhal fora aparecer na sua mão?

— Pelo que o senhor me diz, é casado, porque me disse que cravou o punhal em sua própria mulher. A menos que não seja a mulher com quem o senhor se casou, mas uma amante.

Ele admitiu que não era casado, mas viúvo. Quanto a amante, não, não tinha amante nenhuma.

— Se o senhor é viúvo e não tem amante, como é que cravou um punhal em sua própria mulher? O senhor terá de concordar comigo que se tratava da mulher de outro, ou de ninguém.

Havia entrado no consultório daquele psiquiatra para lhe pedir ajuda e desabafar.

— Foi na sua casa, ou em outra casa, que o senhor cravou o punhal na mulher?

Não tinha casa, naquela cidade, onde desembarcara de um ônibus. Depois de perambular por algum tempo, pegara a lista telefônica numa padaria, consultara-a, achara o nome e o endereço do psiquiatra e viera ali. E, na sua casa, na cidade onde residia, não havia mulher nenhuma.

— Isto significa que foi em outra casa. O senhor se lembra de quem é a casa?

Não se lembrava. Só podia dizer que era uma casa com três janelas, uma porta, um jardim na frente, uma grade de ferro e um portão.

— E como é que o senhor conseguiu entrar em tal casa? Tinha a chave, ou bateu na porta?

O que podia dizer é que se achara na sala, dentro da casa, a mulher estava ali, e ele com o punhal na mão.

— E por que o senhor apunhalou a mulher?

Não sabia por quê.

Depois deste diálogo, e de uma conversa que se prolongou ainda mais uns quarenta minutos, ele já estava calmoO psiquiatra disse-lhe:

— Ao que tudo indica, o senhor teve uma alucinação, ou sonhou. Não apunhalou ninguém. Ainda sob este estado alucinatório, embarcou num ônibus, desembarcou aqui e veio procurar-me. Na verdade, o senhor parece-me um homem bom e inofensivo. Recomendo, porém, que em sua própria cidade consulte um psiquiatra e faça um tratamento, se essas alucinações persistirem. Tome um desses comprimidos caso tenha dificuldade para dormir nos próximos dias, mas não abuse. Vá tranquilo.

Ele agradeceu, foi embora e, mais tarde, pegou outro ônibus de volta para a sua cidade.

O psiquiatra, ao final do dia, fechou o consultório e foi para casa. A casa, numa rua quieta, tinha em frente três janelas, uma porta, um jardim cercado por uma grade e um portão.

Ele abriu o portão, caminhou pelo jardim, abriu a porta e entrou.

Na sala, estava sua mulher, estendida no sofá, com um punhal cravado no coração.

Antonio Carlos Augusto Gama

O Senhor Quase

Tenho conhecido muitos Senhores Quase.

O Senhor Quase está em todas as profissões e em todos os lugares. Ou quase.

São essas pessoas que quase escalaram o Everest, quase ganharam o campeonato mundial de bocha, quase atravessaram a nado o Canal da Mancha, quase pescaram um peixe de duzentos quilos, quase se formaram em Medicina, quase se tornaram sacerdotes, quase casaram com a Miss Brasil, quase aprenderam alemão ou grego, quase receberam o prêmio maior da loteria, quase foram eleitos senador.

Afinal, o Senhor Quase, quase somos todos nós.

O Senhor Quase bebe moderadamente, mas às vezes se embriaga, lembrando que quase foi tudo. Quase também deixou de fumar.

O Senhor Quase escreve, e tem um romance na gaveta, quase terminado. Uma obra que se chegar a concluir, será uma obra-prima que revolucionará a literatura universal. Ou quase.

É quase católico, porque ainda tem as suas dúvidas.

E de quase em quase, o Senhor Quase vai vivendo, num país que é quase.

 Antonio Carlos Augusto Gama (Quase)

O destinatário

Ao chegar em casa, encontrou o papel dobrado enfiado debaixo da porta. Pegou-o. Era um bilhete: “Espero-o às cinco horas da tarde, no lugar de sempre. Não falte.” Não estava assinado, a letra era feminina, mas ele não a reconheceu.

Qual seria o lugar de sempre?

