A carta suicida

O revólver estava pousado sobre a mesa e ele sentado em frente.

— Não creio que essas coisas se resolvam com um tiro na cabeça — eu disse.

Ele continuou em silêncio.

Refleti então que não estava sendo inteiramente sincero. Tinha as minhas dúvidas. Talvez um tiro na cabeça resolvesse aquelas coisas. Resolvesse todas as coisas.

— Para falar a verdade, pode ser que resolva.

E ele quieto. Nem mesmo levantava a cabeça para me olhar.

— Mas por que é que nós temos de resolver as coisas? — prossegui. — As coisas que se resolvam por si mesmas. Ou não se resolvam. Dá na mesma.

Sou tido como um homem convincente e sem preconceitos. Deixo que os outros levem a vida ou acabem com ela como bem quiserem. Desde que não me incomodem. Mas ele e, sobretudo, sua mulher estavam me incomodando. Ela me telefonara, em pânico, dizendo que o marido ia se matar. Que eu viesse o mais rápido possível. Se não chegasse em dez ou quinze minutos, talvez já o encontrasse morto.

Pensei em retardar o percurso até a casa deles, desculpando-me com o congestionamento do tráfego. Esta cidade está se tornando um inferno, com as ruas entupidas. Mas se eu já o encontrasse morto, haveria outros incômodos, e piores: a gritaria e o choro desesperado da mulher, as providências para chamar e esperar a Polícia e o médico, a remoção do corpo, os depoimentos a serem prestados, a necropsia, o enterro e a missa de sétimo dia, com a dificuldade de achar um padre complacente para rezá-la. Em menos de dez minutos estava na casa deles.

— Não vou lhe dizer que a vida é boa ou péssima, ou que você deve pensar em sua mulher e nos filhos, ou que ainda tem muita coisa pela frente. Pela frente, você tem é o revólver. A propósito, de que marca é? Se não for de boa marca talvez falhe. E a munição? Não se pode confiar em certos fabricantes. Aliás, neste país, quase não se pode confiar em ninguém.

Ele não me respondia, mas acho que estava me ouvindo.

Sei que ele tem veleidades literárias. Durante vinte anos escreveu a torto e a direito. Mais a torto que a direito. Publicou um livrinho de poemas, escreve croniquetas semanais num dos jornais da cidade e sonha ingressar na veneranda Academia de Letras local. Era um paradoxo um postulante da imortalidade suicidar-se. Pensei em lhe dizer isso, mas a emenda podia ser pior do que o soneto.

Então me ocorreu outra coisa.

— E a carta, você já escreveu a carta de despedida? O testamento? Não convém estourar os miolos sem, antes, escrever uma carta de despedida. Do próprio punho. Além de ser de boa educação, livra os outros de eventual suspeita. Não escreveu? Pois escreva, isso eu recomendo, como seu advogado.

Afinal, ele levantou a cabeça e me encarou.

— Escreva a carta — eu insisti. — Depois nós podemos pensar, também, no testamento. Não há pressa. Há sempre tempo para encostar o cano do revólver na cabeça e puxar o gatilho.

Ele abriu a gaveta e retirou de dentro algumas folhas em branco e a caneta.

— Vou deixá-lo com a carta a escrever — eu disse — Não se apresse. E você deve meditar para escrever coisa que preste. Afinal, será a sua última carta.

Retirei-me e fechei a porta atrás de mim. Na sala, a mulher andava de um lugar para outro torcendo as mãos e fumando. Apesar de aflita, era uma mulher muito atraente. Tinha seios lindos e pernas capazes de desencaminhar qualquer um. Ia ser uma bela viúva.

Ela me abraçou e depois me puxou pela manga do paletó.

— Então?

— Calma. Temos tempo. Ele vai, antes, escrever uma carta.

Duas horas depois, ele saiu do escritório. A mulher pulou do sofá. Ele pediu um café. Sugeri um gole de uísque, com pedras de gelo. Também a mim agradaria uma dose de uísque. Ele concordou.

Bebemos o uísque.

— Então, escreveu a carta?

Ele levou-me de volta ao escritório. O revólver continuava sobre a mesa, mas afastado para o lado, para dar lugar às folhas de papel.

— Posso ler?

Ele deu de ombros.

Peguei a carta e li. Três folhas rabiscadas. Ele olhava pela janela. Eu lhe falei:

— Para ser franco, não gostei da carta. Você foi cruel com algumas pessoas. Para quê? A carta de um suicida deve ser magnânima. Você quer atravessar o limiar da eternidade deixando aqui mesquinharias? E depois, você escreve muito melhor quando capricha. Há até mesmo uns dois ou três erros de português. Escreva outra carta, rasgue esta.

Tornei a sair para a sala, fechando a porta. Vinte minutos depois, abri uma fresta da porta e espiei para dentro. Ele continuava escrevendo. Mais dez minutos, olhei novamente e ele ainda escrevia. Despedi-me.

