Sem palavras

Saudade de Pellebertinho, gente…

Só existe um modo de expressarmos o que sentimos: com palavras, faladas ou escritas. Mas elas não conseguem transmitir com exatidão o que vai em nosso íntimo. Sentir é muito mais profundo que dizer, por maior que seja nossa capacidade de comunicar. Palavras são simulacros da verdade, representações aproximadas das emoções, que, inefáveis, escapam a toda tentativa de serem traduzidas.

Roberto Pellegrino

Rio de Sempre

Feliz o blog que conta com um astral desses…

Viva o Limaaaaaa!!!

RIO DE SEMPRE E O 1915

1915 – a cidade vive um tempo confuso. Pinheiro Machado, político influente, escrevia em um dos nossos jornais: “É possível que durante a convulsão que nessa hora sacode a República em seus fundamentos, possamos submergir (…). É possível mesmo que o braço assassino, impelido pela eloquência delirante das ruas, nos possa atingir.” Pouco dias depois era assassinado. A 1ª Guerra Mundial se alastra. O governo brasileiro se mantém neutro. Vários movimentos a favor e contra nossa neutralidade se alastram pela cidade: passeatas, comícios relâmpagos, e até uma Revolta, a de Sargentos, criam um clima de agito.

A Belle Époque nos arruma. Vislumbra-se  um futuro de anos dourados. João do Rio nos convida para irmos para a rua. As ruas cariocas de João não eram as da política. O cronista João escrevia sobre os costumes da cidade. O citadino se divertia em circos, confeitarias, cafés, e começam a aparecer os primeiros cafés dançantes. Nos jornais, Olavo Bilac, Coelho Neto, Emílio de Meneses embelezam o país com seus textos. Teatros dão prova de vitalidade e o cinema começa a roteirizar produções de conteúdo literário.

1915 – um ano importante para a história do país. Um ano de nascimentos. Um ano de vida nova.

Hoje, num final de março de 2015, me assusto. De fato, um ano secular e com surpresas cotidianas.

Estamos comemorando um século do humor e canto.

Carequinha estaria fazendo 100 anos e com ele Grande Otelo e Zé Trindade. Carequinha desenhou minha infância. Era freguês assíduo do Circo do Carequinha na TV Tupi. Na rua em que morava, disputávamos quem melhor imitava suas cambalhotas.

Zé Trindade, um cômico diferenciado pelo seu estilo de fazer graça. Criou um jargão que ficou para a história do humor: “Mulheres cheguei!”. Era meu vizinho e frequentei algumas poucas vezes sua casa, por conta de suas filhas, que organizavam festas juvenis. Na sala, com um ar sério e controlador, Zé assumia a ordem. O Zé é sempre lembrado, aqui no bairro, pelo seu humor e pela educação que deu a seus filhos.

Grande Otelo, nunca vi pessoalmente, mas por ele tinha uma grande admiração. Com certeza, maior que seu tamanho físico. Grande Otelo, um dos nossos maiores artistas, um multimídia. Uma vez fui convidado para o lançamento, pós-morte, de seu livro de poesias, “Bom Dia, manhã”. Esse lado de Grande Otelo é pouco conhecido. Acho que foi a primeira vez que o lançamento de um livro foi na rua. Um barato de festa. A Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, ficou pequena.

”A letra deste fado

É feita com ternura

É uma letra que fala

De uma linda criatura

Saiu do coração

A letra deste fado

Pra que ninguém saiba

Não vou dizer seu nome”

Acordo com um telefonema de Soninha Terapeuta, minha grande amiga sumida.

– Paulinho, hoje acontece um evento com a nossa cara. Na Livraria Arlequim, no Paço Imperial, uns amigos vão cantar e tocar músicas da Billie. É o lançamento de um álbum com todas as suas músicas gravadas. Billie, se viva, estaria fazendo 100 anos.

– Soninha, estou sabendo. Li no jornal e não vou poder ir. Podemos nos encontrar à noite?

– Combinado.

Será que ela está sabendo que a Édith Piaf também estaria fazendo 100 anos? Ambas cantaram e ainda cantam para o mundo.

O nosso Orlando Silva, cantor das multidões, também estaria fazendo 100. Tive oportunidade de vê-lo cantando numa churrascaria na Tijuca. Casa cheia. Mesmo já caído, conseguia encantar seus fãs. Um artista vítima de suas paixões e vícios. Nos deixou saudade.