Lembrou-se daquele lugar em que, há muitos anos, ia encontrar-se com ela. Do lado esquerdo da igreja, na esquina da rua onde a loja mantinha acesas as luzes das suas três vitrinas. Ela pedia-lhe que chegasse antes, porque tinha receio de estar ali, sozinha. A cidade, porém, era outra, os tempos eram outros, e ninguém iria importuná-la, ainda que estivesse sozinha. De qualquer maneira, chegava sempre uns cinco ou dez minutos antes dela.

Provavelmente, quem pusera o bilhete debaixo da sua porta enganara-se de endereço. E, neste caso, não seria a própria autora dele que fora ali. Ficou, porém, com pena da moça, ou da mulher, que esperaria em vão o destinatário do bilhete, que não iria encontrar-se com ela.

Durante o resto do dia, embora se entregasse aos seus afazeres habituais, continuou preocupado com a pobre moça, ou mulher, sozinha no lugar de sempre. E leu duas ou três vezes o bilhete. Depois, botou-o de lado, em cima da mesa.

Ao aproximarem-se as cinco horas da tarde, a sua inquietação aumentou.

Que poderia fazer? Nada

Não obstante, com uma vaga dor no peito, foi ao banheiro, lavou o rosto, enxugou-o e passou o pente pelos cabelos, já ralos. Vestiu o paletó, e saiu.

Aonde iria? Não sabia.

Iria ao bar, passearia pelas ruas, entraria numa livraria?

Aquele dor no peito, a princípio vaga, aumentava.

Caminhou até a esquina, onde agora havia uma banca de jornais e revistas. Parou ali. Respirava com dificuldade, com aquela dor no peito. Olhou para o relógio de pulso: faltavam quatro minutos para as cinco horas.

Então ele viu que ela vinha vindo, toda de branco, num vestido esvoaçante.

O jornaleiro contou aos policiais, que chegaram logo depois da ambulância:

— Eu estava aqui, quando vi que ele caía na calçada.

Um dos socorristas, abaixado sobre ele, apalpou-lhe a jugular, tomou-lhe o pulso e viu que ele já não respirava. Tentou inultimente reanimá-lo. Enfim, enquanto lhe cerrava os olhos baços, notou que os lábios pálidos entreabriam um sorriso.

 Antonio Carlos Augusto Gama

Os brinquedos

A mãe comprou para o filho um brinquedo, que era um saco de risos. O menino, durante uma semana, manipulou pela casa o saco de risos, atormentando todos, até o cachorro e o papagaio. Eram risos, gargalhadas, guinchos, de todos os tipos, pelos quartos, pelas salas, pela cozinha, pelo banheiro. Até que o menino enjoou do brinquedo, e atirou-o para um canto.

O pai, então, deu de presente ao menino um saco de choro. E novamente, o menino, dia e noite, andava de um lugar para outro, com o saco de choro, e ouviam-se por toda parte choros de cortar o coração, soluços, gemidos e lamentos. Até que, outra vez, o menino aborreceu-se com o brinquedo, e abandonou-o debaixo da escada.

Aí, a madrinha trouxe para o afilhado um saco de espirros. E ele, com o saco de espirros, ia e vinha, espirrando em todos os tons. Eram espirros sufocados no lenço, outros altos, espalhafatosos, estrondejantes, desde o atchim! até o at… at… at… CHIM!

Mais uma vez o menino cansou daquele brinquedo, e largou-o não se sabe onde.

O menino cresceu silencioso, tornou-se moço, adulto, maduro e velho, calado.

Um dia, afinal, ele disse: Estou com o saco cheio. A minha vida não passou de uma sucessão de risos, choros e espirros.

Antonio Carlos Augusto Gama

O vendedor de mentiras

Abriu a loja numa rua discreta, como convinha para o negócio. E fez apenas um anúncio também discreto nos jornais. Esperava que os clientes divulgassem eles mesmos a inauguração do seu comércio e a excelência do material vendido. E o primeiro a aparecer, olhando desconfiado para todos os cantos, foi o marido de uma mulher vigilante e brava. O cliente encontrou o dono da loja atrás de um pequeno balcão. Na salinha um armário fechado. Viu também, por uma porta entreaberta, que havia nos fundos outra sala, com um cofre. Uma cadeira diante do balcão, uma mesa redonda e outras cadeiras. E era fraca a iluminação da loja.

