O Dia da Saudade

No último dia 30 de janeiro, minha caixa de entrada de e-mail ficou abarrotada com malas-diretas de todas as empresas possíveis, oferecendo vantagens imperdíveis de compra para o Dia da Saudade. Já tinha percebido o desespero do comércio ao anunciar novas “datas importantes”, como o dia do amigo e até mesmo o dia da sogra, fora a “Black Friday”, que até muito pouco tempo sequer existia no Brasil. Halloween, nem se fala.

Mas que dia é esse? Alguém já tinha ouvido falar no Dia da Saudade? Pergunto, pois, como estou fora do Brasil, pode ser que tenha perdido esse bonde. Porém, até onde acompanhei, é algo bem novo mesmo.

Depois de achar uma baita sacanagem alguém me lembrar por e-mail que agora existe um dia oficial para se ter saudade, analisei friamente e me senti até mesmo aliviada! É simpática a ideia… De certa forma significa menos que o Dia de Finados, já que também se tem saudade (e muita) dos vivos, e ultrapassa o sentido do Dia do Amigo, já que a saudade pega de jeito qualquer coisa material ou imaterial. Boa tacada de marketing, bacana a intenção por trás da capa do lucro.

É lógico que a saudade não tem dia certo para bater, mas criar um dia especial para homenageá-la foi, sem dúvida, genial, especialmente para quem está longe e pode, assim, comprimir o sentimento num dia só! Pode parecer bobagem, mas é que acho muito  perigoso esse negócio de sentir saudade o tempo todo. É um convite para a deprê. Mas agora não! Quando ela começar a bater, sem aviso, como sempre, posso mandar a mensagem para o cérebro de que hoje não é o dia. Agora existe o 30 de janeiro, o Dia da Saudade! Se já era difícil sentir saudade, normalmente, imaginem agora grávida? Ando chorando com a neve que cai! Não dá, minha gente!

Assim, nesse meu primeiro Dia da Saudade, liberei toda a saudade contida há anos. Me veio logo à cabeça toda a bossa que envolve esse sentimento tão nobre, traduzido por uma palavra, que, dizem por aí, só existe em português, e pensei: ‘Quer saber? É hoje!”.

Deixei todos os pensamentos saudosos reprimidos há anos tomarem conta, embalados por todas as músicas e versos sofridos dos saudosos poetas de que consegui me lembrar. Deixei todas as lembranças inundarem o meu coração. Todas as roupas, os momentos especiais, todas as vezes em que minhas amigas me confidenciaram que eu estava fazendo falta e abafei o sentimento. As travessias de catamarã para o trabalho. O cheiro dos processos da Justiça Federal. Todas as idas ao extinto Le Village.  O visual do costão de Itacoatiara, o pôr do sol atrás da pedra do Pampo. O cheiro de maresia no final dos dias de verão em Icaraí, o perfume do cangote da minha avozinha, quase centenária. Meu pai. As idas para o Campo de São Bento com o meu avô. As músicas da adolescência em Arraial do Cabo. Os primeiros namoros. A casa de verão em Friburgo. O cheiro de eucalipto da sauna do Country Club. O cheirinho de leite das bochechinhas da minha filha quando bebê. Ufa.

Desidratei de chorar e me fez um bem danado. Lavei a alma.

E viva para sempre o 30 de janeiro. Já estou com saudade dele.

 Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Tübingen, na Alemanha.

N.R.: Ilustração de Julie Buckley Pimentel

O bom filho a casa torna

Sempre ouvi dizer que devemos tomar cuidado com o que desejamos de verdade, pois as coisas acontecem mais rápido do que imaginamos. Pois é. Pedi tanto para voltar a morar no sul da Alemanha, especificamente em Tübingen, que meu pedido foi atendido, e muito mais rápido do que imaginava. Estamos fazendo a viagem de volta, que tanto esperei. A sensação que tenho é de estar voltando para casa.

O mesmo aconteceu com os planos de aumentar a família. Demoramos tanto a decidir, que quando finalmente reativamos a fábrica, a encomenda foi providenciada de primeira. Um susto, já que com a primeira filha, as máquinas demoraram um pouco para azeitar. Dessa vez não. Baby número dois a caminho, sem muito aviso e… aos trinta e nove do segundo tempo! Susto bom demais!