— Quando você acabar a carta, me telefone.

A mulher quis me reter, mas eu a convenci de que naquele dia não aconteceria mais nada. Veríamos, no dia seguinte.

Nos dias subsequentes, ele escreveu mais quatro ou cinco cartas, e eu punha reparos em todas elas. No quinto dia, ele deixou de escrever cartas e me comunicou que estava escrevendo uma novela. Parecia muito excitado.

Um mês depois eu lhe telefonei.

— Aquele revólver… Você ainda o tem?

— Tenho.

— Pode me emprestar? Vou fazer uma viagem, e você sabe, não se deve viajar sem uma arma no porta-luvas do carro. Há muitos bandidos pelas estradas.

Agora o revólver está sobre a minha mesa. Mas não penso em escrever nenhuma carta.

Antonio Carlos Augusto Gama

A última página

“Lento en mi sombra, la penumbra hueca

exploro con el báculo indeciso,

yo, que me figuraba el Paraíso

bajo la especie de una biblioteca.”

(Jorge Luis Borges)

Viver muito tempo é inconveniente, para nós mesmos e para os outros, meditava o escritor já muito velho, enquanto apertava os olhos cegos para melhor escutar as palavras que eram lidas para ele, por uma doce voz feminina, cadenciada e expressiva.

Perdera a visão há décadas, pouco a pouco, quase sem sentir. Ele mesmo escreveu depois que a cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão, com sua cor amarela e sombras e luzes.

Muitas vozes haviam lido para ele desde então, a começar pela ubíqua voz materna, que a leitora atual lhe rememorava.

Com frequência lembrava-se também de outra jovem voz, esta masculina, inflamada e comovida, a de um rapazinho que durante dois anos lera para ele, à noite ou quando a escola lhe permitia. O ritual era quase sempre o mesmo. O rapazola tocava a campainha; era conduzido por uma criada, através de uma entrada acortinada, até uma pequena sala de estar onde ele vinha ao seu encontro, a mão macia estendida. Não havia preliminares: enquanto o moço se acomodava na poltrona, ele se sentava ansioso no sofá e, com uma voz levemente asmática, sugeria a leitura daquela noite. “Deveríamos escolher Kipling hoje? Hein?”. E é claro que não esperava realmente uma resposta.

Uma vez o velho escritor se apaixonou por uma das suas jovens leitoras, que também lhe servia de secretária e assistente, acompanhando-o em suas viagens pelo mundo. Chegou a pedi-la em casamento, trêmulo e hesitante como um adolescente. Mas ela recusou.

Há muitos anos deixara de publicar, desde que descobrira que uma outra secretária havia absorvido de tal modo seu estilo, seus pensamentos, seu mundo de labirintos, tigres, espadas, espelhos, que passara a interferir e corrigir por conta própria as histórias esfiapadas, esgarçadas, sem estrutura que ele lhe ditava.

Um dia recebeu a visita de um admirador exaltado, que elogiava seu novo livro e fazia comentários quase ininteligíveis, garantindo-lhe que suas novas histórias eram o que de melhor já havia publicado. Exagerava, dizendo que nem Dédalo saberia compor labirintos mais sofisticados.

Intrigado, já que não tinha remetido nenhum livro novo ao seu editor, pediu-lhe que desse um exemplo do que tanto lhe agradava e o admirador leu um trecho de um conto. O conto era dele, mas nunca o havia escrito. Reconhecia um grão de ideia que havia lançado para a secretária, mas aquele grão se transformara numa semente que brotara viçosa e se desenvolvera numa árvore frondosa, que ele desconhecia inteiramente, embora a soubesse parte de si mesmo. Ela o havia usurpado totalmente, mas ele não podia, nem queria desmascará-la, pois com isso destruiria a si mesmo.

A sua vingança fora anunciar que deixaria de publicar novas obras e se recolher, cego e calado, recebendo o sucesso em vida, amado, reconhecido e admirado. Ela, despedida, tornara-se um fantasma, uma secretária sem nome e sem presença, envolta num silêncio cada vez mais viscoso, que morrerá no mesmo instante em que ele fechar seus olhos para sempre.

A nova secretária, que agora lia para ele, era muito moça e entusiasta dos avanços da tecnologia. Vivia a lhe falar de certa máquina prodigiosa, que ele nunca chegara a ver, que permitia escrever textos numa tela, armazená-los, corrigi-los quantas vezes se quisesse, sem rasuras e entrelinhas. A engenhoca, que a moça trazia sempre consigo, dizendo que estava cada vez menor, mais leve e fácil de transportar, e não obstante mais potente, possibilitava navegar(?) por uma rede de máquinas semelhantes, dispersas por todo o planeta, capazes de trocar mensagens, informações, sons e imagens de todos os tipos.