O homem atrás do balcão tinha uma idade indefinida, cabelos que pareciam pintados. E lhe perguntou, quase sussurrado:

— Que é que posso fazer pelo senhor?

Hesitou em responder e, quando respondeu, sua voz também saiu em tom baixo.

— Preciso de uma mentira para um caso grave…

O outro não sorriu, como costumam fazer os vendedores. Apenas lhe afirmou que viera ao lugar certo. E continuaram dialogando em voz baixa.

— É preciso que o senhor me informe do que se trata, Para que eu possa indicar-lhe a mercadoria conveniente.

Explicou-lhe que, naquele dia, uma amiga de sua mulher o vira saindo de um motel.

— E imagine o senhor que eu fui lá apenas pegar uma encomenda que me fizeram. Sou vendedor de produtos de higiene e limpeza.

Era um caso muito simples, muito comum, adiantou-lhe o dono da loja. E, ainda cochichando, ofereceu-lhe duas mentiras. Uma delas era afirmar, de pés juntos, que ele é que vira a amiga de sua mulher sair acompanhada de um motel. A segunda, mais complexa, implicava uma carta anônima. Na carta, revelava-se que a amiga de sua mulher estava procurando roubar-lhe o marido, que ele resistia, mas que ela tanto insistia que provavelmente iria fazer uma intriga, para provocar uma briga entre o casal e ver-se assim com o campo livre.

O dono da loja adiantou-lhe que escreveria a carta, com letra feminina, sendo suficiente que ele mesmo deixasse a carta em sua casa, para que sua mulher a lesse.

— E tem uma vantagem: quando a tal senhora for denunciá-lo à sua mulher, ela não só não acreditará, mas ainda vai indispor-se com ela. Desta maneira, o senhor não só livra a cara, mas também não terá mais esta mexeriqueira em sua casa.

Gostou desta última mercadoria oferecida, e comprou-a. O homem da loja imediatamente escreveu a carta anônima, com letra feminina, e terminada como sempre: “Uma amiga.”

O dono da loja não cobrou caro pela mercadoria vendida.

— Como o senhor foi o meu primeiro cliente, vou fazer uma redução no preço.

Deu tudo certo. Sua mulher, ao ler a carta anônima, não lhe disse nada. Mas logo que apareceu a outra, a que vinha contar que o vira saindo de um motel, teve uma discussão violenta com ela, e expulsou-a da casa.

Ou porque tivessem visto pelo jornal o anúncio da inauguração da loja, ou porque o seu primeiro cliente comunicou a outro, e esse outro a outros, a excelência da mercadoria ali vendida, o certo é que o lugar passou a ser muito procurado. Satisfazia também a todos o comportamento do dono da loja: não reprovava nem aprovava aqueles que ali iam ter, limitando-se, depois de ouvi-los e informar-se, a indicar-lhes a mercadoria que lhes convinha. Além disso, ele mostrava ser homem morigerado. Não era visto em lugar nenhum, parece que fazia as suas refeições nos fundos da loja, não tinha mulher nem empregado, e atendia a telefonemas tarde da noite, em casos urgentes.

Mas não eram apenas homens que iam à loja; também mulheres a buscavam para comprar alguma das suas mercadorias. Não muitas mulheres, porque parece que elas também as fabricam, e muito melhor do que alguns fabricantes masculinos. De qualquer maneira, nem elas, nem eles, podiam concorrer com o engenho e a qualidade dos produtos oferecidos pelo vendedor de mentiras. Eram coisas finas e, muitas, finíssimas.