Confesso que quando meu marido confirmou a mudança de emprego e a tão sonhada transferência, deu um frio na barriga. Sim, claro, a vida cigana que sempre me apaixonou agora envolve uma pequena, que também já tem um ciclo de amizades e uma rotina formada, segura e, o mais importante, que dá certo. Tudo isso combinado com a descoberta da segunda gravidez, deu um nó na cachola. Mas tudo bem, depois de muita ioga e chá de camomila, agora já está tudo desatado e em breve estarei escrevendo inspirada nos Alpes Schwabos.

Falando nisso, essa temporada na capital alemã serviu para confirmar a suspeita de que “encaipirei” de vez. Gosto muito de um shopping, de uma badalação de vitrines, de respirar cultura, de ter acesso a boas opções de teatro, cinema e etc… mas não preciso ter tudo isso na esquina de casa. Digo que Berlim está para mim como São Paulo para a maioria dos cariocas. Bom para passear, complicado para morar. Claro que voltarei, com muito prazer, para visitar amigos, bater perna, viver a cultura desse maravilhoso centro urbano. Depois da visita, volto correndo para o meu cantinho verde na Alemanha, com direito a tudo isso, mais o brinde natural das montanhas. Aaaaah, as montanhas…

Então é isso, meus amigos! Estou de volta, brevemente em nova morada, cheia de gás, com muitos planos e um novo mascote a caminho. 2015 promete!

 Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp (quase) mora em Tübingen, na Alemanha.

Passa a régua e fecha a conta

É inevitável. Final de ano é tempo de retrospectiva. Época de olhar pra trás e refletir. Fazer uma espécie de balanço geral. E 2014, em especial, foi um ano para se pensar. Bem que me senti indo do céu à terra algumas vezes. Sensação de montanha-russa. Ano turbulento.

Os astrólogos, adivinhadores, pais de santo, espíritas e sensitivos de todo gênero, já haviam alertado que não ia ser nada fácil. E a profecia se concretizou.

No Brasil, começamos o ano com o povo inflamado, revoltado, nas ruas. No ar, misturado aos gritos de protesto, havia a esperança de mudança. No entanto, o povo brasileiro tem déficit de atenção e rapidamente o tratamento foi providenciado. As pílulas de ritalina vieram em formato de Copa do Mundo. Como competir com a paixão nacional?

A festa da Copa foi bonita, mas não justificou o montante gasto. Pior, para atender ao padrão FIFA, excluiu o povão apaixonado pelo esporte. Os jogos foram curtidos à distância, nos telões, nas ruas, como se a Copa fosse no Japão. Mas tragédia mesmo foi perder de sete em casa. Desastre histórico.

Holofotes de novo na política nacional. Escândalos brotando do esgoto, presidenciável morto em acidente de avião, alianças reorganizadas, sujeira e números escondidos pra debaixo do tapete. Retomamos os protestos? Não. A mesma trupe que meses antes era julgada em praça pública foi reeleita. Desânimo.

Guerra no Oriente Médio, Ucrânia. Avião desaparecido, avião abatido. Mina de carvão explode na Turquia; meninas raptadas por terroristas na Nigéria. A epidemia de ebola é considerada emergência internacional. A AIDS volta às manchetes no Brasil. Falta d’água em São Paulo. Índices de pobreza, trabalho escravo, desnutrição infantil e analfabetismo subindo em progressão geométrica. Ou nunca desceu tanto como noticiado?

Começamos a nos questionar sobre a imparcialidade da imprensa brasileira. Censura velada. Retrocesso.

No meio de tudo isso, 2014 também golpeou baixo a literatura brasileira. Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves… Perdas irreparáveis.

Comecei a ficar preocupada com o baixo astral do texto e fui fazer uma rápida pesquisa na internet, na tentativa de encontrar algum fato interessante, algo positivo ocorrido em 2014. Afinal, não pode ter sido tão ruim assim! Não achei nada interessante que valesse a pena comentar. Corrijam-me se estiver errada.

