Por obra de cachorros

Se o título acima remeter meus escassos leitores àquela fotografia lírica do Carlitos sentado à soleira de uma porta na comovente companhia de um cachorrinho, me desculpem. Não é deles que falo. Também não abordo peripécias de deputados, senadores, governadores e prefeitos apanhados na carrocinha “aparatosa” da Polícia Federal. Seria bom que falasse, mas também não falo daquela página maravilhosa de Eugene O’Neill, “Testament of a Very Distinguished Dog” (Testamento de um Cão), verdadeiro mimo à sensibilidade de qualquer leitor.

Falo de cachorro em sentido lato, esses vagabundos de quatro patas que me deixam possesso toda vez que piso na “besteira” deles, como me aconteceu hoje. Na verdade, nunca foram boas minhas relações com esse tal melhor “inimigo” do homem. Sei que tem gente que gosta, e muito, de seu cãozinho, mas, como dizem no erudito espaço rural em que nasci e me criei, “eu nunca se dei bem com esse bicho”.

Claro, não sou insensível e acho alguns até bonitinhos, principalmente quando fotografados no colo de uma jovem atriz de cinema ou seguindo o requebro artificial de uma top model. O problema é que mesmo os bonitinhos são dados a defecar, ao menos três vezes ao dia, e cocô de cachorro, sob o ponto de vista… ou melhor, sob o “ponto de olfato” das minhas narinas, fede muito além do tolerável.

Conheço coisas que fedem, neste mundo: conheço o manguezal de Ramos, no Rio, o Tietê, em São Paulo e uma fábrica de geleia de mocotó em Caxias. Mas a tal “obra” de cachorro, exala, dissemina, tresanda, um fedor campeoníssimo.

Poderia dizer imensurável porque ainda inventaram uma unidade de medida para fetidez. Andei pensando no UOLF – sigla para Unidade Olfativa.

Poderíamos convencionar, por exemplo, para 666 gramas de excremento canino (fede como a “besta apocalíptica”), a equivalência padrão de 1000 uolfs (mil unidades olfativas), no topo da escala. No ponto diametralmente mais baixo, ou seja, no menos gravoso dos (mal) odores, teríamos o hálito de uma mulher bonita, porém fumante: 1 uolf. Sendo esta a mais tolerável de todas as afrontas ao olfato (Perdoem-me as mulheres que fumam, mas um uolfzinho não ofende ninguém e ainda funciona como alerta).

Distribuídos entre 1 e 1000 estariam os outros molestamentos às papilas olfativas como, por exemplo, 1 kg de bacalhau: 50 uolfs; um par de tênis usado por adolescente: 200 olfs; um ovo podre: mesmo valor do par de tênis: 200 olfs; um gambá atropelado: 900 uofs, e assim por diante.

O importante é que o cocô de cachorro ocupe seu devido lugar. Pirraça antiga? Sim. Cresci num sítio próximo à cidade, onde meu pai lidava com criação e abate de suínos, retiro de leite, fabricação de queijos, soro e manteiga – atividades propiciadoras de restos malcheirosos cuja antifragrância as narinas intermunicipais dos caninos captavam de longe.

O resultado era que um número absurdo de cães vadios vivia rondando nosso quintal. A maioria, cachorro da roça, caipiras como nós mesmos, mas apareciam também cães “gente fina”, sem carrapicho nas patas, focinho empinado, tirando onda de “morar bem”, no perímetro urbano. Chegavam principalmente à noite para filar comida no cocho dos porcos, deglutir ovos frescos nos ninhos das carijós e segurar velas, com latidos invejosos dos  miados nupciais dos gatos.

Uma bagunça. Meu pai, coitado, precisando dormir depois de um áspero dia de trabalho no campo, às vezes rolava na cama ponderando entre o prejuízo e o sono. Só que ele também tinha seus “dias de cão”. Era quando saltava da cama, furioso, abria uma janela alta que dava para a manga dos porcos e queimava o filme dos penetras com os relâmpagos de sua Cartucheira-24, carregada com sal grosso no lugar do chumbo – para arder sem matar. A bicharada caçava rumo: caim!, caim!, caim! E nós, meninos, torcedores da cartucheira, íamos adivinhando, da cama, a rota dos fugitivos até que o caim, caim, caim sumisse lá longe, na noite incógnita que começava depois da porteira.

Apesar de tudo, não fui nesta vida um “sem cachorro”. Cheguei a ter dois cães. Quando menino, o Socorro, um vira-latas branquinho, saudável, esguio, tamanho médio, titular absoluto do quintal da fazenda. Área enorme, de penosa demarcação urinária, Socorro tinha que balizar marcos de xixi com extrema parcimônia para evitar pane seca. Um esguichinho mínimo aqui, outro ali.

