Gaivotas

Baía de Guanabara, sol de janeiro, reflexos de níquel arremetidos do azul.

Da minha sala de vidro, Esplanada do Castelo, trigésimo quarto andar: a entrada da baía, navios, o Pão de Açúcar, velas, Icaraí, vãos da ponte e, na perna do vento, aviões em manobra de pouso.

Logo ali, rentes à minha janela, gaivotas festivas rodopiam nas correntes ascendentes.

São muitas em revoada, mas, milagrosamente, não se tocam – há segredos recônditos nas rotas passaredas.

Uma delas parece interessar-se por mim. Não é a primeira vez que passa roçando minha vidraça.

Trocamos olhares – juro que trocamos. Gostaria de falar-lhe e sinto que ela talvez busque saber coisas em mim.

– Que perguntas me propõem dois olhinhos voadores?

Observo a revoada em bando, perscruto a lógica de sua coreografia. Nada definível onde reina divindade e poesia. Trajetórias de astros sob as leis da criação, desocupadas de trigonometria e esquadros.

As exatidões do mundo postaram-se, todas, do lado de cá desta parede de cristal, porque isto aqui é um Banco num arranha-céu de vidro e eu sou um bancário. Um Banco empanzinado de números ásperos sobre a superfície célica do mar da Guanabara.

Êxtase de um guarda-livros d’antanho, de máquina calculadora aos dedos e gaivotas nas retinas.

 Gaivota

**

Voa gaivota branca

Pra lá de mim, prisioneiro

Desta vida, dos costumes

Da rotina e do dinheiro.

*

Me leva pra ir contigo

Por teus caminhos de vento

Retomar a encruzilhada

Onde eu errei minha estrada.

*

Leva este artista, menina

Companheira e bailarina

Atrás da segunda chance

Tão fora do meu alcance.

*

Portadora das canções

E das notas sobre a pauta

Devolve com tuas asas

A liberdade que me falta.

Zé do Carmo

Publicado originalmente no Blog da Maria Helena, em 22-06-2011 

A lição do Neves

Para ser sincero, nunca me convenci por inteiro da ingenuidade do Neves. Costumam vir nubladas as diferenças entre pessoas apenas simples e aquelas menos dotadas, simplórias, portadoras de efetivo déficit intelectual. Não raro tomamos uns pelos outros. Vai ver foi este o nosso equívoco com Neves. Os amigos o tomavam por idiota. Ou quase.

Claro que concorria para isto seu estilo “passadão” e uma certa impetuosidade existencial. Entre usar um pouco a cabeça e buscar conclusões, Neves tinha o hábito das perguntas precipitadas, o que fazia dele um cara meio maçante no diálogo. Se afrontado na tolice, ria amarelo como que dando recibo da própria patetice.

Aparentava, também, preocupação moderada com o desconfiômetro.  Convidado para festas em família – afinal era um cara boa praça e simpático – ignora-se se, algum dia, ao ir embora pôde despedir-se de algum outro convidado. Nunca. Último contumaz a sair, só lhe sobrava o casal anfitrião para as despedidas. Ainda assim, somente após os primeiros bocejos da dona da casa e de algumas sugestivas consultas ao relógio. Aparentava, sim, o acriançado de autocrítica precária.

Bom era evitar indiretas do tipo: – Fique com a gente hoje, bebemos um pouco além da conta e o sono está apertando!… Ah, nem pensar. O risco de o convite ser aceito era grande. Melhor ser direto: – Neves, você veio de carro? Se não veio vamos chamar-lhe um táxi porque o sono está batendo e a hora é boa…

Aí não tinha problema. Jogo limpo não o ofendia. Sinal claro, aliás, de patetice benigna.

Convenhamos que uma pessoa assim, já transitando pelos trinta anos, haveria de ser tida como “fora dos padrões”, ou um abobalhado mesmo. Outro não era o conceito do Neves.

Só que, um dia, pintou assombro geral. Correu notícia de que o Neves havia ingressado no Itamaraty, por concurso, e muitíssimo bem classificado! Assumiria um Consulado na Europa, o que nunca foi coisa pouca no início da carreira diplomática.