Mas ainda havia esperança na minha “to do list” de 2014. Explico! No início de cada ano, imbuída do espírito de renovação e novidades, faço uma lista com metas pessoais e profissionais a serem atingidas. Escondo o envelope e esqueço dele por 12 meses. Em dezembro abro a lista e faço meu balanço pessoal. Fico feliz com as minhas conquistas, rio do que deixou de ser importante no meio do caminho, e anoto para o ano seguinte o que não foi cumprido (emagrecer, por exemplo, está na lista há mais de 10 anos).

Acabo de abrir a minha listinha e quase caí pra trás. Deu tudo errado, foi tudo postergado. Ficou tudo emperrado!

E agora, pra fechar com chave de ouro, no finalzinho do ano, meu time do coração ainda me faz o favor de ser rebaixado para a segunda divisão! Céus!

Vai embora, 2014, mas de fininho, que é pra não chamar mais a atenção.

Nos vemos em 2015, Bloghetto! Com a mesma esperança tola, mas vital de que dias melhores virão!

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Os mercados de Natal

Cheguei de viagem na semana passada e resolvi passar a minha vizinhança em revista. Eis que me deparo com a montagem do tão aguardado Mercado de Natal da Schlosstraβe, a principal rua do comércio do meu bairro. Já não era sem tempo!

Sim, chegou a época do ano em que o frio é bem-vindo (mas só porque ainda é novidade! No final de fevereiro, todo mundo já está querendo sumir!) e combina perfeitamente com o clima natalino que abraça o país. A Alemanha é país de maioria católica e o Natal aqui é comemorado com requinte.

O ponto alto são os Mercados de Natal, uma “instituição” de Norte a Sul do país. E para quem tem sensibilidade olfativa, isso aqui é um convite dos deuses! O ar gélido, que já nos convida a abrir os pulmões, é perfumado por especiarias natalinas. Cravo, canela, gengibre. As amêndoas caramelizadas, crocantes e quentinhas, colorem as vitrines dos stands, juntamente com os doces cristalizados e biscoitos de todos os tipos imagináveis. Sem falar da seção dos empanados e frituras, o terror da minha dieta (alguém falou… dieta?). A gordura quente borbulha à espera dos “Quarckbällchen”, tipo de bolinhos de chuva, feitinhos na hora e passados no açúcar com canela. Os preferidos da criançada.

No quesito chás e bebidinhas, todas as receitas alemãs ganham a sua versão fumegante no inverno. Até a nossa caipirinha, ganhou a versão “Hot Caipi”. Mas o campeão de audiência é mesmo o “Glühwein”, uma espécie, digamos assim, de “Quentão”, mas preparado com vinho tinto e um mix de especiarias natalinas. Sentiram o cheiro daí? Haja coração!

Falando nele, não posso esquecer dos tradicionais corações confeitados, feitos com massa de pão de mel, os ‘Lebenkucken’. São comestíveis, mas também podem servir apenas como decoração de Natal. A dica é comê-los logo frescos, caso contrário, melhor deixá-los pendurados. Certa vez ganhei um do meu sogro e demorei a decidir se comia ou não. Quando finalmente me rendi, estraguei o regalo e os dentes.

No meio da orgia gastronômica, também há stands para todos as procuras. De artesanato e objetos de decoração a roupas e acessórios de inverno. Além das barraquinhas de jogos para as crianças.

Finalmente, um Mercado de Natal que se preze ainda conta com casinhas de madeira, com aquecimento interno para um providencial “pit stop” de descongelamento de nariz, orelhas e mãos. Os mais rústicos oferecem fogueiras. Acho sensacional!

Alguém se anima? Ainda está em tempo! Faltam apenas vinte e cinco dias para o Natal!

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Depois de nos deixar com água na boca, sugestão musical da Lilinha, já totalmente no clima.

