Rio de Sempre

Rio de Sempre e o Ferreirinha

Quando ainda criança, começando nas letras, sentado na varanda com meu avô, ouvia atentamente histórias que selecionava de uma Revista muito conhecida na época, Seleções Reader’s Digest, e uma das suas seções, a preferida de meu avô, era o “Meu tipo inesquecível”. Vovô gostava muito e eu também. E ontem, quando conversava com um velho amigo, vejo o Ferreirinha. Uma pessoa inesquecível.

– Serginho, sabe de uma coisa? Toda vez que vejo o Ferreirinha acho que viver vale a pena.

– Paulinho, semana passada fez noventinha, 9 ponto 0. Aconteceu uma festa surpresa.

– Como você soube? Teve uma festa surpresa para quem lembrou? Não entendi! Só convidaram  quem telefonou ou mandou e-mail?

– Nada disso. Você conhece o Ferreirinha. Deixou um aviso lá no Bar dos Amigos, no Horto.

“Amigos, ao lerem este aviso, lembrem: no dia 8 de abril faço 90 anos e vou comemorar aqui. Ferreirinha ”

O bar encheu. Até quem não conhecia apareceu. Duas moças levaram bolo. Uma outra, um tremendo prato de brigadeiro, e ainda pintou uma bandeja de casadinho. Foi o maior sucesso. O legal é que dos doces, ele só comeu o bolo, assim mesmo um deles. Do outro pulou fora. Fiquei sabendo que a moça é meio ligada a essas cartomantes de poste e poderia estar fazendo algum trabalho. “O casadinho, então, nem pensar, podiam entender errado”, comentou comigo no dia seguinte. Um detalhe, bebeu muito.

Ferreirinha sempre bebeu. Com moderação, mas constante. Faz tempo, bebemos junto aqui no Jóia. Estava com problemas existenciais. Enquanto eu tomava meu traçado, ele foi de batida de limão com gotas de Steinhager. O pior é que fiquei freguês dessa mistura.

– É uma peça. Só o chamo de Orfeu. Um cara que veio ao mundo para nos dar luz e cura.

– Luz e cura?

– É a etimologia de Orfeu. Aquele que veio curar pela luz. E só olhar e ver seu brilho e disponibilidade para com o outro.

– Por isso chega assim aos 90. A única coisa que o diferencia de Orfeu é que nunca encontrou sua Eurídice.

– Pode não ter encontrado, mas está sempre acompanhado e bem. Tem um tremendo borogodó.

– Engraçado, não tem o perfil de boêmio. É verdade que nunca gostou de trabalhar. Foi engenheiro da prefeitura e descobriu que contestando o chefe ia ser colocado de lado. E assim fez. Os chefes não gostam de contestadores. Assinava o ponto e se mandava para casa. Entrou para a Prefeitura por concurso. Nunca ia ser demitido. Uma vez, pintou um chefe que conhecia suas histórias, e logo o foi promovendo. Não queria confusão. É meu eleitor no Clube de Engenharia e me garante meia dúzia de votos.

– Escrever, ler,  ouvir suas músicas e conversar é seu barato. Tem uma coleção de jazz de fazer inveja, reconhecida até no exterior, o que  já lhe rendeu comentário em uma revista novaiorquina especializada.

Não me diga. Nunca comentou isso com ninguém. Seu  grande barato é ser do tipo moita. Quando alguém descobre algo dele, se abre, explica tudo. Mas falar de si espontaneamente, nem pensar. É um colecionador: selos, cachaças e uísque.

– Estou aqui pensando: esse perfil ‘moita’ não é muito comum entre os cariocas e ele é um carioca. Ele convive com tudo que a cidade oferece: chorinho, samba, praia, cerveja, mulher, esquina, sandália de dedo, jogar conversa fora. É eclético, nunca vi o Ferreirinha de meia. Cara, me lembro dele no Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura. Fui assistir a uma peça chamada “A mais-valia vai acabar, seu Edgar”, do Vianinha. Era o bilheteiro e, no meio da peça, ele me aparece vestido de mosqueteiro, falando aos berros: “Sou o Mosqueteiro do Rei!” E nada mais.

– Estamos aqui falando do Ferreirinha e fico lembrando das poucas vezes que estive com ele. Um síndico aqui perto resolveu fazer um churrasco para ver se ganhava votos no condomínio. Tomou conta da festa. Levou uma garrafa de Havana, a cachaça mais cara que conhecemos, e não ficou por aí, contou uma história da cachaça. “Nos anos da ditadura, um major foi no alambique e mandou o dono mudar o nome da cachaça. Não deu certo, o cara preferiu parar com a fabricação a mudar o nome. Um dia, o general mandou o seu ordenança comprar uma Havana no alambique e soube da notícia. Estava fechado. O general ficou bravo. Mudou o major de região militar e a cachaça voltou a circular”. Essas e outras histórias fazem parte de seu arsenal de causos. É um contador de história. Alguém tinha de recolher essas histórias do Ferreirinha e colocar num livro…

– Você já viu o Ferreirinha na feira? Fica atrás da barraca de vender frango com sua galera. Fazem um churrasquinho de asa de frango e rola a maior cervejada. De vez em quando dou uma passada lá. Minha mulher não gosta muito. Acabo comprando de mais ou de menos.

–  Você acha que se uma Eurídice pintasse na sua vida, seria o mesmo?

– Cara, quando a Belquize morreu, percebi uma certa tristeza no seu semblante. Você sabe como foi o luto?

– Não faço a menor ideia.

– Colocou um mastro na sua janela e pendurou sua cueca a “meio mastro”.

– Desse jeito passa dos 100.

Rio de Sempre presta carinhosa homenagem a um morador do nosso Jardim Botânico. Um Orfeu que viaja dentro da sua solidão. Uma pessoa inesquecível. Colecionador de amigos.

Paulinho Lima

Rio de Sempre

Em plena Copa do Mundo de 2010, no blog Sobre Isso e Aquilo, da querida Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, nosso Paulinho batia bola com Galeano e outros craques. Olho no lance, amigos.

Rio de Sempre entra em clima de Copa e conversa com um hermano

Esse hermano se chama Eduardo Galeano, uruguaio, chegando aos 70’s. Conhece a América Latina como ninguém. Ouviu histórias da nossa gente e recontou em seus livros. Não guardou para si.

Quando se separou de sua primeira mulher, disse: “Só quero levar meus quadros, livros e discos…”. Descobriu que era só o que tinha.

Nasceu em 3 de setembro de 1940, em Montevidéu, no seio de uma família católica e de classe média. Na infância, Galeano tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol. Tal desejo é retratado em algumas de suas obras, como ‘O Futebol ao Sol e à Sombra’. Na adolescência, Galeano trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco.

Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960, como editor do ‘Marcha’, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti, este um dos maiores poetas da América Latina. Em 1971 escreveu sua obra-prima ‘As veias abertas da América Latina’. Em princípios de 2007, Galeano caiu seriamente doente, mas recuperou-se, após uma bem-sucedida cirurgia em Montevidéu.

