Rio de Sempre

Rio de Sempre e o Humberto

Hoje, 5 de dezembro de 2014, faz 80 anos que um poeta, memorialista, contista, acadêmico, crítico literário ou não, nos deixava. Em 5 de dezembro de 1934 morria Humberto de Campos, nascido no Maranhão, numa cidade de nome esquisito, Miritiba, que hoje leva seu nome.

Chegou ao Rio de Janeiro em 1912, com 25 anos, e já trazia na mala o seu talento de escritor e intelectual amante do cotidiano das cidades. Foi, por aí, que se fez um dos nossos maiores escritores.

Descobri Humberto, não pelo seus textos, mas, sim, por passar – quando jovem – por uma simpática rua que leva seu nome. A curiosidade, alma do saber, me levou  a esse tal de Humberto. Humberto de Campos passou a pertencer ao meu menu de leitura.

Andou meio esquecido nos meios literários e das editoras. Suas obras, só pelos sebos da cidade, onde encontrei vários de seus livros. O destino, por vezes cruel, me fez perdê-los por conta de um encadernador desatento e enrolado. Sumiu com meus livros.

Agora leio que vão reeditá-lo. Já estou na fila e Humberto será minha prioridade no ano que se aproxima.

Humberto foi um escritor que aconselhou o país. Fazia parte da sua humanidade. Assim se expressa em suas crônicas e poesias.  Recebia cartas de todos os cantos. Sempre no contexto, um pedido de conselho. Respondia a todos. Eram mulheres que não compreendiam mais seus maridos. De presidiários chegavam cartas pedindo solidariedade e ternura. Uma menina baiana escreve para contar que em sua casa a família se reunia para ouvir suas leituras. Nos idos de 30, um programa de rádio era transmitido por todo o país, onde lia suas crônicas e poesias.

Humberto era um escritor múltiplo. Fazia da sua escrita uma ode à vida em todas as suas dimensões.

Na minha viagem pelo mundo humbertiano, descobri em um de seus livros, ‘Brasil Anedótico’, uma coletânea de casos, ouvidos ou lidos, onde os personagens fazem parte da história deste país de todos os campos e santos.

Conto duas:

Não quero!

Exercia Agostinho Petra Bittencourt o cargo de juiz aposentador no Rio de Janeiro quando, ao dar uma ordem a um dos seus subordinados, este recusou cumpri-la. Indagada a razão, respondeu laconicamente:

Porque não quero!

 

Preso o funcionário pelo Juiz e recolhido à cadeia, foi o magistrado surpreendido, no dia seguinte, por uma carta do Paço, ordenando que soltasse o preso, por não se considerar crime a expressão – “não quero”.

 

À leitura da ordem, o juiz Petra, que era desabusado, voltou-se para o portador:

Diga ao amo que, se não é crime dizer “não quero”…

E furioso:

Não solto o homem – porque não quero!

Outra e bem atual, recolhida nos Anais da Câmara Federal.

A causa das Revoluções

Dividida a Câmara em dois campos, a propósito da prorrogação do sítio com que se queria armar Floriano Peixoto, Cesar Zama, veneranda figura da casa, lançou-se à arena para condenar a possibilidade de novas violências.

– As portas da revolução – bradou – não se fecharam jamais com a medida de rigor, com o extermínio dos revolucionários nos campos de combate; mas com a remoção das causas que a provocaram, e com um governo de liberdade, justiça e probidade.

E num surto:

– Os povos livres e felizes não se revoltam!!!

Rio de Sempre faz uma breve homenagem a esse brasileiro que de uma maneira simples e com humor transmitiu a seus leitores a importância de se conhecer nossa história. Esse é apenas um lado de sua intelectualidade.

Humberto de Campos ocupou a cadeira 20 da Academia de Letras, sucedendo a Emílio de Meneses. Seu discurso de posse é considerado, entre os acadêmicos de sua época, uma verdadeira obra-prima.

”(…) A cidade , e o mar, e as montanhas são tudo uma festa de luz que o sol, escondido no ocidente, espalha sobre as cousas, colorindo-as como um pintor que molhasse os pincéis em rubis, turquesas, topázios, safiras e esmeraldas diluídos.”

Esse é o texto que abre uma de suas crônicas, ” Ilusão de Filócrito”, em seu livro “Lagartas e Libélulas”.

Humberto não é apenas uma rua num bairro chique da Zona Sul do Rio, mas um escritor que deve ser conhecido e reconhecido em todos os cantos de nosso Brasil.

Humberto nasceu no Maranhão , viveu no Rio, mas escreveu para todos os brasileiros. Um orgulho nacional.

Paulinho Lima

A escolha do Lima, brasilidade à flor da pele…

httpv://youtu.be/f_r4eCn0poE

 

 

Rio de Sempre

Rio de Sempre: música e festival

Uma semana de notícias. Se boas, não sei, mas notícias. Como é bom ter notícias para comentar…

Me aboletei no Jardim Botânico e não perdi nenhum dos shows que aconteceram no Festival Villa-Lobos. Vi Francis, Água de Moringa, vi Yamandu e o acordeão de Galliano homenageando Dominguinhos, vi o Grupo CRIA – que coisa mais linda e tem gente que não conhece, como eu não conhecia – cantando músicas infantis. Vi Gilson Peranzzetta conversando com Guerra-Peixe, vi Ronaldo do Bandolim – para muitas o homem mais bonito do Brasil – e seu Trio Madeira Brasil, com Zé Paulo Becker e Marcelo Gonçalves, um seis e o outro sete cordas, com uma sonoridade em seus violões que emociona. Joel Nascimento mostrando, com o seu bandolim, que o mundo, para conhecer música, tem de passar por aqui. A harpa de Cristina Braga me levou às lágrimas. Foram tantos… que esqueci de alguns.