“Estrela Dalva”

Há algum tempo ando preocupada, pois a minha filha de quase três anos não fala português, em que pese eu só me dirigir a ela na língua de Camões. Ela entende absolutamente tudo, mas responde em alemão. Não me rendo e repito o que ela responde em português, como me ensinaram. Também me mandaram ter paciência, porque um dia o português vai explodir. Admito que estou esperando com muito pouca paciência nos últimos meses, pois me sinto numa Babel. É uma espécie de guerrinha íntima de idiomas.

Além disso, quando temos filhos, o sentimento de continuidade, hereditariedade, aflora muito forte, não é? Fico pensando que preciso preservar as minhas raízes aqui em terras estrangeiras e a melhor maneira é transmitindo a cultura brasileira para a geração seguinte. Especialmente a língua.

Confesso que também procuro alguém para quem contar, num futuro próximo, segredinhos, piadas infames em público, bobagens, sem que ninguém entenda. É muito bom a sensação de falar uma “língua secreta” quando se mora fora.

Vejo as outras mães e pais estrangeiros falando em seus idiomas e sendo prontamente correspondidos pelos filhos, na mesma língua, e me sinto frustrada. Muitas vezes as crianças são menores, bem menores que a minha. Por mais que eu repita para mim mesma que no meu caso é diferente, pois sou a única na família a imputar dados em português na cachola da Sienna, ainda assim, acho que tem alguma coisa errada.

Talvez as poucas vezes em que, por esquecimento e cansaço, acabei respondendo em alemão, fizeram com que ela percebesse que eu também a entendo e, por isso, não se esforce para falar português. As crianças são muito mais espertas do que podemos supor, também já me advertiram. Comecei a carregar mais essa culpa. A incapacidade de ensinar português para a minha própria filha. Mais uma para minha conta poupança de culpas.

Até que essa semana, com o pai viajando a trabalho, tivemos uma espécie de overdose de português em casa, com pausas apenas no horário do colégio. Com o frio mais intenso, saímos pouco de casa e não tivemos visitas de nenhum amiguinho nesses dias. Ficamos só nós, em curso intensivo.

Não sei se foi esse o motivo para o que se seguiu, mas agora de noite, quando fui colocá-la para dormir e comecei a cantar desafinadamente o meu repertório de músicas brasileiras, as mesmas com as quais a minha avó me embalava, e as mesmas que repito incansavelmente há quase três anos (não conheço outras!), fui interrompida por um pedido especial: “Mama, agooorrraaaaa querrrro Estrrrrela Dalva!” (leia-se: “As Pastorinhas”, de Noel Rosa).

Oi? Tentei me controlar para não travá-la e repeti: “Você quer agora que a mamãe cante “Estrela Dalva”? Ela confirmou, enfática: “Estrrrrela Dalva”. Ok, ok… engole a emoção e canta!

Comecei mais desafinada do que nunca e, para minha surpresa, fui acompanhada do início ao fim, a letra inteira, toda errada, naquela vozinha rouca e com sotaque. Linda. Ela aprendeu por repetição, e penso que agora se sentiu segura para soltar o verbo.

Minha coleção do Monteiro Lobato está salva!

Como todos também já tinham me avisado, em se tratando de filhos, a felicidade máxima se manifesta nas pequenas coisinhas do dia a dia. Combustível para seguirmos em frente.

Bloghetto, toca “Estrela Dalva” na Rádio TS hoje?

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Vinte e cinco anos depois

Assim como todo mundo sabe o que estava fazendo no dia 11 de setembro, quando o fatídico avião sequestrado pelos fantoches de Bin Laden abateu o primeiro prédio das Torres Gêmeas, em Nova Iorque, todo alemão também sabe exatamente onde estava e o que fazia quando as notícias de depredação do muro de Berlim, símbolo maior da Guerra Fria, começaram a pipocar há 25 anos, no dia 09 de novembro de 1989.

Não sou alemã, mas também sei o que fazia na data histórica. Assistia boquiaberta e com a máxima atenção ao Jornal Nacional do dia, pois, em dois meses, faria discursiva de História no Vestibular e o tema era barbada, como, de fato, foi.