Carmen Miranda, tinha uma irmã que cantava com graça e talento, Aurora Miranda. Uma festa muito simples num bar da boemia da Lapa vai prestar uma homenagem aos seus 100 anos. Aurora foi quem lançou o hoje Hino da Cidade: “Cidade Maravilhosa”, de André Filho. Uma cantora como poucas. Lamentei não ter ido homenageá-la. Num pais em que a memória cultural se esvai pelo mundo do esquecimento ainda existem pessoas que se preocupam com nossa história. Aurora Miranda, uma lembrança merecida.

Vou ao encontro de Soninha e a encontro ainda emocionada com a festa de Billie.

– Paulinho, o Rio estava na Arlequim.

– Quanta gente interessante fazendo 100 anos: Aurora Miranda, Grande Otelo, Zé Trindade, Orlando, Billie, Carequinha, e a minha paixão, a francesa Édith. Você já se deu conta?

– Sempre pensei que sua paixão francesa fosse Juliette Gréco.

– Também, mas pode colocar na sua lista a Simone de Beauvoir.

– Paulinho, coloca na sua lista dos 100. O maior de todos.

– Quem você matou?

– Frank Sinatra.

Rio de Sempre toma dois uisquinhos com Soninha e aproveita, no caminho de volta  para casa, para pedir bênção aos seculares de 15.

Aqui da minha varanda, com uma inspiradora lua, véspera de cheia, ligo minha vitrola. Quem ouvir?

Fui de Frank e, o melhor, meu vizinho que sofre de insônia, agradeceu.

Não tenho dúvidas de que quando chegar o 16, outros seculares vão aparecer. “O mundo é assim”, como diz o nosso Alvaiade, compositor da Velha Guarda da Portela.

O dia se renova todo dia

Eu envelheço cada dia, cada mês

O mundo passa por mim todos os dias

Enquanto eu passo pelo mundo uma vez

A natureza é perfeita

Não há quem possa duvidar

A noite é o dia que dorme

O dia é a noite ao despertar.

Paulinho Lima

 httpv://youtu.be/a_Pg9iTFKQk

O destinatário

Ao chegar em casa, encontrou o papel dobrado enfiado debaixo da porta. Pegou-o. Era um bilhete: “Espero-o às cinco horas da tarde, no lugar de sempre. Não falte.” Não estava assinado, a letra era feminina, mas ele não a reconheceu.

Qual seria o lugar de sempre?

Lembrou-se daquele lugar em que, há muitos anos, ia encontrar-se com ela. Do lado esquerdo da igreja, na esquina da rua onde a loja mantinha acesas as luzes das suas três vitrinas. Ela pedia-lhe que chegasse antes, porque tinha receio de estar ali, sozinha. A cidade, porém, era outra, os tempos eram outros, e ninguém iria importuná-la, ainda que estivesse sozinha. De qualquer maneira, chegava sempre uns cinco ou dez minutos antes dela.

Provavelmente, quem pusera o bilhete debaixo da sua porta enganara-se de endereço. E, neste caso, não seria a própria autora dele que fora ali. Ficou, porém, com pena da moça, ou da mulher, que esperaria em vão o destinatário do bilhete, que não iria encontrar-se com ela.

Durante o resto do dia, embora se entregasse aos seus afazeres habituais, continuou preocupado com a pobre moça, ou mulher, sozinha no lugar de sempre. E leu duas ou três vezes o bilhete. Depois, botou-o de lado, em cima da mesa.

Ao aproximarem-se as cinco horas da tarde, a sua inquietação aumentou.

Que poderia fazer? Nada

Não obstante, com uma vaga dor no peito, foi ao banheiro, lavou o rosto, enxugou-o e passou o pente pelos cabelos, já ralos. Vestiu o paletó, e saiu.

Aonde iria? Não sabia.

Iria ao bar, passearia pelas ruas, entraria numa livraria?

Aquele dor no peito, a princípio vaga, aumentava.

Caminhou até a esquina, onde agora havia uma banca de jornais e revistas. Parou ali. Respirava com dificuldade, com aquela dor no peito. Olhou para o relógio de pulso: faltavam quatro minutos para as cinco horas.

Então ele viu que ela vinha vindo, toda de branco, num vestido esvoaçante.