Foi quando, pela primeira vez, providencialmente despido de preconceitos, procurei-o para conhecer particularidade do feito e cumprimentá-lo. Constatei então, envergonhado, que as “deficiências” do nosso amigo não seriam apenas dele. Teriam muito a ver com o tabu depreciativo em algum momento a ele pespegado, como se a sociedade humana lhe negasse o direito de ser um pouco diferente.

Foi preciso dar-lhe atenção não usual para descobrir nele o sábio que sempre terá sido – um tanto baratinado, talvez, por carregar mais perguntas que respostas.

Com discrição cursara o preparatório para a carreira diplomática, em três anos de esforço solitário. Tornara-se fluente no inglês, no francês e, ultimamente, recebia aulas de alemão e grego. Nosso “bobo” vivia imerso em ciência política, história, literatura e poesia. E não cantava vitória.

É a tal coisa: atrás de uma aparência singela e despojada, pode estar no mundo um precioso talento ou, no mínimo, uma pessoa muito interessante.

Zé do Carmo

Chato? Quem?

Vírgulas, em meus escritos, só as coloco quando o ouvido pede. Estudei pouco esse troço que no meu tempo de ginásio chamavam de Análise Lógica. Isto me condenou, para o resto da vida, a mal apartar orações. Vacas, no curral da fazenda onde fui criado, eu apartava direito. Orações, precariamente. Para quem é da cidade, vou logo avisando que “apartar vaca” é separá-la do bezerro. Se não separar o bichinho morre de diarreia e mamãe-vaca não terá leite para as crianças, no dia seguinte.

Quando, acima, digo “ginásio”, a referência é ao que, hoje, denominam Estudo Fundamental. Ou seja, os quatro anos do antigo Ginasial, mais os três anos do Científico ou do Clássico.

Aliás, confesso que nunca entendi bem esse trem de “Ensino Fundamental”. Foi uma professora famosa, porém muito mais nova, de Niterói – Niterói, não, minto, de Itacoatiara (o desmembramento em Município é uma questão de tempo) – que me explicou tudinho.

Ao confessar, humildemente, que virgulo “de ouvido”, faço-o com o singular do órgão auditivo – não sei se perceberam – e já me apresto a explicar a impropriedade sintática, sabido, como ninguém ignora, que temos dois ouvidos, o que, no caso, tornaria cogente o plural, sob pena de arbitrária exclusão de um deles. Clarifico que meu singular se prende à quase inoperância de uma das minhas aurículas, a esquerda, por Deus girada ao off.

Não blasfemo nem invoco meu santo de modo vão ao asseverar intervenção divina em minha perda, parcial, da audição. Foram muitas as orações que fiz pelo silenciamento de um malsinado zumbido que, night and day, day and night, (Helô, Frank!) me abelhava a orelha esquerda. Desafortunadamente, fui atendido em minhas esperançosas súplicas ao alto, livrando-me do zumbido, mas – Homessa! – com ele ausentou-se também minha audição à sinistra.

Ignorava-as codependentes…

Aliás, no terreno das impingens da idade – a tempo corrijo-me − dos “achaques” da idade, o que sobremodo me atormenta hoje é o joelho. Um joelho? Não apenas  – desnecessário adstringir-me – são os dois joelhos. Só que o direito revela-se bem mais zangado que o esquerdo.

Zanga que insiste, muito a despeito de eu já haver operado meniscos, se não me engano, no ano de 1995 ou 96. Para ser exato, se não foi no segundo semestre de 95, certamente terá sido no primeiro, de 96. Por despicienda que pareça a informação, menciono-a com margem de segurança confortável, eis que, não me esqueço, choveu a cântaros no dia em que me dirigia ao Hospital da Quinta da Boa Vista, no Rio. A Praça da Bandeira, como sempre, alagada!

Imaginem, já era assim no meu tempo de estudante, quando fazia refeições no SAPS, no final da Presidente Vargas. Os carros boiavam.

Despreocupando-me, entretanto, de ilações importunas, insisto em que minha cirurgia de menisco terá ocorrido em janeiro, fevereiro ou março de 96, meses de verão chuvoso no hemisfério sul. Meu Deus, como chovia naquela manhã em que me dirigia ao ato cirúrgico! Ato, aliás, circunscrito a um simples procedimento endoscópico, pouquíssimo invasivo.