Entre suas principais obras, destaco (para meu gosto):

Crónicas Latinoamericanas; Vagamundo; La Canción de Nosotros; Días y Noches de Amor y de Guerra; Voces de Nuestro Tiempo; O Livro dos Abraços; Nós Dizemos Não; Amares; Las Palabras Andantes; O Futebol ao Sol e à Sombra; Mulheres; Bocas del Tiempo. Espelhos, uma quase história universal, o único que ainda não li.

Galeano é um amante do futebol e neste período de Copa do Mundo peço licença para contar algumas de suas histórias sobre futebol.

Foi em 1958, na Itália. A seleção do Brasil jogava contra o Fiorentina, a caminho do Mundial da Suécia.

Garrincha invadiu a área, deixou um beque sentado e se livrou de outro. Quando já tinha enganado até o goleiro, descobriu que havia um jogador na linha do gol. Garrincha fez que sim, fez que não, fez de conta que chutava no ângulo e o pobre coitado bateu com o nariz no trave. Então, o arqueiro tornou a incomodar. Garrincha meteu-lhe a bola entre as pernas e entrou no arco.

Depois, com a bola debaixo do braço, voltou lentamente ao campo. Caminhava olhando para o chão, um Chaplin em câmera lenta, como que pedindo desculpas por aquele gol que levantara a cidade de Florença inteira.

No final dos anos sessenta, o poeta Jorge Enrique Adoum voltou ao Equador, depois de longa ausência. Nem bem chegou, cumpriu o ritual obrigatório da cidade de Quito: foi ao estádio ver jogar o time do Aucas. Era uma partida importante, e o estádio estava repleto.

Antes do início, fez-se um minuto de silêncio pela mãe do juiz, morta na véspera. Todos se levantaram, todos calaram. Em seguida, um dirigente pronunciou um discurso destacando a atitude do esportista exemplar que ia apitar a partida, cumprindo com seu dever em tão tristes circunstâncias. No meio do campo, cabisbaixo, o homem de preto recebeu o denso aplauso do público. Adoum piscou, beliscou um braço: não podia acreditar. Em que país estava? As coisas tinham mudado muito. Antes, as pessoas só se ocupavam do árbitro para gritar ‘filho da puta’.

E começou a partida. Aos quinze minutos, explodiu o estádio: gol do Aucas. Mas o árbitro anulou o gol por impedimento. Imediatamente a multidão recordou a finada autora de seus dias:

‘Órfão da puta!’ – rugiram as arquibancadas.

Em 1916, no primeiro campeonato sul-americano, o Uruguai goleou o Chile por 4X0. No dia seguinte, a delegação chilena exigiu a anulação da partida “porque o Uruguai escalou dois africanos”. Eram os jogadores Isabelino Gradin e Juan Delgado.

Bisneto de escravos, Gradin tinha nascido em Montevidéu. As pessoas se levantavam quando ele se lançava numa velocidade espantosa, dominando a pelota como quem caminha, e, sem se deter, evitava os adversários e arrematava na corrida. Tinha cara de santo e quando fazia cara de mau, ninguém acreditava.

Juan Delgado, também bisneto de escravo, havia nascido em Florida, no interior do Uruguai. Delgado brilhava nos carnavais fazendo a bola dançar nos gramados. Enquanto jogava, conversava e gozava os adversários:

‘Larga esse cacho!’ – dizia, levantando a bola. E lançando-a, dizia:
‘Sai fora, que lá vai areia!’

O Uruguai era, naquela época, o único país do mundo que tinha jogadores negros na seleção nacional.

Em 1993, a maré do racismo subia. Já dava para sentir na Europa inteira o cheiro da peste, como um pesadelo que volta, enquanto aconteciam alguns crimes e eram promulgadas algumas leis contra os imigrantes dos países que tinham sido colônias. Muitos jovens brancos não conseguiram trabalho e as pessoas de pele escura pagavam o pato.

Naquele ano, uma equipe da França ganhou, pela primeira vez, a Copa Europeia. O gol da vitória foi obra de Basile Boli, um africano da Costa do Marfim, que cabeceou um escanteio cobrado por outro africano, Abedi Pelé, nascido em Gana. Ao mesmo tempo, nem os mais cegos militantes da supremacia branca podiam negar que os melhores jogadores da Holanda continuavam sendo os veteranos Ruud Gullit e Frank Rijkaard, filhos de homens de pele escura vindos do Suriname, e que o africano Eusébio tinha sido o melhor de Portugal.

Ruud Gullit, chamado de Tulipa Negra, foi sempre um atuante inimigo do racismo. Entre uma partida e outra cantou, de guitarra na mão, em vários concertos organizados contra o apartheid na África do Sul, e, em 1987, quando foi eleito o jogador que mais se destacou na Europa, dedicou sua bola de ouro a Nelson Mandela, que há muitos anos estava encerrado numa prisão pelo crime de acreditar que os negros são pessoas.

Gullit teve o joelho operado três vezes. Nas três vezes, os jornalistas o consideravam liquidado. Mas ressuscitou, de pura vontade.

‘Eu, sem jogar, sou como um recém-nascido sem chupeta.’

Suas pernas velozes, goleadoras, e seu físico imponente coroado por uma melena de tranças rastafári, conquistaram o fervor popular nas equipes mais poderosas da Holanda e da Itália. Por sua vez, Gullit nunca se dera bem com técnicos nem com dirigentes, por seu costume de desobedecer, e também por sua obstinada mania de denunciar a cultura do dinheiro, que está transformando o futebol em assunto de Bolsa de Valores.

Em 1919, o Brasil venceu o Uruguai por 1X0 e se sagrou campeão sul-americano. O povo se lançou às ruas do Rio de Janeiro. Presidia os festejos, levantada como um estandarte, uma barrenta chuteira, com um cartazinho que proclamava “O glorioso pé de Friedenreich”. No dia seguinte, aquela chuteira que tinha feito o gol da vitória foi parar na vitrine de uma joalheria, no centro da cidade.

Arthur Friedenreich, filho de um alemão e de uma lavadeira negra, jogou na primeira divisão durante vinte e seis anos, e nunca recebeu um centavo. Ninguém fez mais gols do que ele na história do futebol. Fez mais gol que o outro artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador profissional. Friedenreich somou 1329 gols. Pelé, 1279.

Esse mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses (ele ou o diabo que se metia pela planta de seu pé). Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto à fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro, o que é brasileiro de verdade, não tem ângulos retos. São como as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.

Rio de Sempre, aproveitando a onda da Copa Africana, fala de uma série de jogadores negros que transformaram o futebol em arte.

O escritor Galeano, um apaixonado por futebol, soube como ninguém fazer desse esporte um momento de prazer e graça.

Encerro deixando com meus amigos três pensamentos do nosso cronista e poeta Galeano, um belo hermano:

“Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: ‘Proibido cantar’. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: ‘É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem’. Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.”

“Quando as palavras não são tão dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar.”

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Paulinho Lima

Referências: ‘Futebol ao Sol e à Sombra’, Editora L@PM, 1995.

Notas de sites diversos sobre Eduardo Galeano.

Rio de Sempre

Feliz o blog que conta com um astral desses…

Viva o Limaaaaaa!!!