Era-lhe difícil entender tais máquinas e seu sistema, que imaginava, a partir da expressão “navegar”, como diversos rios cujas águas corriam para um oceano infindo e vice-versa. Mas não concebia qual o sentido de se escrever numa tela e o texto permanecer sempre imaculado, sem as correções, os rabiscos, as glosas, as hesitações de um manuscrito, que são as cicatrizes que lhe dão vida e contam sua história. Nenhum texto é definitivo, e ele só os publicava (quando ainda o fazia) para se libertar deles, e poder passar a outro.

Depois da leitura, enquanto conversavam, a jovem secretária lhe contou, agitada e alegre, que empresas que exploravam as possibilidades infinitas daquela rede fantástica já estavam oferecendo milhões de livros, de todo o mundo, para serem lidos e examinados por quem se interessasse, em casa, nas telas de suas máquinas. Disse-lhe ainda que os livros, como objetos físicos, estavam se tornando obsoletos, assim como as bibliotecas que os continham, e pouco a pouco deixariam de existir.

Talvez ela pensasse que esses fatos e previsões extraordinários o deixassem feliz ou o estimulassem, já que ele sempre fora um visionário. Mas ele era um visionário do passado, não do futuro, e essas novidades lhe provocavam uma profunda melancolia.

Como poderia viver sem passar as mãos pelas estantes e pelos livros, acariciar-lhes as lombadas, senti-los, folheá-los, cheirá-los, tê-los no colo, apertá-los contra o peito?

Isso era mais terrível e monstruoso do que um certo livro comprado por ele de um vendedor de bíblias, cujo número de páginas era exatamente o infinito. Nenhuma era a primeira; nenhuma, a última. E cada vez o livro se abria numa nova página, que nunca mais seria vista novamente. Atormentado, abandonara-o numa das úmidas prateleiras do porão da Biblioteca Nacional, entre periódicos e mapas, esforçando-se em não prestar atenção ao local exato em que o deixara se perder.

Sentia-se muito cansado e foi se deitar mais cedo do que de costume.

Quando despertou, não estava no seu quarto, nem na sua casa, mas numa biblioteca imensa, com estantes e prateleiras que estendiam por salas e corredores sem fim, nas quais estavam todos os livros já escritos e os que ainda o seriam.

Soube então que estava no paraíso.

jorge-luis-borges (biblioteca)

P.S.:   Este texto é uma singela homenagem a Jorge Luis Borges e sua imensa confraria. Dele constam reproduções de trechos do próprio Borges (Obras Completas de Jorge Luis Borges: vários tradutores — São Paulo: Globo, 1999), de Alberto Manguel, o rapaz que lia para ele (Uma história da leitura: tradução Pedro Maia Soares — São Paulo: Companhia das Letras, 1997) e de Lúcia Bettencourt, vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2005 (A secretária de Borges — Rio de Janeiro: Record, 2006), além do episódio sobre o pedido de casamento feito por Borges a María Esther Vásquez, por ela relatado (Jorge Luis Borges: esplendor e derrota: tradução de Carlos Nouguê — Rio de Janeiro: Record, 1999), todos eles grandes escritores (ao contrário deste insistente escriba). A esses junto o delicioso livro de Luis Fernando Verissimo com uma história policial em que Borges é um dos protagonistas (Borges e os orangotangos eternos — São Paulo: Companhia das Letras, 2000).

 Antonio Carlos Augusto Gama

A compradora de tristezas

(arte de Carel Fabritius)

 

O anúncio no jornal era singular e até extravagante. Se tristezas não pagam dívidas, como é que se compravam tristezas?

Discou o número do telefone indicado no anúncio.

— Pronto! Estou à sua disposição, respondeu-lhe uma voz feminina, do outro lado da linha. Uma voz alegre em que tiniam guizos.

— É a senhora que compra tristezas?

— Sim, sou eu mesma. Compro e troco. O senhor tem alguma tristeza para vender? Se tiver, venha pessoalmente, porque preciso antes avaliar a sua tristeza.

Foi procurar a compradora de tristezas no endereço que ela lhe passou.

Uma mulher de seus trinta e poucos anos, muito bonita, vestida de estampado amarelo, de sorriso aberto e acolhedor, recebeu-o.

— É o senhor que me telefonou para vender-me a sua tristeza? Entre e diga-me qual é ela para que eu possa ver quanto vale.

Contou-lhe que a mulher que amava o abandonara e fora viver com o seu melhor amigo. Além disso, o seu canarinho amarelo, que cantava tão bem, morrera. Não bastasse isso, perdera o emprego.

— A sua é uma tristeza muito comum e não vale grande coisa. A mulher, o senhor pode achar outra; o canarinho, pode substituir por um pintassilgo; e o emprego, sem dúvida que achará outro. Em todo caso, para que o senhor não saia daqui de mãos vazias, ofereço-lhe cento e cinquenta reais pela sua tristeza, nem um tostão a mais. É pegar ou largar.

Ele aceitou a oferta.

— Então, o senhor vai ali no banheiro, tire toda a roupa e sacuda-a, lave o rosto, vista-se de novo e deixe a tristeza em cima da pia.