Do Socorro tenho muita saudade. Se “obrava” fedido nem me lembro. O fazia para lá. O inesquecível, o emocionante, era vê-lo uivar para a lua cheia. Jamais saíram da minha cabeça as noites enluaradas quando Socorro, em frente à nossa varanda, de cócoras na grama qual escultura de louça muito branca, patinhas dianteiras eretas, o focinho apontado para uma lua enorme de queijo minas, uivava alongadamente como um lobo apaixonado: – Uúúúúúú! Uúúúúúú!!! Imagem linda, meu Deus! Olha, se alguém quiser dispor de um cãozinho branco, esguio, que saiba uivar para a lua cheia, manda pra mim: o preço, “adispois nóis cumbina”…

Meu segundo cãozinho, foi Billy the Kid, um Basset com certidão de nascimento e tudo. Ganhei-o de um amigo do TJRJ. O “acórdão” era que ele me prestasse serviços inerentes aos de sua espécie, zelando pela frente da minha casa, em Petrópolis, quando lá residi nos anos 70.

Billy the Kid era carioca da zona sul e, talvez por inadaptação à umidade serrana, latia neuroticamente para tudo e para todos (um prolixo!) e demarcou uma área bem abaixo da janela do meu quarto para consignar seus depósitos fecais. Não fiquei com ele dois meses. Felizmente, era “de raça” e tinha um sósia famoso na TV. Foi fácil passar adiante meu reclame de amortecedores Cofap.

Fique claro, entretanto, que mesmo não sendo chegado aos canídeos – segundo o Aulete, variedade doméstica do gênero canis, da qual o lobo, o chacal e a raposa são espécies selvagens – admiro muito sua longa história ao lado dos hominídeos da família sapiens sapiens. Consta que os cães foram por nós domesticados há mais de dez mil anos, como demonstram pinturas pré-históricas em grutas da Espanha, onde se veem cenas de caçada com ajuda de cães.

A convivência é, portanto, milenar. Nosso respeito pelo cão é que não faz jus ao tempo. Apesar de tê-lo como nosso “melhor amigo”, não há quem não queira ver morto um Pitbull, esse exímio intérprete dos defeitos de caráter do dono; nordestinos referem-se a satanás como “o cão”; indivíduos crápulas são chamados de “cachorro”; para hebreus e indianos o cão é um animal impuro; para um maometano não há insulto mais aviltante do que ser chamado de cão.

Vai ver o cachorro nos esteja proporcionando tratamento à altura, quando nos faz chapinhar seus descartes, nas praias e nas calçadas.

Zé do Carmo

O niver do Galeno

Quando cheguei em casa na última sexta-feira o ambiente não era lá, digamos, promissor. Minha mulher estava com o penteado nos trinques e isto, às sextas, quase sempre significa obstáculo à minha bermuda surrada após o banho.

Tem programa à minha espreita – pensei. E ruim, porque não existe programa bom para quem chega do trabalho na sexta à noite sonhando com uma ducha generosa e aquela esticada básica na rede pra interagir com as estrelas.

– Amor, você não adivinha quem ligou. A Bel. Hoje é aniversário do Galeno e eles estão nos convidando para um chopinho honoris causa.

– Chopinho honoris causa! Claro que você agradeceu dizendo que não vamos porque eu estou com suspeita de dengue, não foi?

– Que isto, amor, não diga bobagem, eles são tão gentis, tão gente boa! Eu sei que você acha o papo do Galeno meio cansativo. Mas, afinal, ele é o marido da minha melhor amiga e trata você muito bem. A Bel, por sua vez, é um amor de criatura e só tem elogios para você. Grosseria não irmos. Por favor, rapidinho, tome seu banho e troque de roupa. São 7 horas, marcamos para a meia-noite, na casa deles, na Barra da Tijuca.

– O quê! É hoje? Eu vou dirigir 200 km agora à noite, pegando esse trânsito maluco para o Rio de Janeiro? E ainda tolerar o papo do Galeno?

– Não dramatize tanto, amor, vamos dirigindo devagarzinho, com calma.

– Bota devagarzinho nisto, não é querida! Já pensou o que vamos pegar de engarrafamento nesta sexta de feriadão, daqui de Minas até a Barra, no Rio?

– Não é tão cansativo assim, a gente dorme lá, descansa e volta amanhã ou depois.

– Virgem da Abadia! Dois dias de “colóquio unilateral” com o Galeno? O homem parece rádio, blá-blá-blá, só fala, não deixa ninguém falar, não consegue ouvir, é um surdo funcional! Não é por nada, não, Izilda, mas eu vou fazer uma oração:

– Meu São Judas Tadeu, sei que é difícil até para um santo milagroso como o senhor, mas faça alguma coisa por este seu devoto, ó santinho recluso e enfumaçado da gruta do Cosme Velho!

– Pare com bobagem, meu queridinho, vamos pensar positivamente. Pior será passarmos o fim de semana aqui nesta nossa Minas Gerais friorenta, sem opções de lazer, lendo jornais e revistas de domingo.

