Eu juro que tentei!

Para não cair no lugar-comum e escrever mais um texto sobre a mudança das estações na Europa, prometi para mim mesma que me manteria incólume à passagem do outono. Fincaria o pé. Fingiria que nada estava acontecendo.

Decidi que esse ano resistiria à tentação de escrever sobre aquela paleta inimaginável de tons acobreados nas árvores. Não falaria do vermelho que colore as folhas da trepadeira no muro do vizinho. Tentaria não ligar a mínima para o show gratuito de sapateado das crianças sobre os montes de folhas nos parques. Já estou aqui há quase quatro anos. Preciso me acostumar.

Fiz esforço para não me emocionar com o pôr do sol no outono e sua luz já alaranjada e baixa. Se por acaso me sentasse à beira de um lago, tentaria me conter diante do ballet das folhas se desprendendo das árvores e sendo jogadas longe pelo sopro cálido do vento outonal. Reconheci minha fraqueza tentando não acompanhar com os olhos os esquilos carregando castanhas por entre os galhos das árvores. A brincadeira só acontece nessa época do ano.

Até que eu estava indo bem. Mas aí tivemos um feriado na sexta, dia da reunificação da Alemanha. Decidimos conhecer uma Fazendinha produtora de abóboras (alta temporada em outubro), nas redondezas de Berlim, região chamada de grande Bradenburgo.

O dia já amanheceu dourado por um sol radiante e a brisa que o acompanhava varreu inocentemente as nuvens teimosas que tentavam encobrir o céu. O resultado? Um dia perfeito de outono. Escancarei a janela e respirei o cheiro inconfundível e todo aquele ocre da estação que eu queria esquecer. Mas já sabia que não ia prestar. Golpe baixo da natureza. Covardia anunciada.

Na Fazendinha, um paraíso para crianças de todas as idades, havia uma exposição de abóboras. Mais cores e espécies do que podia contar.

Meu marido disse que passei o dia suspirando e repetindo sem parar: “Que maravilha!”, “Que presente de dia!”… Até que me deu um pito (alemão insensível…) e me pediu para virar o disco. Mas já tinha o meu plano, já havia me traído. Iria extravasar no Bloghetto.

Sankt Peter (falo com ele em alemão agora), entendi o recado e nunca mais te desafio. Pode mandar mais beleza nesse outono, que eu aguento, e ainda mando o registro da sua obra para os amigos do barquinho.

Mas eu juro que tentei!

Outono é outra primavera, cada folha uma flor.” (Albert Camus)

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Você disse… maratona?

[audio:http://www.bloghetto.com.br/wp-content/uploads/2014/09/Rocky-Musica-Excelente-Sonido.mp3]

Acorda, faz o café, as torradas. Corta algumas frutas e entra correndo no chuveiro. Acorda a criança. Disputa espaço no espelho. Busca as torradas. Coloca a mesa. Tem laranja! Faz um suco. Os ovos cozidos estão prontos. Senta para tomar o café, goladas grandes. Estamos atrasados. Alguém precisa acordar a criança!

Recolhe os pratos, arruma no lava-louça (Aleluia! Lava-louça!). Guarda tudo de volta na geladeira. Veste a menina, que acordou de mau humor. Muita roupa. Muito frio. Prepara o café da manhã na lancheira da escola. Passa a gola da camisa que abarrotou no armário. Procura o cinto do marido. Todos escovamos os dentes. Bagunça no banheiro.

Diz a previsão do tempo que vai chover. Troca o tênis pela galochinha. Enfia a capa de chuva na mochila. O marido vai embora, abandona o campo, mas pelo menos levou o lixo.

Estamos prontas, bora pra rua. Ainda restam 10 minutos. Posso pentear de novo o cabelo da menina, que já desarrumou. Dá tempo de fazer a cama! Melhor assim, menos uma coisa para depois.

Na porta de casa. Tudo em cima. Mas que cheiro é esse? Volta pra trocar a fralda. Agora atrasou geral. O cabelo ficou despenteado mesmo. No elevador dá conta de que não passou batom e o rímel tá borrado. Paciência, pode ser que ninguém perceba, vamos apostar.

A criança protesta que quer ir ao colégio de bicicleta. Pausa para esclarecer com amor e paciência. Amanhã vamos, então, de bicicleta.