RIO DE SEMPRE E O 1915

1915 – a cidade vive um tempo confuso. Pinheiro Machado, político influente, escrevia em um dos nossos jornais: “É possível que durante a convulsão que nessa hora sacode a República em seus fundamentos, possamos submergir (…). É possível mesmo que o braço assassino, impelido pela eloquência delirante das ruas, nos possa atingir.” Pouco dias depois era assassinado. A 1ª Guerra Mundial se alastra. O governo brasileiro se mantém neutro. Vários movimentos a favor e contra nossa neutralidade se alastram pela cidade: passeatas, comícios relâmpagos, e até uma Revolta, a de Sargentos, criam um clima de agito.

A Belle Époque nos arruma. Vislumbra-se  um futuro de anos dourados. João do Rio nos convida para irmos para a rua. As ruas cariocas de João não eram as da política. O cronista João escrevia sobre os costumes da cidade. O citadino se divertia em circos, confeitarias, cafés, e começam a aparecer os primeiros cafés dançantes. Nos jornais, Olavo Bilac, Coelho Neto, Emílio de Meneses embelezam o país com seus textos. Teatros dão prova de vitalidade e o cinema começa a roteirizar produções de conteúdo literário.

1915 – um ano importante para a história do país. Um ano de nascimentos. Um ano de vida nova.

Hoje, num final de março de 2015, me assusto. De fato, um ano secular e com surpresas cotidianas.

Estamos comemorando um século do humor e canto.

Carequinha estaria fazendo 100 anos e com ele Grande Otelo e Zé Trindade. Carequinha desenhou minha infância. Era freguês assíduo do Circo do Carequinha na TV Tupi. Na rua em que morava, disputávamos quem melhor imitava suas cambalhotas.

Zé Trindade, um cômico diferenciado pelo seu estilo de fazer graça. Criou um jargão que ficou para a história do humor: “Mulheres cheguei!”. Era meu vizinho e frequentei algumas poucas vezes sua casa, por conta de suas filhas, que organizavam festas juvenis. Na sala, com um ar sério e controlador, Zé assumia a ordem. O Zé é sempre lembrado, aqui no bairro, pelo seu humor e pela educação que deu a seus filhos.

Grande Otelo, nunca vi pessoalmente, mas por ele tinha uma grande admiração. Com certeza, maior que seu tamanho físico. Grande Otelo, um dos nossos maiores artistas, um multimídia. Uma vez fui convidado para o lançamento, pós-morte, de seu livro de poesias, “Bom Dia, manhã”. Esse lado de Grande Otelo é pouco conhecido. Acho que foi a primeira vez que o lançamento de um livro foi na rua. Um barato de festa. A Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, ficou pequena.

”A letra deste fado

É feita com ternura

É uma letra que fala

De uma linda criatura

Saiu do coração

A letra deste fado

Pra que ninguém saiba

Não vou dizer seu nome”

Acordo com um telefonema de Soninha Terapeuta, minha grande amiga sumida.

– Paulinho, hoje acontece um evento com a nossa cara. Na Livraria Arlequim, no Paço Imperial, uns amigos vão cantar e tocar músicas da Billie. É o lançamento de um álbum com todas as suas músicas gravadas. Billie, se viva, estaria fazendo 100 anos.

– Soninha, estou sabendo. Li no jornal e não vou poder ir. Podemos nos encontrar à noite?

– Combinado.

Será que ela está sabendo que a Édith Piaf também estaria fazendo 100 anos? Ambas cantaram e ainda cantam para o mundo.

O nosso Orlando Silva, cantor das multidões, também estaria fazendo 100. Tive oportunidade de vê-lo cantando numa churrascaria na Tijuca. Casa cheia. Mesmo já caído, conseguia encantar seus fãs. Um artista vítima de suas paixões e vícios. Nos deixou saudade.

Carmen Miranda, tinha uma irmã que cantava com graça e talento, Aurora Miranda. Uma festa muito simples num bar da boemia da Lapa vai prestar uma homenagem aos seus 100 anos. Aurora foi quem lançou o hoje Hino da Cidade: “Cidade Maravilhosa”, de André Filho. Uma cantora como poucas. Lamentei não ter ido homenageá-la. Num pais em que a memória cultural se esvai pelo mundo do esquecimento ainda existem pessoas que se preocupam com nossa história. Aurora Miranda, uma lembrança merecida.

Vou ao encontro de Soninha e a encontro ainda emocionada com a festa de Billie.

– Paulinho, o Rio estava na Arlequim.

– Quanta gente interessante fazendo 100 anos: Aurora Miranda, Grande Otelo, Zé Trindade, Orlando, Billie, Carequinha, e a minha paixão, a francesa Édith. Você já se deu conta?

– Sempre pensei que sua paixão francesa fosse Juliette Gréco.

– Também, mas pode colocar na sua lista a Simone de Beauvoir.

– Paulinho, coloca na sua lista dos 100. O maior de todos.

– Quem você matou?

– Frank Sinatra.

Rio de Sempre toma dois uisquinhos com Soninha e aproveita, no caminho de volta  para casa, para pedir bênção aos seculares de 15.

Aqui da minha varanda, com uma inspiradora lua, véspera de cheia, ligo minha vitrola. Quem ouvir?

Fui de Frank e, o melhor, meu vizinho que sofre de insônia, agradeceu.

Não tenho dúvidas de que quando chegar o 16, outros seculares vão aparecer. “O mundo é assim”, como diz o nosso Alvaiade, compositor da Velha Guarda da Portela.

O dia se renova todo dia

Eu envelheço cada dia, cada mês

O mundo passa por mim todos os dias

Enquanto eu passo pelo mundo uma vez

A natureza é perfeita

Não há quem possa duvidar

A noite é o dia que dorme

O dia é a noite ao despertar.

Paulinho Lima

 

Rio de Sempre

BUTTER

RIO DE SEMPRE… CAMINHA

O dia é hoje, março de um ano que batizamos de 2015. Duas passeatas aconteceram: sexta e domingo. Rio de Sempre se fez presente em ambas. Duas festas com coloridos diferentes. Lados bonitos e feios se misturavam. A de sexta, num cair de tarde escuro e sem brilho. Pessoas cantavam, não cantei. Não tinha emoção. A outra, um domingo de sol pouco brilhante, cenário fantasiado pela esperança. Muita emoção.

Entramos no caminho e seguimos. Um chamamento de quem acreditava no clamor de uma gente que pedia respeito e ordem. Lembrei do canto de Nicolas Guillén, poeta cubano, e do seu poema ‘Sigue’…

“camina, caminante,

sigue;

camina y no te pare,

sigue (…)”

Solitário caminhava no meio da multidão. Crianças,  jovens adultos, todos os gêneros. Todas as falas. Acenava para algumas e virava a cara para outras. Mas em todas uma coisa em comum: acreditavam nas suas faixas. Uma ode à espontaneidade. Democracia.

“Cuando pase por tu casa

no le diga que me viste:

camina, caminante,

sigue.”

Continuei caminhando convencido que meu canto coral expressava sentimento.

Acenava para alguns poucos conhecidos, outros abraçava com alegria. Feliz.