Feita a clientela e logo ampliada, ele não mudou de hábitos. Continuou com a modesta casa, sem luxo e muito menos ostentação. Enriquecia, mas alguma vez chegou a dizer a algum cliente mais assíduo que não era a riqueza que ambicionava, mas servir à humanidade. A mentira, sustentava, era própria das relações sociais, ou estava na raiz dos homens. Se não fosse ela, que agia como um óleo lubrificante para o bom funcionamento das engrenagens da máquina, tudo se quebraria. Ou tal barulho sairia das rodas, dos mancais, com o seu atrito, que ninguém suportaria. E a verdade era uma trava intrusa que, embora raramente, se metia entre os pistões ou nas válvulas, rebentando tudo. A mentira pacificava as relações internacionais e dos Estados, e muitas instituições seculares, indispensáveis, se valiam dela permanentemente, disfarçadas com variados nomes: governo, diplomacia, senado, câmara, comércio, indústria, justiça, educação, religião. A moral mesma era um subproduto da mentira. O direito e a lei, os seus lacaios hipócritas que nunca coibiam o estelionato, a fraude, e até a morte, fingindo detestá-los. Até a língua e a linguagem, com todas as suas regras, serviam para dizer o que não é, com as suas metáforas, a sua retórica. E os gestos. Veja-se, lembrava, um orador em sua tribuna: ele braceja, modula a voz, simula uma emoção que não tem, para fazer aqueles que o ouvem convencer-se de uma mentira oculta mas cheia de lantejoulas.

Essa discrição, essa conduta cautelosa do vendedor, além de apoiadas e respeitadas por todos, faziam que uns e outros o cercassem de proteção, e davam prosperidade ao seu negócio.

— E o senhor, o senhor também mente? — ousou perguntar-lhe um dia um dos seus clientes.

— Meu senhor — ele respondeu —, um bom fabricante ou vendedor não deve viciar-se com os seus produtos. Prová-los, às vezes deve, para avaliar a sua eficácia. Mas usar deles permanentemente o arruinaria. Veja os bons traficantes de drogas: eles nunca são drogados. Os vendedores de bebidas alcoólicas são abstêmios. O médico ingere os remédios que receita a seus clientes?

Na cidade, serviam-se do vendedor de mentiras os seus homens de prol. Procuravam-no, ainda que escondidos ou através de seus assessores, o prefeito, os vereadores, o delegado de Polícia, o promotor de justiça, o juiz, advogados, empresários e comerciantes, funcionários públicos e até o pároco.

Com esta vasta clientela, e com interesses colidentes, era necessário distinguir e estar atento às mentiras de que uns se serviam contra outros, para que não se instaurassem conflitos. No entanto, o vendedor de mentiras era hábil e sempre evitou que a mentira vendida a um não destruísse a mentira vendida a outro. Quando muito, permitia que uma empatassse com a outra, o que contentava a todos. Não é isto que acontece, não raro, na distribuição da justiça? Ele tinha também à sua disposição um plantel de testemunhas falsas, devidamente instruídas.

Começou a vir, então, gente de toda parte do país, das capitais dos Estados e do Distrito Federal, gente que ocupava os mais altos escalões, para encomendar-lhe mentiras sofisticadas, nunca saindo ninguém de mãos abanando. Principalmente, era ele consultor constante dos publicitários, jornalistas, governantes, senadores e deputados, artistas e chefes de seitas religiosas.

Tão vasta rede de distribuição e venda de mentiras tornou-se, é claro, impossível de ser gerida e administrada por um só homem, recluso em sua pequena loja. Ele, a princípio, resistiu o quanto pôde. Mas teve afinal de abrir sucursais em todo o território nacional. E, para garantir a qualidade dos seus produtos, foi obrigado a abrir uma escola para instruir os seus prepostos e discípulos, tarefa a que se dedicou nos últimos anos que passou entre nós. E era de se ver o rigor, o brilho que dava a cada um dos seus alunos, antes selecionados cuidadosamente, e só afinal aprovados e mandados para as sucursais quando dominavam a matéria.

Pouco antes de morrer, ele reconheceu modestamente: o país todo tinha extraordinária e até inata vocação para a mentira. Senadores, deputados, ministros, governadores, o presidente República, tinham particular talento para ela, e serviam-se ainda de uma linguagem apropriada que lhe dava adequada veiculação. O resultado é que, com a sua contribuição, o país estava próspero e feliz, era já o principal rincão da América Latina, na liderança de outras nações.

 Antonio Carlos Augusto Gama

Os nomes

Amir al Amar Salak Daher trouxe-me, de uma das suas viagens, um pergaminho com um texto gravado em idioma que podia ser um dos muitos dialetos antigos do árabe, para que o decifrasse, pois sou um especialista não apenas em árabe, mas também hebraico e aramaico. Disse-me que, segundo algumas informações contraditórias, no texto estaria o verdadeiro nome de Deus, e quem o descobrisse seria para sempre iluminado. Mas não quis revelar-me em que remota nação obtivera o pergaminho, e exigiu-me, por ele, trinta moedas de ouro, além da promessa de que lhe transmitiria o nome verdadeiro de Deus, se o encontrasse.