Criança despachada. Já estou dentro do metrô. Chega o momento de averiguar as baixas. Esqueci, de novo, a garrafa térmica com café para mais tarde, junto com o pote da salada. A bolsa da ginástica… confere!  Carteira, ok. Tomei o magnésio? Não me lembro. Mas o celular ficou na tomada…

Maratona de Berlim pra quê?

P.S.: Ontem foi dia da Maratona de Berlim, que passa na frente da minha casa. A festa é tão linda, e as pessoas, quase todas, tão atléticas, que fico endorfinada por aquele clima e sempre me pergunto por que não faço um esforço e tento participar no ano seguinte. Pois não é que escrevi esse texto para me lembrar do real motivo pelo qual não preciso da Maratona de Berlim? Já tenho a minha própria, invisível, 5 dias por semana.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Obs.: Lilinha, pelo visual, você só foi mesmo ver a maratona passar. Mas o troféu está em suas mãos… Coisa mais linda!

A menina dança

Totalmente focada no meu atual projeto “De gelatina à rapadura – verão 2015”, resolvi experimentar a tal aula dançante que anima gerações no mundo todo: Zumba.

A aula se dá num salão enorme e reúne pessoas das mais variadas idades, de ambos os sexos. É levada por uma mistura de ritmos latinos, acompanhada por coreografia com grau de dificuldade médio. Música e dança coreografada? Cinco, seis, sete e oito! Quem nunca se animou com uma combinação explosiva dessas?

Já cheguei me sentindo em casa. A academia de ginástica é o perfeito exemplo da globalização. Ali ninguém é estrangeiro. Como em toda academia, seja em Governador Valadares, Roma ou Singapura, os estereótipos são os mesmos. Pessoas quase sempre felicíssimas já às 7 da manhã. Grupinhos de “ratos de academia” que fazem as mesmas aulas há séculos e puxam o saco dos professores. Os supermalhados, esportistas de profissão. As gatinhas e gatões que não levantam um só peso sem a correspondente “selfie” no espelho. E sem suor, claro! As senhorinhas de 60 e 70 anos super em forma e com a disposição de 3 garotas de 15 anos juntas.

O professor chegou. Da cor do pecado, ora se não! Já foi abrindo aquele sorrisão e avisou lá de longe (ando muito enferrujada e resolvi que começaria o curso na fileira lá de trás!) que não importava acompanhar a coreografia impecavelmente. O importante era se divertir! Gostei do anúncio! Ia me soltar. Estava precisando dar uma enlouquecida do tipo “dançar como se ninguém estivesse olhando”. Soltou a primeira música e pimba! Como imaginava, o ritmo era aceleradíssimo, diria frenético, sei lá quantos batimentos por minuto.

A partir daí, lembro-me apenas de flashes. O professor, um cubano, descobri mais tarde, com o tal sorriso tatuado no rosto o tempo todo, fazia caras e bocas, cantava junto, gritava loucamente. Com certeza fez um pacto com o “Carcará” para ter um quadril solto daqueles. E quando eu achava que não podia mais, que não ia aguentar, ele gritava de lá: “Vocês querem mais?” E a alemãzada respondia em alto e bom coro: “Jaaaaaaaa!”. Eu não acreditava e, sem perceber, gritava junto, me arrependendo no segundo seguinte. Tentava descansar um pouco, uma pequena pausa para respirar fundo, mas a euforia generalizada não me abandonava. Já não podia mais parar de me mexer.

Foram dez músicas seguidas, consegui contar. Num dado momento, lembro de ter pensado que deviam estar todos drogados. Que houve uma festinha pré-aula, regada a doses extras de endorfina, e eu não fui convidada. Estava acabada, mas tremendamente feliz. A dança sempre me traz esse efeito entorpecente. Me manda para um universo paralelo onde só eu existo.

A última música, um bolero moderno. Pra matar qualquer um de tanta felicidade.

E ainda terminou a aula fazendo um sinal de reverência para a turma! Eu só queria dar um beijo naquelas bochechas moreno-jambo…

E agora? Como parar?

Recomendo aos queridos leitores uma aula de Zumba por semana. Seus problemas estarão resolvidos. Pelo menos, por 50 minutos.