– O que me desespera são as perguntas dele, sabe Izilda, uma emendada na outra. E mais: toda afirmação que ele faz vem com desfecho interrogativo, a exigir “sim” ou “não”. É o platusardil (ardil de chato) que ele usa para escravizar as pessoas ao seu discurso. Não dá para fingir que se está ouvindo. O homem é um megachato. Dono da verdade, não dá descanso, não deixa “o inimigo” respirar.

Você já observou que em todas as histórias o Galeno se dá bem no final? Nos casos dele, todo mundo entra de gaiato. Só ele triunfa. É o “mocinho” do filme. O mundo do Galeno só tem índio e bandido pra ele matar. E já vou eu, mais uma vez, fazer ponta num western spaghetti com meu Giuliano Gemma preferido…

Já decidi. Eu vou, tá. Vou. Nunca soube dizer não a você. Só que desta vez, Izilda, eu gostaria de ver você sofrendo comigo. Por favor, não fuja pra conversar com a Bel. Participe comigo dos monólogos do Galeno. Ele vai falar sem trégua, lecionar, doutrinar, arguir, contar vantagem, elogiar-se, cortar sua frase ao meio toda vez que você abrir a boca, e, se você conseguir externar alguma ideia, ele vai olhar pro outro lado em sinal de desdém à sua opinião. Quero ver você firme como eu, politicamente correta o tempo todo, tá, só meneando positivamente a cabeça.

Combinado?

Chegamos à Barra antes das onze da noite. Bel veio nos receber à porta, com o que ela alegava ser uma “má notícia”. Só não nos havia telefonado, desmarcando o encontro, porque desejavam demais nossa presença.

– Galeno não abriria mão de comemorar o niver dele com vocês – disse.

Mas imprevistos acontecem. Imaginem que de algumas horas para cá ele passou a estar febril e inteiramente afônico. Sente dor na garganta, coitado. Está falando como quem assopra. Ponham o carro pra dentro. Entrem.

Pois não é que acabou sendo, para nós, um bom fim de semana na praia? O problema laringológico do nosso anfitrião desaconselhava gelados, o que resultou em dois dias regados a scotch, do bom, no lugar de chope. Bel, simpaticíssima, como sempre. Galeno certamente mereceria comemoração natalícia menos silenciosa. Esteve o tempo todo ouvindo mais que falando, garganta irritada, febril, cachecol em torno do pescoço. “Infelizmente”, quando começou a articular melhor as palavras, no domingo, já estávamos de saída…

Incrível, não é mesmo?

Zé do Carmo

Para quem tem fé e confia em milagres, a Igreja de São Judas Tadeu, no Rio de Janeiro, fica na Rua Cosme Velho, ali, bem pertinho do Largo do Boticário. Recomendo.

A Paquera do Cordeiro

Sabe-se que aparência frívola, leviana, pode abrigar uma alma que é apenas ingênua. Isto me lembra o Cordeiro, talvez o mais típico dos cariocas que conheci. Aprontava demais, mas sempre de bem com a vida. Por causa dele aqui está, hoje, mais uma história ambientada no Rio de Janeiro.

Cordeiro era habitué do vôlei de duplas na praia de Ipanema. Só nos encontrávamos em fins de semana esporádicos, quando fazia sol. Possível beneficiário de aposentadoria prematura, constava ser solteirão e morar num apartamento pequeno ali pelas proximidades de Ipanema com o Posto 6. Passava dos cinquenta anos, era baixo, bem feinho, cabelos e bigode pintados. Tinha o rosto inexpressivo de um retrato falado. Apesar disto, afoito com mulheres. Dá pra entender?

Não lhe negaria o rótulo de “boa pessoa”, apesar dos hábitos que faziam dele uma companhia um tanto cansativa: como jogador de vôlei, reclamava muito; como frequentador da praia azarava mulher o tempo todo. Bota inconveniência nisto. Vez ou outra rendia uma história.

Certa manhã, os saques do Cordeiro começaram a ficar na rede. Percebemos que a atenção dele estava ligada numa garota linda, com idade para ser sua filha. Contemplava a moça e sussurrava chatíssimo: “Estou no céu, me belisca, ela sorriu pra mim…”

Mestre na arte de dispensar apresentações, logo, logo, estava lá o bicão, agachado na areia ao lado da menina. Soubemos que a conversa rendeu. Cordeiro foi convidado para ouvir música no apartamento dela. Aquilo – confessou ele, realista – “me pareceu cereja demais no meu coquetel, mas um homem na minha idade acredita em tudo…”

Dizendo-se vidrada em Michael Jackson, a mocinha sugeriu que ele a presenteasse com o álbum “Thriller”, que explodia nas paradas mundiais da época. Se conseguisse comprar o disco, “poderia até visitá-la amanhã mesmo, domingo, às 15 horas…”

– Meu prédio – explicou ela – é o de tijolinhos cor de cerâmica na portaria, bem no início da Rua Madre Euzébia, no Leblon.