“camina y no te pare,

sigue;

acuérdate de que e mala,

sigue! ”

Procuro pessoas, não as encontro, ou melhor, estava diante de um grande encontro de almas. Um grito forte embalava a todos. Podemos.

Cansei e parei, os caminhantes continuavam e seguiam. Uma certeza: um caminho sem volta.

Paro de frente para o mar e o vejo sendo abraçado pelo céu. Era o horizonte. Um destino.

Quero cantar sozinho e vejo pescadores chegando carregando seus arrastões. Lembro de Edu e Vinicius. Vou mais longe e chego a abril de 1965. Já se passam 50 anos e lá estava cantando a canção que eternizou Elis e uma geração. Canto.

Em 1965 vivíamos o início de anos duros. Nossa cultura reage. ‘Arrastão’ ensina o caminho. Poetas embarcam nessa canção. Cantamos mais forte e nosso som não se apagou.

Elis continuava balançando seus braços num gestual que convidava a não nos intimidar. Uma questão de tempo.

“Eh! tem jangada no mar
Hei! hei! hei!
Hoje tem arrastão
Eh! todo mundo pescar
Chega de sombra João…”

Valha-me Deus
Nosso Senhor do Bonfim
Nunca jamais se viu
Tanto peixe assim..”

Olhei para trás, minha rede cheia. Minha gente na rua cantando “que era brasileiro com muito orgulho e amor”.

Volto para minha casa, depois de parar  num boteco desconhecido e brindar à multidão.

Tomo outra e volto aos 65, o primeiro festival, e me lembro da canção que ganhou o segundo lugar: “Valsa de um amor que não veio”. Seus autores, Vinicius e Baden.

“(…) E eu tenho um templo no coração
Mas as palavras não têm som nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos
E te amando em prantos
Cantar novos cantos
Proclamando o amor.”

Brindo ‘Arrastão’. A canção que nos encheu de esperança e canto, novos cantos proclamando o amor. Não esqueço o segundo lugar.

Parabéns, cinquentão. Siga e não pare. Sigamos. Vamos continuar jogando arrastão. Elis ainda vive com seu gestual de chamamento.

Rio de Sempre nesse domingo de março nunca foi tão Rio Brasileiro.

Paulinho Lima

Rio de Sempre

(Casamento de Cartola e Dona Zica, Rio de Janeiro,1964, em foto preciosa de Rubens Barbosa)

RIO DE SEMPRE E OS 5 MINUTOS PARA O DIA TERMINAR

Faltavam 35 minutos para o dia terminar. Eu aqui no meu bar de plantão filosofando sobre tudo. Um exercício que vez por outra faço, mas a solidão em dia de festa é cruel. Na vida, além dos improváveis, existem os imponderáveis, e surge do nada a Martha, linda como sempre. Martha é uma pessoa que ainda me faz votar e abandonar minha alienação. Votamos na mesma seção eleitoral. É onde nos encontramos.

Já chega falando e cobrando: – Comemorou muito?

– Que nada, fiquei por aqui mesmo. Vão acontecer muitas festas durante o ano.

– Verdade, o carioca é festeiro. Agora, tem uma coisa, amigo. Nessa tristeza não se comemora nada.

– Engraçado, você nunca gostou do Bar Jóia.

– Tenho preferências melhores.

– Mesmo a essa hora da noite?

– Paulinho, se estou na rua é para curti-la com tudo que a noite possa me oferecer. Ainda mais num dia em que a cidade está em festa. Você viu o foguetório?

– Ver não vi, assisti na televisão.

– Que tristeza… Que tal sair por aí?

Não resisti ao convite, nem às minhas tentações, e não mais que de repente me vejo chegando no Lamas. Na porta, Mário de Andrade conversava com Emílio de Meneses e Olegário Mariano. Bastos Tigre gritava : “Se é Bayer é bom, é melhor ainda ser carioca no dia dos seus 450 anos.”

Martha vibrava com a nossa chegada e foi logo pedindo um chopp.

– Me dá a sua bolacha. Vou pedir autógrafos.

– Toma.

Martha volta com as duas bolachas cheias. Niemeyer, Getúlio, Portinari, Di, Monteiro Lobato…  E outras assinaturas que, por conta da pressa, não me recordo. A turma estranhava a ausência de Osvaldo Aranha, o inventor de um filé famoso, e das francesas inspiradoras do “Filé à francesa”.

– Vamos para o Bar Luiz. Está rolando uma tremenda festa e uma grande confusão. Os estudantes do Pedro II estão querendo quebrar o bar.

– Como você sabe?

– Sabendo. Meu dedinho é um tremendo telefone. Conta tudo.

Era verdade. O Bar Luiz, que anteriormente se chamava Berlim, e seu dono, o alemão Adolph, estavam assustadíssimos. Estudantes à porta queriam quebrar o bar por conta de imaginá-lo um nazista enrustido. Mas tudo foi resolvido. Ary Barroso se colocou na porta: ” – Aqui, enfurecidos, nem da torcida do Flamengo entram. A cidade comemora seu aniversário, é dia de festa e de muita alegria.”  Sacou sua gaitinha e tocou o hino do Flamengo. Os estudantes voltaram para o colégio cantando: “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo”. Ary entrou para a história como o homem que salvou Seu Adolph e o seu bar. Acalmados os ânimos, os presentes cantavam “Isso aqui ô, ô, é um pouquinho de Brasil…”, animados pelos Novos Baianos, sob o olhar assustado de Carmen Miranda e Chico Alves. Tomamos mais um chopp e degustamos um salsichão com salada de batatas. Eis que chega o Albino Pinheiro com sua namorada, mulata linda em seus 1,80m. Foi o suficiente para a turma mudar a música e passar a cantar Faceira. Ary vibrava. No fundo ouvíamos a voz do Jaguar e da esquerda festiva. ” – Nem em Berlim se come tão bem.”

– Paulinho, essa turma do Pasquim vai toda para o Zicartola. Acho melhor a gente se mandar para pegar lugar.

Não deu outra, casa cheia: Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Dona Ivone, Roberto Ribeiro, Zé Kéti, Almir Guineto, Billy Blanco, Haroldo Lobo, Lamartine e João Nogueira já comemoravam os 450 anos da cidade. Martha tinha prestigio e uma mesa nos recebeu. Ganho logo umazinha de Parati e bebo de um gole só. A noite cresceu. Dona Zica e Cartola, proprietários do bar, homenageavam Zé Kéti  e a cidade, nada mais justo. Sua composição “Eu sou o samba”, uma ode à nossa música, era cantada como se fosse um hino. Martha não parava, com suas bolachas na mão. Só pegando autógrafos.

– Martha, estou chegando ao meu limite.

– Cara, a Colombo está bombando. E é para lá que vamos.