Zé Paulo Becker, ao citar alguns compositores das músicas apresentadas, fala que parecia estar numa festa de bairro, pois moram ou moraram no meu Jardim Botânico. “Que vizinhança!”, comentou.

Com o violino de Ricardo Herz – nada comparável, esse é gênio – e o Trio Madeira Brasil, o teatro cantou o ‘Trenzinho’ do Villa. A vizinha do lado não sabia se cantava ou se chorava. Emprestei meu lenço.

O lindo do Festival é que não acontece só no Espaço Tom, no Jardim Botânico. Centro Cultural Banco do Brasil, Estudantina Musical, Museu Villa-Lobos, Sala Funarte,  Centro Cultural do Complexo do Alemão, Espaço BNDES, em todos aconteciam outras coisas.. A cidade, nestes 15 dias, cantou, ouviu música e histórias de nos fazer felizes e ter uma certeza: a vida é aqui e agora.

No último dia veio a gloria, para o meu gosto musical. O espaço, lotado. Era dia de João Bosco e o conjunto Samba de Fato, com Pedrinho Amorim – concorrente de Ronaldo na arte do bandolim e no seu ser bonito – , Pedrinho Miranda, que voz e que ritmo (ainda leva a responsabilidade de ser padrinho do nosso Bloco Vaquinha Totó), Paulino Dias dando um show de ritmo e o violão na voz possante de sambista de Alfredo Del-Penho. No meio da apresentação, pinta o João com seu violão e junta-se ao grupo. Que coisa mais bonita… João ficou sozinho e não parou mais. Mas tudo que é bom acaba e, sob aplausos, convoca o Samba de Fato. Era o bis, só que queriam as quatrocentas pessoas cantando. Um solo de Pedrinho Amorim dá o tom e o violão de João faz a marcação. Um bêbado entra em cena e a plateia vai ao delírio.

Acabava o 52º Festival Villa-Lobos no Espaço Tom, mas continuava pela cidade.

O Rio de Sempre se fez maior por quinze dias. Não sei se esse tipo de festival acontece em outras cidades do meu país. Torço para que sim.

De fato, um bairro de vizinhos e amigos. Se não conhecemos todos, por todos temos um carinho  especial. E é assim faz tempo. A palavra “bairrismo” nasceu aqui, às margens do Rio Cabeça, e com o aval de um João, o sexto, e de um Pedro, seu neto, ambos frequentadores do bairro.

Encontrei, quase todos os dias, com o nosso Sá Benevides e sua Vera. Mauro Laviola só falava no som de cuíca e do tamborim que o Bosco consegue tirar de sua guitarra. Soninha Terapeuta, aos berros, falava que com dois festivais desse por ano perderia seus pacientes. Pastinha, extasiado, era o único que reclamava: “Bem que podia rolar uma cervejinha”. Verinha e sua mineirice, queria continuar no Bar Joia, e avisava: “Vai todo mundo pra lá”. Sonâmbulo, na saída, reclamava que dormiu e só chegou na parte final. Cintia e seu companheiro, meu amigo, de quem esqueci o nome, conversava sobre o que de melhor aconteceu durante o Festival. Também estiveram lá todos os dias.

Ao final, me despedi da minha mais velha nova vizinha, cantarolando o samba do Samba de Fato e levando, de quebra, um beliscão e uma recomendação: “Comporte-se.”

Até ano que vem, com o 53º Festival Villa-Lobos.

Paulinho Lima

httpv://youtu.be/Ikt0Ifr8-xQ

Rio de Sempre

Rio de Sempre diferente

Estou lendo dois livros, ou melhor, três. “O tempo entre duas costuras”, que terminei. Maravilha. “A elegância do ouriço”, sobre a vida em um prédio de luxo em Paris e suas “fofocas” na visão de Renée, a concierge. O outro é “Coroas”, de Mirian Goldenberg, muito legal e muito presente em nosso cotidiano. Mirian é craque.

Ainda agora li um artigo sobre os Mitos Gregos e suas jornadas. Não conhecia Meléagro e o texto me apresentou.

Meléagro era um cara que se considerava imortal e invulnerável, o que era insuficiente para sua vida de mortal, vivia atrás de aventuras e do amor. Uma saga épica e traumática refletindo sobre o significado da existência.

Os deuses também morrem e o destino final dos deuses, ou melhor, das almas humanas, não era a salvação nem o castigo, mas um tédio sem fim. Meléagro não quis embarcar nessa. Ao caminhar para o Hades, isto é, descer para o sombrio reino dos mortos, sempre coberto de nevoeiro e banhado por cinco rios subterrâneos, passava peloRio Lates, “o rio de esquecimento”. Ao banhar-se ou beber de suas águas, as lembranças sobre o mundo dos vivos, de onde vinha, eram esquecidas. Não bebeu nem se banhou no Lates, passou batido. Apagar suas experiências vividas, jamais.

Meléagro não aceitou viver sua eternidade de imortal: desmemoriado, sem dores e desejos.

O poeta Baquilides nos conta que o nosso deus vestiu uma armadura brilhante e com uma lança foi à luta. Passou a enfrentar o que aparecia pela frente, afinal, andar no meio de miseráveis e folhas secas caídas às margens dos rios não era o seu barato. Conviver com seus concidadãos no além-túmulo, o mundo dos sem memória e desejos, não o levaria para sua luta.

A aventura e o amor faziam parte de seu cotidiano de mortal. Vitaminava sua existência.

Voltou ao mundo dos mortais, mas isso é outra história. Meléagro agora é meu novo ídolo.