O jornaleiro contou aos policiais, que chegaram logo depois da ambulância:

— Eu estava aqui, quando vi que ele caía na calçada.

Um dos socorristas, abaixado sobre ele, apalpou-lhe a jugular, tomou-lhe o pulso e viu que ele já não respirava. Tentou inultimente reanimá-lo. Enfim, enquanto lhe cerrava os olhos baços, notou que os lábios pálidos entreabriam um sorriso.

 Antonio Carlos Augusto Gama

Rio de Sempre

BUTTER

RIO DE SEMPRE… CAMINHA

O dia é hoje, março de um ano que batizamos de 2015. Duas passeatas aconteceram: sexta e domingo. Rio de Sempre se fez presente em ambas. Duas festas com coloridos diferentes. Lados bonitos e feios se misturavam. A de sexta, num cair de tarde escuro e sem brilho. Pessoas cantavam, não cantei. Não tinha emoção. A outra, um domingo de sol pouco brilhante, cenário fantasiado pela esperança. Muita emoção.

Entramos no caminho e seguimos. Um chamamento de quem acreditava no clamor de uma gente que pedia respeito e ordem. Lembrei do canto de Nicolas Guillén, poeta cubano, e do seu poema ‘Sigue’…

“camina, caminante,

sigue;

camina y no te pare,

sigue (…)”

Solitário caminhava no meio da multidão. Crianças,  jovens adultos, todos os gêneros. Todas as falas. Acenava para algumas e virava a cara para outras. Mas em todas uma coisa em comum: acreditavam nas suas faixas. Uma ode à espontaneidade. Democracia.

“Cuando pase por tu casa

no le diga que me viste:

camina, caminante,

sigue.”

Continuei caminhando convencido que meu canto coral expressava sentimento.

Acenava para alguns poucos conhecidos, outros abraçava com alegria. Feliz.

“camina y no te pare,

sigue;

acuérdate de que e mala,

sigue! ”

Procuro pessoas, não as encontro, ou melhor, estava diante de um grande encontro de almas. Um grito forte embalava a todos. Podemos.

Cansei e parei, os caminhantes continuavam e seguiam. Uma certeza: um caminho sem volta.

Paro de frente para o mar e o vejo sendo abraçado pelo céu. Era o horizonte. Um destino.

Quero cantar sozinho e vejo pescadores chegando carregando seus arrastões. Lembro de Edu e Vinicius. Vou mais longe e chego a abril de 1965. Já se passam 50 anos e lá estava cantando a canção que eternizou Elis e uma geração. Canto.

Em 1965 vivíamos o início de anos duros. Nossa cultura reage. ‘Arrastão’ ensina o caminho. Poetas embarcam nessa canção. Cantamos mais forte e nosso som não se apagou.

Elis continuava balançando seus braços num gestual que convidava a não nos intimidar. Uma questão de tempo.

“Eh! tem jangada no mar
Hei! hei! hei!
Hoje tem arrastão
Eh! todo mundo pescar
Chega de sombra João…”

Valha-me Deus
Nosso Senhor do Bonfim
Nunca jamais se viu
Tanto peixe assim..”

Olhei para trás, minha rede cheia. Minha gente na rua cantando “que era brasileiro com muito orgulho e amor”.

Volto para minha casa, depois de parar  num boteco desconhecido e brindar à multidão.

Tomo outra e volto aos 65, o primeiro festival, e me lembro da canção que ganhou o segundo lugar: “Valsa de um amor que não veio”. Seus autores, Vinicius e Baden.

“(…) E eu tenho um templo no coração
Mas as palavras não têm som nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos
E te amando em prantos
Cantar novos cantos
Proclamando o amor.”

Brindo ‘Arrastão’. A canção que nos encheu de esperança e canto, novos cantos proclamando o amor. Não esqueço o segundo lugar.

Parabéns, cinquentão. Siga e não pare. Sigamos. Vamos continuar jogando arrastão. Elis ainda vive com seu gestual de chamamento.

Rio de Sempre nesse domingo de março nunca foi tão Rio Brasileiro.

Paulinho Lima

Os brinquedos

A mãe comprou para o filho um brinquedo, que era um saco de risos. O menino, durante uma semana, manipulou pela casa o saco de risos, atormentando todos, até o cachorro e o papagaio. Eram risos, gargalhadas, guinchos, de todos os tipos, pelos quartos, pelas salas, pela cozinha, pelo banheiro. Até que o menino enjoou do brinquedo, e atirou-o para um canto.