Janeiro ou Fevereiro seriam, assim, as duas hipóteses mais prováveis de incidência da indigitada cirurgia, pois o verão pega não mais que dez dias de dezembro, do ano anterior, o que, estatisticamente, na prática, excluiria aquele mês.

Também é verdade que, indo o verão e suas chuvas copiosas, tão bem lembradas por Tom Jobim, na canção “Águas de Março”, indo, repito, até 21 de março, não deixa de ser possível ter-se dado a cirurgia também em março de 96. Dissuade-me, entretanto, admitir tal hipótese a comemoração de meu natalício, exatamente a 31 do indigitado mês, data  –  diga-se en passant  −  coincidente com o Golpe Militar de 1964 (lembro-me que cheguei a ser revistado, na Serra de Petrópolis, pelas tropas do General Mourão Filho. Topei com eles descendo a serra, em fila indiana, naquela noite histórica, noite mesma em que me dirigia a Minas Gerais para encontrar minha noiva, minha atual senhora) sendo de todo improvável que marcasse uma cirurgia para a véspera de minha data natalícia.

Ah, sim, ao dizer, de início, qualquer coisa sobre noções sintáticas, lembro-me ter mencionado certa operação, que fiz, de menisco. Não me acode se disse ter sido no joelho direito. Mas foi. O que me escapa é o nome do médico cirurgião. Lembro-me, sim, da anestesista. Moça morena, bonitinha. Não diria simpática porque me pareceu pouco comunicativa, muito compenetrada no que fazia.

A atitude dela até me deu certa tranquilidade, já que consta como o grande perigo em qualquer cirurgia, segundo dizem, o chamado choque anafilático. Que é quando o organismo reage ao anestésico. Pode levar a óbito.

Minha cunhada tem um genro – retifico, aliás, em tempo:  o moço é cunhado dela, pelo lado do ex-marido − que é alérgico a vários princípios ativos. Anda, sempre, com comprimidos de Allegra no bolso e um bilhete bem legível, na carteira, com a rogativa: “Em caso de desfalecimento ou convulsão, ministrem-me Allegra”.

Felizmente, segundo ele mesmo confessa, nunca desfaleceu ou sofreu convulsão. Apenas leu, numa bula, que alergias severas podem levar a pessoa a convulsões. Ignora – disse-me numa das subidas que fizemos à Pedra da Gávea − se a alergia dele é severa, mas, por via das dúvidas, julga melhor prevenir-se.

Curiosamente, dizem que Machado de Assis sofria convulsões. Era epiléptico, doença hereditária que, inclusive, ele, Machado, teria transmitido ao filho de outro grande romancista, confrade seu na Academia.

Por falar nisto, não me ocorre agora o ano em que a estátua de Machado de Assis, sentado numa poltrona, foi removida da frente do Petit Trianon, na Av. Presidente Wilson, para o saguão do novo prédio da Academia, um edifício de mais de quinze andares. Portentoso, aquele prédio, para quem o contempla de longe!

Pra entrar nele tem que saber colocar vírgula.

Zé do Carmo

Tempo

Não sei se ando administrando bem o meu tempo. Hoje mesmo por pouco esta crônica não sai da toca. Pressionado por um punhado de urgências cheguei a procurar assunto rápido no noticiário, mas a ênfase na violência e na crise econômica mundial me dissuadiu das atualidades. Vamos inventar tempo de pensar noutras coisas.

Minha vida é de correria. Faltando-me hora pra tudo. São histórias e mais histórias que improviso para escapar a eventos sociais, para não aderir a projetos alheios… Mesmo sob o constrangimento da desculpa esfarrapada no lugar da verdade verdadeira que poderia pegar mal.

Natural a pessoa que gentilmente nos convida para alguma coisa, que para ela é importante, achar um tremendo pouco caso trocarmos sua conspícua companhia, ou proposta, por “algo tão frívolo”… Só que, para nós, não é frívolo, ora bolas! Quando alguém opta por dar as costas a badalações já o faz no pressuposto de que seu tempo de boiar nas espirais do cigarro será sagrado. Quem quiser que vá amanhã receber e homenagear Sua Excelência, que vá ao bingo beneficente, à debutância da filha do Aristeu, ao jogo de pôquer no caxixó da Lívia. Tem dó! Já fui semana passada.