Corte rápido para lá. No domingo, pouco antes da hora combinada, na porta do prédio, um lobo na pele do Cordeiro ponderava sua caça. Que, pontualíssima, logo apareceu ao predador pedalando sua bike, em traje de malhação. Delicada e afável aplicou dois beijinhos nas faces do garboso meia-idade e, com um sorriso bom, abriu o envelope que abrigava o precioso LP.

— Humm! Lindo! Este mesmo, valeu! Obrigada. Vamos subir.

Com um braço dado ao Cordeiro e o outro empurrando a bicicleta, conduziu o “convidado” pela galeria de acesso ao elevador e ordenou:

— Suba na frente. O apartamento é o 801, a porta está apenas encostada. Entre e espere um pouco. Rapidinho eu guardo a bike na garagem e subo.

Já no elevador um pequeno transtorno: não havia tecla para marcar oitavo andar… O Cordeiro tremeu nas pernas, mas exorcizou pensamentos negativos.

— Bobagem, o que mais tem no mundo é prédio em que o elevador não vai ao último andar. Certamente que, do sétimo ao oitavo, a subida é pela escada.

Apertou o “sete” e chegou lá. Cadê escada pro oitavo andar? Não tinha!

– Será que a menina se enganou com o número do próprio apartamento? – quis acreditar. Ela disse 801… Posso não ter ouvido bem. Vai ver é o 701, o 601, o 501…

Desceu a pé conferindo os apartamentos “01” de todos os andares. Nenhuma porta “apenas encostada”. Desiludido,  chegou ao hall de entrada e viu que a galeria dava passagem para a outra rua…

– Exatamente por onde a danadinha se escafedeu  – concluiu desolado.

Foi o dia da caça. O caçador que se virasse com os momentos de esperança malandra que certamente viveu. De preferência conformado, porque a esperança é assim mesmo. Até as mais honestas e legítimas às vezes trapaceiam.

Zé do Carmo

P.S.: Zé, se me permite, a trilha de outros Lobos, Chapeuzinhos, Cordeiros… Valeu, Fe!

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O Mestre-Sala dos Mares

Faz muito tempo! Quase 103 anos! Mas é tão bom ouvir boa música, não é? Com Elis Regina, melhor ainda – concordam?

Em novembro de 1910, mais de dois mil marujos, liderados pelo marinheiro João Cândido, apoderaram-se dos navios de guerra ancorados na baía da Guanabara e apontaram os canhões para os principais prédios públicos da capital, exigindo o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

O governo gastara uma fortuna para modernizar a Esquadra, fazendo do Brasil uma das maiores potências navais do mundo, mas o Código Disciplinar da Marinha continuava o mesmo da monarquia… Foi a chamada Revolta da Chibata.

Na noite de 22 de novembro explodiu o movimento com o marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro” , assumindo o comando do Minas Gerais. Morreu na luta o Comandante Batista das Neves, alguns oficiais e vários marujos. Sem saída, Hermes da Fonseca, que assistia a uma ópera quando começaram os canhonaços, encomendou rápido um projeto a Rui Barbosa (que, aliás, tinha apoiado a reinstauração dos castigos) pondo fim aos açoites e concedendo anistia aos revoltosos.

Só que o troco do governo viria depois. “O negro que violentou a história do Brasil”, segundo Gilberto Amado, foi preso com mais 17 marinheiros numa masmorra da ilha das Cobras. Quinze morreram sufocados. João Cândido sobreviveu e foi mandado para o Hospital de Alienados, onde os médicos negaram que estivesse louco. Foi a julgamento e absolvido em novembro de 1912, porque a jovem república brasileira já começava a ficar bonita exatamente pela ação de bravos como ele.

Tanto que “a história não o esqueceu”. João Cândido e sua Revolta da Chibata inspiraram João Bosco e Aldir Blanc na belíssima canção, “O Mestre-Sala dos Mares”. Cadê a Elis?

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-Há muito tempo, nas águas da Guanabara

O dragão do mar reapareceu.

Na figura de um bravo marinheiro

A quem a História não esqueceu.

Conhecido como Navegante Negro,

Tinha a dignidade de um mestre-sala

E ao acenar para o mar, na alegria das regatas,

Foi saudado no porto, pelas mocinhas francesas,

Jovens polacas e por um batalhão de mulatas!

Rubras cascatas jorravam das costas dos negros

Entre cantos e chibatas,

Inundando o coração do pessoal do porão

Que a exemplo do marinheiro gritava: Não!

Glória aos piratas, às mulatas,

Às sereias!

Glória à farofa, à cachaça,

Às baleias!

Glória, a todas as lutas inglórias

Que através de nossa história

Não esquecemos jamais!

Salve, o Navegante Negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas do cais…

(Mas faz muito tempo!…)

Zé do Carmo

Cirurgia

 

Oito dias após a terceira cirurgia o médico, cuidadosamente, retira-lhe o curativo

e ordena:

-Vá abrindo os olhos devagar, sem pressa, não se aflija…

Com calma, com calma…

E, oferecendo-lhe a palma da mão, pergunta:

-Pode ver alguma coisa? Vê minha mão?