O pai, então, deu de presente ao menino um saco de choro. E novamente, o menino, dia e noite, andava de um lugar para outro, com o saco de choro, e ouviam-se por toda parte choros de cortar o coração, soluços, gemidos e lamentos. Até que, outra vez, o menino aborreceu-se com o brinquedo, e abandonou-o debaixo da escada.

Aí, a madrinha trouxe para o afilhado um saco de espirros. E ele, com o saco de espirros, ia e vinha, espirrando em todos os tons. Eram espirros sufocados no lenço, outros altos, espalhafatosos, estrondejantes, desde o atchim! até o at… at… at… CHIM!

Mais uma vez o menino cansou daquele brinquedo, e largou-o não se sabe onde.

O menino cresceu silencioso, tornou-se moço, adulto, maduro e velho, calado.

Um dia, afinal, ele disse: Estou com o saco cheio. A minha vida não passou de uma sucessão de risos, choros e espirros.

Antonio Carlos Augusto Gama

Rio de Sempre

(Casamento de Cartola e Dona Zica, Rio de Janeiro,1964, em foto preciosa de Rubens Barbosa)

RIO DE SEMPRE E OS 5 MINUTOS PARA O DIA TERMINAR

Faltavam 35 minutos para o dia terminar. Eu aqui no meu bar de plantão filosofando sobre tudo. Um exercício que vez por outra faço, mas a solidão em dia de festa é cruel. Na vida, além dos improváveis, existem os imponderáveis, e surge do nada a Martha, linda como sempre. Martha é uma pessoa que ainda me faz votar e abandonar minha alienação. Votamos na mesma seção eleitoral. É onde nos encontramos.

Já chega falando e cobrando: – Comemorou muito?

– Que nada, fiquei por aqui mesmo. Vão acontecer muitas festas durante o ano.

– Verdade, o carioca é festeiro. Agora, tem uma coisa, amigo. Nessa tristeza não se comemora nada.

– Engraçado, você nunca gostou do Bar Jóia.

– Tenho preferências melhores.

– Mesmo a essa hora da noite?

– Paulinho, se estou na rua é para curti-la com tudo que a noite possa me oferecer. Ainda mais num dia em que a cidade está em festa. Você viu o foguetório?

– Ver não vi, assisti na televisão.

– Que tristeza… Que tal sair por aí?

Não resisti ao convite, nem às minhas tentações, e não mais que de repente me vejo chegando no Lamas. Na porta, Mário de Andrade conversava com Emílio de Meneses e Olegário Mariano. Bastos Tigre gritava : “Se é Bayer é bom, é melhor ainda ser carioca no dia dos seus 450 anos.”

Martha vibrava com a nossa chegada e foi logo pedindo um chopp.

– Me dá a sua bolacha. Vou pedir autógrafos.

– Toma.

Martha volta com as duas bolachas cheias. Niemeyer, Getúlio, Portinari, Di, Monteiro Lobato…  E outras assinaturas que, por conta da pressa, não me recordo. A turma estranhava a ausência de Osvaldo Aranha, o inventor de um filé famoso, e das francesas inspiradoras do “Filé à francesa”.

– Vamos para o Bar Luiz. Está rolando uma tremenda festa e uma grande confusão. Os estudantes do Pedro II estão querendo quebrar o bar.

– Como você sabe?

– Sabendo. Meu dedinho é um tremendo telefone. Conta tudo.

Era verdade. O Bar Luiz, que anteriormente se chamava Berlim, e seu dono, o alemão Adolph, estavam assustadíssimos. Estudantes à porta queriam quebrar o bar por conta de imaginá-lo um nazista enrustido. Mas tudo foi resolvido. Ary Barroso se colocou na porta: ” – Aqui, enfurecidos, nem da torcida do Flamengo entram. A cidade comemora seu aniversário, é dia de festa e de muita alegria.”  Sacou sua gaitinha e tocou o hino do Flamengo. Os estudantes voltaram para o colégio cantando: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. Ary entrou para a história como o homem que salvou Seu Adolph e o seu bar. Acalmados os ânimos, os presentes cantavam “Isso aqui ô, ô, é um pouquinho de Brasil…”, animados pelos Novos Baianos, sob o olhar assustado de Carmen Miranda e Chico Alves. Tomamos mais um chopp e degustamos um salsichão com salada de batatas. Eis que chega o Albino Pinheiro com sua namorada, mulata linda em seus 1,80m. Foi o suficiente para a turma mudar a música e passar a cantar Faceira. Ary vibrava. No fundo ouvíamos a voz do Jaguar e da esquerda festiva. ” – Nem em Berlim se come tão bem.”