– Você enlouqueceu…

Chegamos e somos logo saudados por Bilac. Um cálice de Porto chega às minhas mãos – é a bebida favorita do poeta. Pela rua passa João, o do Rio, e não entra. Não gosta do seu Lebrão, proprietário da casa. Uma empadinha de camarão e um ovo recheado surgem como do nada. Degusto prazerosamente. Os vitrais da Colombo tremem. Paula Ney, cheio de graça, chega contando as últimas da cidade. Num canto, sem muito alarde, Chiquinha Gonzaga conversa com Machado. Lima Barreto se recusa a entrar. Já estava pronto para se mandar para o Engenho de Dentro. ” – Isso aí está cheio de burgueses!”, exclama. Uma expectativa: o imperador Pedro podia chegar a qualquer momento.

– Paulinho, vamos nos mandar. Essa turma não vai durar muito aqui. Vou até o bar Vermelhinho, na Araújo Porto Alegre. Eu vi o Di comentando que estava indo para lá. Essa turma não é de muita festa, mas deve pintar algum discurso.

Não dá outra. Jorge Amado, Prestes e o pintor Santa Rosa tentam convencer Drummond a entrar. O poeta passa batido. Já era tarde da noite. Não ficamos muito tempo. O papo ideológico era maior que a comemoração.

Chegamos no Amarelinho, na Cinelândia, onde uma festa estava acontecendo: Mário Lago, Ataulfo, Wilson Batista, Lupicínio, Lúcio Alves, Miltinho, um monte de gente. Parecia até o tempo do Café Nice. Chegamos junto com Nélson Gonçalves trazendo Aracy e Elizeth a tiracolo.  Ao longe, as irmãs do Convento da Ajuda preparavam seus doces para servir no café da manhã daquela turma. Não esperamos. O Villarino me esperava.

– Martha, estou indo para o Villa.

– Excelente ideia!

Na porta, dou de cara com Paulinho Mendes Campos esperando Vinicius e Tom, que não chegaram. Stanislaw, lá dentro, escrevia mais uma crônica. Antônio Maria e Fernando Lobo discutiam a autoria de “Ninguém me ama”. Bandeira achava a maior graça e perguntava pelo lança-perfume, aquele da sua poesia, e ainda dizia que o dia tinha a cara de Pasárgada. As irmãs Batista, Linda e Dircinha, cantavam “Se todos fossem iguais a você”.

Martha , incansável, entra no táxi e avisa ao Motorista Tião, taxista de plantão do Villa:

– Vamos para o Degrau.

Uma loucura! A turma do cinema em peso: Carvana, Paulinho Saraceni, Antônio Pedro, Marília Pêra, Peréio, Sílvia Bandeira, a turma que do ‘Bar Esperança’. Uma gritaria geral, tinha muita gente. Paulinho avisava à turma para não levantar poeira, podia dar bode. Entramos na onda. Martha conhecia todo mundo na maior intimidade. Tinha sido continuísta de vários filmes nacionais. Não fiquei por fora, meu amigo David Pinheiro comandava uma mesa, e me aboletei. Tinha cineasta de pé em cima das mesas. Uma zorra. Carvana gritava: ” – A cidade merece!”. Saraceni reclamava que ninguém tinha uma câmera na mão e um ideia na cabeça.

A madrugada já sinalizava seu final. O sol estava pintando, colorindo a festa do dia anterior.

– Martha, vou me mandar. Luís Reis está tocando no Baco’s, não vou dar mole. Já que entrei no seu périplo festivo, agora vou até o final. Nessa caminhada esquecemos de passar em Copa e Ipanema. Dolores, Helena de Lima e Maysa deviam estar fazendo a maior festa no Cangaceiro, e Tom, Vinicius e João cantando no Le Rond Point. Perdemos. Só daqui a outros 450.

– Paulinho, você sempre reclamão. Nem passamos na porta da Lapa. Você imagina como estão o Capela, o Bar Brasil , o Enchendo a Linguiça e o Semente, da Tereza Cristina?

– Nem quero imaginar. Pior é saber que Augusto Frederico, Neruda, Cecília, Braga, Clarice, Lygia, estão versejando no Alcazar e a gente perdendo!

O Baco’s estava com as mesas e cadeiras recolhidas, mas o piano de Luís Reis abertíssimo! Martha, já totalmente de pileque, convida Luís para um café da manhã no Jobi.

” – Jobi, não”, alertou Luís. Vamos para a Padaria Rio-Lisboa. A galera da bossa nova está toda lá a essa hora. Carlinhos, Menescal, Ronaldo, Wandinha Vagamente, Narinha e Joyce sempre terminam a noite lá. Ainda mais hoje, que devem ter andado pela cidade, de bar em bar, atrás de festas.

Chegamos à padaria. Uma multidão. Era a única aberta na Zona Sul. Luís, Martha e eu nos incorporamos ao grupo.

Larguei todo mundo e peguei o primeiro táxi que passou.

– Motorista, me acorde no Bar Jóia.

O motorista passa o dedinho numa telinha e descobre o melhor caminho.

Martha tinha razão. Dedinho que sabe das coisas…

Paulinho Lima

Rio de Sempre

Vimos lendo e ouvindo maravilhas sobre os 450 anos do Rio, mas faltavam as palavras apaixonadas do nosso carioca maior… A elas, pois.

RIO DE SEMPRE, RIO DE TODOS

Contar a história de uma cidade, tanto oficial como oficiosamente, é falar de seus habitantes, visitantes, governantes e amigos que por aqui andaram, com suas conquistas, suas obras, seus sonhos, sua  irreverência e que, com graça, ornaram seus espaços urbanos.

O Rio de Janeiro não é diferente de outras cidades.Todas têm a sua história, que é contada pelo falar e olhar dos que nela vivem. A nossa verdade é a verdade do nosso olhar e da história que criamos, contamos e conversamos. E assim vamos criando o espírito da nossa arte. A boa conversa tem humor, novidades, curiosidades, histórias passadas e vividas, as quais acabam se perpetuando no nosso imaginário e vão sendo transferidas como um saber que é de todos.

Definir o carioca como uma pessoa com certo viés cultural é minimizar a diversidade da cidade e de seus habitantes. Somos a síntese de várias culturas, receptáculos de verdades e mentiras, de jeitos, de paixões e saudades, de encontros e andares. Somos uma cidade que recebe pessoas de todas as origens e formações. O Rio cresce nas suas diferenças. Como nos fala Sílvio Romero, conhecedor profundo da sociologia e da etnologia brasileira: “Os artífices da nossa mestiçagem foram o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.”

A leitura que fazemos da cidade é a do olhar da sua gente. Não temos nunca a pretensão de nos vangloriar de uma coisa que sabemos ser de todos. Por isso somos maravilha, temos fama de desordeiros, gozadores, arruaceiros, anárquicos, trabalhadores, religiosos, místicos, esportivos, amantes de tudo, de todas e de todos, gente dos jeitinhos ou sem jeito, dos afinados e desafinados, porque nosso canto é único e nosso cantar é a harmonia das nossas inquietações: numa esquina criticamos, para esquecermos na outra. Enaltecemos nossas conquistas afetivas, nossas belezas naturais, nossos casos e até nosso caos.

Sem arrogância, mas com alegria, descobrimos num simples bate-papo de esquina ou de bar o que a ciência leva tempo pesquisando. Mas o que somos de fato é contadores das histórias que inventamos, fofocamos, ou que nos contaram, sempre à maneira de cada um.