Vinte e cinco anos depois fiz questão de me fazer presente na festa de comemoração da Reunificação Alemã. Afinal de contas, não se pode ignorar o presente dos Deuses de estar na capital da Alemanha numa data marcante dessas. Tudo andava contra: o frio descomunal, a multidão que lá estaria, além da dificuldade de enfrentar uma festa popular de dimensão nacional, com um carrinho de criança a tiracolo, transportando, claro, uma menininha espevitada.

Entretanto, nada disso poderia ser desculpa para perder a festa anunciada aos quatro cantos da cidade há semanas. Os alemães sabem organizar uma festa (neste quesito competem de igual para igual com os americanos) e a ideia do jubileu foi linda, singela e lúdica. A Prefeitura enfileirou enormes balões brancos de gás hélio em toda a extensão do extinto muro, símbolo da dureza, do cinza, da tristeza e da separação.

Durante todo o final de semana foram rendidas homenagens àqueles que ali se sacrificaram tentando fugir do comunismo do lado oeste. Foram incontáveis shows de música popular, clássica, declamação de poesias, pequenas peças de teatro, tudo isso ao longo do muro. Às oito horas do domingo, o Grand Finale. Os balões foram soltos no ar ao mesmo tempo, ao som de Beethoven. Na festa, Peter Gabriel, a atração maior, deu show no palco principal localizado em frente ao Portão de Brandenburgo.

Vinte e cinco anos depois, a Alemanha unificada é uma das principais potências do mundo, a maior da Europa. Seu PIB e Índice de Desenvolvimento Humano apresentam números invejáveis. Não há miséria, a educação é de ponta. Os serviços estruturais são excelentes. A saúde é para todos. Apesar da história inegável de sucesso, os alemães são extremamente críticos do seu governo e conquistas em todas as áreas.

Mas ontem estive lá e digo que foi emocionante ver os balões subindo para um céu iluminado por canhões de laser. Prendi a respiração e… engasguei. Era toda uma multidão tedesca, fria por natureza, rendendo-se, finalmente, ao sucesso de sua união. Estranhos se abraçavam calorosamente. Um Réveillon antecipado.

Cena para se guardar na memória e no coração.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

No meio do caminho tinha uma pedra

No caminho para jogar o lixo fora, ao contornar o meu prédio, passo por três pedras cor de ouro, encravadas no meio do asfalto, uma do lado da outra. Impossível passar batido. Largo o lixo no chão e me debruço para ler de mais perto. Depois que entendi o que tudo aquilo significava, meu dia mudou completamente.

As pedras contêm inscrições em memória de judeus que moraram no terreno onde hoje está erguido o meu edifício. Seus nomes, onde nasceram, a data da deportação, para qual campo de concentração foram enviados e, finalmente, onde morreram.

É, literalmente, uma pedrada na cabeça. Continuo ali parada no meio da rua imaginando que, exatamente nesse chão onde eu moro, uma família foi despedaçada, vítima do nacional-socialismo alemão. É a realidade histórica de Berlim me dando um alô.

A princípio imaginei que fosse uma homenagem dos familiares, mas, com o passar do tempo, caminhando no meu bairro, fui colecionando registros das mesmas pedras na frente de outras casas e prédios. Passei a andar olhando para baixo, pois realizei que o bairro onde moro era um reduto de judeus. Não há como não calcular mentalmente a idade das pessoas quando morreram e imaginar o que faziam quando foram presas, o que podiam ter feito diferente. Vidas interrompidas. Cada descoberta, uma tristeza.

Resolvi pesquisar mais a fundo e descobri que não são homenagens póstumas isoladas das famílias, e sim, um projeto do artista plástico alemão Günter Demnig, que procura relembrar todos os povos e minorias banidos pelo Holocausto: judeus, ciganos, homossexuais e Testemunhas de Jeová, entre outros.

As pedras se chamam, em alemão, “Stolpersteine”, ou seja,  “pedras-obstáculo”. A intenção do artista é que os transeuntes parem e se debrucem para ler o seu conteúdo, o que também acaba sendo um gesto involuntário de reflexão e respeito.

Vozes de judeus mais ortodoxos acharam o trabalho artístico desrespeitoso, pois as pedrinhas foram fixadas no chão, onde, segundo eles, os judeus seriam novamente pisoteados. Felizmente a intenção maior do projeto prevaleceu, difundiu-se e hoje as “Stolpersteine” também podem ser encontradas em outros países do continente europeu.