– Paulinho, essa turma do Pasquim vai toda para o Zicartola. Acho melhor a gente se mandar para pegar lugar.

Não deu outra, casa cheia: Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Dona Ivone, Roberto Ribeiro, Zé Kéti, Almir Guineto, Billy Blanco, Haroldo Lobo, Lamartine e João Nogueira já comemoravam os 450 anos da cidade. Martha tinha prestigio e uma mesa nos recebeu. Ganho logo umazinha de Parati e bebo de um gole só. A noite cresceu. Dona Zica e Cartola, proprietários do bar, homenageavam Zé Kéti  e a cidade, nada mais justo. Sua composição “Eu sou o samba”, uma ode à nossa música, era cantada como se fosse um hino. Martha não parava, com suas bolachas na mão. Só pegando autógrafos.

– Martha, estou chegando ao meu limite.

– Cara, a Colombo está bombando. E é para lá que vamos.

– Você enlouqueceu…

Chegamos e somos logo saudados por Bilac. Um cálice de Porto chega às minhas mãos – é a bebida favorita do poeta. Pela rua passa João, o do Rio, e não entra. Não gosta do seu Lebrão, proprietário da casa. Uma empadinha de camarão e um ovo recheado surgem como do nada. Degusto prazerosamente. Os vitrais da Colombo tremem. Paula Ney, cheio de graça, chega contando as últimas da cidade. Num canto, sem muito alarde, Chiquinha Gonzaga conversa com Machado. Lima Barreto se recusa a entrar. Já estava pronto para se mandar para o Engenho de Dentro. ” – Isso aí está cheio de burgueses!”, exclama. Uma expectativa: o imperador Pedro podia chegar a qualquer momento.

– Paulinho, vamos nos mandar. Essa turma não vai durar muito aqui. Vou até o bar Vermelhinho, na Araújo Porto Alegre. Eu vi o Di comentando que estava indo para lá. Essa turma não é de muita festa, mas deve pintar algum discurso.

Não dá outra. Jorge Amado, Prestes e o pintor Santa Rosa tentam convencer Drummond a entrar. O poeta passa batido. Já era tarde da noite. Não ficamos muito tempo. O papo ideológico era maior que a comemoração.

Chegamos no Amarelinho, na Cinelândia, onde uma festa estava acontecendo: Mário Lago, Ataulfo, Wilson Batista, Lupicínio, Lúcio Alves, Miltinho, um monte de gente. Parecia até o tempo do Café Nice. Chegamos junto com Nélson Gonçalves trazendo Aracy e Elizeth a tiracolo.  Ao longe, as irmãs do Convento da Ajuda preparavam seus doces para servir no café da manhã daquela turma. Não esperamos. O Villarino me esperava.

– Martha, estou indo para o Villa.

– Excelente ideia!

Na porta, dou de cara com Paulinho Mendes Campos esperando Vinicius e Tom, que não chegaram. Stanislaw, lá dentro, escrevia mais uma crônica. Antônio Maria e Fernando Lobo discutiam a autoria de “Ninguém me ama”. Bandeira achava a maior graça e perguntava pelo lança-perfume, aquele da sua poesia, e ainda dizia que o dia tinha a cara de Pasárgada. As irmãs Batista, Linda e Dircinha, cantavam “Se todos fossem iguais a você”.

Martha , incansável, entra no táxi e avisa ao Motorista Tião, taxista de plantão do Villa:

– Vamos para o Degrau.

Uma loucura! A turma do cinema em peso: Carvana, Paulinho Saraceni, Antônio Pedro, Marília Pêra, Peréio, Sílvia Bandeira, a turma que do ‘Bar Esperança’. Uma gritaria geral, tinha muita gente. Paulinho avisava à turma para não levantar poeira, podia dar bode. Entramos na onda. Martha conhecia todo mundo na maior intimidade. Tinha sido continuísta de vários filmes nacionais. Não fiquei por fora, meu amigo David Pinheiro comandava uma mesa, e me aboletei. Tinha cineasta de pé em cima das mesas. Uma zorra. Carvana gritava: ” – A cidade merece!”. Saraceni reclamava que ninguém tinha uma câmera na mão e um ideia na cabeça.