A quem interessa saber que D.João VI, numa procissão de Corpus Christi, teve uma crise digestiva; que um prefeito mandou encher de pardais portugueses nossas praças e acabar com os tico-ticos brasileiríssimos; que D.Pedro II se correspondia com mulheres lindas, elegantes e cultas pelo mundo afora; que as Confeitarias Pascoal e Colombo eram os locais onde se encontravam jornalistas, artistas, poetas e boêmios que, com suas artes e blagues, animavam e abrilhantavam o cotidiano da cidade; que D. Marianinha, mulher do Marechal Deodoro, proibiu a entrada, em sua casa, do coronel que trazia o manifesto da República para ser assinado; que os Bota-Bicas alegravam as ruas sujas do largo do Paço e que a primeira revolta contra o governo da nossa cidade se chamou “Revolta da Cachaça”? E são tantas as histórias, algumas até contraditórias, pouco importa, que, com certeza, animam e fazem parte do nosso cotidiano cultural e social. Gostamos de cultuá-las através de mitos, ritos e verdades.

Todo o anedotário carioca já registrado, escrito em biografias, passado oralmente a amigos e preservado, ainda hoje, agrega valor à nossa história. Marca atitude, comportamento, ambiente, conceitos e preconceitos, contextualiza valores de uma época e de um tempo. Mudam os personagens, mas as histórias ficam, ganham novas roupagens, outros atores, outros cenários.

São 450 anos de histórias, história de nossa gente, seus casos, destemperos, graças, pileques, prisões, preocupações, inspirações e belezas que emolduram nosso cenário.

Cidade dos nossos Vice-Reis que chegaram, se aboletaram e nos embelezaram, do Príncipe João, dos Índios Tamoios, nossos primeiros habitantes, dos poetas e boêmios Emílio de Meneses, Olavo Bilac, Paula Ney, Bastos Tigre, e tantos outros… Do Marechal Deodoro, dos dois Pedros, o Primeiro e o Segundo, dos nossos imortais da Academia de Letras, políticos, jornalistas, sambistas e chorões, boêmios, pintores, chargistas, uns mais conhecidos que outros, uns até totalmente desconhecidos, mas que vivenciaram momentos marcantes da vida social da cidade e que servem de exemplo para as gerações atuais.

O Rio recebe parabéns e agradece, com carinho especial, aos cronistas e suas crônicas, estilo literário aqui criado, e que nos encanta. Obrigado, Rubem Braga, Antônio Maria, Álvaro Moreyra, Cecília, João do Rio, Elsie, Carlinhos de Oliveira, Fernando Sabino, Novaes, José de Alencar, Clarice, Stanislaw Ponte Preta, e todos os que esqueci.

Obrigado, Elizeth, Marlene, Emilinha, Maysa, Elis, Dolores, Sílvio, Roberto, Nelson, Orlando, Lúcio, Miltinho, artistas que, com seus cantos e encantos, compuseram o fundo musical do Rio. Cantai parabéns para os nossos 450! A cidade merece.

Paulinho da Viola, Jorge Aragão, a turma do Casuarina, Carlos Cachaça, Ney Lopes, Mussum, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Dona Ivone, Beth Carvalho, Cartola, Zé Keti João Nogueira, Elton Medeiros, Blocos de todos os Bairros e Escolas de Samba, obrigado! Afinai vossos pandeiros, tamborins, surdos, cuícas, cavaquinhos e violões. O Rio pede passagem. É tempo de festa, de samba e chorinho.

Machado, Lima Barreto, Noel, Tom, Bandeira, Drummond, Caymmi, Vinicius, Pixinguinha, Paulinho Mendes Campos, Mário Lago, Chico, Ary Barroso, Billy Blanco, muito obrigado! Somos mais belos e definitivos com sua prosa, sons e versos.

“Poetas, seresteiros, cantai! É chegada a hora.” Este dia é de todos. E sempre.

Paulinho Lima

NR: Na foto do filho da blogueira, vista de um restaurante de Santa Teresa, em tarde memorável.

Rio de Sempre

RIO DE SEMPRE E O LUIZ DA PENHA                 

O samba corre
nas veias dessa pátria-mãe gentil
É preciso atitude
De assumir a negritude
Pra ser muito mais Brasil.

(Luiz Carlos da Vila)

 

– Olha a Beija-Flor ai, gente!!!

Não olhei. Acho que foi a primeira vez na vida que não obedeci a ordem de um  mestre de bateria ou de um puxador de samba. Já desfilei bastante, estou no lucro. Assistir em camarote ou nas arquibancadas, pouco, mas dei sorte: vi a Vila entrar com seu ‘Kizomba’ em tom de palha, um visual que não me sai da cabeça. A minha estreia  foi na Presidente Vargas, em 1963, com o Salgueiro cantando uma tal de Xica da Silva. Em 1984, na inauguração do sambódromo, lá estava eu na Mangueira quando ela chegou ao final do desfile e voltou ao ponto de partida com as arquibancadas cantado nosso Braguinha. Em 1986, voltei ao Sambódromo, aprendendo que tem ‘Xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé’. Minha Mangueira pedia à lua cheia para levar a jangada pro mar e fantasiava a alvorada para exaltar Caymmi e sua velha Bahia. Deixava claro para todos que o mundo se encanta com cantigas que fazem sonhar.

Andei desfilando em outras escolas, como a São Clemente e a Em Cima da Hora, mas desisti. Meu tempo passou.

Mas, neste ano da graça de 201, me enchi de vontade ao saber que a Viradouro resgatava um samba de um amigo e parceiro, o Luiz Carlos da Vila. Ameacei ligar para Jane, sua mulher, e pedir uma fantasia e um espaço em uma das alas. Não fui em frente. Resolvi torcer de longe. A Viradouro recebeu muita chuva do céu. Não se inibiu, a arquibancada cantou “nas veias do Brasil…”. Tenho certeza, a chuva eram lágrimas do poeta Luiz Carlos da Vila da Penha.

Luiz Carlos era um poeta. De pouca instrução, um autodidata. Conhecia todos os nossos poetas e recitava todos. “- Minha escola é a poesia. Lendo Bandeira, Murilo Mendes, Lêdo Ivo, Castro Alves, encontrei meu saber poético.”

Era com os compositores de samba que mais se identificava. Seus grandes mestres foram Candeia, Cartola, Nei Lopes, Elton Medeiros, Carlos Cachaça, Ataulfo Alves, Jorge Aragão… Os ensaios do Bloco Cacique de Ramos foi seu primeiro palco. Daí em diante, brilhou em outros ambientes do samba. O mundo do samba era seu mundo. Suas poesias abrilhantavam encontros de poetas.

Discordou de seu amigo Nelson Sargento quando este compôs  o samba: “O samba agoniza mas não morre”.

– O samba nunca agonizou, pelo contrário, renasce diariamente.