Lilian CorreIa Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Lilinha, não sei se rolou algo mais acelerado no final da aula, mas o que é esta Celia Cruz, mi compañerita bailarina? Quatro pasitos pra frente e duela a quem duela. Ui. 🙂

“Suabiense” eu sou!

 

 

Há quem diga que os niteroienses são um tanto quanto provincianos. O Rio de Janeiro está logo ali a apenas quinze minutos de catamarã, trinta de carro (duração estimada em dia perfeito: sem batidas, lanchas quebradas e alagamentos), mas, no fundo, para nós é outro mundo. Tirando um curto período em que morei no Rio de Janeiro, primeiro na Gávea, depois no Bairro Peixoto, em Copacabana (notem bem, dois recantos bem pitorescos e mais interioranos no próprio Rio de Janeiro), a cidade maravilhosa sempre foi para trabalhar, fazer festa e shopping. De resto, fiquei sempre com as praias e a tranquilidade da minha terrinha.

Agora estou há quase quatro anos na Alemanha e nos dois primeiros vivi em Tübingen, sul do país, região conhecida como Suábia (Schwaben). Uma cidadezinha deliciosa, cortada pelo rio Neckar, pouco mais de 50 mil habitantes. A cidade poderia ser uma roça só, não fosse a proeminente universidade, que data de mais ou menos 1400 (o Brasil sequer sonhava em ser descoberto), e alavancou a cidade como centro “cult” do país, referência de estudo e pesquisa, polo cultural. Tübingen é caipira-chic e não foi à toa que Goethe, Alzheimer e até Sua Santidade, o ex-papa Bento XVI, dentre tantos, escolheram a cidade para morar.

Quando ainda namorava o meu marido, que é suabo, visitamos a cidade no verão de 2008. Bastaram apenas quarenta minutos de caminhada pelo centro histórico, passando por pequenas alamedas, riachos com cisnes, restaurantes típicos e toda aquela paisagem clássica de uma pequena cidade alemã, para eu me apaixonar perdidamente. Disse a ele que se fosse para morar ali, me mudaria ainda ontem para a Alemanha. Surpresa do destino, dois anos depois, estávamos de mala e cuia instalados em Tübingen.

Muita gente duvidou que eu me adaptaria. A cidade é pequena demais, até mesmo para os moldes de Niterói. No entanto, sequer houve adaptação, se é que posso falar assim, pois já havia eleito Tübingen como a Niterói do meu coração. E quando a gente decide que vai dar certo, não tem dialeto e inverno glacial que atrapalhem.

Mas nem tudo foram flores. A cidade era pequena mesmo. No inverno, às quatro da tarde já não havia ninguém na rua. O curso básico de alemão feito no Brasil não me advertiu sobre o dialeto suabo. Achava que era brincadeira do meu marido, um mero detalhe de sotaque, mas ele tinha razão. Era outra língua! Coleciono furos e momentos desesperadores por conta disso.

Muita coisa me faltou naquele início: sol, comunicação, calor humano, família, feijão. Mas, do outro lado da balança, compensou viver sem outras tantas coisas, como trânsito infernal, buzinas logo pela manhã, fumaça de poluição, violência urbana. Colhi frutas do pé, ao lado de casa, bebi a água do rio que passava no bairro… Também não tinha boates da moda, shoppings à beira de casa… Para isso pegava um trem para Stuttgart, assim como atravessava a ponte para me divertir no Rio.

O tempo passou, o marido foi novamente transferido e, agora sim, em Berlim, tive que reaprender a viver numa cidade grande. É difícil se readaptar ao que não mais te soma. Impressionante como o passar dos anos muda as nossas prioridades e nossos anseios. Mas, como não sou de chorar pitangas e vivi a vida toda (muito feliz, diga-se) nesse fuzuê de grande centro urbano, estou aproveitando as benesses de uma megalópole. Não tenho do que reclamar, apesar de saber que nada disso me representa mais.

O melhor de tudo? As férias de ainda agora, no sul da Alemanha, me fizeram um bem tão grande…  Além de me trazerem a certeza de que existe um lugar para chamar de meu neste país.

Todo mundo tem um apelo visual, olfativo, emocional quando está chegando perto de casa. Se você, leitor, pensar um pouquinho, vai saber exatamente qual é o seu. Para nós de Niterói é a vista de quando entramos na ponte Rio-Niterói, depois de uma longa viagem ou de um dia exaustivo de trabalho. Opinião unânime! Quando se avista o pedágio, nosso “couvert artístico”, já é como estar em casa. Ufa, home sweet home.