Nada como uma aventura amorosa.

Fico a olhar da minha janela, transeuntes monologando com suas solidões em seus celulares. No metrô, parece até que é obrigação ou lei ficar com dedinhos correndo por cima de uma telinha à espera de notícias e/ou jogando alguma coisa que chamam de passatempo.

Acho até que beberam das águas do Lates.

Prefiro caminhar através de minhas leituras, vestir uma armadura, empunhar uma espada, olhar para o outro lado, dar de cara com Francis Hime cantando suas novas canções no Festival Villa-Lobos e gritar com todo o fôlego de que disponho. Ouço “Maria da Luz”, uma parceria com Vinicius, e vislumbro que em breve será hino do nosso cancioneiro. Uma canção que nos conduz a uma aventura pelo amor de Maria.

Não mais que de repente pinta no palco “uma tal” de Olivia, linda, vendendo charme e afinação, colocando as coisas no seus lugares, trocando tudo em miúdos, soltando sua voz. A plateia vai ao delírio.

Saio do teatro andando pelo meio das árvores do jardim e ouvindo a passarada noturna cantar. Há um sorriso no rosto das pessoas que atenderam à organização do espetáculo, desligaram seus celulares, e esqueceram de religar.

Rio de Sempre não quer perder sua história. Esquecer jamais. Fico com a certeza de que beber da água do Lates é a maior furada. Meléagro tinha ou tem razão. Sabe-se lá. E foi assim que nasceu “Amorosa”, onde Francis descortina nossa cidade, e por onde a “Navega Ilumina” com suas canções.

Que noite amorosa, ainda que sem aventuras por perto.

Paulinho Lima

httpv://youtu.be/a4SLww4odyM

Rio de Sempre

Rio de Sempre e a missa

Um sábado sem grandes expectativas a não ser a missa de Sétimo Dia de Dona Maria, marcada para as 18h30min na Igreja da Divina Providência.

O dia não passava: o tempo chuvoso e o frio me prendem em casa.

No meio da tarde resolvo dar um pulo no Tocão, boteco que foi, por anos, meu predileto. Uma surpresa: estava cheio, parecia que tinha renascido das cinzas. Amigos de volta, assuntos adormecidos, preferências futebolísticas, filmes recentes, tudo um prato cheio para discussão. Queriam tirar o atraso da ausência.

Um me chamou atenção: discutiam qual tinha sido a primeira cadeia da cidade.  Sonâmbulo, nosso historiador,  falava da nossa primeira cadeia: “Nos idos de 1640, um dos prédios mais charmosos da cidade era a Cadeia, construída na Câmara, ou Casa do Conselho, como era chamada. Em 1646, após várias modificações, uma chamou a atenção dos moradores da cidade. No térreo do prédio, uma cela especial foi construída. Essa decisão foi motivo de muito disse me disse. A verdade é que os responsáveis pela gestão da cidade achavam que os presos de alto poder aquisitivo, nobres, não poderiam ficar juntos de vagabundos, pobres e negros. Foi o primeiro passo da chamada “mordomia carcerária”.

O assunto não ganhou extensão, poucos se atreveram a discordar de Sonâmbulo.

– Isso não mudou muito, exclamou Cegonha, nosso artista plástico.

Quem ganhou destaque foi Rita, primeira namorada de muitos aqui no Jardim Botânico.

– É aquela coisa, a primeira ninguém esquece.

– Verdade. A segunda, quando chega, já vem incorporada com alguma coisa da primeira.

– Papo furado. Minha última namorada não tinha nada a ver com as outras e olha que fui um grande namorador.

– A minha primeira, Celia, não era alta, nem baixa, tinha um sorriso encantador, dançava como ninguém. Naquele tempo, namoro era namoro. O alpendre da casa era o nosso limite. Casei com Solange, não dança, é alta, fala pelos cotovelos, nem sabe o que é alpendre e é ruim de tirar um sorriso dela.

– Soninha foi a minha primeira namorada, adorava cozinhar e vivia nas saias da mãe querendo aprender suas receitas. Minha mulher atual nem quer saber onde fica a cozinha. Hoje quem cozinha em casa sou eu

Bete, calada ouvindo esse papo, não se conteve.

– Querem saber de uma coisa? O meu primeiro foi simplesmente o primeiro. O segundo era completamente diferente e assim fui levando. Mudar de homem só para melhor e diferente. Nem me lembro de como era o primeiro. Devia ser um chato.

Foi o suficiente para a galera feminina dar um fecho no papo.

Por alguns minutos, o silêncio calou o Tocão.

Não tinha muito que falar, minha amizade com essa turma não passou por essa época. Conheci a turma já casado e pai. Os poucos que conhecia eram da época do futebol.

Conheci Rita bem e tivemos uma relação bastante intensa. Uma pessoa amiga, elegante, bonita, educada, com formação em matemática, professora universitária. Só que não casou. Pelo que sei, ela é a melhor “vó” do mundo e uma “tia” sem igual.

– Rita é um encanto de pessoa, recentemente almoçamos juntas. Está em outra. Mora muito bem na Ilha do Governador. Tem uma casa em Petrópolis, maravilha, onde se refugia nos seus finais de semana, comentou Bete.

– Conheço, é uma bela casa. Já estive lá antes e depois da reforma. Foi meu comentário inocente.

– O que foi fazer lá?

A curiosidade tomou conta da turma.

– Calma! É vizinha de Ronaldo em Petrópolis, e quando eu subia, fazia uma visita e sempre com minha mulher e filhos. Mas faz algum tempo que não a vejo. O Ronaldo, faz mais de 20 anos que mora em Itaipava, longe de Rita.