-Não, doutor, apenas uma sombra… Um vulto…

Um vulto de mulher!

Abatido, o cirurgião recolhe o braço, cerra demoradamente o punho

e murmura para si:

-Meu Deus, ele continua cego para a realidade!

Zé do Carmo

Meu amigo João Bolinha

Nesse turbilhão de incitamentos que é a vida, sempre soube que um dia acabaria contando a história do meu velho colega de estudos pré-acadêmicos, João Bolinha. Notar que “Bolinha”, no caso dele, nada tinha a ver com obesidade. O apelido surgiu da grande habilidade que ele tinha com uma bola no pé, fazendo “embaixadas”.

Produzia de cem embaixadinhas para mais, sem deixar a peteca, ou melhor, a bola cair. Repetia a façanha com laranjas, tampinhas de garrafa e outros descartáveis sólidos. Daí que, “pra qualquer um na rua” era o Bolinha!

Preparávamo-nos para o vestibular no “Curso Gallotti Khering”, na Rua Álvaro Alvim, Cinelândia, Rio de Janeiro. Um cortiço na Glória nos protegia das intempéries e fazíamos nossas refeições num restaurante estudantil, contíguo à Faculdade Nacional de Filosofia, no Castelo. Aliás, filosofia era o sonho do Bolinha.

Na República da Glória, João não era o mais alto nem o mais atlético. Mas fazia um sucesso danado com as garotas. O que mais sobressaía nele, além, claro, do malabarismo futebolístico, era a inteligência privilegiada. Sempre nos passava, a nós seus amigos, a impressão de que aprendera antes, já lera, informara-se primeiro, sabia de tudo.

No restaurante da Faculdade, certa vez, o desembaraço do Bolinha produziu um incidente notável.

Espalhados nas mesas do amplo refeitório, cerca de sessenta estudantes almoçavam. Batia forte o verão carioca, ali agravado pelo hálito morno, multibalsâmico, vindo da cozinha, e pelo burburinho de rapazes e moças manejando garfos e facas em salvas de metal.

Servidas nossas respectivas porções, sentamos, Bolinha e eu, na primeira mesa que vagou e já iniciávamos o repasto quando uma bolota de papel-toalha embebida em água veio aterrissar dentro da bandeja do Bolinha, desagregando-se na comida e respingando-lhe a camisa com feijão.

Brincadeira de mau-gosto ou provocação?  Conferiu-se. Bolinha de um salto pôs-se de pé sobre a mesa e, exibindo a bandeja, obteve silêncio da plateia liberando ódio num urro animalizado que, cinco anos depois, o psiquiatra de John Lennon, Arthur Janov, definiu como “grito primal”. Discursou com autoridade:

−Colegas, atenção! Alguém arremessou no meu prato esta bola de papel encharcado pra emporcalhar meu almoço… (Pausa) Não vou perguntar qual o filho-da-puta fez isto porque sei que aqui neste espaço de ensino superior não convivemos com bastardos de bas-fond. Sei que aqui dentro só temos verdadeiros homens! Então eu pergunto: − Quem atirou esta bolota é HOMEM?

A respiração geral deu uma travada na expectativa do desdobramento, que veio em segundos. Numa mesa próxima, um sujeito muito forte aparentando ser praticante de lutas marciais, pôs-se de pé e admitiu:

− João, quando atirei a bolinha na bandeja do Bolinha, foi provocação, sim. Nunca fui com tua cara. Falam que tu és inteligente, culto… Mas eu sempre te vi como um bobalhão, metido a ser o tal e a ganhar namorada de todo mundo. Mas eu gostei da tua reação agora, ô cara. Tu és corajoso e “cabeça” pacas. Não estou mais a fim de briga. Quero ser teu amigo. (E baixando a voz) Peço desculpa pelo abuso.

Houve aplausos. Meu equilibrado companheiro, João Bolinha, ainda teve a elegância de correr lá e dar um abraço no vexado arengueiro. Mais aplausos.

Era desse jeitinho o meu amigo. Pena que um possível grilo emocional, ou financeiro,  jamais o tenha permitido concluir filosofia. Não poucas vezes, entretanto, a necessidade flexibiliza nossos sonhos. O futuro do Bolinha ficou garantido num teste com bola para jogar no Caxias do Sul. Tornou-se terceiro reserva do esforçado zagueiro titular da época, Felipão. Hoje, Bolinha é técnico de futebol na Micronésia.

Zé do Carmo 

O mineiro e a faquinha de cortar fumo

Era domingo, dia final da Exposição Agropecuária da cidade mineira de Santana da Piedade. Na praça principal algumas pessoas presenciavam o embarque dos animais expostos, de volta às suas respectivas fazendas. Proprietários rurais e tratadores, orgulhosos de seus touros, de suas vacas e de seus cavalos, procuravam acomodá-los com desvelos de enfermeiros nos caminhões adaptados ao transporte dos preciosos puro-sangue.