Recentemente, fui convidado por uma amiga para conhecer a Igreja da Penha. Só conhecia o bairro e seu parque de diversão, Shangri-la. Nunca tinha subido suas escadarias. Conhecia algumas das histórias de suas festas. Encontrei o parque abandonado. Um elevador leva turista até a Igreja. Fiquei maravilhado com o que vi. Limpa, preservada, em seu interior a imagem da velha Penha de França, um conforto para nossos sentimentos. Rezei uma Ave Maria e fui para o pátio olhar a cidade. Me convenci que é da Penha que se tem a vista mais bonita do Rio de Janeiro.

Não concordo com alguns historiadores da cidade que dizem: “Se a Penha fosse na Zona Sul da cidade seria uma das maravilhas do mundo”. Já é, só que esquecida pelas autoridades e cariocas. Uma dívida.

Certa vez, Luiz Carlos comentou que quando criança era lá que brincava: soltava pipa, jogava bolinha de gude e ouvia dos mais velhos as histórias das famosas festas que lá aconteceram. Não tive dúvida, foi aqui que encontrou inspiração para sua poesia. Luiz Carlos morou, quando criança, na Travessa da Amizade, próxima às escadarias.

Não conheço nada da Guiné Equatorial nem de seu modelo político, particularidades de seus governantes…  E vou continuar não me interessando. Vou continuar conhecendo gente da minha terra que tão bem representa nossa cultura. Prefiro meus poetas com suas poesias e canções.

Neste ano,em outubro, a Igreja de Nossa Senhora da Penha de França faz 380 anos. De repente, nos seus jardins, os beija-flores estarão acarinhando nossos poetas. Todos os que cantam e cantaram nossa gente. Como o Luiz.

Rio de Sempre

RIO DE SEMPRE, O ‘BAIXO BEBÊ’ E O TADEU

“tuas ondas estão presas em ti como folhas nos ramos. Podes estender os braços até muito longe, apalpar as areias e as pedras, bater nas montanhas, até agarrar e trazer habitantes da terra para os transparentes países que existem dentro de ti…” (Cecília Meireles)

 

– Hoje vai dar chuva!?

Foi assim que encontrei com Rodolfo caminhando em direção à praia. Não entendi nada, mas logo percebi que tinha razão. A  praia estava cheia.

Nesses tempos de falta d’água, a chuva acaba tendo seu lugar. Mais um passo e lá vai Tadeu, craque conhecido na década de 60 como nosso melhor jogador de futebol de areia. Deixou a bola e se tornou um caranguejo da praia. Assina o ponto diariamente. Feliz, só se veste de praia: nariz besuntado de pasta branca, segurando uma raquete de frescobol, short de pano e sandália de dedo.

­ – O tempo não cortou o seu barato?

– Paulinho, você mora longe. Quem corta minha ida à praia é gente. O Leblon anda cheio de amador. A água molha com sol ou sem sol, o frescobol acontece, a cerveja e o mate se escondem, mas os barraqueiros não, futevôlei está lá firme. O filho do Miquimbira arma a rede. Lembra do Miquimbira? O filho seguiu a profissão do pai. De manhã monta a rede e à tarde é nosso despachante, vive de expediente.

Começou a chover à pampa e não tinha escolha, correr em direção à barraca do Pedrinho. Como conversa puxa conversa, encontro novamente o Rodolfo contando lorotas e feliz da vida.

– Sou bi, cara. Meu “bi neto” faz aniversário hoje e tem festa no “Baixo Bebê”.

– Já tenho amigo bisavô!?

– Um monte. Vocês do Jardim Botânico casavam tarde. Aqui no Leblon a gente casava logo. É verdade que também separava logo. As famílias queriam segurança para as filhas. Nenhum bairro da cidade foi mais casamenteiro. Lembra da Dona Maria Tereza? Tinha 4 filhas, uma despesa enorme, a preocupação era tomar conta. Hoje é educar. Com namorado firme e casando, tudo resolvido.

– Verdade! No nosso tempo não tinha namorico. Conhecer os pais já era compromisso. Essa coisa de ficar, nunca ouvimos falar. O Tadeu casou?

– Só se for com areia, água salgada, com as ondas, raquete, bola. Esse se  enclausurou ao ar livre. Arrumou uma boca numa repartição e caiu na ‘letra O’, que nem a Maria Candelária. Assinava o ponto e praia. Agora tudo tem seu preço. Todo final de semana tinha de dar guarida ao chefe da repartição, mas o cara se mancou e sumiu.

Vou dar minha caminhada e pelo que vejo a chuva não cortou o barato de ninguém. A praia estava cheia.

Volto e encontro o Baixo animadíssimo. Pedrinho arrumou tudo. Com barracas de praia montou um estacionamento para os carrinhos de bebê. Numa barraca grande, tipo tenda árabe, estava a mesa com os docinhos e o bolo e, em outra, os convidados. A festa estava armada.

Tadeu chega. Era convidado de uma bi.

-Tadeu, você não dá chance. Está em todas.

– Paulinho, você passa por aqui vez por outra. Isso aqui é que nem Paris, uma festa.

– O Rodolfo está feliz.

– E enxuto.

– Não estou vendo a mulher dele.

– Qual?

– A bi. Quero dar parabéns e vê se lembra de mim.

– Alice não esquece de ninguém. Ela é encantadora e bonita. Nessa época do ano ela se revigora, o carnaval é sua vitamina. Se prepara o ano inteiro, faz ginástica diariamente no Caiçaras. E você vai estar aqui no carnaval?

– Vou, a Vaquinha vai sair. Andou perigando. Já tinha me programado para ir para Secretário, na casa do Kamaroff. Lembra dele?

– Claro, não o vejo faz tempo. Só gostava de trabalhar e velejar.

– Verdade,  só que ainda não aposentou. Quando estava pronto, foi assaltado, coisa violenta. Levaram tudo inclusive a grana que juntou para a aposentadoria. Guardava no escritório.

– Ele mexia com lapidação, craque e honesto. Me quebrou o maior galho. Um cara apareceu aqui  na praia vendendo uma pedra preciosa, acho , não me lembro bem, um diamante. Convenci o cara a ir comigo no Kamaroff.  O diamante tinha carvãozinho. Era fajuto.

– E o pior, quem está deixando ele uma mula é o filho. Nunca quis mexer com a profissão do pai. Estudou economia, foi para uma estatal e já vai se aposentar numa boa. E ele no batente. A segunda mulher é diferente da primeira, uma gastadeira. Sua máxima é o máximo: “Só não sou sócio remido no INPS.  Em lugar nenhum pago mais  mensalidades por tempo de casa: no conselho da minha profissão, no Clube Naval, no Iate. Na Previdência ainda desconto pelo máximo e vou receber pelo mínimo.” Você casou?

– Várias vezes, mas sempre eu para lá e ela para cá. No caso de morar junto só levo o travesseiro. Meu apartamento é intocável.

– O Rodolfo está convidando para cantar Parabéns. Está feliz. Vamos chegando.

– Tem convidado paca. A turma prestigia mesmo com chuva. A maioria é aposentado. Nunca tinha participado de um aniversário no Baixo Bebê. Isso é coisa do Leblon, nem de carioca. Não demora muito vira moda.

– Você vai gostar é do coro.

– Coro?