– Ela tinha uma alma ardente, uma dessas almas que nos consomem. Sentia por mim uma grande admiração, um amor ainda maior e uma devoção maior ainda,  mas não conseguimos nos encontrar, faltava alguma coisa, comentou Cegonha. E completou: Fiz seu retrato, está na parede lá de casa.

O que fazia o Tocão tão cheio? Era a missa de Dona Maria, destino de nós todos. Uma pessoa querida e quase centenária do bairro. Aqui nasceu, viveu, deixou uma família muito bonita, e seus 5 bisnetos são alvo de nosso carinho. Dona Maria e seu Pedro, seu marido, foram pioneiros no comércio farmacêutico do bairro.

Subimos a ladeira para a missa, levando nosso sentimento e saudade. Encontramos a Igreja cheia. Pessoas que não se viam há anos, todos rezando. Em dado momento da missa, quando as pessoas fazem uma saudação, ganho um beijo vindo do banco de trás. Era Rita.

Aproveitei que era um momento de saudação, dei uma olhada para o altar, e me benzi.

Paulinho Lima

httpv://youtu.be/2sfjVcd6ZLE

Rio de Sempre

Se com lumbago ele escreve delícias assim, imagina sem.
E chama no Dyna, Lima! Tiro sem queda. 🙂 🙂 🙂

Rio de Sempre e o lumbago

O Brasil clama por água. Aqui, no nosso Rio de Sempre, o sol é inclemente. Bares e praias cheias. O colorido das pessoas empolga.

– Pai, está todo mundo te esperando, pô.

Pelo pô era a Mariana.

– Filha, desde ontem estou de lumbago e a dor me incomoda.

– Está com quê? Lumbago?! Nunca ouvi falar nisso. Galera, papai não vem, está com não sei o quê.

O nosso café dominical, tradição familiar, dançou, e minha irritação aumentou.

– Paulinho, vai ficar em casa? Vamos reorganizar a ‘Vaquinha’.

Quem manda, com lumbago, atender o celular, ainda mais se é o Mario que sempre traz uma boa notícia de bares e bons carnavais.

– Estou fora, cara, estou com lumbago e meu humor não reorganiza nada.

– Bela ideia para a camiseta da ‘Vaquinha’. Já imaginou a ‘Vaquinha’ de lumbago? A cara do bloco.

Desligo o telefone e resolvo sair depois de esgotar minha dose de anti-inflamatórios e analgésicos. A xepa na feira, meu destino. Ouço ao longe a fala simpática do Moacir, meu fruteiro.

– Seu Paulinho, isso é hora? Seu abacaxi já era, vai se contentar com melão.

– Estou torto. Lumbago.

– Está de brincadeira! Tem coisas que não existem mais, lumbago é uma. Papai usava Emplastro Sabiá. Até que descobriu que colocavam pó no emplastro e a turma ficava enlouquecida.

– Está de gozação!

Melhor remédio para lumbago é feira livre. Seu astral melhora. Mas, quando retornamos, volta tudo.

Resolvo tomar umazinha e fazer uma comidinha. Sentado, a dor aumenta. O lumbago não dá trégua. Ligo para meu médico. Estava na sua Halley a caminho de Petrópolis.

– Paulinho, me incomodar com lumbago! Sou cardiologista.

Médico não pode ser amigo, ganha intimidade, e lá do Alemão da Serra me receita tudo que já tinha tomado.

Na vitrola, o CD toca Luís Reis e Haroldo Barbosa, presente recente. O roteiro das músicas até parece feito para quem “curte” um lumbago. Tudo meio fossa. Começa com “Cara de palhaço”. Era como me sentia, um palhaço. Todo mundo rindo da minha dor.

Paulo, velho amigo, do tempo de primário, veio pegar o que restou do meu antigo computador. Olha meu estado, e me incentiva citando uma frase de Dona Eli, sua mãe: “Não me vejo no espelho como sou.” Foi a maneira educada de me chamar de velho.

A dor aumenta e já penso na possibilidade de uma ida ao hospital.

Imagino o simpático plantonista, com cara de véspera de Halloween:

– O que o senhor está sentindo?

– Lumbago.

– Isso não é o que sente, é diagnóstico, e aqui quem dá o diagnóstico sou eu.

– Desculpe, amigo, é o efeito da dor.

Não vou correr esse risco. Prefiro ficar em casa, ouvindo meu CD, tomando umazinha de tangerina e vendo a galera indo para a praia ou voltando. Um sofrimento.

Comer em pé é cruel, sentado nem pensar. Ligo a televisão para ver o Botafogo, que perde mais uma. Se pudesse transferir meu lumbago para o time do Botafogo era tudo que queria. Ser Botafoguense está difícil, ainda com essa dor. Mortal.

Me arrasto até o meu bar de plantão. Sou duplamente gozado.

– O retrato do Botafogo, se arrastando. Eu não falei que envelheceu? – o Pastinha não perde a chance.

Um sorriso se aproxima: Joninho Sabiá, depois de 25 anos em Salvador, está de volta e já pensando em Lisboa.

Sabiá era de uma turma mais nova que a minha, mas sempre se metia com os mais velhos. Me metralha com perguntas que não sei responder.

– Cara, vou ligar para meu Pai de Santo em Salvador e ver o que ele receita para sua dor.

Ligou. Pai de Santo baiano tem celular.

– Paulinho, Pai Afonso recomendou tomar uma dose de cajuína, outra de umbuzada, depois comer ameixas e deixar umas para Nana Burequê.

– Nana Burequê?!

– Paulinho, mãe de todos os santos. A mais racional dos orixás. Ela reacende as lembranças esquecidas e faz com que sejam reencarnadas. É a Sant’ Ana para os católicos.