Durante meses, usei de todos os meus recursos para traduzir o texto do pergaminho, e malogrei. Afinal, abandonei-o, lembrando-me de que em muitos livros havia lido que o nome de Deus é impronunciável e está em todas as coisas.

Foi quando, já no fim do outono e eu me agasalhando para o inverno que se antecipava, veio ver-me Aquela Que Tem O Nome De Uma Flor e não o diz senão a mim. Falei-lhe então do pergaminho de Amir al Amar Salak Daher, enquanto, das suas vestes desprendia-se, com os seus gestos, o perfume dos jasmins inebriantes.

E Aquela Que Tem O Nome De Uma Flor me disse que o trismegisto só deixa saber o seu sagrado nome a quem se esqueceu de tudo, mirando as águas de um regato que vão e não voltam mais. Todo conhecimento é loucura e embriaguez, acrescentou.

Logo depois, fui convidado a dar um curso de uma semana num mosteiro de monges mudos, e escolhi o tema: “Dos Nomes”.

Os monges escutaram-me em absoluto silêncio e não me fizeram nenhuma pergunta.

Ao retornar para minha casa, fui sentar-me no pátio interno, onde há um tanque dentro do qual nadam carpas vermelhas e, refletido na água, refleti que todos os acontecimentos se repetem. E tive saudade de mim mesmo, ao pensar que todos os nomes são o mesmo nome que não sei.

Não contava, porém, com Amir al Amar Salak Daher, que veio visitar-me na noite seguinte e trazia uma cimitarra. Com ela na mão, ele me disse: “É preciso degolar todos os princípios e ficar com um só”.

Não me indagou, porém, se achara o nome, o único e verdadeiro nome de Deus, no pergaminho. Mas insistiu para que lhe comprasse a cimitarra, também por trinta moedas de ouro. Recusei.

Ultimamente, sinto tédio de todos os nomes, menos d’Aquela Que Tem o Nome de uma Flor, e não o dizia senão a mim. Mas ela não vem mais, não vem, não vem mais…

Antonio Carlos Augusto Gama

O aranhol

“Vós sois a Penélope da nossa república — disse ao terminar —; tendes a mesma castidade, paciência e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a Sapiência.” (Machado de Assis, A Sereníssima República)

Num dos seus tantos contos antológicos, em que a sua ironia se apresenta mais afiada do que nunca, Machado de Assis narra uma conferência proferida pelo cônego Vargas dando notícia do grande feito por ele alcançado, de organizar socialmente um grupo de aranhas.

Neste início de ano, ao assistir às tantas cerimônias de posse dos novos governantes pelo país afora, seguidos de seus tantos ministros, secretários e sectários, relembrei-me do mestre e ocorreu-me que o Brasil é um imenso aranhol com as suas aranhas, aranhonas e aranhinhas.

De qualquer maneira, todas as aranhas picam, com mais ou menos veneno. O aranhol-mor é o Governo Federal. Este espera que as aranhas e as aranhinhas agarrem e degustem as presas miúdas, embora, frequentemente, com uma laçada, que se denomina tributação, lhes arrebate as moscas mais saborosas.

Na escala dos aranhóis, há outros, intermediários, sempre de olho no aranhol-mor, onde tecem e destecem as aranhas-mestras. E qualquer um desses aranhóis, desde o mais ínfimo, agarra a sua mosca, lambe-a, chupa-a, durante anos. Depois de muito chupadas pelas aranhas de vários tipos, as moscas são cuspidas para fora.

As aranhas-mestras preferem as moscas gordas, as moscas azuis. Mas não desprezam os mosquitinhos.

O singular é que são as próprias moscas que pagam, para sustentar e engordar todas as aranhas. São elas que constroem os palácios de pé alto, para que, entre as paredes, as aranhas teçam os aranhóis.

Nem há vassoura que acabe com os aranhóis e com as aranhas. Elas são vitalícias. E todas espreitam as moscas. Pretas e pernudas, peludas e barbudas, botam ovos para o nascimento de novas aranhas, que logo aprenderão a tecer outros aranhóis nesta Pátria Educadora.