Ele fez o que a mulher lhe ordenara. Sentiu-se mais aliviado, saiu, e recebeu o pagamento.

— Que é que a senhora faz com as tristezas compradas?

— Vendo-as, troco-as, e tenho algum lucro.

— E enquanto não as vende?

— Enquanto não as vendo, alimento-as com açúcar. Tenho um armário cheio delas.

Ele foi embora e seguiu os conselhos da mulher. Comprou um pintassilgo e arranjou outro emprego. Outra mulher é que não achou, isto é, achou muitas, mas não se decidia.

Tornou a procurar a mulher que comprava tristezas.

— Fiz o que a senhora me aconselhou. Já tenho o pintassilgo e arranjei outro emprego. Quanto a outra mulher…

— Eu sei — a compradora de tristezas lhe disse. Abriu-lhe então a porta de uma sala, na qual havia duas mulheres e dois homens sentados ao redor de uma mesa.

— Trouxe-lhes um novo parceiro.

— Qual é a sua proposta? — perguntou-lhe um dos homens. — Ou melhor, qual o seu enigma?

— O meu enigma é o enigma na vida…

Todos suspiraram.

— Não serve. É um enigma insolúvel.

Então a compradora de tristezas levou-o para a porta de um quarto e abriu-a.

— Entre — disse-lhe. — Mas não pense que vai sair barato.

Agora, ele a visita duas vezes por semana.

 Antonio Carlos Augusto Gama

A orquestra

O violoncelista, um homem pequeno, foi encontrado morto dentro do violoncelo.

“Que é que você acha?”, perguntou-me o Delegado, com o qual eu trabalhava como investigador. “Acho que estragaram um bom violoncelo”, respondi. Mas haviam também estragado o violoncelista.

A orquestra era completa, tínhamos de suspeitar de todos os músicos, e interrogá-los. Sem contar a prima-dona, que era uma cantora careca. A apresentação da ópera de Verdi foi adiada. Procuramos em vão pelos corredores e desvãos do teatro o fantasma da ópera.

Cinco dias depois, o pianista também foi encontrado morto dentro do piano de cauda. O maestro arrancava os cabelos.

Uma orquestra é uma comunidade. O desafio é exigir que todos toquem em dó maior. Há os que preferem o sol menor. Daí os homicídios. “Vamos lá fora para você tocar esse fá menor, se for homem”, teria dito ao trombonista o maestro, arregaçando as mangas da casaca. E, lá fora, os dois se engalfinharam em tom maior.

Não é de se espantar que haja crimes. A plateia é que aplaude ou vaia. Uns gostam de Beethoven e outros preferem Mozart.

Não creio na pena de morte. Nem por isso ela deixa de existir.

Sou homem experiente, já fiz muitas investigações. Disse ao Delegado que devíamos procurar a mulher (“cherchez la femme”). Na mulher está a causa de todos os crimes. E de todas as delícias.

A mulher do violoncelista era uma loira espetacular. Disputavam-na três músicos da orquestra, mas o violoncelista a trazia reclusa a sete chaves.

Vai daqui, vai dali, o flautista confessou. Tinha também matado o violoncelista e também o pianista, porque este era seu rival.

Resolvidos os crimes, o maestro subiu ao estrado e vibrou a batuta. A introdução da ópera de Verdi irrompeu pelo teatro.

As óperas, dramáticas ou bufas, continuam.

É ouvi-las, aplaudi-las ou vaiá-las.

Antonio Carlos Augusto Gama

httpv://www.youtube.com/watch?v=wBX1NQYRwhU

 

Desoras

Planejei tudo durante meses, para não correr nenhum risco. Saí, a desoras, sem olhar para trás. Não me despedi de ninguém.

A cidade, na qual vim parar não é grande, terá apenas uns cinquenta mil habitantes. Receberam-me com indiferença, eu era apenas mais um.

Mudei de nome. Levei comigo todo o dinheiro que possuía, o suficiente para viver alguns anos. A princípio, alojei-me num hotel, depois aluguei uma casa.

Os vizinhos permaneceram arredios durante algum tempo, depois se achegaram. Não me fizeram muitas perguntas, apenas as usuais.

Passeio pelas ruas, vou aos bares, mas não procurei relações muito próximas. Dispensei o telefone. Aos que afinal quiseram saber o meu nome e o que faço, disse que era viúvo, sem filhos, e que sou um escritor pouco conhecido. E ainda escreve? Informei que a gestação de uma obra é muito demorada e que apenas aguardo que me venha alguma ideia. De qualquer modo, preciso arranjar algum trabalho, antes que o dinheiro acabe.

Comprei uma relojoaria e mantive comigo o rapaz que mexe com essas máquinas. Vou aprendendo com ele, afinal, os relógios, qualquer deles, são máquinas que registram as horas, os minutos. As suas peças são muito pequenas e se encaixam umas nas outras. Com paciência, pinças e outras ferramentas, não é muito difícil consertá-los e botá-los em funcionamento.