Pois eu senti isso agora, quando cruzei a “Autobahn” e avistei o bairro alto de Lustnau, onde morei em Tübingen. Uma sensação que só conhecia quando chegava em Niterói.

Devo ser mesmo provinciana. Quero voltar ontem a morar em Tübingen! Alguém me arranca um cílio para eu fazer meu pedido?

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

Hoje eu ouço as canções

(Boy with a gramophone, Ed van der Elsken)

Na semana passada, li em três revistas diferentes matérias cobrindo um novo filme romântico, que estreia agora na Alemanha. Título: “Can a song save your life?”.

Pela sinopse, parece ser uma daquelas comédias românticas, receita de sucesso batidérrima: mocinha desiludida encontra o amor através da música. Leve, com o mesmo “L” de lazer. De dureza já bastam as eleições no Brasil, a guerra na Palestina e a fome do mundo.

De qualquer forma, o título do filme me fez viajar. Se tem uma coisa que nunca poderá faltar na minha vida é a música. Sou daquelas pessoas que, com certeza, pode descrever a vida por uma trilha sonora.

Cresci ouvindo música da melhor qualidade, pelas mãos dos meus pais. Beatles, Elvis, Dionne Warwick (a preferida de papi), Johnny Mathis… E tome de Bossa Nova e MPB. Os clássicos ficavam por conta do meu tio Monnerat.

Nunca um momento marcante vem em silêncio, sempre tem acompanhamento musical. Quando quero lembrar de alguma época, faço um esforço de memória para saber qual era a música do momento. Infância? “A casa”, do MPB4, faixa do maravilhoso vinil “A Arca de Noé”, de Vinicius e Toquinho, época em que o melhor da nossa MPB também presenteava as crianças com canções belíssimas. Nem dá pra enumerar as músicas que marcaram a adolescência, juventude, viagens, faculdade, momentos sombrios, fases de estudo… Sim, tinha música ambiente para estudar.

Como esquecer de “One Love”, do meu querido Bob Marley, que tocou quando pisei o salão de festas do meu casamento? As dores do parto, embaladas por música, até onde deu…  E agora, no meio da estrada, ganho o privilégio de ouvir a rádio Todo Sentimento. Presente diário para os meus ouvidos!

Respondendo à pergunta do filme, eu digo que sim! A música salva vidas, cadencia a nossa história, marca suas épocas.

E vocês? Respondam rápido qual a música que fez história em suas vidas. Aguardo ansiosa.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.
Sai de férias com a família e retoma o espaço em 15 dias.

Carinho meu e de seus leitores do Bloghetto, Lilinhaaaaaa!

Vai que é tua!

httpv://www.youtube.com/watch?v=O0NentNBRlQ

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra

Estava eu aqui pensando que passei de um extremo ao outro ao me mudar para a Alemanha, quando o assunto é tratamento humano e informalidade versus formalidade. O Brasil é um país informal por natureza. Tudo com a gente é no susto, sem aviso. E é assim desde os primórdios, pois fomos descobertos por acaso, maravilhoso acidente. Já a Alemanha é o país do protocolo, dos planos e das regras.

Olhando pra trás, mas longe de fazer qualquer análise científica (que nem poderia), imagino que a informalidade já foi herança dos nossos descobridores. A Corte Portuguesa, em toda a Europa, era a mais bagunçada e nos presenteou com o escracho que nos rodeia até hoje. Ri alto lendo as histórias de gafe contadas brilhantemente em “1808”, de Laurentino Gomes. Tem coisa mais hilária do que se tornar independente da Coroa, literalmente no grito, à beira de um rio, e, segundo fofoca colonial, depois de um parada forçada do nosso então imperador, já aflito para “esvaziar o tanque”?  Isso é muito Brasil!

Nosso maior patrimônio, nossa cultura, nasceu nas ruas, na informalidade. A Alemanha tem uma cultura mais erudita, dos salões de música clássica, poetas, sociólogos, pensadores. O comércio informal no Brasil é espantoso, emprega milhões, gera renda e roda a máquina. Quase não existe comércio informal aqui. As profissões e quaisquer atividades são regulamentadas e reguladas. E o abismo político que separa as duas nações? Teve Ministro alemão julgado e banido porque incluiu no currículo atividade que não exerceu. O que dizer da nossa Presidente? Vou pular essa parte.