Desde então, os Kleinberger e o Sr. Hermann Buchholz, que moravam onde agora é o meu prédio, estão em minhas orações.

Lilian Correia Lima Rapp 

Lilian Rapp mora em Berlim.

De distâncias

Depois de passada a adaptação a um país novo, cultura, língua, comida, vida social e tudo mais que uma mudança transatlântica exige, penso que, aos poucos, aquela distância tão doída no início da minha jornada no exterior abrandou com o passar do tempo.

Em alguns muitos momentos, chego até a me dar a chance de agradecer por estar longe, fazendo um esforço para acreditar que a distância pode ter um lado bom. Muito bom. Posso tentar enxergar as coisas por uma nova perspectiva, a de fora.

Graças aos avanços da era digital em que vivemos, meus relacionamentos, ligações de família, problemas, acertos, estão a salvo e são todos devidamente acompanhados de longe-perto. A distância, muitas vezes, é prima-irmã da imparcialidade e nos aproxima, por incrível que possa parecer.

No entanto, ninguém disse que seria fácil, e, definitivamente, se há uma coisa que não ajuda a fazer as pazes com a distância são as festas, comemorações, celebrações da família e amigos no Brasil. É muita maldade! Quando recebo aqui um convite para chá de panela, chá de bebê e, o mais sofrido, convite de casamento, todo o trabalho psicológico de anos vai por água abaixo.

Nesse final de semana aconteceu o casamento de uma das minhas melhores amigas. Dessas de uma vida. Amiga-irmã. Resolveu todo o casório em tempo record, e eu não consegui me programar para ir. Durante a semana, já tinha preparado o champanhe para acompanhar tudo em tempo real, na madrugada. Eu, minha taça e a tela do computador. No dia “D” mandei flores com cartão, logo de manhã. Liguei para ela, imagine, enquanto estava no salão se arrumando (deveras inconveniente). Queria saber como andavam os preparativos. Marcação cerrada do coração.

Eis que minha imunidade, que já tinha baixado durante a semana, virou uma gripe que se anunciou na quinta e me pegou de vez no sábado, dia da festa. Não aguentei acompanhar em tempo real e, à meia-noite, me dei por vencida. Fui dormir com o coração na mão e me achando a pessoa mais miserável do mundo porque perdi, ainda que virtualmente, o casamento da minha melhor amiga.

No dia seguinte vi e revi, maravilhada, a chuva de fotos que os amigos mandaram da cerimônia e da festa. E como ela estava linda e feliz! Foi o suficiente para o meu coração se acalmar. Apesar da distância, me senti um pouco lá.

Mas, preciso confessar. Nenhuma foto, mensagem eletrônica, ligação telefônica que for, suprem o toque, o contato, a pele. Faltará sempre o abraço apertado.

Aguardo, ansiosamente, a invenção do teletransporte.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

N.R.: Acompanhando a foto, um comentário da fofa da Lilian:
— Selminha, olha a minha amiga linda…

A festa turca

Uma família turca mudou-se para o meu prédio há cerca de seis meses. A moça, Gülhan (o “ü” se pronuncia fazendo um “u” com biquinho bem forçado!), Bora, o marido, e as crianças, Umut e Onur (que significam “esperança” e “honra” em turco, respectivamente). Gülhan é amiga de infância de uma outra vizinha, que a indicou para morar no prédio (aqui aluguel é coisa séria).

De início já senti que íamos nos dar bem. Logo que a conheci me confidenciou, empolgadíssima, que fazia uma dieta severa (é bem gorduchinha!), e dois dias depois a vi se atracando com um pacote de biscoitos recheados no metrô. Gente como a gente.