A “Sereníssima República” aracnídea do conto machadiano se viu em palpos de aranha à falta de acordo sobre a forma e o tamanho do saco eleitoral.

Ao nosso aranhol republicano, de petroleiros e petelhos, falta muito mais. E o saco é sem fundo.

 Antonio Carlos Augusto Gama

Os ovos de ouro

(Tela de Diego Velázquez)

De repente, quando as festas de fim de ano se aproximavam, todas as galinhas, todas as patas, todas as peruas, começaram a botar ovos de ouro. Só ovos de ouro.

Se não estou enganado, foi no quintal da viúva Dona Gertrudes que a sua galinha carijó botou o primeiro ovo de ouro. Depois, as outras galinhas de Dona Gertrudes também passaram a botar ovos de ouro.

Quando, pelas duas horas da tarde, Dona Gertrudes foi aos ninhos para recolher alguns ovos, não achou nenhum. Quer dizer, só achou os duros ovos de ouro.

Convém esclarecer que Dona Gertrudes era doceira e quituteira. Sobrevivia com a minguada pensão do finado marido e as achegas dos doces, bolos e quitutes, que fazia por encomenda e as freguesas mandavam buscar em sua casa. E já se vê que não podia fazer bolos e doces com os ovos de ouro.

Até aí, não era uma desgraça. Com um ou dois cestos de ovos de ouro vendidos na praça, a viúva estaria rica, riquíssima, e podia até dar-se ao gosto de viajar para Miami. Mas acontece que todas as galinhas, todas as patas, todas as peruas, em todos os quintais, em todas as chácaras do mundo, só estavam botando ovos de ouro. E quando Dona Gertrudes foi vender os seus a bom preço, riram-lhe na cara, porque os ovos de ouro haviam inundado a cidade, o estado, o país, a Europa, a Ásia, a África. Não valiam nada. E é claro que houve uma tremenda revolução econômica interna e internacional. Bancos faliram, banqueiros suicidaram-se, o lastro ouro deixou de dar segurança à moeda. Aconteceu o diabo.

Alguns sujeitos eruditos andaram dizendo que aquilo não era novidade: o caso dos ovos de ouro era semelhante ao que sucedera nos tempos de Joana D’Arc, quando as galinhas simplesmente deixaram de botar. Pelo menos era o que contava um barbudo teatrólogo chamado Bernard Shaw, numa de suas peças. Deixaram de botar como advertência para que se dessem recursos à donzela, a fim de que ela, como guerreira, salvasse a França e acabasse sendo queimada.

Bem, a explicação não era consoladora, pelo menos para Dona Gertrudes.

O pior é que, sem ovos de verdade, as galinhas, as patas, as peruas, já não procriavam. Nunca se viu ovo de ouro gerar pinto, pato ou peru. E, não havendo mais procriação, as galinhas, as patas, as peruas existentes, envelheciam e morriam. Dentro de alguns anos já não havia mais nem galinha, nem pata, nem peru, e outros bichos de pena.

Tais fatos provocaram mais desgostos. Já não se podia comer um bom frango ensopado, uma empadinha recheada, uma omelete, um bife a cavalo, um frango assado. Aliás, o restaurante “Frango Assado” fechou. O cardápio empobreceu.

Nas reuniões, sujeitos saudosos suspiravam com as suas reminiscências. Ah, aqueles tempos de antes, em que se comia um frango à caçadora, um quindim, um bolo cujos ingredientes eram a gema e a clara batida! Uma torta de galinha e palmito! Os doces portugueses!

Não havendo mais nenhuma galinha, o último galo, desesperado, subiu num muro, lançou para a noite o seu derradeiro canto, bateu as asas e bateu as botas. Já não se ouvia, em nenhum lugar, o canto dos galos nas noites enluaradas, nem as galinhas anunciando o ovo no ninho. A vida, o mundo, ficaram mais tristes. E perdeu sentido, por obsoleta, aquela indagação metafísica: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Não sei o que aconteceu depois. Porque neste mundo enriquecido, ou melhor, empobrecido, de ovos de ouro, já não há depois. E o antes começa a esvaecer-se na memória dos homens.

 Antonio Carlos Augusto Gama