Agora cheguei no ponto onde queria. A linguagem, nosso tratamento pessoal. No Brasil aprendemos a tratar os mais velhos por Senhor e Senhora, por regra de etiqueta, educação e respeito. O “Vós” da gramática portuguesa no Brasil e outros pronomes de tratamento mais polidos foram engolidos pela informalidade cotidiana. De modo geral e em situações corriqueiras, usamos “você” para nos dirigirmos a quem quer que seja. É o código relaxado da nossa sociedade.

Toda essa reflexão habita minha mente, no momento, porque agora vivo num país onde tudo é, ao contrário, formalíssimo. Só posso me dirigir a alguém que não conheço por Senhor (a) ou “Sie”, pronome que pede conjugação na terceira pessoa do plural. Usar os pronomes formais, não é só regra de etiqueta, é regra gramatical e, como tudo aqui na Alemanha, não foi superada pelo costume. Se é regra, tem que se cumprida. E tem mais! Se o sujeito tem algum título acadêmico, ocultá-lo na apresentação e conversa subsequente também é gafe imperdoável.

Ai, que desânimo para povo inflexível…

Existe até mesmo um verbo para traduzir a ação de tratar as pessoas com respeito e formalidade: “sizen”. Chamar alguém de “Du” (você), sem que a pessoa lhe conceda tal privilégio, constitui uma tremenda falta de educação. Trocando em miúdos, isso significa que da secretária do consultório do médico, que tem 20 anos, até a Angela Merkel, só se pode usar o “Sie”.

Vou tentar exemplificar: na reunião do Jardim de Infância da minha filha, um dos pais perguntou à Diretora se naquele ambiente poderíamos nos tratar por você (“duzen” – também existe verbo para baixar a guarda da formalidade!). O pedido lhe foi categoricamente negado, sob o argumento de que deveríamos manter o respeito entre os professores do Jardim, pais e crianças.

Isso tudo me soa tão estranho, tão distante e complicado! Minha sorte é que sou cara de pau e brasileira (seria uma hipérbole?). Antes mesmo de começar uma conversa formal, aviso logo que, por ser estrangeira, tenho dificuldade para conjugar tudo no “Sie”. Já vou me desculpando pelos “Dus” que aparecerem pelo caminho e peço também para me corrigirem, sem cerimônia, no exato momento do ato falho.

Tanta sinceridade já me rendeu muitos foras (já chegaram, inclusive, a me mandar estudar mais o alemão!), mas também olhares mais compadecidos.

Valha-me Deus, onde fui me meter! Vivendo e aprendendo a jogar, vou tentando seguir no caminho do meio, de preferência.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

httpv://www.youtube.com/watch?v=mLcfgfLC_HM

O lado colorido do Muro

(foto de Ian Berry)

(Berlin, West Germany: dois irmãos, separados pelo Muro, encontram-se para o Natal de 1963)

***

Tenho uma amiga aqui em Berlim, daquelas de uma vida, mas que só conheço há pouco mais de um ano. Já tive a oportunidade de dizer que na Alemanha é difícil fazer amigos, as pessoas são mais fechadas por natureza. Felizmente, não a Katja. Essa nasceu mesmo foi no país errado. Gosta de improviso, de contato, de caipirinha, além de outras “latinices” que fizeram com que nos aproximássemos.

Tomando um café com a Katja na semana passada, descobri que ela nasceu e viveu na extinta Alemanha Oriental até a queda do Muro, o que me deixou entusiasmadíssima com o nosso papo e, mais ainda, com a pessoa em que se transformou depois dessa revolução pessoal, como ela mesma descreve.

Foi incrível descobrir, através de uma prosa despretensiosa, tudo o que sempre quis saber sobre os jovens daquela Alemanha Oriental, perdidos no meio da Guerra Fria e prestes a descortinar um mundo novo com a queda do Muro. O que sentiram, os perrengues emocionais por que passaram, o choque de culturas, a mudança política, ideológica, enfim, fiquei louca para perguntar sobre esse capítulo da história mundial, que meus livros não ensinaram.