Às oito horas da manhã, abro a relojoaria e já lá está o rapaz que trabalha comigo. Eu mesmo atendo os fregueses que me procuram. Os relógios grandes, de parede, que comprei, batem as horas com absoluta precisão. Uns têm o som grave, masculino, e outros sons cristalinos, femininos.

Com o tempo, as pessoas aceitaram-me como mais um deles. Já as conheço pelo nome, e converso com elas.

Não tenho receio de que me busquem, ou me achem. Para saber das novidades, dos crimes, busquei aproximar-me do Delegado de Polícia. Ele me relata as suas investigações, e dou palpites.

Sou apenas mais um cidadão prestante. Não faço alusão ao meu passado.

Vou às vezes à farmácia do Ambrósio e participo das reuniões das pessoas gradas. É quando se comentam os boatos. Assim me informo também do que se passa na cidade.

Não posso evitar as mulheres, elas são perigosas e curiosas. Mas desconverso, quando querem sondar-me.

Nos últimos dias, um sujeito estranho, levou-me à relojoaria um relógio grande e extravagante: os seus ponteiros giram, ao contrário de todos os outros, da direita para a esquerda. E bate cavamente as suas horas. “É uma relíquia da minha família”, ele me explicou. “Ele não marca o presente, nem o futuro, só marca o passado. Mas está parado, alguma coisa nele se desarranjou”.

Eu mesmo consertei o relógio. E quando o seu dono veio buscá-lo, perguntei-lhe se não queria vender-me. “Não”, ele me respondeu, “já disse que é uma relíquia da família. Mas, quando o senhor quiser ouvi-lo bater as horas, às avessas, vá à minha casa”.

Fiquei muito curioso e busquei saber, com o Delegado de Polícia, e com outros, quem era aquele homem. O Delegado riu e me disse: “É um maluco que diz ser o próprio Diabo.”

Fui à casa do homem, algumas vezes, escutar no relógio as horas do passado.

Isso me traz lembranças que doem, mas nós todos somos incompreensíveis. Buscamos o que já nos doeu para que doa novamente. E eu vim aqui para esquecer, para esquecer a mulher que eu amava e me traiu…

O Diabo, ou o homem que se diz o próprio Diabo, não me faz perguntas. Apenas me aconselha: “Fique aí, e sofra de novo o que já sofreu. Assim é o inferno.”

 Antonio Carlos Augusto Gama

Melancolia

Perguntei ao dono da loja:

— O senhor tem aí melancolia para vender?

— Tenho — ele respondeu — Tenho até melancolia estrangeira, importada. Aconselho que compre a estrangeira, que é de excelente qualidade, embora um pouco mais cara.

Recusei. Queria mesmo a melancolia nacional. E comprei duzentos e cinquenta gramas, levando-a embrulhada para casa, onde desfiz o pacote e comecei a prová-la.

A melancolia, ou a tristeza brasileira, é fruto de três raças tristes, como quer Paulo Prado, no seu livro clássico “Retrato do Brasil”. Muitos o contestam, e insistem que somos alegres, e até alegríssimos. Acho que não. O português sempre foi triste, porque, com as suas navegações, deixava a sua terra, e quase sempre para não voltar. Daí a saudade. O índio sempre foi macambúzio. O negro, escravizado, não tinha nenhuma razão para rir, e havia até uma doença que o matava, de tanta nostalgia.

Vieram os italianos, os árabes, os franceses, os alemães, os japoneses. Mas logo se deixaram contagiar pela nossa tristeza.

É verdade que temos muitas festas e o Carnaval. Mas, no fundo, o Carnaval é triste, “a tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim”, canta Caetano.

Pretendem que aqui há muito sol, e por isso muita cor, em nossa paisagem. Ao contrário, o excesso de luminosidade desfaz a cor em nossa paisagem.

Contamos muitas piadas, e rimos. Principalmente piadas pornográficas. Ora, não há nada mais melancólico e repetitivo do que a pornografia.

A nossa melancolia nasce também de uma frustração permanente. Erramos muito, e continuamos a errar, o que nos torna frustrados e tristes.

Nossos poetas, nossa poesia, são tristes. E há aqueles de uma tristeza atroz, como Augusto dos Anjos. A dor de cotovelo é o tema principal de nossa poesia e das nossas canções. Choramos em versos a amada que perdemos ou que nunca encontramos.

Eu me alimento frugalmente de melancolia. Por isso mesmo, rio muito. Com lágrimas nos olhos.

 Antonio Carlos Augusto Gama

Não se pode ganhar sempre

Não se pode ganhar sempre, e na minha profissão de advogado perdi algumas causas, embora ainda continue achando que a razão estava comigo, isto é, com os meus clientes. Uma sucessão de indícios, ou de fatos, ainda que não comprovados, podem inclinar para um lado, ou para o outro, a balança da justiça. Nem se deve confundir justiça com o direito. A lei não passa de uma interpretação.