Carlinhos de Abaíba, fazendeiro tão abastado quanto apaixonado por seu gado, ostentava no próprio cangote a reluzente medalha de ouro, suspensa por uma fita amarela e verde, que no dia da premiação foi deferida ao pescoço de seu campeoníssimo touro, Baobá.

Boi “esquentado” na presença de muita gente – dizia − Baobá pode irritar-se e danificar o troféu numa cabeçada azarada. Orgulhoso de seu Nelore, Carlinhos se gabava de como acabara de recusar quatro milhões de reais pelo campeão.

− O Gaúcho realmente me ofereceu quatro  “pernas” pelo boi, mas eu disse pra ele: “Quatro milhões de reais, meu amigo, é boa grana. Dinheiro grosso, sim, mas é fortuna que muita gente, por aí, possui. Já um touro como o Baobá, nesse Brasilzão de meu Deus, só eu posso dizer que o tenho! E vou continuar dono dele.”

Assim, com a altivez dos ungidos, seguia na assistência ao embarque de seu portentoso exemplar, o qual, naquele instante, regateava um pouco ao esforço dos peões de fazê-lo galgar a rampa de madeira e entrar no acolchoado caminhão-baú que o levaria de volta às suas fêmeas de elite.

− Vamos, Baobá! Ôôôô! Sobe, Baobá! Sobe, Baobá!… Justo nesse momento crítico do embarque, eis que um vira-latas de rua, julgando-se convocado pelo vozerio de homens com os quais sua espécie é solidária há quatorze mil anos, resolve desincumbir-se de sua missão no mundo, que, naquele instante, seria “ajudar” os boiadeiros. Parte para cima do colossal zebuíno com rosnados e latidos arrogantes, indo aplicar uma dentada bem no prepúcio róseo do Baobá.

Ah, pra quê! O touro entrou em dia de fúria. Arrebentou o cabresto, jogou a volumosa carcaça vacum sobre o frágil cercado que guarnecia o embarcadouro e, liberto, estourou, enfurecido, pela praça. Meninos subiam nas árvores, homens e mulheres se refugiavam nas casas, entalando-se portas adentro. Um Deus nos acuda. O largo central de Santana da Piedade ficou às moscas.

Apenas, no meio da praça, sentado sobre o ornato histórico de um antigo carroção de madeira de quatro rodas, um homem magro de pele tostada, chapéu surrado, camisa xadrez, calça cáqui e botina chapiscada de esterco – alheio a tudo − preparava seu cigarrinho de fumo de rolo. A palha de milho já aparada, atrás da orelha, esfarelava ele as fibras do tabaco na palma da mão, com sua indefectível faquinha de ponta presa entre os dedos.

Bufando e correndo em círculos, cauda recurvada para cima, o touro enfurecido não demorou muito a dar com o apalermado cidadão e partir para cima dele. Coitado do Baobá! Sabia pouco de matuto mineiro. Levantando as pernas para livrá-las das poderosas aspas do animal, o roceiro jogou-se para trás, deixando a madeira lateral do pesado carroção livre para a poderosa testada do Baobá. O bicho chegou a cambalear, acusando a pancada.

A segunda investida viria mais raivosa. O jeca, porém, já rolara para debaixo do carroção, agarrando-se ao eixo de ferro roliço, de tal sorte que, para onde fosse aquela geringonça ao sabor das cabeçadas do Baobá, para lá também iria ele, inteiramente protegido.

A fúria do animal  parecia aumentar. Ávido por alcançar o tinhoso tabaréu debaixo da carruagem, passou o touro a aplicar chifradas sob ela, ameaçando virá-la de rodas para o ar. Não imaginava o boi que, ao abaixar demais a cabeça, oferecia ao “inimigo” o ponto nevrálgico por onde todo boi morre nas arenas hispânicas e nos matadouros do mundo: a nuca. O erro lhe seria fatal.

Numa arremetida dessas a faquinha do jeca espetou de morte a nuca do Baobá, que, para desespero do dono, aquietou no chão suas vinte e oito arrobas de carne de primeira. Mortinho da silva.

Carlinhos de Abaíba, num alpendre fronteiriço, ameaçou perder o fôlego e teve que ser abanado com chapéu de palha. Adeus, filhotes de alto pedigree! Quinhentos  reais para cada cobertura de vaca no cio, nunca mais! E os quatro milhões recusados ao Gaúcho, ali estendidos no chão em cotação de açougue!

Quando o matuto saiu de sob o carroção a plateia pôde constatar que não se tratava de nenhum atleta. Meio corcundinha, de certa idade, até mancava da perna direita − possível artrose sexagenária. E foi manquitolando que ele se dirigiu à parte traseira do Baobá, segurou firme com as duas mãos a vigorosa bolsa escrotal do aristocrático reprodutor, esticou-a o quanto pôde e, bem rente ao corpo do bicho, decepou-a com a faquinha de ponta.