– Sant’ Ana eu tenho. O que não tenho é umbu nem caju.

– Tentei te ajudar. Mas me conta como vai essa cidade falida.

– Cara, vai dizer que depois de tanto tempo fora ainda continuas falastrão.

– Há pouco, quem perguntou por você foi o Roberto, irmão da Flora. Você namorou ela um tempão.

– Não namorei a Flora um tempão. No máximo um mês, julho, nas férias. Sempre gostei de namorar, o friozinho inspirava, e não me lembro do irmão.

– Paulinho, você está torto mesmo, esse negócio mexeu com sua cabeça. O Roberto, tinha o apelido de Alain de Longe. Se achava parecido com o Alain Delon.

– Lembrei…

Não resisti ao Sabiá e a dor incomodava. Não foi uma boa ir ao bar. Melhor seria ter ido à Igreja e pegar o final da missa. A chance de um milagre era mais viável.

Descobri que lumbago só preocupa quem está sentindo sua dor. Nenhum filho ligou para saber se melhorei ou se precisava de ajuda. Um domingo para ser esquecido: Botafogo perde, reencontrar Sabiá, carente, e uma dor infernal.

O telefone toca. Era o do Pastinha, mas quem fala é o Sabiá: – Paulinho, Pai Afonso ligou e  mandou você tomar uma chuveirada demorada, bem quente, comer ameixa, oferecer à Nana Burequê e dormir com uma ametista debaixo do travesseiro. Já mandou energia para você.

Agradeci e comecei a levar fé. As ameixas foram oferecidas à Sant’ Ana. Comi duas, tomei a chuveirada, descobri uma ametista em casa e coloquei no travesseiro. Não é que melhorei? A ametista vai ser incorporada ao travesseiro: inspira e energiza. Agradeci ao Sabiá.

Em tempo: hoje, início de novembro, quando  todos os santos e os falecidos se mobilizam, nós, contadores de história e nossa “mídia”, nos calamos. No dia 15 de outubro fez 50 anos que o nosso maior cronista, entre todos os cronistas cariocas, morreu. No dia 16 de outubro de 1964, sai publicada no “O Jornal”, órgão do ‘Diários Associados’, sua última crônica. Morreu sem vê-la publicada.

(…) “Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede ‘isso’ de sua magnífica solidão.”

Solidão foi a última palavra que escreveu.

Vivia rodeado de amigos, inimigos, mulheres lindas, feias, elegantes, charmosas. Conhecia marginais, sempre cercado de boêmios, poetas, músicos. Inseparável de Dolores, Ary Barroso, do seu amigo Vinicius e de tantos outros. Frequentador assíduo das redações de jornais, dos bares, boates, campos de futebol. Um apaixonado pela vida cheia de esperança.

Mas era um solitário.

Certa vez , me perguntaram: “Existe alguém que você gostaria de ter conhecido?”
– Sim, Antonio Maria.

Ao velho Maria, como Vinicius o chamava, um pernambucano que nasceu no Rio de Sempre, dedico esta “despretensiosa” crônica. São 50 anos de saudade.

Paulinho Lima

Se a coluna do Lima (a das letras, não a do lumbago) tivesse um hino…

Rio de Sempre

Rio de Sempre e a normalista

Uma tarde linda, proveitosa e um presente: encontro com Soraia. Mesmo sendo uma pessoa com quem pouco convivi, foi amiga de uma época muito especial, a minha adolescência.

Soraia morava na Tijuca e em alguns finais de semana e nas férias escolares pintava no Jardim Botânico. Naquela época, a Tijuca era um bairro distante, ainda não existia o Rebouças, túnel que integrou a Zona Sul com a Zona Norte da cidade.

Era bom esperar Soraia: normalista, bonita, inteligente e que já, naquela época, falava de Sartre e até gozava de alguma intimidade com o filósofo e com Simone.

Nas sextas, quando chegava, sempre tinha dois comitês de recepção: sua tia e prima, moradoras do bairro, e a turma da esquina – Celsinho, Klaus, Donald e eu. Ao saltar do ônibus, uma saudação efusiva  do quarteto e um sorriso afetivo dos familiares. Sua chegada era a certeza de encontro no dia seguinte na Praia do Arpoador, ou uma festinha que podia ser na casa da prima ou em um dos dois clubes do bairro: o Militar ou o Naval.

Não éramos o “sonho dourado” de seus pais e tio. Perdíamos para os estudantes do quadrilátero educacional da Tijuca: O Colégio Militar, Pedro II, Lafaiete e o Educandário São José. Donald, cadete da escola de Aeronáutica, em Barbacena, sem a menor vocação e disciplina militar; eu, saindo do Serviço Militar e ainda militando no científico, com algumas dificuldades; Celsinho, aluno do Educandário Guanabara, com fama de “boate”. E ainda o Klaus, o “CDF” da turma, que, aos 18 anos, já estava na Engenharia da PUC. Só que, se sobrava intimidade com os livros, faltava arte nos relacionamentos afetivos. Klaus era um envergonhado.

Um brigadeiro político, que foi candidato à presidência contra Getulio, falava que toda a liberdade devia ser vigiada. Assim os pais de Soraia entendiam como educá-la. Com uma agravante: seu pai, Coronel do exército, era muito bravo.

O tempo  passou, a normalista se formou, seguiu seu caminho, e suas vindas ao Jardim Botânico diminuíram. Com a ida da prima para Brasília, sumiu de vez. Nunca mais soube notícias. Só do tio, que se tornou General importante no governo militar.