O que, porém, mudou o rumo da minha vida foi a herança que um ricaço deixou em testamento para uma moça que ele supunha fosse sua filha. Os descendentes do falecido contestaram o testamento, alegando inclusive que Irene usara de meios escusos para convencer o velho que, sustentaram ainda, já não regulava bem da cabeça.

Ninguém ignora que uma causa como essa quase sempre se prolonga por muito tempo. Enquanto isso, os bens, o dinheiro, a parte da herança que caberia à herdeira não pode ser tocada. Fui o advogado que representou Irene no processo. E nesses casos, sabe-se também, sucedem-se perícias, provas testemunhais, nada sendo mais vacilante ou sujeita a controvérsias que estas.

Eu, quer dizer, Irene perdeu a causa. Recorri para o Tribunal, fiz sustentação oral, dei tudo de mim, mas não consegui reverter a sentença de primeiro grau.

Durante os cinco ou seis anos em que o processo se arrastou, eu estava em permanente contato com Irene e, se não ia vê-la, era ela que me procurava em meu escritório ou em minha casa.

Uma mulher bonita, muito bonita, Irene, nos seus vinte e cinco anos. Sua mãe já falecida, o pai que constava do registro de nascimento era um pobre diabo, e ela, para sobreviver, dava aulas numa escola.

A convivência com Irene, a intimidade que, pouco a pouco se estabeleceu entre nós, fez o resto. Apaixonei-me por ela.

Nem digo que ela não correspondia ao meu amor. Mas era esquiva, e me deixava sem saber o que fazer, ainda quando lhe propus que nos casássemos.

— Por enquanto não — ela protelava — eu sou pobre, e não posso igualar-me a você, que é um advogado de sucesso e tem um grande futuro pela frente. Mais tarde, você dirá que eu fui um peso em sua vida. Se, porém, ganharmos a ação, então sim, podemos pensar em casamento.

Como já expliquei, perdemos, e ela continuou pobre. Então, a sua recusa foi peremptória.

Desgostoso, ainda que tivesse boa clientela na cidade, decidi ir embora, mudar-me para São Paulo, onde um colega e amigo insistia que fosse trabalhar com ele.

Numa derradeira tentativa, fui ainda falar com Irene.

— Basta uma palavra sua — disse-lhe — para que eu fique aqui. E faremos então o que você quiser.

As suas mãos nas minhas, ela recusou mais uma vez.

Parti, amargurado. Não compreendia bem a sua recusa. Se ao menos houvesse outro… Mas, ao que me constava, não havia.

Quase dez anos depois, soube que a família do testador se reconciliara com ela. Parece que os sucessores do velho haviam descoberto um documento em que a filiação de Irene se comprovava. Um documento que estivera oculto nas mãos de um dos interessados, e que, ao falecer, achou de o revelar. Já havia então o exame de DNA, que confirmou definitivamente a paternidade.

Essas notícias chegavam-me através de cartas, ou de amigos que me visitavam no escritório, em São Paulo.

Assim não haveria mais obstáculo, para que ela me aceitasse e casássemos.

Minha paixão por ela não arrefecera. Mas, o meu brio de homem ficou aguardando dela uma carta em que me dissesse: “Venha”.

A carta não veio.

Um ano depois, soube que ela se casara.

— Ao diabo as mulheres! — falei para mim mesmo.

Aos cinquenta anos, achei estupidamente de ir rever a cidade de onde saíra.

Nada havia mudado. E aquilo me pareceu acanhado, aborrecido. As casas envelhecidas, as ruas tortas e sem graça.

Não procurei Irene e, depois de visitar alguns amigos, já havia resolvido sair dali um ou dois dias depois. A cidade não é grande e ela soube que eu estava lá. Veio então me ver no hotel, e caiu-me nos braços.

— Agora sim! — murmurou, arquejante.

Levei-a para a porta do meu quarto e delicadamente, mas firme, empurrei-a para fora, e fechei a porta. Desde então, as portas da minha vida permanecem fechadas.

Antonio Carlos Augusto Gama

A bruxa

Encontrei-a na porta de uma loja, linda e pisca-pisca. Estava com um vestido de listas horizontais, que mais acentuava a linha do seu corpo e a deliciosa curvatura dos seios. Piscapiscava porque entrara um cisco em seu olho, trazido pelo vento. Quando abria os olhos, numa fração de segundos, tudo se iluminava de verde.

Aproximei-me e lhe disse:

─ Sou um especialista em ciscos. Permita-me, sem segundas intenções, mas com terceiras, que lhe tire o cisco do olho.

Ela se assustou e por um instante pensei que fosse me escorraçar, mas o cisco realmente a incomodava, e talvez tenha achado que de fato eu era um oftalmologista.

Ela me passou o lencinho de papel que acabara de retirar da bolsa, e, com a ponta dele, pedindo-lhe que abrisse bem os olhos, vi o cisco e o retirei.