Cada um resolva a seu modo o enigma do tempo. Até porque ninguém sabe direito o que é tempo. Cientistas levados a defini-lo saíram pela tangente com brincadeiras. Einstein disse que o tempo é “uma ilusão”. Para ele, “a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão”. John Wheeler, outro notável físico americano, foi ainda mais pilhérico: disse que tempo é “o jeito que a natureza encontrou para não deixar que tudo acontecesse de uma vez só”.

Podem conferir no Google. Dois gênios da humanidade não entenderam o mecanismo da própria decrepitude. Ora, a prova de que o tempo existe é que só não o vemos passar quando estamos ocupados ou distraídos. Tão distraídos que não percebemos as erosões da decrepitude.

Social e popularmente diz-se que “tempo se inventa” e que tudo se resume a saber programá-lo. O problema é impor socialmente nossa programação. Principalmente nas cidades menores, as pessoas se conhecem, são amigas, simpáticas, e querem sempre distinguir seus semelhantes com uma demonstração de carinho e apreço. Impossível não tratá-las com compreensão. Pero hay que endurecerse para que o controle da pauta continue em nossas mãos.

Consta que nos últimos 100 anos a vida média do ser humano dobrou. Contribuíram para isto a medicina, a alimentação mais adequada, a química farmacológica, os hábitos de higiene, o conforto. Paralelamente, novas técnicas e novas tecnologias, vieram otimizar o uso que fazemos do tempo − meios de comunicação dispensando presença pessoal; meios de locomoção mais rápidos etc. − e nem assim passou a sobrar tempo.

Ao contrário, a demanda de afazeres na sociedade moderna insiste em nos passar a impressão de que o tempo anda cada vez mais curto. Não apenas impressão. Anda curto, sim. Principalmente aquele tempo sagrado, para nós mesmos e para a família.

Zé do Carmo

Publicado originalmente no Blog da Maria Helena, em novembro de 2010

Bar do Caçapa

 

“Selminha, ontem, falando de boteco num comentário ao trabalho do Paulinho, lembrei-me deste samba que meu parceiro, Roberto, e eu, compusemos há algum tempo. Confira aí. Não deixa de ser chegadinho, engraçadinho. Pergunte ao Luiz se ele já frequentou bar tipo do Caçapa. Se você gostar, fica sendo minha “intervenção” de amanhã. Abaixo, letra e música.
Abraço,
José do Carmo”

Pergunto eu: o que é esse Bloghetto, geeeente!

[audio:http://www.bloghetto.com.br/wp-content/uploads/2013/05/BardoCacapa.mp3]

As coisa acontece, os fato se passa, mas ninguém se toca,

Ninguém se apercebe, num bota sentido

E esse boteco abarrota !

*******

Magina que o Néca, foi daqui com uns pobrema, de ingerir carne assada,

Tá com azia, gastura, arrilia nos dente

E as ideia, completamente abalada.

*******

Falemos pra Glória, que tá ficando com ele, ela tá arrasada,

Diz que uns dias pra cá o Néca na cama, coitado,

Também num dá nada.

 *******

Mas o culpado é o Caçapa, que num faz sepicía, jamais neste bar,

É ratazana, é mosquito, percevejo, barata,

Urubu vai baixar.

 *******

Afora os micróbio, que a gente num enxerga  mas sabe que existe,

Ninguém lava as mão, a cozinha é um lixão,

“W C”, que fedô, coisa triste!

*******

Mas Caçapa faz graça, diz que certas doenças, são coisas da vida:

-“Vaca veia a palito, muitas vez num combina

Com certas bebida…”

*******

Mas num falaram pra ele que as questã  de saúde

Costuma dar cana,

A fofoca tem asa, eles fecham  esse bar

E nóis, ó! , que se dana.

 *******

Pe-la-môr-de-Deus, Caçapa, faz faxina  semanária

Que eu trago sabão, aguarrás, creolina

E a água solitária…

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪

(Letra: Zé do Carmo  — Música e performance: Roberto Souza)

 

Minha cura

Com o seu sinistro olhar o feiticeiro mede-o.