Dirigindo-se à assistência, abriu um sorriso falho nos dentes e deu testemunho da simplicidade perigosa em que Baobá se danou:

Vou levar a borsa dele. Se inxiste uma coisa que eu apricêio dum tanto é testico de boi, greiado no fogão de lenha.

 

Zé do Carmo

Evito remédios

Ah, isto eu evito. Sei que escribas hipocondríacos, os mais diversos, já abriram suas almas em público, esquecidos da elegância de Castilho ao dizer “tediosa e impolida coisa é falar homem de si próprio”. Em todo caso, cada caso é um caso e, no meu caso, avança o barco na contramão dos maníacos por remédio. Sou, e sempre fui, avesso ao mundo medicamentoso.

É bem verdade que, há alguns anos, certo angiologista, depois de bem examinar o fluxo sanguíneo em minha carótida, convenceu-me a ingerir, todos os dias, um comprimidinho de AAS, às refeições e, à noite, rebater com outro, chamado Sinvastatina.

Explicou-me o versado em carótida (Honni soit qui mal y pense) que o Ácido Acetil Salicílico inibe a agregação de plaquetas evitando formar trombos nas veias e artérias. Já as Estatinas são inimigas mortais do LDL (o colesterol escroto), perito em obstruções arteriais. Ante tão doutos argumentos, aquiesci nessas duas exceções, mas, como disse, evito tomar remédios.

Não posso negar também – minha honestidade exige a ressalva − que, há uns cinco anos, ouvi de meu cardiologista que pressão acima de 14 é “pressão alta”. São novos parâmetros, diz ele, adotados no mundo da prevenção de infartos e AVCs. Dando-se que minha pressão é useira e vezeira em alcançar os 15, principalmente quando fico “pê” da vida com alguma coisa, recomendou-me ele dois comprimidinhos diários de Losartana Potássica.

A explicação é que a droga impede a retenção de sódio e água no organismo, evitando hipervolemia e a consequente hipertensão arterial. Mesmo boiando no que fosse “hipervolemia”, assustado com algumas sequelas de AVC que já vi por aí, decidi abrir mais uma exceção. O café da manhã vem me ajudando a engolir também esses dois comprimidos. Sem prejuízo, claro, de minha obstinada posição de abominar os fármacos.

Certamente ficaria nisto não fosse a tendência que tenho à deprê ante as falsetas da vida. E foi num desses dias de alma estomagada que procurei psiquiatra e ele me provou, por “a” mais “b”, que depois de uma “certa idade” as inquietações do espírito são naturais e que, todos, devíamos tomar, de preferência à noite, uma inofensiva cápsula de Cloridrato de Sertralina.

Foi mais longe o esculápio. Disse que as Secretarias de Saúde deveriam colocar Cloridrato de Sertralina nas caixas d`água de todos os contribuintes do IPTU com mais de quarenta anos. É que o miraculoso fármaco inibe a “recaptação da serotonina” – boiei de novo − mandando tudo que é angústia às favas.

Serei injusto com o generoso princípio ativo se negar que, por obra de sua ingestão, venho conciliando velhos sonhos condoreiros da juventude com minha pífia realidade hodierna. Sem abandonar, todavia, meu direcionamento básico, o leitmotiv wagneriano, sagrado, de fugir à química laboratorial.

Exatamente por isto, enorme foi minha apreensão quando uma terrível dor no joelho passou a crispar meu semblante sempre que me erguia de uma simples cadeira.  O ortopedista diagnosticou artrose avançada, com indicação de prótese no meu joelho direito. Diante do pavor que manifestei por um gonzo metálico dans mon genu, aconselhou-me ele – sem muito entusiasmo − a usar Sulfato de Condroitina associado à Glucosamina, para tentar reconstituir a cartilagem gasta.

Tratamento longo e resultado duvidoso − ressalvou. Pois mesmo esse prognóstico pessimista me pareceu mais simpático que serrar o joelho, jogá-lo aos cães qual mocotó de jegue, substituindo-o por uma dobradiça estilizada. Passei a tomar, todos os dias, às refeições, uma drágea de Condroitina com Glucosamina. Decisão detestável, já se vê, considerada minha intransigente resistência a remédios.

Infelizmente, nada evita aquela quadra da vida em que reinam as preocupações. Quando não é com filho é com neto, com esposa, com irmãos, cunhados, amigos virtuais ou companheiros de golo. Um inferno astral. Quando não se perde o sono, perde-se a tranquilidade do sono.

Certa noite o socorro veio pelo telefone. Não paguei consulta. “Não se mate, Carlos” − disse-me, drummondianamente, meu cunhado médico. Tome um Olcadil todas as noites, ao deitar-se. É ticket to ride para a paz dos travesseiros! – disse.

Não é que resolve! Não seria um simples Olcadil 2mg que iria comprometer meu propósito inabalável de evitar medicação.