─ Pronto, já não há mais cisco. Mas, quando você chegar em casa, convém pingar um colírio neutro, nos olhos. “Lácrima”, por exemplo. É refrescante.

Ela já ia embora, mas retive-a.

─ Deixe-me dizer-lhe mais uma coisa: você não sabe, mas é uma bruxa…

Ela riu.

─ Ora, bruxas não existem.

─ É o que você pensa. Mas há muitas bruxas, e a maioria das bruxas não sabe que são bruxas. Você, por exemplo. Digo-lhe mais: Você tem uma pequena pinta do lado do seio esquerdo, embaixo. É o sinal da bruxa.

Ela enrubesceu, o que a deixou mais encantadora ainda.

─ Não tenho pinta nenhuma!

─ Tem sim. Ela é tão pequena, tão escondida, que você não a vê.

─ E como é que você sabe que… O que acho é que você está ficando muito atrevido.

─ Não é minha intenção. Vou-lhe dizer mais: as bruxas que não sabem que são bruxas são as mais poderosas. Elas fazem bruxedos sem saber. Os próprios maridos ou namorados delas não sabem que elas são bruxas. Exatamente porque são muito poderosas, não lhes é revelado que são bruxas. Você tem uma avó, que é muito inteligente, que você admira muito, que também é uma bruxa e sabe que você é uma bruxa. Mas não lhe diz nada, porque tem receio dos seus bruxedos.

Ela ainda não estava convencida, mas vi que ficava cada vez mais surpresa e interessada.

─ E como é que você sabe disso tudo?

─ Sei porque sou um especialista em bruxas. Tenho livros muito raros sobre elas. Alguns em latim. Outros em árabe. Dou-me muito bem com as bruxas. E agora que você já sabe, posso ir embora.

Fiz menção de afastar-me, mas ela me pegou pela manga do paletó.

─ Não vá ainda, por favor. Conte-me mais alguma coisa sobre as bruxas. Estou curiosa.

Aos poucos, estou-lhe contando o que sei sobre as bruxas. Temos ainda muito tempo pela frente.

Antonio Carlos Augusto Gama

  • httpv://www.youtube.com/watch?v=Tgh-7f5kZjM

 

Conversação com uma senhora

Não seria adequado que ela viesse à minha casa, àquela hora, e desacompanhada. De qualquer maneira, eu sou velho, e embora me achasse só, não vi nenhuma inconveniência na sua visita. Pela janela, eu havia percebido quando ela desceu do coche. Segurava um dos lados da saia, que se arrastava no chão. Além do véu, as abas do grande chapéu cobriam-lhe parte do rosto. Trazia uma sombrinha na outra mão. Do corpete bem apertado desabrochava-lhe o busto, com os seios firmes.

Abri-lhe a porta.

Ela entrou, olhou-me por trás do véu, e antes de me estender a mão, descalçou a luva de cano alto. Com uma reverência, beijei-lhe os dedos. Ela sorriu, e tirou o chapéu. Desprendia-se do seu corpo um perfume suave. Peguei-lhe o chapéu, a sombrinha, as luvas, e fui pousar tudo no porta-chapéus. Em seguida, movi para perto dela a poltrona mais confortável, e ela sentou-se. Ainda de pé, perguntei-lhe se desejava que abrisse a janela, ou se preferia que continuasse velada pela cortina. Ela fez um gesto, soerguendo um pouco os ombros nus, que entendi ser uma concordância com o que eu achasse melhor.

Puxei uma cadeira de braços e sentei-me em frente dela. Fazia um pouco de frio, e perguntei-lhe se aceitava uma chávena de chá. Respondeu-me que sim. Ergui-me, pedi-lhe desculpas por me afastar, e fui preparar o chá. Alguns minutos depois, retornei com o chá, os biscoitos, as fatias de bolo, e servi-a. E eu também bebi uma chávena de chá junto com ela. A ponta dos seus sapatinhos aparecia na fímbria da saia. Ela circulou os olhos, olhos de longos cílios, pelas prateleiras dos meus livros.

─ Disseram-me que o senhor lê muito. Com tantos livros aqui, vejo que deve ser verdade.

─ Sim, minha senhora, leio de dia e de noite. Ainda agora, antes que a senhora viesse, estava relendo…

Ela ergueu a mão.

─ Sim, eu sei… Foi por isso que eu vim.

─ Venha quando quiser, madame. Será sempre bem recebida.

Ela pousou a chávena de chá sobre a mesinha, e enxugou delicadamente os lábios com o guardanapo

─ Além de leitor contumaz, o senhor á advogado. Muito conveniente. Ele também era advogado. Mas não vim pedir-lhe que seja meu advogado, nem propor-lhe uma causa.