A Katja me disse que logo após a queda foi tomada por um misto de curiosidade e medo. Medo atroz. Afinal de contas tinha sido criada e doutrinada a pensar que no lado de lá o mundo era pior. As pessoas deveriam ser egocêntricas, frívolas, consumistas, vazias (pinçando dentre mais cinquenta outros adjetivos negativos com que ela  descreveu seus sentimentos). O mundo capitalista era temido e, ao mesmo tempo, ridicularizado pelo jovem alemão da DDR.

No caso da Katja, a curiosidade adolescente falou mais alto e, escondida da mãe e acompanhada de amigos fiéis, naquele nove de novembro de 1989 (enquanto eu assistia ao Pedro Bial pré-Big Brother se esgoelar de emoção do alto do muro recém-demolido, no Jornal Nacional), atravessou para o lado de cá.

A descrição do que viu é de arrepiar! Conta ela que a primeira coisa que passou pela cabeça foi de que a vida tinha ganhado cor. Me disse assim: “Lili, senti um tsunami de excitação crescendo dentro de mim!”. Isso porque nunca na sua vidinha socialista tinha visto tantas pessoas coloridas, tantas roupas diferentes, anúncios e letras pintadas que brilhavam para ela, línguas novas, carros enormes, músicas novas, tudo novo e encantador. Vida nova!

Assim que pôde mudou-se correndo para o lado ocidental de Berlim e fez questão de procurar um apartamento em bairro bem distante da divisa do muro, para, me confidenciou, não correr o risco, nem por engano, de ser puxada novamente para o lado negro da força! Disse que emagreceu nas primeiras semanas porque só queria comer as maravilhosas frutas exóticas das quais nunca tinha ouvido falar: melancia e kiwi!

Me disse que não foi por coincidência que seu primeiro emprego capitalista foi na Benetton (United Colors of…), já extinta no Brasil. Trabalhava para comprar CDs e encher os ouvidos de música pop e eletrônica mundial. Também foi nessa época que se matriculou num curso de inglês, pois, diferentemente de todos os jovens do universo ocidental, a língua obrigatória que aprendera no colégio havia sido o russo.

Ainda me contou outras tantas curiosidades, questões comportamentais, pérolas que me deixaram fascinada e até com certa pena, porque eu, aos quatorze anos, já estava familiarizada com tudo aquilo que, para ela, era o último grito aos… dezenove!

Conversa boa engana o relógio e quando dei por mim já estava bem atrasada para buscar minha filha no Jardim de Infância. Saí apressada, mas, antes de nos despedirmos, a Katja ainda me confessou que agora planeja viajar para Cuba. Diante do meu espanto e gargalhadas, ela explicou correndo que já estava mais do que na hora de conhecer a adorável pequena ilha dos seus sonhos infantis, de onde chegava sempre o charuto do seu pai, a boa salsa caribenha e mangas vermelhinhas para o seu mundinho, até então, cinza.

Lilian Correia Lima Rapp

Nem um tijolo a mais…

httpv://www.youtube.com/watch?v=34ZmKbe5oG4

 

A primeira dura (e na Alemanha) a gente nunca esquece

Quando morava há apenas um mês na Alemanha, ainda em Tübingen, fomos convidados para uma festa de aniversário em Stuttgart, quarenta e cinco minutos de carro. Uma bobagem para quem fez o trajeto Rio-Niterói-Rio a vida toda. Tinha feito um trato com o meu marido de que ele poderia beber, e eu voltaria dirigindo, porque não queria dormir lá. Aqui na Alemanha, quando se tem amigos que moram longe, as festas são pensadas com o “day after”, ou seja, leitos e café da manhã para todos, já  que ninguém volta para casa dirigindo depois de beber. Se o espaço não comporta tanta gente, indica-se um hotel.

Demos carona a um casal de amigos e adentramos a festa às 21 horas. Mantive a minha promessa de só tomar dois copos de cerveja, o máximo aceitável pelo controle da polícia rodoviária. Bebi super devagar, degustando. A cerveja alemã dispensa comentários e chega a ser uma heresia só poder beber duas. Naquele momento me arrependi muito de ter me disposto a ser a motorista da rodada, mas, enfim, alguém tinha que ser.