A madrugada já sinalizava seu final. O sol estava pintando, colorindo a festa do dia anterior.

– Martha, vou me mandar. Luís Reis está tocando no Baco’s, não vou dar mole. Já que entrei no seu périplo festivo, agora vou até o final. Nessa caminhada esquecemos de passar em Copa e Ipanema. Dolores, Helena de Lima e Maysa deviam estar fazendo a maior festa no Cangaceiro, e Tom, Vinicius e João cantando no Le Rond Point. Perdemos. Só daqui a outros 450.

– Paulinho, você sempre reclamão. Nem passamos na porta da Lapa. Você imagina como estão o Capela, o Bar Brasil , o Enchendo a Linguiça e o Semente, da Tereza Cristina?

– Nem quero imaginar. Pior é saber que Augusto Frederico, Neruda, Cecília, Braga, Clarice, Lygia, estão versejando no Alcazar e a gente perdendo!

O Baco’s estava com as mesas e cadeiras recolhidas, mas o piano de Luís Reis abertíssimo! Martha, já totalmente de pileque, convida Luís para um café da manhã no Jobi.

” – Jobi, não”, alertou Luís. Vamos para a Padaria Rio-Lisboa. A galera da bossa nova está toda lá a essa hora. Carlinhos, Menescal, Ronaldo, Wandinha Vagamente, Narinha e Joyce sempre terminam a noite lá. Ainda mais hoje, que devem ter andado pela cidade, de bar em bar, atrás de festas.

Chegamos à padaria. Uma multidão. Era a única aberta na Zona Sul. Luís, Martha e eu nos incorporamos ao grupo.

Larguei todo mundo e peguei o primeiro táxi que passou.

– Motorista, me acorde no Bar Jóia.

O motorista passa o dedinho numa telinha e descobre o melhor caminho.

Martha tinha razão. Dedinho que sabe das coisas…

Paulinho Lima

httpv://youtu.be/RVNg5Ea6QwY

Programa de índio?

Nunca se soube de índio que fosse atrás do trio elétrico no Carnaval de Salvador; ou em festa de aniversário de criança alheia; ou a cerimônia de formatura de filho também alheio; ou a reunião de condomínio. Portanto, existe programa de índio tão programa de índio que índio algum jamais faria. Daí decorre que a expressão “programa de índio” é uma injustiça cometida contra a inteligência e a filosofia de vida dos indígenas brasileiros.

Roberto Pellegrino

Heureca!

“Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e levantarei a Terra”, dizia Arquimedes, o sábio grego, o mesmo que foi tomar banho e exclamou: “Heureca!” Nós outros tomamos banho todos os dias e não achamos nada. Talvez seja porque tomamos banho de chuveiro, e não de banheira.

Os economistas, tecnocratas e planejadores é que estão sempre “alavancando”. Este detestável gerúndio não lhes sai da boca. Tanto alavancam, que as bolsas de valores estouram.

Heureca, aí vem a minha bisteca!

— O senhor achou? — pergunta a minha empregada, vendo-me procurar de um lugar para outro.

Vivo procurando, mas não acho nada. Recorro a Santo Antônio e a São Longuinho, e eles me recomendam: “Continue a procurar, um dia você achará”.

A vida é uma procura, e geralmente achamos o que não procuramos. Mas já que achamos isto, e não aquilo, é contentar-se.

— Afinal você achou ou não achou? — pergunta Dinorá a seu Amadeu.

Amadeu, que sabe como agradar a mulher, responde:

— Achei, Dinorá, achei você.

O homem que achou a sua mulher não precisa achar mais nada.

Perdi o meu bilboquê, desde os doze anos, e não o acho em lugar nenhum. Também se o achasse, já não saberia o que fazer com ele, pois desaprendi como enfiar o orifício da bola na haste.

Vivemos aprendendo e desaprendendo. A certa altura da vida, talvez mais valha desaprender do que aprender. Despojar-se do excessivo. Acumulamos coisas que, ao fim, não servem para mais nada.

Leve, leve como uma pluma, o vento nos levará. A vida é vento, e sopra, sopra, sem parar.

Annibal Augusto Gama