– Olha, Roque, você me vai dar um remédio.

Eu quero me curar do mal que me atormenta.

– Tenho ramos de arruda, urtigas, água benta,

uma infusão que cura a espinhela e a maleita,

figas para evitar tudo que é coisa feita…

(Menotti Del Picchia – Juca Mulato)

 

Aos vinte e três anos, já residindo no Rio de Janeiro, apareceu-me uma ziquizira dos diabos na cabeça. Mais exatamente no cabelo, a preciosa matéria-prima engomada do meu topete elvispresleyano! Apavorado, procurei médico e o diagnóstico declinado foi uma “possível psoríase”. Conceito hermético que só fez aumentar meu desespero.

Tratando-se de uma doença autoimune – lecionou-me o esculápio – vá usando este sabonete antisséptico até melhor avaliação.

Meus cabelos se soltavam aos tufos. Marineide, nossa cozinheira na pensão da Glória, prolatou sentença terrível: – Ele tá com pelada! Doença horrorosa. Faz a cabeça ficar desértica e repulsiva como os costados de um cão sarnento.

Credo em cruz! Fiquei triste com a Marineide, mesmo sendo a danada capaz de fritar batata doce como só Da. Lira, minha avozinha querida, costumava fazer.

Dona Ruth, a octogenária dona da casa, aconselhou-me um homeopata famoso, Dr. Molica, com consultório em Copacabana. Procurei saber: consultas a partir das sete da manhã, ordem de chegada. Fui lá. “Senhas” esgotadas!

–Isto não é assim não, explicou-me a secretária. Antes das seis já tem gente na fila pra pegar vaga. Volte amanhã.

Voltei. Cinco da madrugada. Consultório lá em cima, mas a fila se formava na portaria do prédio, esticando-se pela calçada do Cinema Metro, na Av. Copacabana. Andou às sete, com a chegada do médico.

Mas valeu. Às nove eu já era um paciente esperançoso aviando a latinidade da minha receita na farmácia homeopática da Rua São José, no Centro. Já saí dali com cinco vidrinhos contendo bolinhas de açúcar encantado. Ou bento, se preferem.

Tomava as bolotinhas com neurótica pontualidade. O cabelo, entretanto, continuava a descer-me pelos ombros. Angustiado, apelei para outro dermatologista. A receita foi nova marca de sabonete antisséptico.

Pintou feriadão, me mandei para Minas. Na fazenda, Neneco Passarim, o carreiro de boi, aconselhou-me procurar o Preto Velho, Horácio, mandingueiro entendido em ervas e benzedor emérito. Corri nele.

O velho assuntou sem emoção minhas brechas cimeiras, pigarreou arrastado e declarou:

– É cobreiro! Vamo benzê isso. Vá pra trás daquela porta, ali –  apontou-me a porta que dava, da sala onde estávamos, para o quarto dele. Perfilei-me lá como uma vassoura.

– Agora vou fazê a reza – declarou. Quando eu pruguntá, “O quê que eu te benzo”, cê responde: “Cobreiro”.  Entendeu?

– Entendi, Horácio.

Dito isto ele se ajoelhou com uma das pernas, apoiou os cotovelos na outra e passou a orar guturalmente:

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

–  Cobreiro – eu respondi.

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

– Cobreiro – respondi novamente.

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

– Cobreiro – segui replicando.

– Bzzzeerrss-bzzreee-e-que-benzo-bzzrreee-zzz…. O quê que eu te benzo?

– Cobreiro….. Cobreiro…..Cobreiro….. Cobreiro….

Não sei quantas vezes pronunciei a palavra Cobreiro. Foram muitas. Tantas que, dias depois, meu cabelo parou de cair. E não caiu mais. A não ser modicamente, anos afora, como convinha a meu legado genético.

Sei lá o que me curou. A homeopatia do Dr. Molica? Os sabonetes dos alopatas? Ou foi a benzeção do Horácio?

Consta que uma fase de grande estresse pode explicar a queda súbita de cabelos. De fato, ali pelos vinte e poucos anos eu sonhava ser dono do mundo. Só depois, com as topadas da vida,  “os sonhos, um por um, céleres,” voaram.