Ao deixar Soraia, após nosso encontro, duas coisas passaram por minhas introspecções passageiras. Onde andam as normalistas que enfeitavam nossa cidade? Não esqueço de Soraia subindo a rua com seu saiote azul, blusa branca, meia soquete e seus sapatos pretos sempre brilhando. Foi a única normalista que conheci em minha vida, mas sabia da importância dessas meninas moças na formação educacional de nossa cidade. Eram preparadas e tinham vocação para o magistério. Verdade que algumas apostavam na possibilidade de conhecer um Guarda da Marinha ou um Cadete das Agulhas Negras que se apresentavam fardados nos bailes de formatura. Aliás, foi o que aconteceu com Soraia: conheceu seu marido num baile de formatura e hoje é um general da reserva.

Outra coisa que batia na minha cabeça foi a palestra a que assisti nessa tarde de encontros. Título : “Meu paletó enlaça o seu vestido…”, desenvolvida pela leitura da canção do Chico “Eu te amo”, onde a palestrante, Daisy Justus, psicanalista e poeta, se reporta  à angustia vivida frente ao rompimento amoroso. Um tema complicado para uma canção poética, onde seu autor não se diz poeta e sim, letrista.

(…)Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir (…)

Nossos caminhos seguiram: Donald, economista importante no mercado imobiliário e ex-piloto comercial; Celsinho tomou tino, fez-se Embaixador e jogador viciado em bridge; Klaus explodiu como um importante gestor empresarial e eu, um engenheiro de estatal resolvido. Com Donald e Klaus encontro com frequencia. Celsinho, raramente, só em datas festivas, que, por sinal, estão rareando.

Soraia continua bonita e elegante. Sentada numa padaria com sotaque francês, ajudava a embelezar o ambiente. Quis saber do Celsinho e não me surpreendi. O que me surpreendeu foi saber que seu nome não era Soraia e sim, Gladis. Soraia era apelido dado por Celsinho pela sua semelhança com a Princesa Soraia (se eu sabia, tinha esquecido). Ser normalista era o que a diferenciava. Entristeço quando sei que o quadrilátero educacional tijucano não está mais com essa bola toda. E do nosso Instituto de Educação nunca mais ouvi falar. Deve existir, acredito, como os colégios tijucanos. A cidade, se cresceu de um lado, esvaziou de outro.

Rio de Sempre lamenta a falta de paquera ambientada nas portas dos estabelecimentos de ensino. Hoje, no lugar dos pipoqueiros, fofoqueiros e mexericos, temos seguranças.

Me restou chegar em casa influenciado pela bela palestra e ir ao encontro da canção de David Nasser e Benedito Lacerda, e ouvir, na voz de Nelson Gonçalves, “Normalista”, tendo a certeza de que toda canção tem sua poesia e uma história, como aprendi com Daisy em sua palestra.

No nosso encontro só fiz uma pergunta: Onde andava a prima, minha vizinha, e que era também muito bonita?.

– Casou com um militar e hoje é general da reserva, moram em Brasília, respondeu Gladis, cada vez mais parecida com Soraia. Apenas o seu semblante entristeceu. Como o da princesa.

Paulinho Lima

Vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco no rostinho encantador, minha linda normalista rapidamente conquista meu coração sem amor…

Rio de Sempre

Rio de Sempre e a volta

Se existe uma coisa que me constrange é essa coisa de voltar. Sempre para frente. Mas, não é assim a vida. Olhar para trás e ver coisas vistas e acordar pensando nelas é um bom momento. Voltar para a nossa história e rever quem por ela já passou e saber que todos estão presentes, sempre. O passado existe e nos alicerça, é verdade, nos anima e nos coloca com ânimo para andar e andamos para um novo. O bom não tem época. O ruim passa, pode até demorar a sair, mas sai.

Voltei e já encontro o meu mundo, mundo criado, curtido, amado e decorado. Encontro pessoas, bebo meu traçado, encontro a Lagoa no mesmo lugar, maltratada, mas está lá. Netos e filhos manifestam saudade e carinho. O café de domingo, caprichado, e a feira colorida oferece o pastel do Bigode, complemento do café familiar.

Vi e convivi em outro mundo. Chamam de velho. Discordo. Falam em crise. Discordo. Cultura não envelhece.

Conheci um tal de Duchamp com a sua Mona Lisa de bigode. Suas janelas abrem para o mundo, um senhor meio que sentado bebe e fuma o lado de fora. Crio uma história. Me imagino. Troco de andar e encontro o arquiteto americano Frank Gehry, que para sobreviver mudou de nome e contrariou a família que o aconselhava: “Desenhar não enche a barriga e com esse sobrenome vai ser perseguido.” Verdade, não enche barriga, mas criou um urbanismo novo que enfeita o mundo. O nome mudou.

Saio do Pompidou feliz. Duas pessoas, duas épocas. Um que nos deixou faz tempo e outro, vivo, embelezando cidades. Caminho. Lembro de minha amiga Lenita com suas obras-primas e, feliz pela lembrança, me entristeço pelo mundo que desconheço e que está vivo. Não preciso voltar, tenho é que procurar.

Procuro na cidade espaços, chego a um lugar pouco falado, Le Carnavalet, um museu municipal, e vou ao encontro de uma exposição fotográfica que fala do ano de 1944 e dos dias que antecederam a libertação de Paris pelas forças aliadas e, acima de tudo, pelos parisienses resistentes. Me emociono ao ver fotos de fotógrafos consagrados e de anônimos. Filmetes resgatados mostrando heróis e heroínas nas ruas lutando pela libertação de sua cidade, crianças com paus tirando pedras do calçamento das ruas para dificultar o avanço de tropas nazistas. Voltei. Descanso no lindo e pequeno jardim do Museu e penso nas lições oferecidas. Pergunto ao funcionário do museu da frequência. Não tem registro, mas fala em milhares de pessoas e de jovens que retornam sobre a exposição com trabalhos escolares, e me confidencia que estranha a pouca presença de turistas.