A conversa era agradável, mas chega sempre um momento em que você se sente fora do contexto. O tom das vozes aumenta e, proporcionalmente, a música também. Os papos começam a ficar nonsense e o tédio passa a ser a sua companhia. Aguentei um pouco mais, em respeito às nossas caronas, mas chegou uma hora em que o sono começou a bater à porta. Pedi um café e anunciei aos marujos que o barco partiria em breve. Todos concordaram sem muita reclamação. Ser o motorista da rodada tem lá as suas vantagens. A tarefa de dirigir pra casa é tão odiosa que aquele que se dispõe a tal sacrifício ganha uma espécie de carta branca e todas as suas decisões são acatadas sem (muita) reclamação. Mais algumas “saideiras”, e estávamos a caminho de casa.

Confesso que andei tensa a noite inteira com o fato de ter que voltar dirigindo de madrugada, numa estrada que não conheço, com gelo nas pistas. Tudo bem, tudo bem, estamos falando das “Autobahns” alemãs, fantásticas de dirigir, quatro pistas, asfalto feito tapete e carros que nos permitem voar. Mas não se esqueçam de que as placas são em alemão, se multiplicam a cada 100 metros, e a lei aqui é cumprida à risca. A atenção tem que ser redobrada.

Quando já estava totalmente relaxada no meu afazer e sentindo até mesmo um tímido prazer em dirigir ouvindo o barulhinho do gelo nas rodas do carro, avistei luzes de carros de polícia num entroncamento. Acordei os demais passageiros, que, à exceção do meu marido, dormiam pesadamente. Pensamos que era acidente e reduzi quase a zero. Que acidente que nada! O coração disparou! Estávamos diante da famosa e temida Lei Seca alemã!! Wunderbar!

Fiquei esperançosa ao ver que estavam parando o carro da frente. Meus amigos, já acordados, e momentaneamente sóbrios, disseram para eu manter a calma e pegar a esquerda, pois, com sorte, não seria parada. Mas foi só terminarem a frase e o policial sinalizou para que eu encostasse o carro. Pimba! Fui pega na “dura”! Presente de boas -vindas!

Numa fração de segundo pensei na minha linda licença internacional para dirigir me dando adeus. Afinal de contas, no início da noite, eu tinha bebido duas cervejas. Mas aí ponderei que também não era “big deal” perder a licença, porque ela só seria mesmo válida por seis meses e, numa onda de otimismo absurda, pensei que até gosto de andar de ônibus aqui. Melhor ainda: compraria uma bicicleta!

O policial, com o seu bigodinho à la Freddie Mercury, pediu para ver os documentos. Me desculpei em inglês, avisei que falava muito pouco alemão e expliquei que era estrangeira, portanto, apresentaria minha licença internacional, acompanhada do meu passaporte.

“Freddie” examinou e reexaminou a documentação, fez algumas ligações, procurou dados no computador do carro. Eu comecei a achar que alguma coisa ia dar errado, algo como o Detran não ser reconhecido aqui, embora me garantissem no Brasil que seria (quase nada no Brasil é reconhecido aqui…). Já estava preparada para o pior: ter que pagar uma multa alta, receber uma suspensão ou cassação do documento. Enquanto pesquisava, nem uma só palavra para explicar o que estava acontecendo, nem um suspiro. Ninguém ousava quebrar o silêncio, só se ouvia o barulho da neve caindo e de minhas mãos, devidamente calçadas em luvas de lã, em eterna fricção para espantar o frio e a tensão.

Enfim, “Freddie” se manifestou dizendo que a documentação estava em ordem. Mas, antes mesmo de conseguir ficar realmente aliviada, veio a fatídica pergunta: Haben Sie alkohol getrunken? (Você ingeriu álcool?) Essa eu entendi, mas fiz questão de responder em inglês para manter o jogo do gato e rato: Meeee??? Noooo!!!! Nothing!!!

Como não tenho veia artística e a cara (e cheiro) dos passageiros do carro nos denunciavam, fui encaminhada diretamente para o exame do bafômetro.

Lá fui eu, com o Mirko a tiracolo, de intérprete. Chegamos perto da viatura. Um frio descomunal. Fui instruída a abrir o pacotinho do canudo para o teste e espetá-lo no aparelho. Fechei os olhos e soprei tão forte, como me disseram, que quase perdi os sentidos. Quando abri os olhos novamente, meu marido sorria, agora definitivamente aliviado. Negativo! O policial informou o resultado, agradeceu a cooperação e desejou uma boa noite. Simples assim!