Zé do Carmo

As bananas do Magela

Filho de ruralistas, meu amigo Magela esteve perto de realizar um sonho. Deixar a vida de serventuário da justiça carioca, comprar um sítio e cuidar de uma plantação de bananas, na Serra do Mar.

Necas de levantar todas as manhãs, pegar ônibus, enfrentar engarrafamento e costurar processos. Às favas com advogados reclamando do andamento dos feitos, da lerdeza na expedição de ofícios, delongas na conclusão dos autos ao juiz…  Ora, ora – pensou – são mais de doze milhões de habitantes, no Rio, ávidos de encontrar bananas, madurinhas, nas feiras e nas mercearias. O negócio é plantar banana.

O sitiozinho recentemente recebido por herança do sogro vinha a calhar. Magela leu e absorveu que bananeiral plantado com técnica é altamente produtivo e rentável, já a partir do segundo ano. Aprendeu também que a Serra do Mar, onde entrou a ser feliz proprietário do “Sítio Madre Ceres”, possui clima apropriadíssimo ao cultivo de bananas.

Portanto, adeus prateleiras empoeiradas, dossiês mal enjambrados soltando as folhas e as capas, adeus papelada, adeus carimbos, adeus tramitações melífluas! Vou nessa! Ar puro, paisagem, canto de pássaros, arrulho de cachoeira e trabalho compensador nas faldas serranas.

Demitiu-se em favor do sonho. Só que a realidade escapou um pouco aos cálculos do Magela. Faltou programar adequadamente a “colocação” do produto.  Quando veio a primeira produção de bananas nosso novel agricultor alugou um caminhão, encheu-o até onde pôde, e desceu a serra na direção do Rio de Janeiro. Parou no Mercado São Sebastião onde pensava vender toda a carga de uma só vez… Deu zebra!

– Não negociamos de improviso, amigo, temos nossos fornecedores – disseram-lhe.

– Ih, por esta eu não esperava. Terei que vender estas bananas, direto, nos supermercados – pensou o Magela.

Mas o obstáculo continuou:

– Temos nossos fornecedores, meu senhor. As compras são programadas.

Putz! – lamentou. Vender pequenas quantidades, em quitandas, não dá. Não vai compensar o diesel do caminhão.

Já sei – decidiu. Vou com este caminhão para a Central do Brasil e vendo bananas a granel para o público.

Em frente ao Duque de Caxias subiu na carroceria e começou a apregoar bananas “a preço de banana”. Juntou gente. Foi virando oba-oba! Em poucos minutos encostou a primeira viatura policial de pisca-alerta ligado… A segunda viatura… A terceira…

– Documentos da viatura e a “autorização” para venda de produtos alimentícios diretamente ao público.

– Não tenho autorização alguma – confessou o transgressor.

– Pois então puxe esse caminhão daqui senão o senhor será preso, agora, por comércio ilegal em via pública – bradou a autoridade.

Enfezado, cuspindo fogo, o Magela se desesperou:

– Não posso vender, mas posso dar as bananas! Alô, minha gente! – passou a berrar:

– Bananas de graça! Bananas de graça! Bananas de graça!

E, de cima do caminhão, atirava bananas às pencas na cabeça dos atarantados populares da Central.

Encurtando conversa. O Inquérito Policial por “perturbação da paz pública” deu uma dor de cabeça danada ao agricultor/réu, mas veio a ser arquivado sem maiores consequências. Talvez a Promotoria tenha se sensibilizado com o drama do ex-serventuário.

Zé do Carmo

Veneno de cada dia

Li, ontem, um artigo sobre a toxidade de certos alimentos. Lembrou-me o caso dos navios de soja vendidos à China, há alguns anos, e devolvidos.

Bastou que uma pequena quantidade de grãos contaminados por agrotóxicos, misturados a toneladas contidas num navio, fossem detectados pela vigilância chinesa para que os barcos tivessem que voltar ao Brasil com suas cargas infectas.

O episódio nos deu a prova do quanto nós, brasileiros, somos diariamente envenenados às refeições. Não é de hoje que os megaprodutores de alimentos sabem que nos envenenam. Os pequenos produtores, também, mas a estes concedo a atenuante da ignorância com que o fazem.