Encontro o meu Rio no mesmo lugar, e que fala e resmunga. Repasso sua história, a que conheço. Merecemos nossa memória valorada. Um sonho.

Encerro minha temporada parisiense com a sensação de não mais voltar, mas tenho de me despedir. Não sei se volto. Existem novas descobertas a fazer. Umas aqui mesmo, na cidade em que resido, outras nas suas vizinhanças.

Volto com prazer e a certeza de que por onde andar vou encontrar o novo, mesmo que seja velho.

Perguntei a um transeunte francês onde encontraria vestígio de Maria Antonieta.

– Em todas essas moças sentadas na Place de la Sorbonne.

Na verdade eu a encontrei na biografia que leio, escrita por Antonia Fraser, onde fico sabendo que a história dos brioches – na falta de pão distribua brioches – é mentirosa. Antonieta nunca falou isso. Essa história foi contada pela primeira vez a respeito da princesa espanhola que desposou Luis XIV, cem anos antes da nossa Antonieta chegar à França.

Mas caiu na boca do povo. Dançou. Ganhou fama.

Paulinho Lima

Rio de Sempre

Rio de Sempre  com David e Miguel

A lua ilumina uma praça, agradeço. Uma senhora sorri, um violino e o “violineiro”, com seus amigos, valsam. Uma noite florentina. Adormeço. Um burburinho no meio da noite me acorda. Acendo um cigarro proibido. Uma surpresa: meus vizinhos conversam dentro da Academia.

– Miguel, por que você não fez comigo o que fez com o Moisés?

– Não estou entendendo. Usei a mesma técnica, o mesmo material.

Mas quando terminou, mandou ele falar e o cara nunca falou nada. Achou que a tábua era o suficiente. E hoje ninguém dá bola para ela.

– E você aqui ia falar alguma coisa?

Direto. Essa coisa de ficar ouvindo os comentários sobre a minha genitália me cansa. Decepções com o tamanho e desproporcional para a minha musculatura é o que mais ouço. Ontem uma japonesa comentou com uma americana que em casa tinha um maior.

– Japonês? Essa não, David!

E era assanhada. Disse que conhecia maiores. Sua amiga americana concordou. Tenho de ficar só ouvindo essas sandices.

– Sabe de uma coisa? Eu tinha de ter vivido em outra época. Poderia estar eternizando outros “Davids da vida”.

Miguel, ouço coisas do arco da velha por aqui. É um entra e sai tremendo.  Onde anda o Golias? Enchi o cara de tabefes, mas se não fosse ele ninguém saberia quem eu era. Foi só o que fiz.

– Você ouve outros comentários? Essa turma te fotografa de baixo para cima e quando voltam para suas casas nem se lembram do Miguel e do David, ficamos no meio de mil fotos.

Vida que continua… Com certeza, tem gente que um dia abre o computador e aproveita. Estou num monte de face sendo compartilhado.

– Gosto dos brasileiros. Seus comentários são ótimos e atuais. Na maioria nem dão bola para minha genitália. Passa batida. Ontem, uma senhora comentou com o marido: ‘Com esse cara, forte dessa maneira, e com o sentido de justiça que tinha, a corrupção iria acabar. Tacava uma pedrada no traseiro dessa gente toda. O problema é que ia faltar pedra.’

Sabe de uma coisa? No meu mausoléu, fico pensando: sempre mostrei o belo, atualmente o que mostram para as pessoas é o malfeito. Me entristece. Com a minha arte me eternizei. Hoje ninguém quer saber da beleza e do tempo. Mas vão acabar nas sarjetas. Séculos se passam e estou eu aqui sendo venerado pelo mundo. Não importa que vá para um álbum de fotografia ou para um arquivo dessa máquina medonha, que chamam de computador.

– Miguel, me permita discordar. O belo nos cerca. O problema é que só nos oferecem o malfeito, o feio. Ouço daqui esse tipo de comentário. Raramente, mas ouço.

– David, gostaria de ter vivido mais épocas. Teriam outras Florenças no mundo.  Já imaginou nosso Duomo espalhado em outras tantas cidades? Piazza della Signoria, que coisa linda… E você está lá, uma bela imitação.

– Ontem, uma senhora toda enfeitada de moderna, comentou: ‘A Toscana é um dos lugares mais lindos do mundo. Suas flores, seu vinho e você são a síntese da vida no mundo.’

Cara, ela tinha de ter colocado o Puccini nessa parada e tantos outros.

– O cara que construiu Lucca, que coisa mais linda!  Se andar um pouquinho e chegar a Cinque Terre vai ver que o Mar Mediterrâneo na Liguria é outro desbunde. Uma noite em Riomaggiore ou em Monterosso é inesquecível. Aliás, esse tal de Mediterrâneo é um sem fim de beleza. E tem neguinho por aí espalhando esquadras navais a enfeiá-lo.

– Dizem que no Brasil tem outro Rio que também é demais, o de Janeiro.

– Você acha que se eu saísse daqui, iria para onde?

Acendi outro cigarro proibido – na casa que aluguei era proibido fumar. Voltei para a cama e comecei a contagem regressiva, passando antes na cozinha para dar uma beliscadinha no Prosciutto Toscano que sobrou do jantar.