Os turcos aqui de Berlim pouco se misturam, estão sempre em família e só falam turco, o que é um convite para o isolamento. Mas a Gülhan é diferente. Fala pelos cotovelos, é engraçadíssima e conversa comigo sobre os temas mais pessoais e profundos, o que nem de longe os alemães fazem, especialmente quando não te conhecem bem, quem dirá com os turcos. Cá entre nós, conversar sobre assuntos pessoais logo de cara é coisa típica de brasileiro! Minha irmã, por exemplo, é campeã em fazer amizades. Daquelas de contar segredo de vida em apenas 10 minutos na fila do banheiro feminino. Mas aqui não é assim e acabei me aproximando da Gülhan.

Na semana passada, ela bateu aqui em casa para me entregar um convite formal. Festa tradicional turca, super família e fechada. Motivo da comemoração: a circuncisão dos dois filhos. Sim, os turcos fazem uma grande festa para comemorar esse tipo de evento. Nunca, em tempo algum, me imaginei indo a uma festa comemorativa de circuncisão, mas, enfim, quem mandou se meter numa cidade cosmopolita?

Fiquei realmente surpresa e agradecida pelo convite, mas confesso que hesitei. Achei que poderia ser um daqueles programas ‘patrocinados pela FUNAI’, mais ainda porque o local da festa era afastado, e meu marido está viajando a trabalho.

Antes de aderir à festa-aventura, já sabendo que os pais da Gülhan são muçulmanos tradicionais, me certifiquei do básico para não correr o risco de chegar lá de minissaia e todas as mulheres estarem trajando uma burca. Imaginaram? Melhor não. Perguntei, então, como deveria me comportar na festa (conversar com homens? Dançar?), se deveria levar algo além de presentes para os meninos; se havia algum tipo de roupa ou cor que não poderia usar, e, importantíssimo aqui, se deveria cobrir a cabeça com um lenço. Tudo liberado, lá fomos nós, eu e Sienna, emburradíssima, porque não gosta de usar vestido.

A festa começou branda, com música ambiente e correria de crianças. Clima normal de qualquer outra festa se iniciando. Quanto aos convidados, tinha de tudo, e o mais curioso eram as roupas! As senhoras mais velhas, em sua maioria, deixavam apenas o rosto aparecer e usavam túnicas de cor escura, quase sempre bordadas com brilhos e pérolas. Muitas moças jovens aboliram as túnicas, mas usavam lenços na cabeça. Todas maquiadíssimas. As meninas pequenas com vestido de tule e laçarotes, como antigamente. Os homens e meninos de terno, o que acho uma maldade para os bem pequenos.

Mas o mais interessante foi assistir ao show de joias no banheiro feminino. Por debaixo dos panos há uma fartura inimaginável de ouro e pedras. E me pareceu que a festa, pelo menos para as mulheres, acontecia ali. Desfilavam como meninas as suas joias e se orgulhavam mostrando as novas aquisições umas para as outras. Até minha filha ficou quietinha, observando maravilhada… (tô perdida!)

Depois dos discursos em turco, que para mim duraram uma eternidade, especialmente quando se tem que controlar uma criança levada, veio a música típica (rock e pop da Turquia, nada para mim) e a dança, digamos, generalizada. Nesse momento, o banheiro feminino, lotado durante toda a festa, com certeza ficou às moscas. A festa havia, de fato, começado.

Tudo ao mesmo tempo, ao estilo brasileiro: música, dança e o serviço do buffet. E que comidaria! Muita carne de carneiro, legumes temperados, esfihas de todos os tipos. E os doces turcos? Massa de mil-folhas, salpicada com gergelim e banhada no mel, recheios dos mais variados. Uma delícia! Eles sabem fazer festa e se divertiam loucamente.

Quando já estava quase indo embora, começou a tocar “Garota de Ipanema” e a querida Gülhan me tirou para dançar. Fui meio sem graça e fiquei ainda mais inibida quando percebi que muitos faziam uma roda à nossa volta, apontando para mim, sorrindo muito e batendo palmas. Percebi que, na verdade, era eu a convidada exótica da festa e eles haviam se preparado para me acarinhar. Me emocionei.

Quando realizei tudo aquilo, deixei o banzo tomar conta e soltei o freio de mão. Em plena festa turca, num subúrbio de Berlim, eu estava em casa ouvindo Tom Jobim.

Aaaah, Dindi…

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.