Ou será que os produtos que nós ingerimos passam por fiscalização igual à chinesa? Claro que não. A gente engole o que esses irresponsáveis mandam para nossa mesa. Fubá de milho contaminado; óleo, leite, bifes etc., de soja contaminada; farinha de trigo contaminada por raticidas e pelos de ratos (exames do Instituto Adolfo Lutz sempre acusaram); morangos contaminados (a Globo mostrou que produtores de morango do sul do Brasil não arriscam comer o que colhem); batatas inglesas, campeãs dos defensivos sistêmicos, mandados pela raiz ao interior do produto para que as pragas o rejeitem; tomates superenvenenados (quanto mais bonitos mais temíveis); melancias nas quais turistas estrangeiros, avisados, nem tocam (um produtor de melancia, em Ceres, Goiás, me disse que a pulverização do agrotóxico é semanal, mas, se chover, passa e incidir no dia seguinte a cada chuva).

E a carne? Meu Deus! Nos velhos tempos já deu até marchinha de carnaval: “Comeu carne de boi, falou fino” … O Brasil não controla o hormônio atochado no gado de abate. Criadores, claro, gostam de lucro. Se podem tocar hormônio na orelha do boi pra ele dobrar de peso na metade do tempo, não contam até dois. O resultado? Bom, não provo a relação causa e efeito entre comer carne e falar fino. Só sei que é notável o naipe de sopranos no país, e que o Brasil é campeoníssimo em canto lírico nas cidades sopraninas de San Francisco, Amsterdam e Milão.

E nem adianta fugir da carne vermelha. A carne branca, do frango, também tem hormônio. Muito! E aqui entre nós: hormônio de galinha.

Zé do Carmo

Ilusões

Quem lhes denuncia virtudes na ilusão não é sábio nem poeta. Apenas o que amanheceu confuso e talvez reclame compreensão e piedade. Arranhei, sim, o tornozelo numa plantinha de espinhos contundentes, conhecida como “sensitiva”, a qual maldizem possuir virtudes alucinógenas, similares às de outra espécie, priminha dela, famosa por suas folhas psicodélico-infratoras.

Para ajudar ainda menos, Guimarães Rosa pelas encruzilhadas sinápticas do bestunto a recitar que “a vida não é entendível”. O resultado, cá eu, do meu canto, a despertar manhãs sem utopias. Daquelas em que o homem arrosta sua pequenez diante desse espasmo de onipresença a que chamamos “nós mesmos”, frágeis interrogadores das inconsistências do estar no mundo.

Meu alterego e guru, onipresente, pondera nossa finitude – dele e minha – e proclama provas irrefutáveis de que nesta vida tudo é ilusão. Difícil discordar, pelo menos no tocante à maior parte das coisas. Diria que tudo o que a vida nos oferece, nessa embalagem para presente que é o viver, seriam, sim, meras ilusões. Garranchos num quadro negro que o apagador da morte absorverá sob forma de pó.

Duro o enigma de estar no mundo por esta centelha a que chamamos vida, com seu sentido nebuloso e desfecho aterrador.

Pisamos um universo que se expande, os astros ganhando distância entre si qual manada de bodes que pondera o desembesto da volta, na hecatombe definitiva em que tudo se reverterá ao nihil.

Passageiros da ilusão do ser, seguimos irremediavelmente atrelados às galáxias no caminho do nãoser, quando nada escapará ao pó e ao espaço. Nem o granito, nem o diamante, nem os cometas com suas órbitas setuagenárias, nem os mais longínquos rochedos que os aprisionam.

Temos, todos, encontro marcado em novo estrondo epilogal que antecederá a quietude definitiva. Não soará um lamento pelo Everest ou pelo David de Michelangelo!

Há prudência, pois, no cativar ilusões. Elas nos servem à alma como o fígado ao corpo. Salvam-nos, a cada instante, atenuando as toxinas da realidade trágica de que nascemos protagonistas.

A quem me responde o espelho? Apalpo-me e não me acho. Constato-me e não me creio. Descaindo do azul, lá fora, um sol ingenuamente equívoco e sua luz provisória. Luz última a também nãoser quando todos os sóis se apagarem.

Zé do Carmo