O outro Rio, o meu, me espera sempre. Mas que os papos do David e do Miguel vão me deixar saudade sempre, isso vão. Dançar na Praça do Duomo, em Florença, é muito bom; tomar um Bitter Campari na Signoria vendo o mundo passar; conhecer e assistir um coral de meninos neozelandeses, em viagem pela Europa, cantando em igrejas… Em Barcelona, cantaram na catedral e na Sagrada Família, e aqui, em Florença, numa igreja linda, de Santa Maria dei Ricci. Foram, em seguida, cantar na Basílica de São Pedro, no Vaticano. É muita emoção para este exilado espontâneo… Em Siena, na porta do Batistério do Duomo, conheci Barbara e Marco tocando chorinho na rua e cantamos “Carinhoso”. Andam pelo mundo, sem destino, mostrando nosso “choro”. Que coisa linda! E de quebra me apresentam um chorão do início do século XIX, chamado Frederico de Jesus. Nunca tinha ouvido falar desse compositor. Seu CD vai virar fundo musical na minha varanda.

Um dia vou voltar e olhar com mais detalhes e menos rigor a genitália do meu amigo David. Dessa vez não entrei, muita gente curiosa na porta (o apartamento que aluguei ficava na porta da Academia). David e Miguel me entenderam.

Será que em Paris vou ter Maria Antonieta como vizinha? Minha nova musa.

Paulinho Lima

Rio de Sempre

Rio de Sempre e Quintana

Em 24 de outubro de 2009, Rio de Sempre falava do Quintana no blog de Maria Helena. Pesquisar Quintana, para a minha cabeça, foi, literalmente, uma viagem sem fim. E acabei descobrindo que tenho um “monte” de livros do poeta. Nunca tinha me dado conta. De Quintana, se não li tudo, li quase tudo. Peço licença a Selmaaaa!!!!!!! Olha o Quinta aí, gente!!! E lá vai o Quinta quintanar.

Certa fez me perguntaram: “O que gosta mais de Quintana?” Respondi, de pronto: “Ter vivido na mesma época que ele viveu e poder sentir que o seu cotidiano era o de todos nós. Como falou certa vez: “meus poemas sou eu mesmo…”

“Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,

tem de ser bem devagarinho, Amada,

que a vida é breve, e o amor mais breve ainda …”

O Rio de Sempre abre suas fronteiras e vai até o Rio Grande do Sul buscar o lirismo da poesia para participar da sua trilha musical. E a cidade Maravilha vai agregando mais alegria à sua fama e ao nosso viver. Somos a síntese de várias culturas, receptáculos de verdades e mentiras, de jeitos, de paixões e saudades, de encontros e andares. E foi assim que a nossa cidade foi formando sua cultura e de uma maneira mais simples: somos o ouvidor do belo que agrega alegria às nossas belezas. E o Cristo, como o símbolo maior de onde vivemos, abre seus braços a todos: “Sejam bem-vindos, entrem”. É o que fala na sua mudez de cima do morro como se fosse um ectoplasma dando ordem.

E aqui chega gente de todos os cantos do mundo. Quer se estabelecendo, quer mandando “recados” e nós vamos trancafiando no nosso imaginário a beleza que nos disponibilizam.

Um maranhense nos chamou de maravilha, um capixaba falou de nós nas suas crônicas, um mineiro verseja nossas belezas, um italiano desenha nossas mulatas e tantos outros que aqui viveram, e os que nos mandam recados. É assim que recebemos a lírica poética de um gaúcho de Alegrete, palavra que vem do francês helecret, canteiro onde se cultiva. E, como que numa magia, nasceram do seu canteiro poemas que vieram enfeitar nossa literatura. E o carioca soube cultivar seu lirismo. Mario Quintana, mesmo de longe, é a cara da nossa cidade.

 

Agora, quem vai falar dele é ele mesmo.

“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai ! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu…”

Duas de suas muitas histórias contadas por Juarez Fonseca no seu livro “Ora Bolas”:

“Em certa época, Mario Quintana e Athos Damasceno Ferreira moravam na Rua do Rosário. E um provocava o outro, dizendo “o melhor poeta da rua sou eu”. Até o dia em que Quintana chegou para Athos e concedeu:

– Olha, cheguei à conclusão de que tu és o melhor poeta da Rua do Rosário.

Athos ficou sério, e em seguida elogiou a honestidade e a humildade do poeta rival.

– Não é nada disso – debochou o Quintana – é que acabei de me mudar para a Rua Riachuelo…”

“Domingo, 20 de julho de 1969. Como todos os lugares do mundo em que existia televisão, a redação do Correio do Povo está parada, assistindo à chegada do homem à Lua. Enquanto Armstrong saltita, deixando lá a bandeira americana, Mario rabisca a sua marca para a data, antecipando outros futuros. Escreve e mostra, para a delícia da redação:

Todo astronauta que se preze

Há de trazer pelo menos

Um dos anéis de Saturno

E uma camisa de Vênus”

Quintana era chegado a umas máximas. Algumas que pincei por aí:

“Hoje é outro dia.”

“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.”

“O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores.”

“O tempo é um ponto de vista. Velho é quem é um dia mais velho que a gente.”

“A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão.”

“Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente…”

“Esse negócio de amor, não sei explicar”.

Termino com uma poesia, afinal, Quintana era poeta…

“Eu, agora – que desfecho!

Já nem penso mais em ti…

Mas será que nunca deixo

de lembrar que te esqueci?”

No mais, é ter essa foto na parede. Eu tenho.

Rio de Sempre agradece ao mineiro, ao carioca, ao pernambucano, ao gaúcho e a outro mineiro e a todos que escrevem coisas que gostamos de ler. E concluo, sem a mínima vontade, com o início da poesia de Bandeira homenageando o amigo Quintana:

“Meu Quintana, os teus cantares

Não são, Quintana, cantares:

São, Quintana, quintanares.”

 Paulinho Lima