Com efeito, eu observei-lhe, a justiça é muito errática. E muito subjetiva. E a mim parecia que as sentenças nunca deviam transitar em julgado. Ao contrário, os processos deviam estar sempre sendo renovados, acrescidos, com novos argumentos, a eliminação de outros, as provas se sobrepondo e as sentenças se desdizendo. Até acreditava que, no outro mundo, devia ser assim. Lá, devíamos ser permanentemente inocentes e culpados.

─ O senhor diz isto com muita graça ─ ela pareceu concordar. ─ Na eternidade, nada acaba. Tudo está começando, e continuando.

Não lhe perguntei se ela era feliz. Parecia-me bem, muito bem, no esplendor dos seus trinta e poucos anos, e supus que fosse feliz.

O que eu quis saber foi como deveria chamá-la: Senhora Capitu, ou Senhora Capitolina?

─ Pode chamar-me de Capitu. Assim sempre fui chamada, e não gosto de Capitolina.

─ Senhora Capitu, e ele, ele é feliz?

─ Não sei. Vejo-o muito pouco, e de longe. É uma pena. Já o José Dias… O José Dias vem falar comigo de vez em quando. É um homem curioso, mas evitamos falar dele.

Anoitecia rapidamente. Fui aceder as lâmpadas dos dois abajures, nos cantos da sala.

─ A senhora sente-se injustiçada?

Moveu devagar a cabeça, duvidosa.

─ O senhor mesmo disse-me há pouco que a justiça é muito errática. Além disso, não fui julgada, nem condenada regularmente.

Era verdade. Todavia, de um modo ou de outro, ele a condenara.

Ela pareceu adivinhar o que eu pensava, e retorquiu:

─ Sim, é o que está no livro. Mas não foi ele que escreveu o livro.

Eu podia admitir que sim. Ainda que escrito na primeira pessoa do singular, como se fosse uma autobiografia, não fora ele que o escrevera.

─ O senhor sabe que foi o Senhor Machado de Assis quem o escreveu. O Senhor Machado de Assis era um homem surpreendente e suspicaz. Gostava de pôr as pessoas em confronto e dar-lhes interpretações controvertidas que confundiam os seus próprios leitores. Enquanto isso, ele ria à socapa.

Era um modo de ver as coisas. No entanto, como é que Machado de Assis soubera de toda a estória, com tantas minúcias, desde a adolescência de Bentinho e de Capitu?

─ O senhor não ignora que o Senhor Machado de Assis tinha muito ciúme de sua mulher, Dona Carolina. A fidelíssima, a irreprochável Carolina. Imagine se ele tivesse tido um filho com Carolina, e o filho parecesse com qualquer das pessoas das relações de ambos?

─ Então a senhora acha que ele transferiu uma hipótese intimamente formulada para uma criação literária?

─ Não, não digo que ele transferiu tudo. Ele devia conhecer-nos, ou informar-se de nós através de outros. Havia, na época, muitos mexericos, tantos como ainda há hoje, e o Rio, a Corte, era uma cidade muito pequena. Daí a imaginar ou criar o restante foi um passo. Mas não nego que tudo está muito bem entrelaçado.

Por que então ela não perguntava diretamente a Machado de Assis?

─ A senhora o vê por lá o Senhor Machado de Assis?

─ Não. Ele se encontra noutro setor, com as pessoas da sua profissão e talento. O lugar é muito vasto.

─ Mas a senhora deve estar com Dona Carolina. Por que não lhe pede para falar com o marido a fim de que se resolva a sua situação?

─ Porque agora é tarde, muito tarde, e já não adianta nada.

Sim, ela tinha razão. Quantos milhares de leitores já não tinham lido Dom Casmurro e firmado posição a favor de Capitu, ou contra?

─ Sabe o que mais? ─ ela prosseguiu. ─ Bentinho nunca deixou de ser um adolescente. Um adolescente incurável. Eu amadureci, ele não.

Com toda aquela sutileza, com toda aquela malícia, com todas aquelas reflexões do romance?  Ah, sim, ela sustentava que não fora ele que escrevera o livro, mas Machado de Assis. A culpa era de Machado de Assis.

Levantou-se da poltrona. Estendeu a mão para se despedir. Fui buscar-lhe o chapéu, a sombrinha, as luvas.

Graciosa como sempre, passou pela porta. Vi quando subiu ao coche. E partiu.

Annibal Augusto Gama

 

  SONETO CAPITOLINO

 

                                                           Teus olhos oblíquos e ubíquos

                                                           obnubilam a todos que ousam lê-los

                                                           e nunca mais deixarão de vê-los

                                                           sem obliteração aonde vão.

 

                                                           Olhos dissimulados, de ressaca,

                                                           sortilégios de um velho bruxo casmurro

                                                           que se esquiva, desguia, vira a página

                                                           e nos conduz para a armadilha

 

                                                           dos teus olhos capciosos

                                                           que como arautos mudos

                                                           capturam os bentos e os malditos

 

                                                           os precatados e os incautos

                                                           a lhes prenunciar o mundo

                                                           que se descortina além-retina.

Antonio Carlos Augusto Gama