Mais transgressões não pratico, não incluído como tal o hábito salutar, herdado de minha mãe, com relação à homeopatia. Para febre, de um modo geral, faço uso moderado de Aconitum e Briônia, para azia e indisposições estomacais uso (com moderação) Bicarbonato de Sódio e, para dores lombares sirvo-me de Acheflan ou Flexive, sendo estes dois últimos da classe dos fitoterápicos, para os quais não vejo razão de extremismos.

O mais importante na vida é escapar com ela.

Zé do Carmo

 

Elvira está bem

É isto aí, Ascânio. Imagine que hoje pela manhã, ainda à mesa do café, Jalcira e eu falamos de você e Elvira. Principalmente daquele passeio que vocês nos proporcionaram ao litoral do Espírito Santo. Impossível esquecer a praia rasinha de Piúma, onde a gente entrava no mar e ia andando toda vida na direção do continente africano e nada da água chegar ao joelho. Só molhava os pés.

Ora, se me lembro! Vocês foram ótimas companhias. Elvira e eu adoramos aqueles dias agradáveis com jogo de canastra entrando pela madrugada, cerveja e Peroá com mandioquinha frita na praia. Pena que não bisamos a oportunidade. É a vida moderna, essa desagregadora de afinidades!

Quanto à Elvira, não poderia estar melhor. Foi recepcionada, ontem, por uma grande amiga de solteira, a Antonela, em cerimônia linda, segundo acaba de me relatar o Lulu Batuta.

− Conheço ele, o seu chofer.

Exato. Lulu Batuta é baiano do interior que, muito ao contrário do estereótipo atribuído aos baianos, nunca foi chegado a festas, ao estrepitoso. Um cara circunspecto, sempre na dele, que nem conhece Salvador. Pois foi este homem que ficou fascinado com a toarda que fizeram, ontem, em homenagem a Elvira. Aquela pá de gente ligada, alegre, cantando, dançando… E, uff!, todo mundo de Abadá branco.

Claro que a mais empolgada na recepção foi a mãe dela, Da. Loló, a responsável, aliás, pela verdadeira apoteose em louvor à filha. Incrível, cara! Festa regada a espumantes requintados e canapés da mais erudita facção culinária.

Sinta a criatividade da Sogrona. No auge da confraternização, que até poderia ser dada como fashion – traço incorrigível da personalidade de Da. Loló −  surgiu ela com a melhor surpresa: Erguendo, com a mão direita, o guardanapo de linho que cobria uma bandeja de prata, apoiada na mão esquerda, ela descerrou bem na face de Elvira uma irresistível Broa de Fubá feita com banha de porco e erva doce − a guloseima que minha adorável esposa ama de paixão!

Apoteótico! − não tem outra palavra.  Apoteótico! Todos os convidados batendo palmas, cantando o “Parabéns pra você”, o “Com quem será”… De arrepiar! Do jeito que o Lulu Batuta me contou, cheguei a me emocionar. Verdade, cara, a me emocionar!

− Sabe que, em mim, Broa de Fubá dá azia?

Em mim também, mas Elvira sempre foi vidrada em Broa de Fubá. Criada na fazenda, né…  Foi como disse o Batuta, não tinha pra mais nada.

− Pera aí, Ascânio. Vamos chamar nossa conversa à ordem. Você está me dizendo que seu chofer, o Lulu Batuta, teria conduzido Elvira, sua esposa, a um passeio à Bahia, onde atualmente residiria sua sogra! Isto me deixa muito feliz, meu velho!  Apenas confuso porque a notícia recebida lá na repartição é que Elvira faleceu ontem, de disparada cardíaca, e que o enterro seria daqui a meia hora, exatamente neste cemitério onde estamos.

Não por outro motivo, aliás, aqui estou – pelo visto trazendo condolências precipitadas, por mim e pelos colegas que não puderam vir. Claro que ao aqui chegar, há bem pouco, não tive dúvida de que seria esta a mesma razão de sua presença neste velório. Velório que, de agora em diante, passo a não imaginar de quem seja. Mas, contratempos à parte, é um alívio saber que sua mulher está viva, bem de saúde e a passeio na terra de Ivete Sangalo.

Não exatamente viva. Não exatamente na terra de Ivete. Sob  visão profana, sim, Elvira faleceu ontem e nós levaremos seu corpo à sepultura daqui a pouco. O que acabo de lhe passar é a alegria que experimentei, há poucos minutos, ao saber, pelo relato de Lulu Batuta, que minha companheira de tantos anos, apesar de formalmente morta, continua consciente, feliz, em animadas companhias lá no outro plano da existência.

Não pode haver conforto maior, cara. Sempre digo que o ser humano não se conhece; sabemos muito pouco do que somos e do que podemos. O Batuta não me contou de ouvir falar: ele teve uma  visão pessoal da chegada de Elvira aos umbrais do Paraíso!

− O motorista!

Sim, o Lulu Batuta. Ele é também Pai de Santo, entende, num terreiro muito bem frequentado – inclusive por advogados e militares reformados − ali em Vila Narjara. O que ele diz você pode escrever, Galdino.

− Claro, claro.

 Zé do Carmo