Essa pequena passagem aconteceu quando estava há apenas um mês na Alemanha, falava pouco ou nada de alemão e ainda usava a minha saudosa carteira internacional para dirigir. Hoje ela está expirada e preciso cumprir todo o rito da autoescola alemã novamente para receber a licença daqui.

Com tanta placa, tantas regras novas, possibilidades de novas duras sinistras, e o sistema de transporte público que nos atende sendo tão fantástico, estou pensando mil vezes antes de entrar nessa fria de novo…

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim.

***

Contou-me a Lilian que sempre que o episódio da crônica de hoje lhe vem à lembrança, o bigodinho de Freddie Mercury vem junto.

Assim, Lilinha? 🙂

Graaaande Frederico Mercúrio…

httpv://www.youtube.com/watch?v=f4Mc-NYPHaQ

O Comandante Vieira e a saudade dos que partiram

Ali na Tavares de Macedo, número 131, entre a Presidente Backer e a Pereira da Silva, está situado um prédio de azulejinho verde, recuado, o Comandante Vieira. “Prédio Verde” para os íntimos.

Construído nos anos 60, já foi um must do bairro. Hoje ostenta timidamente sua arquitetura charmosa, no meio dos elefantes brancos do bairro, que lhe roubaram, de frente, a vista para a Praia de Icaraí, e, nos fundos, a bênção da Nossa Senhora do morro de Santa Rosa.

Quartos grandes, lavabo, dependências completas, bem dividido. A sensação maior era o playground, que na sua construção original, além de carrossel, balanço, trepa-trepa e gangorras, ainda contava um campinho de cimento gradeado, palco das mais famosas peladas do bairro de Icaraí nas décadas de 70 e 80. Concorridíssimas! Hoje, enfim, tudo revitalizado!

As excelentes administrações da sua época de ouro nos brindaram com inesquecíveis festas juninas, julinas, bingos, campeonatos de sinuca, biriba, aulas de ginástica, jazz, festas do Dia da Criança, festas de Natal, Olimpíadas, e por aí vai. É muita história pra contar, as melhores. Dava até livro!

A criançada descalça e descabelada, muito longe da geração digital de hoje, corria desvairada pelas dependências do prédio, nas memoráveis brincadeiras de polícia e ladrão, pique-esconde e “taco”. Quem se lembra da brincadeira “salada mista”, onde todo mundo do prédio aprendeu a beijar?! Os namoros que se seguiram, os beijos roubados entre as pilastras, as idas coletivas à praia de Icaraí e ao Clube Central… As festas “disco” no salão, embaladas pelos hits de Grease, Bee-Gees e Donna Summer… Mais tarde, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Lulu Santos. Férias na casa de tia Cléia em Iguaba! Os porteiros fofoqueiros, as confusões, encontros, desencontros.

Mas, definitivamente, o que o condomínio tinha e tem de mais precioso são as pessoas. Gerações da mesma família dividindo a vida ali. Festejamos juntos, choramos juntos, casamos, descasamos, tivemos filhos, perdemos parentes. O magnetismo do Comandante Vieira é tanto que muitos já venderam seus apartamentos ali e voltaram arrependidos anos depois. E que saudade dos que já se foram para nunca mais voltar…

Tenho para mim que o “Prédio Verde” tem uma sucursal no céu, onde todos os seus ilustres moradores olham pelos que ficaram. Essa semana, a filial celeste recebeu mais uma moradora. Foi embora sem nos avisar… Tia Marilza foi, com certeza, recebida por vovô Mauro, Sheila, Seu Levi, Seu Vinagre e, imagino, não demora muito, tá saindo mais um campeonato de biriba com a nossa velha guarda do lado de lá.

Lilian Correia Lima Rapp

Lilian Rapp mora em Berlim. 

***

P.S.: Selminha, dá para nossa rádio tocar “Last Dance”? A história do prédio e de toda aquela gente querida passa por essa música, o hino do condomínio!

Ah, Lilinha, como não te atender… Ela é Donna do disco, da dança, de nossas melhores lembranças.

httpv://www.youtube.com/watch?v=BKwU847Fh0s