– Paulinho, presta atenção no som das ondas abraçando a areia. O borbulhar é em tom maior. Motiva, inspira e energiza os bebês. Agora me dá licença que vou comer um pedaço do bolo. Você se deu conta que não tem nenhum animador de festa aqui? O clima do Baixo é tudo.

De longe vejo o Tadeu com sua raquete indo para a beira da praia. Já o esperavam para jogar frescobol. E o Baixo vai esvaziando. Para encher amanhã.

Paulinho Lima

Rio de Sempre

RIO DE SEMPRE E AS JANELAS DO BAIRRO

Toda vez que passa pela porta onde viveu Camille Claudel, Chico lê com atenção o que diz a placa fixada na portaria: “Il y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente”: “Há sempre algo ausente que me atormenta”.

Quando em Paris, fui ao Quai de Bourbon,19, na Île Saint-Louis, para conferir. Por várias vezes passei pela porta. Parava, caminhava em direção à Brasserie Île S.Louis para tomar um café ou uma taça de Chardonnay, em outros momentos dava meia dúzia de passos e me deliciava na sorveteria Berthillon para um sorvete de menta, e introspectava a frase de Camile. Cada dia uma leitura diferente.

Paris, entre tantas maravilhas, tem uma que me fascina: suas janelas. Aliás, não são só as de Paris: Madri, Lisboa, Córdoba, Veneza…
Como são lindas as janelas venezianas. Lara, velho amigo, me deu uma dica: sente no Harris Bar e fique olhando para as janelas que dão para o Grand Canale. Imagine as histórias daqueles moradores.
Em Barcelona e Berna, as janelas são tão floridas quanto as de Amsterdã. Não conheço Londres. Falam maravilhas de suas janelas. Até no inverno as pessoas, por trás das suas vidraças, ficam aguçando o imaginário.
Elsie Lessa, quando lá morava, se inspirava olhando a rua de sua janela: “A cada segundo uma novidade.” E mais uma bela crônica nascia. Mas a de Camille é especial, de frente para o Sena, por vezes nostálgico, outras alegre, mas sempre caminhando e com destino: sua foz. Camille sabia que o Sena morria em algum lugar e que levava junto sua vida de amor, arte, sensualidade, admiração, presença, ausência, tormentos.

Quando não tenho nada para fazer vou para minha janela. Sempre pinta alguma coisa. Por isso me defino com uma pessoa urbana. Quero ver gente passando, ouvir buzina de carros, crianças chutando bola ou chorando, barulhos dos vizinhos, do vendedor de vassouras ou do amolador de facas, e alguns outros sons pouco identificados mas sempre prazerosos. Não me vejo morando num lugar onde meu horizonte seja um vazio.

O calor anda insuportável. Me recolho ao meu quarto em busca do ar-condicionado. Seu barulho me irrita mais que o calor. Abro a janela e um ar diferente entra. Olho para as janelas de meus vizinhos do outro lado da rua. Ali morava fulano, sicrano, o juiz do trabalho, o almirante, e, naquela de luz apagada, a Telma. Por onda andará Telma, a nossa Florinda Bolkan? Impressionante como eram parecidas. A família mudou e com a mudança lá se foi a nossa Florinda. Sua janela e suas histórias permanecem.

Converso com Chris, fotógrafa profissional e moradora antiga do bairro.

– Chris, vamos fazer um ensaio fotográfico das nossas janelas e identificar seus “usuários”? Uma forma diferente de contar um pouco da história do bairro.

– Uma bela ideia. Diferente. Precisamos de um roteirista.

– Roteirista não é difícil. O problema são as janelas. Muitas não existem mais. O progresso e o tempo levaram.

– Verdade, mas ainda temos janelas importantes. Imagino.

– Daqui vislumbro uma meia dúzia que fez história.

– Você vai fazer o roteiro?

– Acho que vou passar a bola e a ideia.

– Essa não, Paulinho. Já estou viajando. Logo ali, o Vinicius ficava na janela sem camisa, pensando com um cigarro na boca. O Chico morava em frente, mas não usava sua janela, preferia a varanda da cobertura. Na rua do lado, o prefeito Negrão de Lima fumava seu charuto enquanto sua mulher fazia “ovos nevados”.

– Como você sabe disso?

– Sua filha um dia nos confidenciou. Não se faz mais prefeito que fuma charuto na janela nem mulher que faz “ovos nevados”.

– Tá vendo aquele prédio? Eram as janelas mais frequentadas. Uma fofoca só. Um disse-me-disse. Umas irmãs gêmeas, solteironas, disputavam espaço na janela. O vigário da Igreja morava no prédio. Era chegado a uma janela, uma fofoca, e, pior, sabia das coisas. Sofria de insônia.

– Paulinho, você está falando e minha memória vai acontecendo. Lembra do Sergio Bafo? O cara mais mentiroso do bairro. Vivia na janela paquerando o pensionato das bancárias. Até que um dia as irmãs Ursulinas, que administravam o pensionato, chamaram sua atenção. Veio com papo furado, dizendo que estava na janela contando estrelas e procurando disco-voador. Se entregou. Ele tinha uma luneta escondida. Essa quem me contou foi minha mãe, que também era chegada a uma janela e ficava horas conversando com D. Maria da Penha, mulher do ministro, que morava na casa ao lado. Quando o Getúlio se suicidou, as duas fofocaram tanto que se esqueceram da panela de pressão. Explodiu. Meu pai achou que tinham jogado uma bomba por conta da fofocalhada.

– Chris, acho que vou procurar um cara que escreva. Cada janela tem uma história.

– Paulinho, você tem notícia de alguma serenata acontecida no bairro?

– Só ao contrário.

– Ao contrário?!

– Ali na esquina ficava o Turf Club, casa de jogatina. O Sílvio Caldas era assíduo. Um dia foi à janela tomar um ar e ver se a sorte pintava. Nisso passa a Sonia, filha de um importante treinador de cavalo de corrida. Não se fez de rogado: mandou a capella uma de suas canções. Acho que foi a única serenata em que a música veio da janela. Voltou para a mesa de jogo, recolheu o que restava de ficha e mandou aquela máxima: “Infeliz no jogo, feliz no amor.”

– Cara, já estou me vendo nesse ensaio fotográfico.

– Cuidado. Atrás das janelas não tem só cortinas… Parafraseando Miró, “Primeiro uma palavra, depois um pensamento”… “primeiro uma janela, depois um sonho”.

Paulinho Lima

Por trás daquela janela

Cuja cortina não muda

Que a alma em si mesma estuda

No desejo que a revela.

 

Não tenho falta de amor.

Quem me queira não me falta.

Mas teria outro sabor

Se isso fosse interior

Àquela janela alta.

 

Por quê? Se eu soubesse, tinha

Tudo o que desejo ter.

Amei outrora a Rainha,

E há sempre na alma minha

Um trono por preencher.

 

Sempre que posso sonhar,

Sempre que não vejo, ponho

O trono nesse lugar;

Além da cortina é o lar,

Além da janela o sonho.

 

Assim, passando, entreteço

O artifício do caminho

E um pouco de mim me esqueço.

Pois mais nada à vida peço

Do que ser o seu vizinho.

                                                           Fernando Pessoa (1930)